covardia coragem imprudência insensibilidade temperança licenciosidade
27
avareza generosidade prodigalidade mesquinhez liberalidade vulgaridade humildade magnanimidade vaidade
falta de ambição ambição sadia ambição excessiva impassibilidade gentileza irascibilidade autodepreciação autenticidade orgulho grosseria espirituosidade escárnio litigiosidade cordialidade bajulação falta de vergonha modéstia condescendência malícia indignação justa inveja
injustiça justiça injustiça
_________________________________________________________________________________
Aristóteles via o fundamento da vida virtuosa do indivíduo na dimensão social, nas relações interpessoais. Embora criticado por ter exaltado a felicidade como o objeto da busca humana, ele a via como uma consequência e, portanto, procurou determinar o que conduz ao bem-estar que todos desejamos. Ele localizou a resposta no objetivo de nossa existência, qual seja: a excelência no exercício ativo e racional das faculdades da alma, por meio do qual podemos ser levados ao meio-termo áureo e desfrutar uma vida contemplativa. Isso para Aristóteles é a vida de felicidade. Segundo Grenz (2006), “a ética aristotélica da atualização do bem-estar pode ser classificada como a maior expressão do pensamento grego da Antiguidade, e sua longevidade como declaração influente de ética filosófica nunca foi superada” (p.85).
Flanagan (em LA TAILLE, 2002a, p.29), que viu um avanço, embora tímido, na proposta de Gilligan ao ampliar o campo moral incluindo a ética do cuidado, parece conceber o fenômeno da moralidade em termos puramente aristotélicos. Para esse autor, a moral inclui, para além da justiça e do cuidado, vários outros conteúdos. Nas diferentes culturas espalhadas pelo globo, podem-se encontrar uma ou várias concepções da “boa pessoa”, da maturidade individual e da “vida boa”. Comentando esse autor, La Taille (2002a) afirma:
Vemos aqui a “volta” de uma expressão clássica na moral, mas ausente em praticamente todos os estudos de Psicologia a ela dedicada, qual seja, a “vida boa”. Vale dizer, longe de limitar-se a conflitos, deveres e regras prescritivas, a moral pode também tratar da “busca da felicidade. (p.29).
Para La Taille (2002a), há duas decorrências a considerar, uma vez que os conceitos de “boa pessoa” e “vida boa” passam a integrar o campo moral. A primeira é que outras virtudes, além da justiça e da generosidade, podem ser contempladas: fidelidade, gratidão,
compaixão etc. A segunda é que a moralidade deixa de ser concebida exclusivamente como
associada a relações interpessoais, passando a incluir a dimensão intrapessoal, ou self-
regarding, uma vez que a busca da felicidade, além de afirmar direitos, envolver resolução de
conflitos e incluir as preocupações com os outros, ocupa-se também com o equilíbrio pessoal. Mas La Taille adverte que assumir essa nova perspectiva de definição do campo moral não significa negar que questões interpessoais relacionadas a conflitos e deveres sejam questões morais ou as mais importantes. Trata-se apenas de negar-lhes a exclusividade. Comte-Sponville (COMTE-SPONVILLE; FERRY, 1999) esclarece-nos essa velha/nova perspectiva, definindo moral como tudo o que se faz por dever (como em Kant) e ética como aquilo que se faz por desejo ou amor, sem outro imperativo além do de se adaptar à realidade: “A moral ordena; a ética aconselha. A moral responde à pergunta: “que devo fazer?”. A ética, à pergunta: “como viver?”” (p. 206).
2.7 - Juízo e ação moral: quando moral e ética se entrecruzam
Há, portanto, diversas concepções teóricas sobre a moralidade humana, cada qual reivindicando um campo de investigações. Em primeiro lugar, pudemos ver as teorias morais formalistas, predominantes até a década de 70, que baseiam predominantemente a moralidade no princípio racional e universal da justiça28. Em segundo lugar, apareceram as teorias morais altruístas, que incorporam aspectos das relações interpessoais (responsabilidade e cuidado com o outro) e da afetividade no juízo e ação moral. Por último, vimos o (re)surgimento de concepções ditas neoaristotélicas propondo uma teoria moral das virtudes, o que amplia ainda mais o campo da moralidade ao considerar moral o sujeito de personalidade virtuosa.
De acordo com Araújo (1999), um tema é comum a todos os objetos das diferentes concepções anteriormente apresentadas: a relação entre o juízo e a ação moral. Como já vimos anteriormente, a questão se formula do seguinte modo: como uma lei, racionalmente concebida, pode ser princípio determinante da vontade? Em outras palavras, achar racionalmente correta uma determinada conduta garantiria uma tradução efetiva em ações
28
Para não pecar por excessiva generalização nem incorrer em incoerência com o que vimos tratando anteriormente, ressaltamos o destaque que a afetividade merece na teoria de Jean Piaget, não obstante o legado kantiano ainda bastante presente em sua elaboração (basta revisitar o item 2.2.3 deste Referencial Teórico para o comprovar).
correspondentes ao raciocínio? Tendo na razão a condição necessária para a ação moral, não faltaria uma teoria do querer agir moral a fim de que o respeito mútuo, base de uma moralidade autônoma, pudesse ser seguido na prática? Como conciliar julgamento e ação moral? Araújo (1999) acredita que novos paradigmas devem ser buscados nas investigações sobre a moralidade, além daqueles que estudam o altruísmo, as leis e as regras. Os aspectos psicológicos do sujeito da moralidade, a forma como este se relaciona com essa normatividade, os mecanismos de que se utiliza para regular suas relações intra e interpessoais deverão também ser levados em conta. “As emoções e os sentimentos parecem exercer um papel central na explicação psicológica desse funcionamento e é nessa perspectiva de regulação que surge o interesse da investigação sobre o papel da afetividade na moralidade” (p.54). Haveria, assim, uma motivação capaz de traduzir em atos correspondentes os raciocínios morais, e ela é da alçada da subjetividade, ou seja, deve ser procurada no campo afetivo, de onde provém essa “força maior” que leva o indivíduo a estar “disposto à ação” (TOGNETTA, 2006, p.26).
Se os afetos cumprem um papel importante na consumação das ações que foram concebidas pela razão, é momento de nos deixarmos guiar por uma teoria da afetividade. Estaremos, por conseguinte, entrando no terreno da ética, não sem, primeiro, falar de um sentimento invariante pertencente ao plano moral.
2.7.1 - O plano moral
La Taille (2006a) acredita existir nos homens um plano moral psicológico que os faz agir por dever e não conforme o dever. Trata-se, segundo o autor, do sentimento de
obrigatoriedade, uma imposição da consciência que guia os indivíduos para agirem de
determinadas formas e não de outras. Se esse sentimento responde por ações morais, confere- se realidade psicológica à moral. As pessoas agiriam por dever porque intimamente convencidas de que assim procedendo fazem o bem. Para comprovar que as pessoas escolhem agir por dever moral, e que, portanto, a moral é muito mais do que um discurso, este autor lembra de Gandhi e sua luta pela liberdade, Martin Luther King Jr e sua luta pela justiça, os resistentes franceses e sua ousadia para resgatar judeus de campos nazistas. Mas levando-se em consideração a envergadura moral de um Gandhi ou de um Martin Luther King, vale perguntar: o sentimento de obrigatoriedade é joia rara ou traço psíquico comum à maioria das pessoas? La Taille (2006a, p.35) acredita que “os ‘eclipses’ morais – habituais, infelizmente – não se devem a uma suposta falta total de senso moral que acometeria a quase todos, mas sim
ao simples fato de o sentimento de obrigatoriedade ser às vezes mais fraco do que outros sentimentos”.
O problema não seria a ausência do sentimento do dever, ou da obrigatoriedade, nas pessoas, mas sim a frequência com que elas o experimentam de forma o bastante forte para serem por ele inspiradas. Basta recordar a atitude dos que traem a fidelidade aos amigos se apenas um interesse pessoal se lhes interpõe. Seriam eles totalmente desprovidos do sentimento de obrigatoriedade ou este não foi experimentado com a força suficiente para impedir ações contrárias à moral? La Taille (2006a) acredita ser exagerado atirar para o reduto da imoralidade e do “mal” todos os que alguma vez agiram contra a moral, dividindo a humanidade entre os morais e os imorais. Não seria uma boa opção teórica. Restaria, de um lado, apenas um contingente reduzido de santos e heróis, que são aquelas pessoas capazes de grande abnegação e sacrifício de si em nome da moral, e em quem o sentimento do dever prevalece sobre quaisquer outras vontades. Mas tais casos são raros, como já tivemos oportunidade de ilustrar, na abertura deste trabalho, lançando mão da caricaturização que Machado de Assis leva a efeito em seu irônico “O alienista”. De acordo com Brum (2006, p.195), faríamos muito bem se sempre guardássemos uma boa dose de desconfiança em relação aos heróis, se não nos furtássemos a sempre dar uma boa cheirada num mito: “Eles só se aproximam da verdade quando virados pelo avesso e promovidos a homens”.
Reconhecendo que, com maior ou menor intensidade, o sentimento de obrigatoriedade se encontra em todas as pessoas, La Taille (2006a) recoloca o problema da seguinte forma: é preciso verificar a força com que o sentimento é experimentado. Isso implica admitir uma teoria da afetividade, em cujo domínio se encontra a energética para que juízo e ação moral encontrem estreita correspondência. Mas falar de energética é entrar no plano ético.
2.7.2 - O plano ético
Antes, porém, de precisarmos o plano ético, é preciso que digamos duas palavras, ainda baseados em La Taille (2006a), que ampliem os conceitos de moral e ética que já tivemos ocasião de ver definidos por Comte-Sponville e Ferry (1999). Começamos por lembrar que moral (do latim mores) e ética (do grego ethos), embora sejam conceitos que designem indistintamente o campo de reflexão sobre os “costumes” dos homens, normalmente apresentam algumas diferenciações a título de convenção, sendo a mais utilizada aquela em que moral responde pelo fenômeno social, e ética, pela reflexão filosófica ou científica sobre ele. O fenômeno referido “é o fato de todas as comunidades humanas
serem regidas por um conjunto de regras de conduta, por proibições de vários tipos cuja transgressão acarreta sanções socialmente organizadas” (LA TAILLE, 2006a, p.26). Toda organização social humana tem uma moral. E como todo fenômeno social, a moral suscita indagações, às quais se costuma dar o nome de ética.
As definições de moral e ética que assumimos (inspirados em Canto-Sperber e Ogien, 2004; Tugendhat, 1999; Comte-Sponville e Ferry, 1999; Savater,1996; La Taille, 2006a;) têm a ver com as respostas a duas perguntas diferentes. À indagação moral corresponde a pergunta: “como devo agir?”. E à reflexão ética cabe responder à outra: “que vida eu quero viver?”. Essa segunda pergunta, como vimos anteriormente a propósito do ressurgimento do interesse por uma ética das virtudes que remeteria a Aristóteles, diz respeito à “vida boa”. Savater (1996) fala sobre adquirir um certo saber-viver.
Que elemento psicológico seria comum a todos os conteúdos evocados pela pergunta “que vida eu quero viver?” a fim de se definir um plano ético a exemplo do que aconteceu no plano moral com o sentimento de obrigatoriedade? Procuraremos resumir as ideias de La Taille (2006a) porque as julgamos centrais para o desenvolvimento de nosso estudo.
Segundo este autor, a “vida boa” é da alçada da subjetividade. Não é possível ser feliz sem se sentir feliz. Algumas pessoas possuem “objetivamente” condições de vida invejáveis, mas que não lhes trazem a felicidade ou, pelo menos, não são suficientes para garanti-la. Não é o caso de desconsiderar o benefício de certas condições concretas de vida para que a felicidade se efetive. É muito difícil sentir-se na miséria, na doença, no desprezo social etc. Seria um irrealismo afirmar que a felicidade é “puro” estado subjetivo, mas parece apropriado dizer que ela depende da subjetividade. Logo, o plano ético é ocupado por avaliações pessoais a respeito de se estar vivendo, ou não, uma “vida boa”. Soma-se a isso o fato de que a felicidade não se traduz pela somatória de momentos agradáveis; ela depende de algo que, se não diz respeito a uma vida inteira, pelo menos é muito mais do que a reunião de momentos fortuitos e fugazes. Trata-se de uma experiência relativamente duradoura ou estável, que acompanha o fluxo temporal da vida, e não se circunscreve a momentos isolados de prazer.
Uma outra qualidade necessária à referida experiência subjetiva de bem-estar seria o
sentido para a vida, uma necessidade psicológica indispensável à definição do plano ético.
Para La Taille, talvez não haja maneira de escolher “como viver” sem ter alguma resposta subjetivamente convincente para o “para que viver”. Dessa relação, resgata-se o tema do sentido da vida. Mas ela também se relaciona a uma terceira: “quem ser?”; ou seja, ela coloca em pauta o tema da identidade pessoal. Isso tem a ver com a tomada de consciência de si, das
próprias ações no mundo, a partir do viver, da prática. Portanto a identidade é uma construção realizada a partir dos atos concretos da vida, a partir do “como viver”.
Se há indissociabilidade entre identidade e as características da “vida vivida”, a fortiori, as respostas dadas à pergunta “como quero viver?” são inseparáveis das respostas dadas à pergunta “quem eu quero ser?”. [...] Mesmo raciocínio vale para o sentido da vida: reconhecer tal ou tal razão para se viver implica conceber a si próprio de tal ou tal forma. [...] Escolher um sentido para a vida e formas de viver é escolher a si próprio, é definir-se como ser. (LA TAILLE, 2006a, p.45-46).
Resta a pergunta: será que o “ser”, à procura de um sentido para viver, está virtualmente aberto a toda e qualquer resposta existencial, ou será que ele exige que ela contemple uma motivação básica, sem o que a vida não teria sentido, ou teria pouco? La Taille, baseado em Alfred Adler (1935), psicanalista que popularizou conceitos como complexo de inferioridade e superioridade, apresenta a ideia de que tal motivação existe e responde pelo nome de “expansão de si próprio”, expressão já anteriormente empregada por Piaget (1954) ao referir-se à teoria adleriana.
Adler (1935) postulou que a superação é a lei fundamental da vida; superar os próprios limites, fonte motivacional essencial. Estando o equilíbrio psíquico continuamente ameaçado, o ser humano, em sua tendência à perfeição, é movido afetivamente e compreende com clareza sua instabilidade psíquica diante de tal ideal. Somente a sensação de ter alcançado um posto suficientemente elevado será capaz de proporcionar-lhe sentimentos de tranquilidade, felicidade e autoestima. Porém, no momento seguinte, seu objetivo volta a arrastá-lo. Percebe- se, assim, conclui o autor, que “ser homem significa possuir um sentimento de inferioridade (de menos valia) que nos empurra continuamente rumo à superação. A direção da superação que se busca é, desde logo, tão extremamente variada como o desejado objetivo da perfeição” (p. 61).
“Expansão” remete claramente à busca de novos horizontes de ação, à busca de superação de si, à necessidade de enxergar a si próprio como uma pessoa de valor. Para Adler, o sucesso nessa busca de expansão de si próprio, cujo objetivo é passar de uma posição inferior para outra superior, é condição necessária à felicidade, ao bem-estar subjetivo. Reciprocamente, o fracasso nessa busca é fonte de infelicidade. Se Adler tiver razão, conclui La Taille (2006a), qualquer conteúdo que venha a ocupar o plano ético, portanto qualquer opção pelo que seja uma vida feliz, dará ao sujeito a possibilidade da expansão do seu eu: “uma condição necessária ao gozo da felicidade, da “vida boa” é ver a si próprio como pessoa
de valor e de enxergar perspectivas de alcançar um grau satisfatório da tendência de elevar-se, de se desenvolver” (p.47-48).
2.7.3 – Relacionando os planos moral e ético
Tendo identificado o “sentimento de obrigatoriedade” e a “expansão de si próprio”29 como os invariantes psicológicos da moral e da ética, La Taille passa a apresentar uma tese que os articule e que seria responsável pela motivação das ações morais. Para este autor, somente sente-se obrigado a seguir determinados deveres quem os concebe como expressão de valor do próprio eu, como tradução de sua autoafirmação. É na “expansão de si próprio” e no valor decorrente atribuído ao eu, portanto no plano ético, que devem ser procuradas as motivações que explicam as ações no plano moral.
O sentimento de obrigatoriedade corresponde a um “querer”. Portanto age moralmente quem assim o quer. Não raro, “dever” e “querer” são indevidamente entendidos como contrários. O autor ilustra muito bem isso. Alguém queria ir ao cinema, mas não pôde porque devia cumprir sua promessa de lavar o carro do pai. Tal situação expressa a vontade frustrada de ir ao cinema, frustração decorrente de um dever de cumprir uma promessa. Mas tendo preferido cumprir a promessa, porque intimamente inclinado a tal, a razão dessa decisão tem que ser procurada no seu querer. Dois quereres entraram em conflito e venceu o mais forte: o querer cumprir a promessa.
O sujeito moral é livre, pois não age sob coação exterior, mas intimamente movido a tal, por dever, que corresponde a um querer conscientemente concebido. “A oposição entre querer e dever não se sustenta. Salvo em caso de coação externa, todo mundo faz o que lhe apraz. O mistério está em se saber por que algumas pessoas querem agir moralmente, e outras não” (LA TAILLE, 2006a, p.54). Não se trata, segundo o autor, de um conflito entre querer e dever, mas de “quereres” diferentes, uns morais, outros não. Resta compreender por que alguns “querem o dever”. Nesse caso, a referência ao Eu é indispensável.
Considerando Roger Perron, La Taille (2002a) concebe o eu como o conjunto de
representações de si. O Eu, ou a identidade do sujeito, é mais do que aquilo que o distingue
como indivíduo: tem a ver com o conjunto das imagens que esse indivíduo tem acerca dele mesmo. Nesse Eu encontram-se as representações que o fazem agir. Tognetta (2006, p.70)
29
La Taille (2006a) usa a “expansão de si próprio” como o invariante psicológico do plano ético por acreditar que ele contempla e representa bem os passos anteriormente mencionados, quais sejam: a vida boa é da alçada da subjetividade; ela segue o fluxo do tempo; e ela se nutre de um sentido para a existência e revela, nas escolhas, o ser.
indaga: onde podemos encontrar este que é percebido, imaginado, conhecido e representado? Recorrendo também a Perron, dá-nos a seguinte resposta: “[...] no Eu. O Eu que se coloca enquanto objeto de si mesmo, face a face com o sujeito”.30 Pensar sobre quem é este Eu é pensar igualmente no papel do outro na construção desta identidade. É ao olhar dele que o Eu se remete a fim de obter reconhecimento, aprovação. É ele quem nos faz buscar o que não temos e dar o que sobra em nós, dirá Tognetta (2006, p.72): “Saber que sou visto e reconhecido pelo outro é poder conceber-me como uma identidade no meio de tantos outros. Alguém irá chorar por mim, alguém me reconhece e, portanto, vivo tranquilo, porque sou aos olhos do outro”. Conceber a imagem de si implicará tomar-se enquanto objeto para o outro: quem eu sou para ele. “É o olhar do outro que exprime uma imagem que devo manter” (p.74).
E essas representações de si são sempre valor, uma vez que ninguém é “cientista de si mesmo”, avaliando-se com frieza e neutralidade, como se nada mais fosse do que um organismo biológico.
Quando uma pessoa pensa em si, quando representa-se para si mesma, todas as imagens que constrói estão intimamente associadas ao bem ou ao mal, ao desejável ou ao indesejável, ao certo ou ao errado, ao bonito ou ao feio, e assim por diante. Mesmo as formas aparentemente mais objetivas de se representar, como ser mulher ou homem, criança ou adulto, preto ou branco, casado ou solteiro, etc., estão prenhes de valor. (LA TAILLE, 2002a, p.61).
Concordam com isso as teses de Adler (1935) verificadas anteriormente, ou seja, as representações de si são sempre valorativas, à medida que sentimentos de inferioridade e superioridade pressupõem um juízo de valor, uma comparação entre o ser e o devir, entre o si mesmo e o outro. O que é a tentativa de se autossuperar senão a procura de identificação com valores admitidos como positivos?
Dessa forma, La Taille (2006a) acaba por relacionar “querer” e “ser”, em concordância com Savater (apud La Taille, 2006a), para quem o homem somente poderá querer alguma coisa de acordo com o que ele seja. E uma vez que a “expansão de si” é motivação fundamental do ser, cada querer trará, em maior ou menor grau, essa busca de autoafirmação, portanto de representações de si de valor positivo. Vale para o dever, esse querer particular, o que vale para o querer em geral. Assim, a força do sentimento de