Consideramos o operador discursivo modificador de tópico, neste estudo, como aquele item da língua que assinala entre sequências (a) e (b) encaminhamentos diferentes, isto é, não há a oposição de ideias, mas um novo direcionamento entre essas ideias, expressando uma sequência de sentidos, de ações, como podemos verificar no exemplo (179). Nesse exemplo, retirado da transcrição do corpus oral, há o emprego do já por três vezes, com a mesma função, o que coaduna com o que Risso (2002, p.40) diz sobre o agora, quando ele é empregado para sinalizar etapas do desenvolvimento de um assunto com finalidade didática, direcionada à compreensão do ouvinte. Observamos que o já, nesse exemplo, mobiliza a mesma função do agora, apresentada por Risso, pois o falante, ao comentar sobre o relatório da disciplina de prática de saúde, o faz de forma técnica, apresentando passo a passo o que ocorreu na comunidade. Para separar um evento do outro, o usuário da língua utiliza uma unidade linguística (o já), e a emprega com a função de operador discursivo modificador de tópico. Vejamos o exemplo:
(179)
E: Sobre esse projeto que você citou, comente um pouco sobre ele.
L: Bom, como eu disse antes, esse trabalho ele foi desenvolvido pela disciplina de prática de saúde coletiva e vai ser avaliado dentro dessa matéria né e... ele começo com a gente ino pro
posto de saúde da barragem.Primeiro, nosso grupo de quinze pessoas foi pro posto de saúde né e, no primero dia,a gente fez uma reunião com o professor lá, ele explico como que seria desenvolvido o projeto, o que que a gente faria e na prática mesmo nós não fizemos nada,só escutamos mesmo.(a) Já no segundo dia, na segunda quarta, que é uma vez por semana que nós vamos lá e...toda quarta-feira e na segunda quarta nós já fomos pra área de recolhimento de material, como o sangue e depois ficamos um tempo na recepção , observano como que é a recepção das pessoas no posto. (b) Aí numa outra quarta que nós voltamos lá, nós já fomos direto para o colégio, mas dessa vez nós apenas conversamos com a diretora, explicamos nosso projeto, nossa intenção, fomos com o professor lá e...na prática mesmo tamém não fizemos nada, só conhecemos a escola, onde que ela ficava, conversamos com a professora e pedimos pra ela pra desenvolver esse trabalho lá (a) Já na segunda vez que voltamos no colégio é....nós ficamos dentro da sala de aula, a diretora apresentô a gente pra nossa professora, o grupo que era de quinze pessoas foi dividido em trios e cada trio fico numa sala (b).
Aí foi só isso, eles, conhecemos alguns alunos, de vez em quando até ensinamos alguma palavra em português pra eles, que eles tinham errado na redação, mas foi mais isso mesmo, não agimos enquanto na prática da saúde coletiva mesmo(a). Já numa segunda visita, nós é....levamos cartazes para os alunos e...com tema de copa do mundo e tal e falamos com é....a professora pra levar revista pra eles recortarem, que nós queríamos que eles fizessem um cartaz pra gente sobre higiene e... (b) (M I 2).
Segundo Koch e Travaglia (1996, p. 44), os conectores são elementos da língua com função de indicar a força argumentativa dos enunciados. Eles são responsáveis pela orientação argumentativa do discurso. Para Koch (1992b, p. 29), usar a linguagem é essencialmente argumentar, orientar os enunciados produzidos no sentido de determinadas conclusões.
Afirma Ducrot (1981, p.178) que, “muitos atos de enunciação têm uma função argumentativa que objetiva levar o destinatário a determinadas conclusões ou delas desviá- lo”. (DUCROT, 1981, p.178)
Confirmamos essas observações, por meio desse exemplo (179), visto que o emprego do já como operador discursivo modificador de tópico indica uma outra ideia diferente da apresentada na sequência anterior, ou seja, (b) redireciona (a), sem contrapor-lhe. Além disso, ocorre também a comparação entre as duas sequências, o que é uma característica do já nessa função.
Assim, observamos que não há, em (179), uma oposição de ideias, mas somente uma outra orientação, uma mudança de tópico ou subtópico. Podemos considerar essa nova orientação como uma continuidade construída pelo autor, que apresenta novos relatos que se diferenciam dos anteriores. Ordena-se o texto, apontando para diferentes ações realizadas dentro do posto de saúde e da escola.
Outra observação que pode ser feita é que esse item não polemiza, como o “mas”, entretanto ele é responsável pela inserção de novas ideias, que dão continuidade ao texto, ajudando no estabelecimento da coesão e consequentemente da coerência.
Guimarães (1981, p. 98) diz que pela estrutura argumentativa o locutor especifica condições de relevância pelas quais uma frase encadeia com a outra, produzindo um texto. Ao elencar os passos do desenvolvimento do projeto: “Já na segunda vez que voltamos no colégio é... nós ficamos dentro da sala de aula”, “Já numa segunda visita, nós é... levamos cartazes para os alunos e...”, o locutor indica como o interlocutor deve ler o seu texto. O elemento linguístico é, então, estabelecido de tal forma que as frases são articuladas para tentar conduzir o leitor a uma determinada leitura, com um determinado sentido. Assim, o já possibilita a organização da sequência, instaurando uma comparação entre as ações desenvolvidas, e, ainda, salientando que essas ações desenvolvidas no projeto podem significar empenho, compromisso, seriedade e envolvimento entre o curso e a comunidade.
Finalmente, observamos em (179) que o locutor para atingir os seus objetivos como, por exemplo, apontar o compromisso com a comunidade, deve conhecer o seu interlocutor e a partir desse conhecimento, escolher, pela linguagem, o caminho mais eficaz, para conquistar a adesão dele.
No próximo exemplo (180), trazemos Arruda-Fernandes (1996, p. 23) que diz que há usos diferentes de conectores para textos orais e escritos, já que esses textos possuem diferentes objetivos. Essa afirmação coaduna com o que encontramos em nosso estudo, pois, de acordo com os dados, o já foi mais empregado como operador discursivo em textos escritos, com 22,70% de ocorrências do que em textos orais com 0,70% e o seu uso foi mais recorrente em textos acadêmicos como artigos científicos e dissertações (Cf ex. 180). Embora não tenhamos tomado os gêneros como uma das variáveis a observar, não podemos deixar de registrar o fato que constatamos de que o uso do já nas funções de conector de contrajunção e operador discursivo é bem frequente nos gêneros acadêmicos escritos (teses, dissertações, artigos científicos, etc. – Não trabalhamos com gêneros acadêmicos orais). Nossa hipótese é que isto acontece tendo em vista que nesses gêneros é comum a passagem de uma posição de alguém para outra posição sobre um mesmo fato, o que implica tanto uma simples apresentação para comparação das posições (operador discursivo modificador de tópico), quanto em alguns casos uma oposição entre elas (conector de contrajunção). Isto seria sem dúvida consequência de uma harmonização entre o que esses gêneros fazem em seu funcionamento textual discursivo em nossa sociedade, ou seja, suas funções e objetivos e as características funcionais do item em foco: já.
(180)
assim será para os megaproblemas. Em que sentido isto pode ser concretizado? A construção da resposta a esta questão exige que se faça uma
inferenciação a partir da informação do texto: a mobilização das pessoas é capaz de reverter as piores situações.
O aluno A07 respondeu “na falta de emprego e de dinheiro”. Não ocorreu,
nesta resposta, nenhuma ligação entre a pergunta e o que o aluno propõe.(a) Já o aluno A08 diz “nas mobilizações que seriam divulgadas pela população”; encontramos a ligação entre a PL mobilização e CM trabalho da população, mas faltou complementar; como fazer a mobilização.(b) Já o aluno A22 respondeu: “Isto pode ser concretizado no sentido de todas as pessoas se conscientizarem de que o seu próximo precisa de ajuda para melhorar as condições econômicas”. Nesta resposta, encontramos a construção da inferência, com estabelecimento de paralelos. Aqui, a palavra fundamental é conscientização. PL encontrar soluções, CM – conscientização, In- as pessoas serão ajudadas – melhorarão de vida [...].
A resposta à questão deve estar ligada à PL “boné deste time” e “papéis de embrulho” “pacotes” “embalagens”. CM valorização da matéria, In- as pessoas não se preocupam com o conteúdo, mas com a aparência.
O aluno A16 respondeu que “boné do Lakers dura mais tempo”; ele construiu uma ligação entre PL boné dos Lakers e um CM não explícito, que seria “produto importado é melhor” e construiu a In- dura mais tempo. Embora seja uma resposta ligada à materialidade, não corresponde à direção inferencial que o autor propõe. (a) Já o aluno A13 diz que “os períodos estão ligados à idéia do marketing e da propaganda.” Este aluno utiliza–se da PL “pouco importa o que significa Lakers e pacotes e embalagens”, faz a ligação com CM o que ele vê em propagandas é a exterioridade dos objetos e constrói a In- marketing e propaganda infere que há superficialidade, quando fala em marketing e propaganda, mas não amplia o sentido de que propaganda é uma forma de alienação (T E 17).
Esse texto é uma dissertação de mestrado e contém 18 ocorrências do já como operador discursivo. Esse uso se justifica primeiro pelo tipo de texto, dissertativo, que tem como objetivo levar o interlocutor a refletir acerca de um tema (TRAVAGLIA, [2003] 2007, p. 103), o que demanda o uso de um item que possibilita a apresentação ou o confronto de novas posições assegurando essa reflexão; segundo porque faz parte desse texto acadêmico, especificamente uma dissertação de mestrado, o jogo de ideias que apontam para diferentes análises, como foi o caso: a autora vai delineando a sua análise apontando para os resultados obtidos, isto é, aluno AO7 teve um determinada resposta que se enquadrou em determinada teoria, já o aluno A22 apresentou uma outra resposta que faz parte de um outro suporte teórico e assim por diante.
Observamos, então, que esse excerto possui as características de um texto dissertativo como: o interlocutor posiciona-se como um ser pensante, que raciocina, que faz relações entre as posições dos alunos A07, A22 e A13; que há o uso de verbos no tempo presente: “encontram”, “exige”, “infere”, etc.; que há também simultaneidade das situações (o tempo de ocorrência no mundo real, em sua sucessão cronológica) e ainda a indiferença da coincidência entre o tempo da enunciação e o referencial, podendo o da enunciação ser posterior, simultâneo ou anterior, no caso simultâneo (TRAVAGLIA, [2003]2007, p. 103).
Observamos também que o já como operador discursivo possui outras subfunções como detalhar o que foi dito anteriormente, retomar o subtópico, particularizando-o. Entretanto, esse refinamento de análise fica como sugestão para uma outra pesquisa.