Os processos de decupagem e síntese auxiliaram na etapa posterior, realizada de janeiro a junho de 2012, em que as animações foram observadas sob uma perspectiva de decifrar alguns discursos veiculados aos espectadores. Essas narrativas atuam na construção de discursos morais, éticos, sociais, culturais e, consequentemente, na formação de identidades. Para alcançarmos tais fins, procuramos entender “como os filmes, enquanto uma linguagem, produzem significados” (KINDEL, 2003, p. 40). Por isso, o método da decupagem, com utilização de alguns códigos e linguagens específicos do cinema – como enquadramentos e ângulo de visão – foi imprescindível.
Os dados coletados e as análises realizadas durante todo o processo de investigação estão descritos e detalhados nos capítulos 3 e 4, permeados por discussões e
21 APÊNDICE F – Síntese do filme Up: Altas aventuras e APÊNDICE G – Síntese do filme Como treinar
fundamentação teórica que, articuladas, compõem os resultados desta pesquisa, que busca entender como a mídia – especialmente a cinematográfica – atua na formação da identidade infantil por meio dos discursos disseminados em seus artefatos.
CAPÍTULO 3
O FILME UP: ALTAS AVENTURAS
O filme Up: Altas aventuras é uma produção norte-americana, gênero de animação, produzido pelos estúdios da Pixar e Disney. Foi lançado nos Estados Unidos em 29 de maio de 2009 e no Brasil em quatro de setembro de 2009. No ano de 2010 concorreu ao Oscar em cinco categorias: melhor Animação, melhor Trilha Sonora Original, melhor Roteiro Original, melhor Edição de Som e melhor Filme, sendo vencedor nas categorias de melhor animação e melhor trilha sonora original22.
A sinopse original da produção está transcrita a seguir:
Carl Fredricksen, um vendedor de balões aposentado, é parte rabugenta, parte sonhador e está preparado para sua última chance de diversão nas alturas. Amarrando milhares de balões à sua casa, Carl parte em direção ao mundo perdido dos seus sonhos de infância. Sem seu conhecimento, Russell, um ansioso explorador da natureza de oito anos, que nunca se aventurou além do seu quintal, está no lugar errado e na hora errada: na varanda da casa de Carl! A dupla mais improvável do mundo alcança outros horizontes e conhece amigos fantásticos como Dug, um cachorro com uma coleira especial que lhe permite falar, e Kevin, um raro pássaro de 3,5 metros que não voa. Preso na floresta, Carl percebe que de vez em quando as maiores aventuras da vida não são aquelas que você sai procurando [Sinopse do filme apresentada na contracapa do DVD – versão brasileira].
O intervalo de tempo em que a sinopse se baseia é o mais alegre e movimentado da produção fílmica – uma estratégia de endereçamento, uma vez que é também por meio da sinopse que os espectadores conhecem e consomem o produto em questão. Talvez por isso, o trecho, anteriormente transcrito, não apresenta todos os personagens da trama, estando ausente aqueles que fazem parte da infância do personagem principal e são fundamentais para o despertar do seu desejo de aventura – concretizado na velhice. A seguir, fazemos a nossa caracterização dos personagens principais:
Carl Fredricksen é apresentado em duas fases da vida: a criança e o idoso (nesta última passa a ser chamado de Sr. Fredricksen). Na idade infantil, Carl é um garoto tímido e muito entusiasmado com a aventura, por isso seu maior ídolo é o explorador Charles
22
Muntz. O menino sonha em poder realizar suas aventuras voando em um dirigível (como faz Muntz), mas enquanto seu sonho não se realiza, voa em sua imaginação. Já a fase de adulto e idoso é representada como um homem dedicado ao trabalho e à esposa Ellie, por quem é apaixonado. Porém, ele perde sua alegria e desejo de ser um explorador com a morte da companheira, tornando-se o Sr. Fredricksen triste e amargo. Além da situação de viuvez, o desaparecimento do bairro residencial para dar lugar aos edifícios, submete o personagem a uma nova forma de vida na qual ele mantém pouco contato com outras pessoas e é extremamente apegado às memórias do passado feliz, tornando-se um homem triste e amargo. Tais características de sua personalidade são abandonadas quando ele depara-se com a possibilidade de perder sua casa – o arcabouço de suas memórias felizes – o que o faz retomar suas identidades infantis arriscando-se, novamente, à aventura e a emoção.
Ellie é apresentada com a mesma alegria e euforia pela vida em todas as fases da vida: da infância à velhice. Quando criança é uma menina extremamente falante, ativa e curiosa e são essas qualidades (juntamente com sua paixão por Muntz e seu desejo de explorar o mundo) que conquistam o coração de Carl. Quando adulta é mais centrada, mas não perde a paixão pela vida e o amor e dedicação pelo esposo Fredricksen.
Charles Muntz é um cientista e aviador apaixonado por seus cães, pela exploração e pela aventura. Passa a vida viajando em um dirigível projetado e construído por ele mesmo, buscando curiosidades científicas em várias partes do mundo e desenvolvendo técnicas que melhorem o conforto dos cães viajantes. Adora um desafio e não gosta de ser desacreditado. Sua fama desperta a admiração de muitas pessoas, inclusive de Carl e Ellie. É um homem ambicioso, capaz de fazer mal aos outros quando se sente ameaçado ou quando tem a chance de realizar uma conquista.
Russell é a caracterização do estereótipo da criança da sociedade contemporânea: medrosa, obesa, carente em relação à figura paterna – que no caso dele, nunca está presente em suas atividades e conquistas. É também um garoto que almeja ser um grande defensor da natureza, e o faz por meio de um grupo de escoteiros, com o qual ele busca desenvolver sua autonomia e alcançar seus sonhos – tendo estes bem definidos. Mostra-se carinhoso, companheiro, curioso e atrapalhado.
No filme, a vida de Carl Fredricksen é apresentada no início da produção, deslocando-se de sua infância, passando pela juventude, fase adulta até a velhice. Nos
interessa analisar a articulação entre Carl criança e Sr. Fredricksen idoso, pois é o ponto chave para entendermos como as memórias e raízes culturais – produzidas nessa primeira etapa da vida – influenciaram decisões, alegrias e amarguras na fase final da existência do personagem principal do filme. Focamos também nossa análise na fase em que o personagem já idoso sai em busca das aventuras sonhadas na infância, uma vez que nessas sequências do filme observamos como são tratadas as questões relativas à natureza.
Por meio da caracterização dos personagens e utilizando-nos das decupagens e síntese do filme, iniciamos nossas análises a partir da observação da importância do cinema para o espectador infantil. Ressaltamos como o próprio filme, em seus discursos, analisa tal temática uma vez que insere o filme dentro do filme23. Isso ocorre porque a animação Up: Altas aventuras, inicia pela projeção de um documentário assistido pelo personagem principal, Carl Fredricksen, na tela do cinema, melhor vislumbrado na cena:
Recorte de um dirigível grafado Spirit of Adventure, na porção superior da cena dirigindo-se da porção direita para a esquerda. Na porção inferior da cena há a imagem de duas casas. A imagem vai se afastando para um Plano Geral mostrando que todas as cenas anteriores eram vistas em uma tela de cinema (filme projetado em branco e preto), cercada nas laterais por cortinas vermelhas e pilastras douradas da altura da tela. A cena continua se afastando da tela do cinema mostrando na porção inferior os espectadores. O público é constituído por adultos, exceto a cadeira da primeira fila, na porção central, onde é possível vislumbrar apenas algumas mechas de cabelo de um indivíduo bem pequeno (uma criança). Plano detalhe da luz do projetor do cinema na porção inferior esquerda. A “câmera” é deslocada para baixo, mostrando o público do filme. Surgindo da porção inferior, na posição da reta vertical, em sentido ascendente, surge uma criança com chapéu e óculos de aviador na cabeça. Olhos azuis fixos para cima (na tela do cinema), cercados por um par de óculos preto e grande, de formato quadrado. Os olhos arregalados e a boca entreaberta lhe dão uma expressão de admiração. O garoto move a cabeça para sua direita, sem perder sua expressão e sem desviar os olhos do seu foco. Logo após move, lentamente, a cabeça da direita para a esquerda, seguindo o movimento de algum objeto mostrado no filme.24
23
Cabe ressaltar que tal abordagem somente foi possível de ser analisada nesta produção cinematográfica, uma vez que o filme Como treinar seu dragão, não apresenta a mesma temática – o filme dentro do filme e as interferências do mesmo sobre o personagem-espectador.
O menino Carl é intensamente envolvido pelo personagem principal do “documentário”: Charles Muntz. Todas as temáticas desenvolvidas ao longo do filme (algumas analisadas neste capítulo), se desenrolam em torno desse primeiro contato do personagem-espectador infantil com uma figura representativa nos meios midiáticos.
O renomeado cineasta Eduardo Coutinho (1997) ressalta que o documentário americano possui características bastante marcantes, sendo uma delas a projeção de imagens “como se aquilo que estivesse acontecendo fosse absolutamente real” (p. 167). Porém ele alerta para o fato de que o documentário não é a “filmagem da verdade” e sim a “verdade da filmagem”, que Coutinho descreve como sendo:
A verdade da filmagem significa revelar em que situação, em que momento ela se dá e todo o aleatório que pode acontecer nela. Há mil formas de mostrar isso, desde a presença da câmara, do diretor, do técnico de som, até a coisa sonora da troca de palavras, incluindo acidentes que aparecem […]. Então isso daí é importantíssimo porque revela a contigência da verdade que você tem, entende? É uma contigência que revela muito mais a verdade da filmagem que a filmagem da verdade (COUTINHO, 1997, p. 167).
O filme exibe um documentário que explora a “verdade da filmagem” cuja intenção é ressaltar as qualidades do explorador Muntz. Dentro do cinema, a animação cinematográfica mostra o quanto o personagem Carl parece ser passivo aos objetivos almejados pela produção do documentário, uma vez que acredita na boa fé do naturalista e o admira.
Carl é apresentado ao espectador como uma criança tímida que não troca uma única palavra com Ellie na fase da infância. Essa atitude é observada e comentada pela própria menina: “Você é muito caladão”25 (Ellie). Ao mesmo tempo vive mergulhado no seu mundo de imaginação: “Aí está Charles Muntz pilotando seu famoso dirigível. Sobrevoa o Pico Pikes. Sobrevoa o Grand Canyon. Sobrevoa o Monte Everest. Ele dá a volta ao Monte Everest. Não há nada que ele não consiga fazer.”26 (Locução em off narrando as aventuras do Carl enquanto as imagens mostram-no caminhando pela rua, vencendo obstáculos como pedras, rachaduras na calçada e tronco de árvore).
25 Apêndice A: Decupagem – Up: Altas Aventuras – Trecho 1 (SEQ98). 26 Apêndice A: Decupagem – Up: Altas Aventuras – Trecho1 (SEQ28-31).
Toda essa imaginação e entusiasmo do garoto são motivados pela admiração do personagem à figura de Charles Muntz, em quem ele se espelha a ponto de se vestir como o ídolo, estando sempre com chapéu e óculos de aviador na cabeça. As peças usadas pelo menino – chapéu e óculos de aviador – são iguais às usadas por Muntz e esse uso pode ser uma tentativa de se enquadrar no mesmo grupo da figura idolatrada. Dimbleby e Burton (1990, p. 60) propõem que a forma de vestir é um tipo de comunicação não-verbal que serve para revelar a personalidade, a posição social, o status e o trabalho das pessoas apresentadas. Os autores complementam que as “vestes assinalam também a identidade das pessoas e de certos grupos”.
Vale registrar que algumas atitudes do personagem Carl repetem as atitudes de Muntz:
Muntz em Plano Médio leva suas mãos até os óculos de aviador sobre a cabeça e os coloca sobre os olhos. Em seguida ele ergue a mão direita até a altura do queixo, mantendo o braço bastante esticado, e estende o polegar. Carl em Plano Inteiro repete o movimento de Muntz: leva as mãos até os óculos de aviador que estão sobre a cabeça, os coloca sobre os óculos de grau e ergue o polegar da mão direita até a altura do queixo.27
Partindo da ideia proposta por Hall (2003) de que identidade é uma (ou várias) postura(s) e posição(ões) que se assume(m) em determinado contexto social, cultural e histórico, é possível observar que muito da identidade infantil de Carl baseia-se na representação que ele adquire da figura de Charles Muntz e, por isso, a tentativa de se assemelhar ao ídolo.
Bortolazzo (2011, p. 5) também destaca a importância da identificação e representação na formação identitária do sujeito:
no universo de crianças e adolescentes, a identidade geradora de aglutinados ao redor de modismos, estilos, comunidades virtuais, celebridades, implica um ethos, ou seja, um 'eu' pertencente a um determinado grupo, mesmo que de forma passageira. E do ponto de vista identitário, o pertencimento torna-se o principal vetor de sociabilidade desse universo.
Foi durante essa busca por ser como o ídolo que o garoto tem seu primeiro contato com a menina Ellie – que se torna sua esposa na fase de juventude no filme – uma vez que o personagem percebe que ambos possuem os mesmos desejos, admiração e expectativa frente à figura do explorador Muntz:
A menina […] usa chapéu de aviador na cabeça e óculos de aviador sobre os olhos28;
A imagem desloca-se para Carl enquanto ele se vira de frente para a parede [...]. Nesta há vários recortes de reportagens jornalísticas sobre Muntz. Carl mantém os olhos arregalados e um leve sorriso na boca, em uma expressão de alegria29 [imagens de Carl admirado ao descobrir o
esconderijo de Ellie com todos os objetos que ela mais prezava incluindo as informações sobre Muntz].
Carl e Ellie tornam-se amigos e, posteriormente, um casal. Apesar das responsabilidades da vida adulta, o desejo de se aventurarem como exploradores, viajando para o Paraíso das Cachoeiras30, conserva-se forte em suas memórias tornando-se uma ideia fixa para eles. Ou seja, parte da identidade infantil – formada a partir das observações e identificações com uma figura real difundida pelo cinejornal – permanece e acompanha a vida adulta de ambos os personagens.
Apesar desse destaque à infância de Carl e Ellie, a maior parte do filme é focada na fase de velhice do personagem (agora chamado de Sr. Fredricksen). Nessa fase percebemos como o Sr. Fredricksen e Ellie conseguiram manter em suas vidas, os sonhos da infância, a vontade de se tornarem exploradores como Muntz e viajar para o Paraíso-das-Cachoeiras. Manter o sonho da infância permitia que vivessem um mundo à parte, conservando seus pertences infantis e, de alguma maneira, a vida familiar ficava protegida das mudanças culturais ocorridas na sociedade no período da juventude à velhice dos personagens.
Mas essa redoma de conforto foi quebrada com o falecimento da esposa, abrindo as portas da residência e da vida do personagem às transformações impostas pela cultura
28 Apêndice A: Decupagem – Up: Altas Aventuras – Trecho 1 (SEQ41). 29 Apêndice A: Decupagem – Up: Altas Aventuras – Trecho 1 (SEQ44).
30Local considerado inóspito sendo possível de ser explorado apenas pelo corajoso Muntz: “Escondido perto
do majestoso Paraíso das Cachoeiras, tem plantas e animais que ainda não foram descobertos pela Ciência. Quem se atreveria a colocar os pés nesse pico inóspito? Ora, aquele que será o nosso tema de hoje, Charles Muntz!” – Apêndice A: Decupagem – Up: Altas Aventuras – Trecho 1 (SEQ4-6).
contemporânea. Por isso, na etapa de viuvez, o personagem torna-se um homem triste e amargo, que se vê obrigado a viver sozinho e não aceita essa nova situação, mantendo contato com a esposa por meio de conversas imaginárias, em uma tentativa de manter viva a presença de Ellie, comprovado nos monólogos: “Ah, que vista, hein Ellie?”31 e “O que
eu faço agora Ellie?”32 (Sr. Fredricksen). O resgate à memória da companheira parece ser uma tentativa de mantê-lo conectado não somente à esposa, mas também à vida tranquila que eles criaram juntos – tão diferente do mundo agitado que lhe é imposto e tenta obriga- lo a adaptar-se.
O personagem Sr. Fredricksen tenta manter Ellie próxima garantindo-lhe também a posse sobre objetos e bens: “Ah! Sim! Diga ao seu patrão ali... que eles estão destruindo a nossa casa.”33 (Sr. Fredricksen – grifo nosso – ao conversar com um dos funcionários da obra de construção civil que se aproxima para perguntar se pode ajudar o idoso de alguma forma). Ele também não se desfaz de alguns objetos da esposa ausente, mantendo-os nos exatos locais que estariam caso a mesma estivesse ainda viva, mostrado nas cenas transcritas a seguir:
Sr. Fredricksen [...] está sentado em uma poltrona – no interior da casa. […] Na porção direita do quadro há uma poltrona vazia.34 [Sr.
Fredricksen assiste televisão sentado na poltrona localizada ao lado da poltrona da esposa – como faziam quando ela estava viva]
Na porção esquerda da cena há o recorte de um portal que deixa à mostra outro cômodo. Neste há um tapete azul com as bordas rosa e, sobre ele, uma poltrona na cor clara, com estampa marrom. Na frente da poltrona está um apoio para os pés na cor clara com estampa marrom, sobre o qual há dois livros 35 [cena retratando os objetos de Ellie nos locais em que ela
os deixou antes de morrer: a poltrona vazia de frente para o apoio de pés onde ela deixara dois livros].
Mas o bem material que o liga mais fortemente ao passado é a sua casa – local físico onde ele guarda todos os objetos e memórias da infância e da vida construída ao lado
31 Apêndice B: Decupagem – Up: Altas Aventuras – Trecho 2 (SEQ7). 32 Apêndice B: Decupagem – Up: Altas Aventuras – Trecho 2 (SEQ109). 33 Apêndice B: Decupagem – Up: Altas Aventuras – Trecho 2 (SEQ14-15). 34 Apêndice B: Decupagem – Up: Altas Aventuras – Trecho 2 (SEQ27). 35 Apêndice B: Decupagem – Up: Altas Aventuras – Trecho 2 (SEQ112).
de Ellie. Por isso, o Sr. Fredricksen não aceita vender a residência e mudar-se, mesmo quando se encontra ilhado no interior de uma construção civil, como comprovado no enunciado do próprio personagem ao responder ao responsável (Mestre de Obras) da construção sobre a venda do imóvel: “Diz para o seu patrão que ele pode ficar com a nossa casa. […] Quando eu morrer!”36 (Sr. Fredricksen).
A animação poderia desenrolar-se toda sobre a história das rabugices do Sr. Fredricksen, que no início da produção, mostra-se – apesar da tristeza, amargura e confronto – já conformado a passar o restante da vida localizado em um espaço no qual ele não se reconhecia como pertencente.
Na metade do filme, o Sr. Fredricksen é inserido em novas tensões: além da pressão por se adaptar, “sozinho”, à sociedade globalizada, o homem é judicialmente obrigado a deixar sua casa e morar em um asilo.
O contato com tantas possibilidades e exigências de transformações, insere o personagem em um local de fronteira: ele quer manter suas raízes culturais, suas memórias e seu passado, ao mesmo tempo em que é deslocado para as novas exigências do modo de vida contemporâneo. Esse espaço de tensão faz com que o Sr. Fredricksen perca o seu local de pertencimento, pois já não consegue identificá-lo puramente nas características e lembranças do passado.
Nesse momento, ele permite um movimento de reencontro consigo mesmo, que leva o Sr. Fredricksen a buscar atravessar a fronteira em um deslocamento de busca por si mesmo – percebido nas tentativas de se reconstruir, retomando o desejo (perdido na viuvez) pela aventura que era tão evidente na infância e juventude.
Nesse instante de confronto/tensão, o Sr. Fredricksen decide resgatar a alegria e o espírito aventureiro, partindo para sua última aventura: morar no Paraíso das Cachoeiras. Porém, como suas memórias não podem ser abandonadas, ele leva nessa peripécia, além do baú que guarda todo o seu passado, a própria casa onde conheceu e viveu com Ellie:
A casa sai do chão e, ao mesmo tempo, os dois homens dão um passo para trás – aproximando-se do espectador. A imagem aproxima-se da casa – perdendo o foco nos dois personagens – enquanto essa pega vôo em sentido ascendente. A casa é focalizada em um ângulo de visão inferior. […] Imagem da casa – porção inferior do quadro – sendo
carregada pelos balões de gás – porção superior da cena. Aquela está ligada a estes por fios brancos.37
Essa tentativa do Sr. Fredricksen por manter vivas as memórias e raízes é uma busca por negociar o seu local de pertencimento, que ele já não reconhece em sua casa sem a presença da esposa (personagem Ellie) e ilhada em uma moderna construção civil,