Numa pequena cidade norueguesa chamada Berlevaag, encravada no sopé das montanhas, viviam, de forma modestíssima, duas irmãs, Martine e Philippa, cujo pai fora fundador e profeta de uma seita eclesiástica piedosa. Com a morte desse deão, o número de discípulos decrescia a cada ano e não poucas controvérsias havia entre os que permaneciam. Martine e Philippa tinham sido muito belas e criadas pelo pai com um ideal de amor celestial. Os pretendentes a desposá-las eram energicamente rechaçados.
Dois cavalheiros do mundo exterior à pequena cidade, porém, arriscaram mais que os outros. À época em que Martine tinha dezoito anos, um jovem chamado Lorens Loewenhielm, cumprindo uma disciplina imposta por seu pai, instalou-se próximo a Berlevaag. Deslumbrado com a beleza de Martine, depois de tê-la visto no mercado local, foi introduzido pela tia na casa do deão, cujo clima de circunspeção não lhe permitia dar expansão aos seus sentimentos. Naquele que seria o último dia de sua permanência na região, fez uma tentativa mais ousada de aproximação da donzela, mas apenas o que conseguiu foi tomar sua mão e levá-la aos lábios. Despediu-se dizendo que nunca mais a veria. Partia triste, pois julgava que o destino concorria com seus amores. Retornando à casa paterna, fez rápido progresso na carreira militar e se casou com uma dama da aristocracia. Posteriormente, pouco se falou de Lorens entre as irmãs.
Um ano depois, foi a vez de Philippa. Em veraneio pela região, o grande cantor Achille Papin, de Paris, ocasionalmente foi sentar-se, num domingo, nos bancos da igreja do deão e ouviu Philippa cantar, o que o deixou extasiado. Vislumbrou a possibilidade de levá-la para cantar em Paris, que, certamente, se quedaria a seus pés. Não perdeu tempo: foi à casa do deão e se ofereceu para dar aulas à filha mais nova, justificando que isso a faria cantar de forma ainda mais bela no coro da igreja. A permissão emprestou mais asas a seus sonhos, que, na primeira oportunidade, compartilhou com a moça. Quando ensaiavam uma ópera de Mozart, o cantor incorporou tanto o papel que representava que não se conteve: agarrou as mãos da moça, puxou-a para si e beijou-a com solenidade. Philippa foi para casa e disse ao pai que escrevesse a Papin e comunicasse sua desistência das aulas. Censurando-se por sua falta de cautela, o cantor pegou o primeiro navio que partia de Berlevaag e desapareceu.
Quinze anos mais tarde, numa noite chuvosa, as donas de casa sobressaltam-se com o som frenético da campainha. Diante delas está uma mulher que, tão logo as vê, desmaia à porta. Reanimada, entrega-lhes uma carta, remetida por Achille Papin. Este pedia encarecidamente às irmãs, cuja imagem jamais lhe saíra do coração, que recebessem madame
Babette, que vinha foragida de Paris, depois de perder toda a família e tudo o que possuía na guerra civil. Babette sabia cozinhar, a carta informava. A moça estaria disposta a lhes servir de graça, desde que lhe dessem acolhida.
Abatida a princípio, Babette logo adquiriu um aspecto respeitável e mereceu a confiança das anfitriãs. Estas decidiram que se esmerariam em seu comportamento luterano, pois, mais do que sermões, ele seria decisivo para converter a criada. Desconfiadas dos dotes culinários de Babette, ensinaram-lhe a preparar alguns pratos típicos do local, o que a criada aprendeu de forma impecável. Logo no primeiro dia preveniram-na contra o desperdício: eram pobres, e o regalo seria um pecado. Que cozinhasse o mais simples possível: o mais importante eram os panelões de sopa e as cestas oferecidas diariamente aos pobres.
Pouco tempo depois, os gastos domésticos, agora sob os cuidados de Babette, foram milagrosamente reduzidos. Suas ocupações e a admirável economia fizeram com que Martine e Philippa dispusessem de mais tempo e recursos para suas obras piedosas. A congregação, a princípio ressabiada, mudou logo seu parecer. Numa das poucas vezes em que se referiu à vida passada em Paris, Babette fez saber que possuía um bilhete da loteria francesa que anualmente um amigo renovava para ela. Nunca abandonara a esperança de um dia vir a ganhar o prêmio. No mais, atirava-se estoicamente ao trabalho. Vivia introspectiva, enigmática. Seu recôndito parecia esconder paixões ainda vivas, lembranças caras.
Aproximava-se o centenário do deão. As filhas queriam comemorá-lo como se o religioso estivesse entre o seu rebanho, cada dia mais disperso e se afundando em discórdias. Como Martine e Philippa eram mais novas que os filhos espirituais de seu pai, não sabiam bem como lidar com a situação. Pouco a pouco, antigos ressentimentos entre os Irmãos voltavam à tona. Desavenças de décadas atrás eram desenterradas, exigiam acertos. Alguém, por exemplo, se lembrou de que fora trapaceado num negócio há 45 anos. Pessoas se recusavam a se olhar nos olhos. Com a aproximação da comemoração, as irmãs sentiam o peso da responsabilidade aumentar.
Certo dia, uma correspondência vinda da França pôs fim à monotonia da vida de Berlevaag. Era endereçada a Babette, a primeira em doze anos. O que poderia ser? Inacreditável, seu número na loteria francesa fora premiado. Ela ganhara dez mil francos. Muito surpresas, Martine e Philippa felicitaram-na, ao mesmo tempo em que ruminaram velhas preocupações. Talvez Babette as deixasse, e elas se ocupariam novamente com os cuidados da casa e dos pobres, o que lhes tomaria um tempo precioso, ora dedicado a outras atividades. Todos os que conheciam a criada francesa ficaram tristes, mas não a culparam.
Dias depois, o dinheiro chegou. As irmãs não ousavam perguntar sobre a partida que lhes parecia iminente. Ela não ficaria até a comemoração?
Num entardecer, Babette, mais humilde do que costumeiramente se apresentava, surgiu diante das patroas e pediu-lhes um favor: gostaria de preparar o jantar da comemoração. Mas Martine e Philippa não haviam pensado em nenhum jantar. Nunca tinham oferecido a ninguém mais do que uma refeição simples. Contudo, vendo a ansiedade de Babette, não lhe puderam recusar o pedido. Babette informou que queria preparar, ao menos daquela vez, um autêntico jantar francês. As irmãs ficaram sem saber o que dizer. Mas a agora milionária criada tinha outro pedido: queria permissão para pagar o jantar com o seu próprio dinheiro. Nisso as irmãs não podiam consentir. Gastar seu precioso dinheiro com elas? Nunca! Babette insistiu, alegando nada ter pedido durante aqueles doze anos. Sua solicitação era como uma prece do fundo do peito. Acreditando que esse fosse seu primeiro e último pedido nesses doze anos, resolveram aceder, pensando que um jantar não faria diferença para quem possuía dez mil francos.
Um mês antes da comemoração, Babette pediu às patroas permissão e se ausentou por dez dias. Era para cuidar dos preparativos da festa, mas não disse nada. As irmãs julgavam que seu coração já se encontrasse na França. Temiam lhe fazer perguntas, pressentindo a partida próxima. Em certo dia de dezembro, foi com espanto que viram Babette anunciando a chegada das mercadorias da França. E esse espanto cresceu quando Babette lhes explicou que eram os ingredientes para o jantar do centenário do deão. Só então as patroas puderam ver que proporções o jantar consentido a Babette assumira. Mas como haviam dado sua palavra, não recuaram. As irmãs se espantaram com um carrinho cheio de garrafas. O que era aquilo? Vinho, ora! E de uma safra apreciadíssima. Na mesma noite, novo espanto: Martine viu sendo descarregada uma enorme tartaruga, ainda viva. Temeu pelo que estivesse sendo preparado para o aniversário do pai. Sonhou com Babette envenenando os convivas. Preocupada, foi de casa em casa visitando a irmandade e revelando o labirinto em que se julgava metida. Solidária, a congregação se reuniu naquela mesma tarde. Fizeram um pacto de, no dia da comemoração, não tocar no assunto de comida e bebida. Nada que se lhes servisse arrancaria uma só palavra de seus lábios, por mais estranho que fosse. A aliança causou comoção a todos.
Bem cedo, no dia do jantar, as irmãs receberam uma comunicação de uma idosa senhora que muito apoiara o deão no passado. Ela fazia questão de vir e honrar sua memória com os demais. Traria seu sobrinho, de passagem pela região. Tratava-se, nada menos, do general Lorens Loewenhielm, que, nos dias da mocidade das irmãs, cortejara Martine. As
donas da casa avisaram Babette de que agora os convidados seriam doze e que um deles morara em Paris durante muitos anos. A criada alegrou-se com a notícia e assegurou-lhes que haveria comida suficiente. Para ajudá-la, trouxera um ajudante de cozinheiro de um navio atracado no porto. As senhoras não ousavam pisar na cozinha: que fogos ali ardiam antes ainda do amanhecer? Enquanto isso, fizeram o melhor que podiam para embelezar os outros domínios da casa. Temiam pelas agruras que os visitantes teriam que passar.
A neve caía lá fora. À hora marcada, os velhos Irmãos e Irmãs chegaram em pequenos grupos e entraram solenemente na sala. A recepção cordial e as lembranças que o retrato do mestre evocava aqueceram seus corações. Um velhinho puxou um dos hinos do deão, e todos o acompanharam. Isso trouxe confiança às donas da casa. Finalmente chegaram os Loewenhielm: a tia, de noventa anos, e o sobrinho, o general emproado, num uniforme que ostentava as inúmeras condecorações e o distinguia, como uma ave ornamental, em meio a um grupo apagado de corvos e gralhas negros.
O general Loewenhielm, há trinta anos sem passar pela região, vinha um tanto quanto deprimido. Voltara como que para acertar contas com o passado. Não obstante tendo obtido sucessos os mais variados, não era perfeitamente feliz. Havia um vazio em algum canto da alma que ele não conseguia identificar claramente. Ansiava por algumas respostas a perguntas incompreensíveis. Ao que parecia, depois de ter ganhado o mundo todo, receava ter perdido sua alma. O convite da tia para o jantar dava-lhe uma oportunidade de se redimir do comportamento patético que o jovem Loewenhielm tivera junto à família do deão três décadas antes. Provaria para si mesmo que naquela ocasião tomara a decisão correta. Alegrou-se ao pensar que nessa noite dominaria a conversa ao redor da mesa a que o jovem, no passado, se sentara calado.
Todos já a postos, os copos de vinho foram cheios e levados aos lábios. O general Loewenhielm, um tanto desconfiado, depois de provar e cheirar a bebida, ficou confuso: era da melhor qualidade, uma das melhores que já bebera. Passou, em seguida, à sopa. Consternação: era sopa de tartaruga, incrivelmente saborosa. Tomado de um pânico esquisito, esvaziou o copo de vinho.
Normalmente caladas enquanto comiam, naquela noite as pessoas tinham a língua solta. Revolviam o passado e de lá desenterravam muitos casos que destacavam a pessoa do deão. Quando foi servida nova iguaria, outra surpresa: era um Blinis Demidov, um prato finíssimo. Todos os comensais, no entanto, se o assunto era o paladar dos pratos, ficavam em silêncio, sem o menor sinal de surpresa ou aprovação, seguindo à risca o combinado. O
ajudante de Babette novamente encheu os copos. O general reconheceu na bebida que ora era servida um espumante raro. Não podia acreditar em seus sentidos.
Coisa espantosa: à medida que comiam, os convivas ficavam mais leves no peso e de coração. De repente, o general começou a devanear: foi transportado para um jantar inesquecível a que estivera presente, num famoso restaurante, o Café Anglais, em Paris. À ocasião, informou-se sobre o prato servido e ficou sabendo que fora inventado pelo chef-de-
cuisine do estabelecimento, uma pessoa conhecida em toda Paris como o maior gênio
culinário da época, e que era surpreendentemente uma mulher. Ela vinha transformando, na opinião de alguns, um jantar no Café Anglais numa espécie de caso de amor: “... um caso de amor de categoria nobre e romântica onde não se faz mais distinção entre o apetite e a saciedade do corpo e do espírito!” (DINESEN, 1958/1986, p. 28).
O exigente paladar do general não tardou a reconhecer no novo prato que lhe serviam à mesa das filhas do deão o Cailles en sarcophage, idêntico ao do Café Anglais de que há instantes se recordara. Enquanto isso, a conversa prosseguia animada e se desenvolvia em torno dos pequenos atos de bondade das filhas, louvados por todos. A seguir, vieram frutas frescas. Lorens Loewenhielm se levantou para fazer um discurso. Todos ficaram numa feliz expectativa.
“A Misericórdia e a Verdade, meus amigos, juntar-se-ão.” [começou ele, de um modo tão novo que o surpreendeu] “A Retidão e a Felicidade beijar-se-ão” (DINESEN, 1958/1986, p.29). Depois de uma pausa, prosseguiu:
O homem, meus amigos, é frágil e tolo. Disseram-nos a todos que a graça se encontra no universo. Porém, na nossa tolice e com a nossa visão acanhada, imaginamos que a graça divina seja finita. Por esse motivo trememos... [...] Trememos antes de fazer nossa escolha na vida e, depois de tê-la feito, novamente trememos de medo de ter feito a escolha errada. Mas chega o momento em que nossos olhos se abrem e enxergamos e percebemos que a graça é infinita. A graça, meus amigos, exige de nós apenas que a esperemos com confiança e a aceitemos com gratidão. A graça, irmãos, não impõe condições, nem destaca ninguém em especial; a graça nos acolhe a todos no regaço e proclama anistia geral. Vejam! Aquilo que escolhemos nos é dado, e aquilo que recusamos, também e ao mesmo tempo, nos é concedido. Sim, aquilo que rejeitamos é derramado sobre nós abundantemente. Pois a misericórdia e a verdade juntaram-se, e a retidão e a felicidade beijaram-se! (p.29-30).
Desse modo, depois de 30 anos, o general conseguiu dominar a conversa à mesa do deão.
Pouco pode ser dito, com precisão, do que sucedeu ao discurso do general. Os cômodos pareciam cheios de uma luz celestial. Anciãos taciturnos passaram a falar sem parar; ouvidos há anos surdos se abriram para esse dom. “O tempo em si tinha se fundido na eternidade. Bem depois da meia-noite, as janelas da casa brilhavam como ouro, e canções douradas fluíam para o ar invernal” (p.30). Duas mulheres, atualmente em discórdia, voltaram a um passado longínquo, anterior ao período em que se tinham ofendido, nos dias em que ainda caminhavam de mãos dadas pelas estradas de Berlevaag. Um Irmão socou outro nas costelas, como costumam brincar os meninos, e lembrou: “Você me passou a perna com aquela madeira, seu salafrário!” (p.30). O outro desatou a rir e misturou lágrimas ao riso. “Passei sim, querido Irmão – respondeu –, passei sim”(p.30).
Lembrando-se posteriormente dessa noite, o rebanho do velho deão percebeu como estava imerso numa graça infinita, todos com os sentidos arrebatados, pensando pouco em si mesmos. O general Lorens, à despedida, disse a Martine que estaria com ela todos os dias que lhe restavam; em espírito, sentar-se-ia para jantar com ela como naquela noite. Os convivas, compenetrados e graves luteranos, saíram alegres; qual crianças, numa espécie de segunda infância, afundavam os pés na neve, caíam de quatro e ficavam inteiramente encobertos. Momentaneamente interrompida, a nevasca voltou a cair naquela noite, e de tal forma que embranqueceu toda a paisagem, como nunca se vira em Berlevaag.
Depois que trancaram a porta, as irmãs se lembraram de Babette. Apenas a criada não tomara parte da felicidade geral da noite. Foram à cozinha e a encontraram exausta, como da primeira vez em que ali aparecera, cercada por uma infinidade de panelas negras e engorduradas. “Foi um jantar muito gostoso, Babette” (p.32), disse, em tom de agradecimento, Martine.
Passado algum tempo, Babette revelou: “Eu já fui cozinheira no Café Anglais” (p.32). Martine disse-lhe que todos se lembrariam daquela noite, depois que ela tivesse voltado para Paris. Para consternação das irmãs, ela disse que não voltaria. O que iria fazer lá? Perdera todos os seus familiares e pessoas importantes que apreciavam seus pratos. Além do mais, como voltaria sem dinheiro? As donas da casa ficaram sem entender. E os dez mil francos? Babette fez saber que haviam sido gastos: ora, um jantar para doze pessoas no Café Anglais custaria o equivalente a dez mil francos. As anfitriãs não acharam o que dizer em resposta. Isso lhes era incompreensível, aliás como muitas coisas naquela noite.
Philippa censurou amorosamente Babette por ter gasto tudo o que possuía por causa delas. Babette disse que não havia sido por causa delas, mas por sua própria causa. Era uma grande artista! “Então agora você vai ser pobre a vida inteira, Babette?” (p.34), depois de um
longo silêncio, Martine quis saber. “Pobre? – disse Babette. Sorriu, como que para si mesma. – Não, nunca serei pobre. Já lhes disse que sou uma grande artista. Uma grande artista,
mesdames, nunca é pobre. Temos algo, mesdames, que as outras pessoas desconhecem”
(p.34).
Para o artista, ela lamentava, o insuportável é ser aplaudido por fazer bem menos do que pode. O grito do seu coração era para que lhe permitissem fazer o seu máximo.
3.2.1 - A retidão e a felicidade precisam, necessariamente, beijar-se
Lorens Loewenhielm e Achille Papin estariam, de acordo com o enredo de A Festa de
Babette, mais do lado da felicidade. Se não vivendo-a de forma subjetiva, se não se sentindo
felizes, ao menos correndo na direção dela, atraídos por suas promessas. Cremos que poucos o contestariam. O primeiro drena suas forças para a ascensão profissional e social. Há uma lenda acerca de seus ancestrais que o alcança e compele ao idílio amoroso, a uma atmosfera de sonhos e relacionamentos ideais. Mas ele direciona esses desejos para uma realidade palpável, definida, arraigada no chão da história, quer deixar a sua marca, cobrir de sentido a trajetória de sua existência. Achille Papin vive enlevado com a arte, sonha com o prestígio duradouro, almeja arrebatar plateias inteiras e vê-las rendidas a um imarcescível talento.
As irmãs Martine e Philippa representariam melhor a retidão. Vivem sua fé de maneira austera, privam-se constantemente de prazeres, pequenos que sejam, dedicam a vida ao exercício da piedade e, não raro, estão às voltas com dúvidas sobre que providências tomar nesta ou naquela situação, fontes frequentes de ansiedades e aflições da alma. Contudo a irrepreensibilidade é uma marca que Berlevaag reconhece impressa no caráter das filhas do deão. Nada há que as desabone.
Nos dois cavalheiros e nas duas senhoras em que, de propósito, ora acentuamos os contornos de suas caracterizações46, encontramos uma ilustração para a moral e a ética. As duas irmãs encarnam o tema dos deveres, central para a moral. A elas se aplicaria perfeitamente a preocupação contida na pergunta “o que eu devo fazer?”. O general e o cantor tipificam bem a questão da “vida boa”, dimensão incontornável da ética. Sua preocupação suscita a seguinte indagação: “como eu devo viver?”. Fato incontestável, porém, é que ambos
46
É perfeitamente admissível reconhecer a retidão em Lores Loewenhielm e em Achille Papin. Nada há durante a narrativa que nos faça pensar o contrário. Tampouco poderíamos deixar de notar que há certo gozo e um projeto de felicidade que se consolida na inteireza da vida das irmãs. Optamos por dar cores vivas à felicidade e à retidão num e noutro caso em virtude da saliência dessas tendências nas personagens e à guisa de desenvolvermos nosso raciocínio e ilustrarmos uma preocupação importante deste estudo.
os grupos, representados pelas damas e pelos cavalheiros, ressentem-se de não gozar plenamente os auspícios da felicidade. Os cavalheiros o demonstram por um relativo vazio que o sucesso, conquistado e em vigência em um e em franca decadência e tentando se incender com as recordações do passado em outro, parece não preencher, deixando de garantir sentido ao ser. As mulheres, por seu turno, estão mergulhadas em incertezas quanto ao pastoreio da congregação pela qual se sentem responsáveis, na ausência do pai. Há como que uma crise de vocação revelada ao longo de todo o texto de Dinesen, o que acentua o caráter compulsório da moralidade, à medida que as irmãs se atiram a uma missão que a morte do pai sacramentou. Está em evidência em seu exercício piedoso diário o dever, e este é tão fundamentado que o amor e a alegria, ainda que existentes, ficam relegados a uma condição