A última tomada de decisão sobre captura e manipulação das formigas diz respeito ao resfriamento das formigas. Essa proposta foi dada pela professora Vilma, na primeira aula de apresentação de projetos (AULA 3), filmada para esta pesquisa. Nesse episódio, a professora que assistia à apresentação do grupo se levantou e fez a intervenção apresentada no transcrito abaixo.
Professora Vilma: Posso dar uma ideia(?) Se vocês conseguirem colocar essa formigas no centro ((mostra em desenho feito por Juan no quadro, um retângulo com uma elipse ao centro ))/ e colocar cebolinha aqui ((mostra um dos lados do desenho))/ nada aqui ((mostra outro lado))/ o seu controle positivo aqui ((outro lado))/ sei lá o que aqui ((outro lado do retângulo))/colocar quatro armadilhas/quatro atraentes/aí agora você tem sempre o mesmo número aqui/aí vai contar quantas vieram para cá/ quantas vieram para lá/e água aqui ((ao redor do retângulo)) porque elas ((as formigas)) vão se afogar.
Professor: Poço(!) Fosso(!)
Professora: Lá no meu laboratório/ tem uma que nós estamos ensinando a nadar/ o bolo/ a gente põe em cima da água/ elas ((as formigas)) se atiram na água/ um dia uma vai chegar// nós estamos selecionando uma que saiba Professor: Uma nadadora (!)
Professora: Agora/ ainda penso que essa formiga tem chegar dormindo nesse laboratório/ será que tem um jeito de por formiga para dormir(?) ((risos da turma))
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Professor: Semestre passado teve um ensaio com formiga também// Professora: Eu acho que se puser na geladeira/ela para e volta/
Nesse momento, não é possível identificar nenhum tipo de justificativa empírica ou conceitual que sustente a recomendação da professora. Na próxima aula (AULA 4), a primeira que aconteceu no laboratório, Ana trouxe, na embalagem plástica, já mencionada nesta seção, algumas que foram resfriadas na geladeira. No episódio 22, no qual o grupo realizou o primeiro ensaio experimental e encontrou dificuldades para a saída das formigas do interior do aquário, pode ser encontrada uma justificativa pragmática para a sugestão da professora.
Professora Vilma: Se você puser elas ((as formigas)) na geladeira e pescar com o pincel/ não dá certo/ não (?)
Thiago: Pescar com o pincel(?)
Ana: Eu não sei/ Porque assim eu coloquei elas ontem na geladeira a noite e fui dormir/ ai hoje de manhã eu tirei elas/ aí eu não sei o tempo que elas demoram para//
Professora: ((incompreensível))
Ana: Minha mãe vai abrir essa geladeira cheio de potinho de formiga. Thiago: Com o pincel dá sim/ Eu já peguei formiga com pincel.
Ana: Eu acho que deve dar sim (3s) Mas eu não sei quanto tempo também elas precisam para voltar à ativa/ né(?).
Professora: Ah(!) Você não mediu(?)
Ana:Não/ Porque eu peguei as 6:15 da manhã e por volta de mais ou menos 9:40 9:50/ eu peguei elas ((as formigas)) no carro/ aí elas já estavam vivas/ Então não sei quantas tempo elas ((as formigas)) demoram(( a voltar a ativa))/ três horas/ duas horas/ porque senão a gente poderia colocar uma contagem de formigas x aí com o pincel e controlar/ né/uai(?) Se a gente souber o tempo que elas demoram se elas demoram/ Eu cheguei aqui 7:20/ elas tavam mortas ainda/ Mortas não/dormindo.
No trecho transcrito acima, parece que a justificativa para o resfriamento está relacionada à possibilidade de manipulação das formigas com o objetivo de colocá-las no centro da fórmica. No final da aula, Ana e a professora voltaram a discutir essa possibilidade, sendo que a aluna se propõe fazer um teste para verificar quanto tempo as formigas demoram a voltar à ativa.
Na próxima aula (AULA 5), a segunda realizada em laboratório, Ana trouxe as formigas em embalagens plásticas que foram colocadas na geladeira. No episódio 9, Ana descreveu o procedimento para o professor Carlos e para seus colegas, conforme pode ser observado no transcrito abaixo.
Ana: Na hora que, não sei se a Vilma ((a professora))/ sei se você (( se refere ao Professor Carlos)) estava aqui no dia/ acho que não tava não/ a
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Vilma sugeriu que a gente colocasse a formiga na geladeira que ela ficava parada/ aí depois de um tempo ela voltava/ ressuscitava.
Professor Carlos: É
Ana: Na última quarta/ a gente fez esse teste e realmente acontece isso/ Só que a gente não sabe quanto tempo elas ((as formigas)) demoram para voltar ficar ativa de novo
Professor Carlos: Ah(!)
Ana: Porque/ olha só/naquele dia eu tirei às seis horas/ tirei seis horas da manhã/ semana passada/ a hora que eu cheguei aqui/ tipo assim/ seis e quarenta e já olhei sete e meia assim/ não tava acordada/ sério mesmo, achei que ela tinha até morrido/ entendeu(?)
Fabiana: Mas que hora você tirou ela(?) Ana: Seis horas/ Hoje foi muito mais rápido. Patrícia: Mas tem que ter uma noção
Fabiana: Elas tavam na geladeira hoje também(?) Mas já tão bem/ aí(!) Débora: Elas tão andando aqui ((com duas embalagens de plástico na mão e observando-as))
Ana: Mas precisa ver a hora que tirei elas do carro/ nô/ elas tão mortas/ aí comecei mexer assim/ elas começaram a mexer.
Na primeira observação do grupo, as formigas pareciam estar bem, com boa movimentação. Entretanto, durante a realização do segundo ensaio experimental, no episódio 17, o grupo identificou certa letargia das formigas.
(1)Thiago: Estão estagnadas.
(2)Ana: Eu que acho que na geladeira ((incompreensível)) está ruim para elas/ Estou falando sério.
(3)Patrícia: Tem manter, quanto você tem que ter manter na geladeira (?) Vai ver que tem que manter menos tempo.
Nesse episódio, os alunos verificaram pela segunda vez, se o cravo da índia in natura, que estava formando um halo ao redor da embalagem plástica, tinha propriedade repelente. Nesse ensaio experimental, eles tentaram diminuir as interferências externas, como mexer na embalagem e nos guardanapos. Para Ana, a ausência de movimentação das formigas atestada por Thiago poderia ser atribuída ao resfriamento das formigas. A hipótese levantada por Ana não é a única apresentada pelo grupo, por exemplo, existe a hipótese de que o cravo da índia atua como barreira física ou como repelente e, ainda, de que o guardanapo que está na embalagem de transporte das formigas está impedindo a sua movimentação.
Sendo assim, o grupo propôs realizar outro ensaio experimental, o terceiro do dia, apresentado no transcrito abaixo.
Ana: O que a gente poderia fazer é o seguinte/ pegar um/ uma folha em branco e virar isso aqui ó que quase tá tudo morta e vê se elas vão saindo para os lados por exemplo / entendeu(?) Por exemplo//
Fabiana: Melhor deixar//
Ana: Olha só/ as vezes, elas tão, as vezes/ Tem esse aqui ainda/ Porque as vezes elas tem ficado aqui no papel por causa do cravo/ entendeu?
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Patrícia: Pois é/ isso a gente pode descobrir só pegar/ é/ pegar uma que não foi para a geladeira e ver se//
Ana: Não/ Patrícia/ não é isso/ eu tava falando é o seguinte.
Patrícia: Porque você falou que isso não é o comportamento normal ((das formigas)) o que pode ter afetado(?) Ela ter ficado muito tempo na geladeira.
Ana: Mas na geladeira/ ela ((a formiga)) não precisa de ficar mais/ entendeu(?)
Patrícia: Então isso que eu tô falando/ para descobrir se isso dela ter ficado aqui/ que você falou que não é normal/ foi o motivo dela ter algum efeito que aconteceu quando foi para a geladeira ou se foi exatamente o cravo/ Aí se colocar ela sem nada e ela manter o mesmo padrão/ talvez seja o cravo. Débora: Tem que fazer sem o cravo/ tem que fazer o cravo/ Para ver se elas vão fugir se ela vão sair.
Ana: É isso que eu falei.
Débora: Tirar tudo e por ela aqui e ver se ela dispersar/ Se ela não dispersar/ não adianta a gente tá fazendo nada disso.
Patrícia: A gente tem formiga aqui(?)
Débora: Eu também acho que o normal delas seria dispersar/ mas depois que elas tomaram foi congelada depois/ depois descongelada/ tadinha/ eu não sei mais não.
Nesse momento, considerando principalmente as hipóteses de que o resfriamento ou o cravo da índia estivessem interferindo na movimentação das formigas, Ana propôs retirar os cravos da índia da fórmica e colocar apenas as formigas e observar a sua movimentação. Para ela, se as formigas saírem do centro da fórmica, existe a possibilidade de que o cravo tenha alguma ação repelente; se ficarem, o cravo não tem ação repelente. Além disso, o teste proposto permitiria observar a movimentação das formigas. Eles realizaram o teste, no décimo nono episódio, e observaram os resultados. A avaliação do grupo pode ser observada na transcrição abaixo.
Patrícia: Guarda eles ((as formigas))/ acabou. Ana: E aí quer que guarda ou continua esperando(?) Thiago: Quantas saíram(?)
Ana: Muitas.
Débora: Ah(!) então elas ia sair mesmo. Ana: Pode guardar(?)
Débora: Mas aqui/ semana que vem não põe esse trem ((as embalagens plásticas contendo formigas)) na geladeira/ acho que elas estão acordando agora/ Assim/ quem sou eu(?)
Patrícia: Onde estou(?)
Juan: É mesmo dá impressão disso.
O episódio em questão durou aproximadamente onze minutos. Os alunos observaram que aos poucos as formigas começaram a se movimentar e se deslocar em direção às extremidades da fórmica. Por meio de dados empíricos, isto é, de uma justificativa empírica, o grupo descartou o
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procedimento de resfriamento das formigas. No episódio 21 dessa aula, Ana informou ao professor Carlos sobre a decisão do grupo.
Ana: E também a Vilma ((professora)) acontece o seguinte/ falou se colocasse a formiga na geladeira ela ficava mais paradinha/ só que gente tá achando que ela tá ficando meio lerda.
Professor: Ela tá demorando demais.
Ana: E não precisa colocar na geladeira/ não precisa colocar na geladeira/ a gente pode trazer ela sem colocar na geladeira/ a gente pode trazer elas sem colocar na geladeira/ entendeu(?) Porque às vezes a gente consegue ver mais como ela funcionaria naturalmente.
Professor Carlos: É.
Juan: Porque que a Vilma falou isso(?)
Fabiana: Eu acho que ela falou para auxiliar a gente contar.
É particularmente interessante observar que as razões que motivaram o grupo a adotar tal procedimento, a justificativa pragmática dada pela professora de que as formigas resfriadas poderiam ser manipuladas de forma mais fácil, foi esquecida. Os alunos se muniram de justificativas empíricas: a observação do aumento da atividade das formigas com o tempo, pelo possível reaquecimento das mesmas, para fundamentar a decisão de utilizar as formigas em temperatura natural.
O quadro 12 apresenta a síntese do último processo de tomada de decisão sobre os procedimentos de captura e manipulação das formigas.
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QUADRO 12
Quadro-síntese do processo de tomada de decisão sobre captura e manipulação das formigas
Problema Fontes de
informações Ação Operações epistêmicas Tipo de Justificativa
Temperatura
das formigas Aula 3 (sala de aula) Intervenção dos professores Ouvir e avaliar sugestões de colegas e professores Pragmática
Aula 5 (lab.) Realização do primeiro ensaio experimental
Lidar com situação problema Propor teste Usar dados da observação Pragmática Empírica Relato a professor e colegas do grupo Descrever procedimentos Observar Realização do segundo ensaio experimental Observar Levantar hipóteses Avaliar hipóteses Propor procedimentos Identificar evidências Realização do terceiro ensaio experimental Observar Avaliar resultados Propor procedimentos Relato a professor Apresentar procedimentos
4.1.7. Um olhar sobre as tomadas de decisão do grupo: a captura e