As tipografias eram instalações formalmente clandestinas, que exigiam cuidados redobrados. Pela importância que lhes era inerente, a polícia política desde sempre centrou parte dos seus esforços na localização e desmantelamento das tipografias clandestinas, «…pois elas eram o centro nevrálgico da nossa acção de massas, de onde saíam não só o Avante!, como O Militante, outras publicações, manifestos, tarjetas, etc. Quando a PIDE conseguia assaltar uma tipografia inundava logo os jornais com notas oficiosas gritando que tinha posto fim à ‘subversão’»254.
«Exteriormente, uma tipografia clandestina era uma casa de habitação como as outras, na qual viviam duas ou três pessoas, uma família como qualquer outra. Mas dentro das suas portas, por detrás das suas cortinas, escondia-se ‘o coração da luta popular’, como dizia José Moreira, durante muitos anos responsável pelas tipografias clandestinas do PCP»255.
Em 9 de Abril de 1949 na freguesia de Coimbrão, distrito de Leiria, é tomada de assalto uma tipografia clandestina e presos dois casais de funcionários: José Augusto da Silva Martins, Casimira da Conceição, António Eusébio Bastos Lopes e Mercedes de Oliveira Ferreira. Anos antes, em 4 de Novembro de 1945, a GNR de Alvaiázere, que andava a investigar uma série de assaltos na região, batera à porta de uma casa em Barqueiros que se viria a revelar uma tipografia clandestina onde se imprimia o jornal Avante!. Os dois funcionários, Joaquim Justo Alves e José Augusto da Silva Martins conseguiriam pôr-se em fuga, sendo detida Maria dos Santos Machado, conhecida por «Rubina». Sujeita a interrogatório por José Catela, Maria Machado viria a recusar-se
254 Entrevista com Sérgio Vilarigues, Avante!, 12 de Fevereiro de 1981 (suplemento 50 anos do Avante!) 255 60 Anos de Luta ao Serviço do Povo e da Pátria, Lisboa, Editorial «Avante!», 1982, p. 114.
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prestar quaisquer esclarecimentos nem «tampouco fornecer outros pormenores que se prende[ssem]m com o PCP, renunciando assim a ser denunciante»256. No relatório
referente à tipografia de Coimbrão, esclarece-se que apenas os elementos da direcção do PCP responsáveis pela imprensa e os funcionários das tipografias conheciam a localização das mesmas, de modo a evitar a sua invasão pelas forças policiais. Refere-se ainda a existência de um aparelho distribuidor da imprensa pelos vários sectores regionais que, «embora seja composto por ‘membros’ do citado partido e recrutados entre os de maior confiança, funciona absolutamente à parte do ‘aparelho’ da organização partidária, com o fim de evitar uma maior extensão em caso de desastre». Assim, «Pode a repressão policial atingir o ‘aparelho’ da organização partidária sem tocar no ‘aparelho distribuidor’ e vice-versa»257.
As tipografias foram sempre rodeadas de medidas de segurança acrescidas, de modo a evitar a sua apreensão. O impacto da queda das tipografias ao nível da informação, agitação e propaganda foi sendo atenuado ao longo do tempo com a existência de tipografias de recurso. Como refere Manuel Luís da Silva Jr., responsável pelas tipografias clandestinas de 1951 a 1963, «…o Partido tinha há muito mais que uma tipografia onde, mesmo que lá não se fizesse sistematicamente o Avante!, tudo estava preparado para o fazer como recurso: havia o prelo, o cabeçalho, o papel adequado»258. Nos princípios da década de 60 opta-se pela «regionalização» das tipografias, ou seja, passaram a existir várias tipografias a funcionar em simultâneo: no Norte, no Sul e na região de Lisboa, de modo a reforçar a defesa das mesmas e a cingir o recurso aos transportes. Esta situação permitiu que o jornal Avante! fosse publicado no interior do País de forma ininterrupta de 1941 até 1974.
Ao nível dos processos técnicos utilizados, os métodos artesanais dos anos 40 irão perdurar até 1974, embora com sucessivos melhoramentos. Um dos problemas a resolver prendia-se com o peso dos materiais, o que levantava sérias dificuldades, não apenas no seu manuseamento, mas também ao nível do transporte, quando se tornava necessário transferir a tipografia para outra instalação. Como conta Manuel da Silva, «mudar uma tipografia, por exemplo. Era o cabo dos trabalhos! Por vezes tinha que ser
256 Cit. in PIMENTEL, Irene Flunser, A história da PIDE, Lisboa, Círculo de Leitores/Temas e Debates,
2007, p. 140.
257 ANTT, Arq. PIDE/DGS, PC 639/49, fl. 72.
258 «Manuel da Silva. Os pides chamaram-lhe o “pai das tipografias”, Avante!, 12 de Fevereiro de 1981
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feito a pulso - e quanto isso custava pode-se imaginar se se pensar que só um rolo pesava 28 a 30 quilos. E o prelo, e o chumbo para a composição, e as latas de tinta, e o papel…»259, situação que justifica que anos mais tarde, o prelo até então em ferro seja
substituído por outro de madeira. Nas instalações clandestinas, a tipografia ficava localizada numa assoalhada distinta, a maior parte das vezes destinada unicamente a trabalhos de composição e impressão. Outro dos problemas que se colocava, este de mais difícil resolução, era o ruído produzido pela tipografia quando em funcionamento:
A tipografia tinha de ser um quarto reservado, só com as coisas da tipografia. Quando estava montada, ninguém podia lá entrar. (…) Eu lembro-me da primeira casa que tivemos, a tipografia fazia barulho e as casas não tinham isolamento e a gente tinha de arranjar um estratagema qualquer para ir à casa da vizinha de baixo (nós estávamos no 1º andar) (…) tentar perceber quando a tipografia estava a trabalhar se se ouvia algum barulho estranho (Maria Machado).
Outro dos problemas prendia-se com a aquisição de papel em grandes quantidades para a impressão dos diferentes materiais. O jornal Avante! começou por ser feito em papel normal, mas rapidamente se verificou a vantagem tanto por razões de defesa como de transporte, que fosse editado num papel mais fino, no chamado papel- bíblia. A aquisição deste papel com características específicas levantava sérias dificuldades, já que poderia inclusivamente conduzir à localização das tipografias. Para contornar esta dificuldade, era comum que a compra do papel fosse feita por militantes legais, proprietários ou funcionários de tipografias cujo funcionamento estava devidamente autorizado.
O trabalho de tipografia era assumido por funcionários sem qualquer tipo de experiência prévia nesta área de trabalho. Nas palavras de Manuel da Silva, «…nós nunca tivemos tipógrafos propriamente ditos: eram camponeses, eram operários, o que contava era a fidelidade ao Partido e o espírito de sacrifício dos camaradas. Às vezes, chegavam ao Partido quase analfabetos. Aprendiam a escrever compondo, aprendiam com outros camaradas que de tipógrafos também nada tinham»260.
259 Idem. 260Idem.
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A minha primeira tarefa no Partido foi numa tipografia, e a minha própria tarefa obrigava a estar a copiar para depois compor (…) para depois ir para o prelo para imprimir, e era um trabalho e exercício que eu fazia, copiar dali para juntar aquelas letrazinhas todas, foi um trabalho para mim muito importante, não só do ponto de vista de estar ocupada e do meu desenvolvimento, mas também [para] o meu desenvolvimento cultural (Sofia Ferreira).
Tal como observado nas demais instalações clandestinas, é possível detectar-se a presença de crianças nas tipografias, que desde cedo partilhavam as responsabilidades dos progenitores ao nível do trabalho, como foi o caso de Maria Machado e de Domicilia Costa:
Comecei aos dez anos mais ou menos, comecei a ajudar os meus pais, coisas assim muito simples, dobrar panfletos, porque às vezes faziam-se pequenas brochuras (…) e era isso que eu fazia, esse foi o meu início (Domicilia Costa).
As funcionárias, para além de trabalharem na composição e impressão dos materiais, assumiam muitas vezes a função de elemento de ligação com o funcionário responsável pela distribuição da imprensa. Joaquina Gomes Martins, natural do Barreiro, casada com Joaquim Caetano Rebelo, detida em 24 de Novembro de 1942 numa tipografia situada em Algueirão, Sintra, interrogada pela PVDE virá a assumir essa responsabilidade261. Também no relatório relativo à apreensão da tipografia de Coimbrão em 1949 se refere que a imprensa destinada ao sector de Alcobaça era entregue no Valado por Casimira da Conceição Silva e Mercedes de Oliveira Ferreira262. Francisca Caeiro, embora não trabalhando directamente em tipografias, servirá de elemento de ligação durante a fase da «regionalização». Como a própria recorda:
(…) em 64, 65, eu é que trazia do Porto a maqueta d’ O Militante cá para baixo para o Sul, para ser feito nas tipografias do Sul. E muitas vezes depois levava coisas de cá para lá, para o Norte (…) Tive muitos encontros com a Úrsula Machado, que a Úrsula
261 ANTT, Arq. PIDE/DGS, PC 1352/42, NT 4775. 262 ANTT, Arq. PIDE/DGS, PC 639/49, fl. 72
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Machado era da tipografia do Avante e eu tive muitos encontros com ela, a dar-lhe as maquetas das coisas que trazia lá de cima do Norte.
O recurso às funcionárias como correio ou elementos de ligação será recorrente durante a clandestinidade, na medida em que levantariam menos suspeitas comparativamente aos funcionários masculinos, o que evidencia a manipulação do código de género vigente em benefício do partido. Como recordou Margarida Tengarrinha:
(…) quanto a mim, [as mulheres] defendiam muito mais do que se supunha. (…) Porque na altura (…) a Pide desconfiava muito menos de uma mulher que ia com um saco com ramas de nabo, que a gente até fazia questão de fazer um bocado de composição, não é, e por cima de uma data de papelada, meter dois nabos com a rama a sair, quem é o pide que na altura assim de chofre pensa: «- Aquela mulher é uma funcionária do partido e leva ali uma data de materiais?» (…) em geral as mulheres eram menos identificadas que os homens. (…) Os locais onde nós nos encontrávamos tinham a ver com a defesa. Porque duas mulheres numa pastelaria, a comer um bolo ou a tomar um café, são perfeitamente inócuas. E podem trocar dois sacos iguais que estão em baixo, no chão, que ninguém repara, os sacos das compras são todos iguais. Se dois homens entram num café, com uma pasta, porque não levam sacos de compras, com uma pasta, com aquele ar, é muito mais fácil desconfiar que é um funcionário, do que duas mulheres que trocam uma série de coisas assim, numa pastelaria, numa leitaria. Na altura eram as leitarias, onde a gente tomava um pingo, ou um café com leite. Pois, e um bolinho. E até era uma boa maneira de a gente enfim…espairecer, conversar, trocar umas opiniões.