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Não há como falar na relação envelhecimento e mercado de trabalho sem pontuar a importância do trabalho para o indivíduo e para a sociedade. A construção histórica, social e cultural do que é trabalho irá influenciar em outro conceito central nesta tese, que é o de mercado de trabalho. Assim, ao lado dos entendimentos do que é envelhecer e das relações de gênero presentes, o que se vivencia hoje em termos de mercado de trabalho para homens e mulheres acima dos 45 anos não está descolado da forma como o trabalho é visto pela nossa sociedade.

Temas relacionados ao trabalho encontram-se no centro do debate na sociedade, como o lugar do trabalho em nossas vidas, a falta de trabalho para alguns ao lado da sobrecarga de trabalho para outros, as formas que ele pode assumir, as condições de trabalho conforme a categoria profissional e, mais recentemente, a discussão sobre a natureza e as transformações no vínculo empregatício e na relação salarial. Diversos estudos têm sido realizados sobre a temática do trabalho, porém, conforme Mercure e Spurk (2005, p.10), estes tem adquirido cada vez mais um tom de instrumentalidade que acaba distanciando-os das questões sociais a ele pertinentes. Assim, caberiam aos estudos “descentrar o olhar da vivência imediata e ressituá-lo no universo rico e complexo das possibilidades”, como por exemplo, o trabalho ao longo do processo de envelhecimento situando sua importância para o sujeito que envelhece e para a sociedade.

Mesmo o trabalho adquirindo diferentes sentidos ao longo da vida, a centralidade que adquire na vida do indivíduo tem sido observada em pesquisas com diferentes grupos sociais. Falando especificamente do grupo constituído por trabalhadores em faixas etárias superiores ou recém aposentados/as, Bitencourt et al. (2010) buscaram compreender o sentido conferido ao trabalho por profissionais que estão se preparando para a aposentadoria e atuais aposentados/as vinculados ao fundo de pensão de uma empresa de capital misto do Estado do Rio Grande do Sul. Entre os resultados foi destacada a importância do trabalho para os/as entrevistados/as, sendo algo fundamental para a vida e constituição do sujeito e dos laços sociais. Em termos gerais, os/as entrevistados/as apresentaram reações positivas em relação à aposentadoria, porém alguns trechos de entrevista deixam transparecer que aqueles recém aposentados/as procuraram outras atividades para ocupar o tempo e sentirem-se “produtivos”, o que denota a centralidade do trabalho em suas vidas. Sendo o trabalho tão importante na vida dos sujeitos como atestam diversos autores, justifica-se entender como está se constituindo o mercado de trabalho para os indivíduos que, cronológica e teoricamente, se

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aproximam do momento em que sairão do mundo do trabalho e justamente poder questionar se é realmente um momento de ruptura com o trabalho.

O trabalho é uma atividade complexa e de difícil conceituação pela diversidade de objetos, eventos e situações que envolve decorrente da diversidade de significados que adquire em diferentes contextos históricos. O lugar que o trabalho ocupa em determinada sociedade está fortemente relacionado à institucionalidade – entendida como normas e valores do trabalho compartilhados – e ao sentido atribuído por pessoas ou grupos sociais (Rocha-de- Oliveira & Piccinini, 2011a).

Ao lado do envelhecimento e dos entendimentos sobre o ser homem e ser mulher, o trabalho também é uma construção social. Para Mercure e Spurk (2005), Sorj (2000) e Toledo (2000) não existe noção a-histórica do trabalho, ou seja, as formas do agir que o descrevem, assim como as palavras que o designam são acima de tudo construções históricas. Toledo (2000) compartilha da perspectiva histórica ao salientar que os limites do trabalho, seu conteúdo e papel nas teorias sociais não estão desvinculados das formas dominantes de interpretar o mundo em diferentes períodos da sociedade e, em particular, do capitalismo. Sorj (2000) complementa a discussão acrescentando que os estudos sobre o tema trouxeram como principal resultado o aprofundamento da reflexão acerca do caráter histórico e cultural deste conceito e das atividades que abrange. Assim, o conceito de trabalho passou a ser visto como fruto de configurações culturais, de contextos cognitivos e das instituições sociais que sustentam tais definições e que refletem na constituição e formação dos mercados de trabalho.

Conforme Guimarães (2009) tem sido crescente o interesse pelos estudos que envolvem mercado de trabalho e as formas e experiências associadas ao desemprego, depois de um longo período que denomina de jejum intelectual no qual haviam predominado as análises sobre as condições de organização e uso do trabalho no cotidiano das empresas e sobre as formas da ação coletiva conduzidas pelos sindicatos. No campo sociológico, é a partir das discussões sobre o desemprego ou como a orientação e a formação profissional dariam aos indivíduos as condições de empregabilidade que emerge o debate sobre mercado de trabalho. No entanto, conforme salienta Rocha-de-Oliveira (2009), ainda são raros os estudos que se dedicam a uma reflexão teórica do conceito ou, ainda, que ao menos apresentem a vertente teórica a qual se filiam para abordá-lo.

Até a década de 1960 o mercado de trabalho e sua dinâmica eram observados, sobretudo, pelo lado da oferta, e pouca atenção era dada à dinâmica da firma, cabendo aos

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economistas os avanços mais importantes na teorização acerca dos mercados internos e externos de trabalho, ou mesmo a mensuração das formas de segmentação ocupacional. Faltava uma agenda específica aos estudos latino-americanos que lhes permitissem avançar no campo da sociologia do mercado de trabalho e se revelasse capaz de dar conta das peculiaridades dos chamados “mercados heterogêneos de trabalho” (Guimarães, 2009, p. 155).

Segundo Guimarães (2009), os estudos de cunho sociológico sobre mercado de trabalho partiam das discussões sobre mobilidade social, conceito este que estava no centro das explicações (lineares) da teoria da modernização. Porém, as teorias da modernização prestavam-se para explicar a mobilidade social e ocupacional nos países dito modernos e não naqueles de economias em desenvolvimento como é o caso dos países latino americanos. Com o aumento de estudos empíricos no país ficou assente que estas teorias não bastavam para explicar o que se passava na sociedade brasileira, pondo em xeque o pressuposto de que o mercado seria o único mecanismo de alocação de recursos e de distribuição social. Ao contrário, destacam-se outras instituições — a família, os grupos de vizinhança e as redes de sociabilidade — que se revelam com papel central nas formas de inserção no trabalho e na importância conferida aos aspectos de gênero na divisão sexual do trabalho.

A divisão sexual do trabalho a partir do ingresso maciço de mulheres e da emergência do movimento feminista acionou um novo discurso sobre a condição das mulheres. Tais avanços na forma de pensar as questões de gênero na sociologia do Trabalho refletiram, inclusive, na expansão dos limites da definição de trabalho (considerando como trabalho quer aquele que é remunerado como o não pago, relativo ao cuidar) e o aprofundamento da reflexão sobre o caráter histórico e cultural do conceito, ampliando o significado meramente objetivo sobre o qual se alicerçou boa parte da sociologia clássica. Seus contornos passaram, então, a ser vistos como configurações culturais e processos cognitivos sendo influenciado, também, pelas instituições sociais que sustentam tais definições (Sorj, 2000).

Carecia, ainda, conforme Guimarães (2009), uma abordagem que teorizasse sobre a construção social dos mercados no bojo das discussões sobre a força de trabalho e mercado de trabalho nacionais. Os economistas responderam a estas indagações sintetizando o problema na equação preço versus produtividade, ou seja, quanto o empregador estaria disposto a pagar por determinada suposta produtividade do/a trabalhador/a. Rocha-de-Oliveira (2009) argumenta que este pressuposto de mercado de trabalho segue sendo reproduzido no senso

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comum no qual prevalece a visão da economia clássica, ou seja, um lugar onde ofertas e demandas de emprego se confrontam e se ajustam em função do preço (salários).

A abordagem econômica é apenas uma entre outras possibilidades de se analisar e teorizar sobre o mercado e, sendo assim, apresenta potencialidade e limitações. Porém, tal lógica destitui o cientista social do caráter interpretativo e de construção social e sintetiza a dinâmica em explicações meramente racionais de oferta e procura. No entanto, estas explicações não dão conta para entender realidades como a de mercados de trabalho flexíveis, pouco regulados, com forte peso de relações informais, e marcadamente desiguais em seus sistemas de estratificação, como ocorre em países latino americanos (Guimarães, 2009). São nas lacunas deixadas pela vertente econômica que ganham destaque as análises elaboradas no bojo da abordagem sociológica de mercado de trabalho.

Assim, neste trabalho se partilha do entendimento de Rocha-de-Oliveira (2009) de que o mercado de trabalho é um espaço em que se desenvolvem as relações entre indivíduos, instituições e sociedade e que, ainda, modifica-se constantemente dando origem a múltiplas formas de posicionamento. Considerá-lo como um conceito constante, sem revisitá-lo tampouco questioná-lo ao longo do tempo implica negar o caráter dinâmico da sociedade (Rocha-de-Oliveira & Piccinini, 2011b). Desta forma, se adotará a abordagem sociológica de mercado de trabalho para, assim, vislumbrar o caráter relacional, dinâmico e histórico de sua constituição.

Neste cenário – mercado flexível, pouco regulado, com forte peso de relações informais e presença de desigualdades – Guimarães (2009) argumenta que as chances de obter as oportunidades ocupacionais são socialmente construídas e, sendo assim, mecanismos não mercantis são fundamentais e estão enraizados na dinâmica de relação entre indivíduo e mercado mesmo quando se observa indivíduos que acorrem regularmente a instituições mercantis na busca por trabalho.

O acesso a oportunidades de trabalho é, muitas vezes, pautado por mecanismos que escapam à racionalidade e às instituições especializadas do mercado, e passa pelas redes tecidas pelos indivíduos em suas distintas esferas de sociabilidade no curso da vida cotidiana. Desta forma, a articulação entre ofertantes e demandantes de trabalho está longe de ser automática, e nem mesmo se realiza por mecanismos unicamente mercantis de difusão da informação; ela é, e em grande medida, um subproduto de outras relações sociais que não têm uma dimensão mercantil. Trata-se de um processo que não se resume a mecanismos usuais

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regidos por aspectos mercantis via sistema de preços (no caso o preço pelo qual se admite trabalhar ou, o preço pelo qual se aceita selecionar um trabalhador) (Guimarães, 2009).

Partindo dos pressupostos da sociologia econômica Rocha-de-Oliveira e Piccinini (2011b) afirmam que a transação realizada para a escolha de um trabalhador para um determinado posto não é totalmente segura, nem sempre o mais apto e com melhores qualificações será selecionado para o posto a que se candidata, pois ambos os lados avaliam a oportunidade e consideram uma série de fatores (remuneração, carreira, confiança) que resultariam da firmação do contrato. Desta forma, os autores consideram que se desenvolve um jogo na procura por oportunidades de trabalho, no qual a maioria dos indivíduos não se baseia no sentido econômico formal.

A procura por trabalho não é algo simples, tampouco depende unicamente do voluntarismo por parte do demandante de emprego. Embora o voluntarismo pudesse parecer evidente, a análise qualitativa das interações que transcorrem na situação de procura de trabalho deixou entrever o longo caminho que por vezes tem que ser percorrido para que o/a trabalhador/a se torne um “demandante de emprego”. Assim, não bastaria estar desempregado para habilitar-se e ser reconhecido como um “bom demandante de emprego” (Guimarães, 2009, p. 163).

Entre os aspectos não-formais e não mercantis que atuam na constituição dos mercados de trabalho e interferem nas chances de obter oportunidades ocupacionais estão características inerentes aos indivíduos. Guimarães, Silva e Farbelow (2008) mostram a relação entre a raça e o sexo dos/as trabalhadores/as por um lado e as suas trajetórias profissionais de outro. A partir de um estudo em 25 mil domicílios paulistas os autores mostram que a cor da pele e o sexo acabam por interferir nas trajetórias no mercado de trabalho e mostram-se fortemente relacionados aos sinais de desigualdade. Estes dois grupos, negros e mulheres, apresentavam os piores tipos de percursos ocupacionais, principalmente o grupo formado por mulheres negras. Mesmo considerando uma característica aquisitiva – escolaridade – nesta investigação foram às características adscritas como sexo e gênero que se revelaram como delimitadores dos espaços de circulação, insulando grupos no mercado de trabalho.

Desta forma, não é nada trivial estar no mercado seja à procura de trabalho ou da sua manutenção. Quando há restrições econômicas e diminuem as vagas disponíveis, flexibilizam-se os momentos e as condições em que estas são oferecidas, bem como se elevam

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os requerimentos para ocupá-las e sobram indivíduos interessados. Assim sendo, não basta estar desempregado ou à procura de trabalho para automaticamente ser considerado habilitado a ocupar uma vaga. Para se compreender esse processo de legitimação como demandante de trabalho o indivíduo precisa percorrer um longo caminho no mercado de intermediação. Há uma diversidade de procedimentos e de regras de conduta que permitem ao indivíduo que busca emprego “construir-se, representar-se e ser percebido como um demandante digno de habilitar-se a uma vaga no mercado de trabalho” (Guimarães, 2009, p. 164).

É possível entrever como a obtenção de trabalho é um processo multifacetado e reflexo de construção social (Guimarães, 2009). Compartilhando da ideia de que o mercado de trabalho é uma construção, Rocha-de-Oliveira (2009, p.72), salienta que não há um único mercado de trabalho, mas “múltiplos mercados dinâmicos que se formam e alternam de acordo com particularidades de segmentos de produção, profissões, regiões, etc.”, mercados estes definidos como sendo espaços nos quais as ações dos atores são orientadas por crenças, valores, regras e normas que os fazem construir e alterar os mecanismos de organização do mercado e suas inter-relações.

Conforme Guimarães (2009), a complexidade dos agentes envolvidos e das condutas na situação de procura de emprego evidencia que o entrecruzamento entre oferta e demanda de trabalho precisa ser tratado como um processo, e não apenas pelo seu resultado, ou seja, o número de empregados ou de desempregados, como corriqueiramente aparece nas análises acerca dos mercados de trabalho. Segundo Rocha-de-Oliveira (2009), compreender a estruturação dos mercados de trabalho requer um contexto e uma história. Ainda, o autor enfatiza que para analisar o mercado de trabalho é preciso estabelecer referência a um grupo, definir o tipo de trabalho, quais as peculiaridades do setor de atuação, a legislação pertinente, qual nação se pretende estudar, qual o histórico e as configurações geopolíticas que dizem respeito a esta nação.

Para Steiner (2006), os mercados – entre os quais o de trabalho – não são o resultado de um arranjo espontâneo de agentes econômicos que procuram otimizar as formas de sua transações mercantis uma vez que estas são o resultado de um conjunto não coordenado de decisões institucionais (políticas, jurídicas, econômicas) de relações pessoais e culturais que sofrem e veiculam as contingências da história. O contexto social no qual estão inseridas as relações mercantis é crucial e justifica o olhar da sociologia econômica.

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Já que não há um único mercado de trabalho, mas sim uma construção social de múltiplos mercados de trabalhos em que a conduta dos atores envolvidos é definida com base em crenças, valores e regras compartilhadas, interessa compreender como o processo de envelhecimento do/a trabalhador/a influencia na configuração do mercado de trabalho para os/as trabalhadores/as de Hotelaria e como estes se constituem em demandantes de emprego. Além do envelhecimento outro construto tem especial importância na configuração destes mercados de trabalho: o gênero, pois a divisão sexual do trabalho segue afetando a delimitação de ocupações de homens e mulheres, ainda mais, como se discutirá posteriormente, as ocupações de homens e mulheres mais velhos/as que seguem trabalhando ou estão em busca de trabalho. Os mercados de trabalho não se apresentam da mesma forma para homens e mulheres, como exposto por Rocha-de-Oliveira (2009) há uma multiplicidade de regras, valores e crenças compartilhadas que ainda marcam os espaços delegados a homens e mulheres no mundo do trabalho.

Além disto, quando se analisa as ocupações laborais na atualidade, verifica-se que o/a próprio/a trabalhador/a tornou-se parte constituinte do produto que é oferecido ao cliente. E, assim, há uma estreita relação que se estabelece entre características pessoais dos empregados e sua adequação ao trabalho, o que transforma traços como gênero, aparência, idade, educação e raça em potencial produtivo, de tal forma que características e competências individuais são a condição mesma da empregabilidade (Sorj, 2000).

O resultado disso é uma forte segmentação do mercado de trabalho, em que os níveis inferiores de emprego – em tempo parcial ou temporários – são preenchidos, no Brasil, predominantemente por minorias, mulheres e jovens com baixa escolaridade e, portanto, com poucas oportunidades de carreira e mobilidade (Sorj, 2000). Na mesma direção, referindo-se a Portugal, Kovács (2004) constata que os mais abrangidos por formas flexíveis de emprego geradoras de empregabilidade frágil são mulheres, jovens, os grupos etários mais elevados, os pouco qualificados e os menos escolarizados. Apesar de Sorj (2000) não mencionar explicitamente entre as minorias os/as trabalhadores/as mais velhos/as, refere-se a este grupo ao mencionar a idade como um fator de potencial produtivo valorizado pelas organizações.

Por isto, é importante entender as representações sociais em torno do processo de envelhecimento e o peso da divisão sexual do trabalho nas sociedades brasileira e portuguesa devido à forte relação com a configuração do mercado de trabalho em que atuam o/a trabalhador/a em envelhecimento. Acredita-se que, daí, virá importante contribuição teórica e

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empírica para os estudos sobre mercado de trabalho no campo da Administração e da Sociologia Econômica e das Organizações.

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2.3 POR QUE UMA PERSPECTIVA DE GÊNERO? ENTRELAÇAMENTOS ENTRE