6. DISCUSSION
6.4 I N WHAT WAY ARE THE WOMEN EMPOWERED BY PMV?
A segunda etapa da pesquisa, realizada de outubro a dezembro de 2011, deteve-se no processo de decupagem. Os filmes foram vistos integralmente inúmeras vezes, com atenção para os temas mais abordados em cada animação; destaque com que cada temática
era evidenciada; conjuntos de cenas em que as questões ambientais e de identidade cultural – temáticas selecionadas para análise no presente estudo – eram marcantes.
A partir das análises feitas por meio da observação integral dos filmes, selecionamos algumas sequências – de maior relevância para o trabalho13 – das produções, para que pudessem ser bem analisadas. Submetemos tais trechos ao processo da decupagem, conforme GUIDO; BRUZZO (2008). De acordo com essas autoras, durante o processo de decupagem devemos estar atentos às imagens (destacando os enquadramentos) e à banda sonora (especialmente aos recursos como uso de música, locução, onomatopeias, falas).
O uso da decupagem busca fragmentar as imagens e os sons para melhor observá- las, porque segundo Duarte (2002):
o cinema tem a seu dispor infinitas possibilidades de produzir significados. Tudo depende do modo como são combinados luz e sombra, velocidade da câmera, captura dos espaços, ângulos de filmagem e, acima de tudo, da seqüência temporal em que os planos (imagens entre dois cortes) são organizados na montagem (Duarte, 2002, p. 37).
Figueiredo (2005, p. 31) define decupagem como “o conjunto de procedimentos envolvendo as práticas de montagem, de trabalho de câmera e de sonorização que promovem a aparência de continuidade espacial e temporal”.
Durante a realização da etapa de decupagem foi dada atenção aos elementos da linguagem do cinema de animação detalhados por Shirayama (2006) – como enquadramento dos objetos, ângulo da câmera e movimentação dos personagens. Segundo Kindel (2003, p. 57) é importante a observação e uso de tal linguagem porque “existem técnicas da própria construção da produção cinematográfica que possibilitarão dar determinado efeito à cena ou ao personagem”.
Não sendo possível fazer a decupagem de todo o filme14, foram selecionadas algumas sequências. Assim procedendo, o filme Up: Altas aventuras (Pixar / Disney, 2009) foi decupado em duas partes, sendo que a primeira aborda as temáticas relativas às
13 Trechos dos filmes em que as temáticas – ambientais e de identidades culturais – eram abordadas mais profundamente.
14 A decupagem de todo o filme também não era o foco de interesse dessa pesquisa, já que nem todas as situações narradas seriam, por nós, analisadas.
construções culturais mediadas pelo cinema. A segunda parte abrange algumas relações sociedade natureza: busca por encontrar o local de pertencimento no mundo, articulando as memórias e raízes culturais às exigências do mundo contemporâneo; tentativa de fuga do meio urbano, voltando-se ao meio natural.
No filme Como treinar seu dragão (DreamWorks, 2010) foram selecionados três trechos sendo que o primeiro e o segundo narram discursos pela busca de inserção do indivíduo na sociedade; e o terceiro aborda relações conflituosas e romantizadas com o ambiente, especialmente no processo de domesticação de “animais selvagens” – dragões, seres mitológicos.
Reforçamos que a decupagem consiste em ver e rever inúmeras vezes cada cena dos trechos selecionados. Para tanto foram pausados e observados detalhadamente, com o intuito de descrever os elementos que compunham a imagem e o som da mesma. Tal processo é extremamente importante para que não somente os diálogos dos personagens pudessem ser notados, mas todo o contexto em que tais enunciados eram narrados uma vez que “há muito mais numa conversação do que simplesmente pronunciar palavras e ouvi- las. O exato significado do que se diz dependerá, em particular, […] de outras manifestações não-verbais que acompanham as palavras” (DIMBLEBY; BURTON, 1990, p. 63).
É importante ressaltar que optou-se pela versão dublada dos filmes – uma vez que é assim que as crianças brasileiras15 os assistem. Para a descrição dos sons, além da narração utilizamos também a opção de legenda em português. Porém, quando havia discordância na narração e na legenda, optamos pela narração.
Visando desestruturar cada cena, utilizamos os conceitos de enquadramento dos objetos e personagens para melhor olhar e compreender as cenas e sequências. Segundo Shirayama (2006, p. 44):
Além de localizar espacial e temporalmente o universo da ação, o desenhista também pode organizar a distribuição das imagens orientando a leitura da narrativa. Seguindo as técnicas de enquadramento, o recurso do “narrador-câmera” da imagem técnica serve como direcionador da ação e da escolha. Os tipos de enquadramento realçam os elementos que
15 Temos que trabalhar sobre a perspectiva da linguagem e cultura das crianças brasileiras uma vez que nós pesquisadoras, estamos inseridas do mesmo contexto cultural e linguístico.
se deseja ressaltar na narrativa, atribuindo, muitas vezes, diferentes sentidos às partes que compõem a narrativa.
Nessa perspectiva fizemos uso dos seguintes tipos de enquadramento: plano geral, plano total, plano inteiro, plano médio, plano americano e plano detalhe, além dos ângulos de visões pelos quais os personagens são observados: ângulo frontal, ângulo superior e ângulo inferior (SHIRAYAMA, 2006, p. 44).
Detalhando cada um dos enquadramentos, temos: plano geral: engloba todo o cenário e os personagens, melhor localizando-os; plano total: o personagem é focado de corpo inteiro; plano inteiro: o foco no personagem se dá dos ombros para cima; plano médio: a cena retrata o personagem da cintura para cima; plano americano: personagem focado dos joelhos para cima; plano detalhe: foco especial em um detalhe bem próximo de um objeto ou personagem dentro da cena.
Já os ângulos de visões podem ser assim explicados: ângulo frontal: o personagem é observado de frente para o espectador; ângulo superior: o personagem é observado abaixo do espectador, como se este pudesse focá-lo de um ângulo acima da cena onde a ação ocorre; ângulo inferior: o personagem é observado acima do espectador, como se este pudesse focá-lo de um ângulo abaixo da cena onde a ação ocorre. Além desses ângulos de visão, citados em referenciais teóricos, acrescentamos: ângulo de visão lateral: quando o personagem se mantém de lado para o espectador; e “de costas para o espectador”: quando o personagem está voltado para o fundo da cena, não sendo possível que o espectador veja seu rosto e a região frontal de seu corpo.
Duarte (2002, p 42), descrevendo algumas das principais linguagens cinematográficas e seus elementos de significação, ressalta que
o ângulo de filmagem é um componente importante desse sistema de significação. Filmar uma pessoa de baixo para cima, contribui para acentuar sua posição de poder na trama, ao passo que as tomadas feitas de cima para baixo podem produzir uma impressão de submissão e amesquinhamento.
Quanto à posição e movimentação dos personagens e objetos dentro do quadro, utilizamos os conceitos do pintor Wassily Kandinsky, abordados por Shirayama (2006). O referido artista criou um quadro contendo o que ele chama de tensões e linhas principais. Tal quadro é denominado plano básico de Kandinsky (Figura 1). Fazendo uso deste plano como modelo, empregamos a seguinte linguagem: a reta vertical (8) marca o limite entre as
porções esquerda e direita do quadro. A reta horizontal (7) demarca as porções superior e inferior. A linha (5) é chamada descendente ou diagonal dramática; em contrapartida, a linha (6) é denominada ascendente. O ponto onde todas as linhas se cruzam é visto pela autora da seguinte forma: “O centro do quadro é a posição de solidez, equilíbrio e harmonia, de algo perfeitamente posicionado e inabalável” (SHIRAYAMA, 2006, p. 53).
Figura 1: Plano básico de Kandinsky
Em relação ao som, descrevemos as narrativas dos personagens antecipadas por seus nomes. Quando o enunciado era realizado por um personagem secundário – cujo nome não era apresentado – o indicávamos por uma referência, por exemplo: homem 1, homem 2, mulher, menina. Quando a narração era feita por um narrador que não participava diretamente da ação, a especificação da narrativa era feita pela expressão locução em off.
A trilha musical, em ambos os filmes, era instrumental e foi descrita de acordo com os efeitos sentimentais que tais composições despertam no espectador – música calma, agitada, alegre, triste, animada, de suspense etc. Duarte (2002, p. 47) destaca que “o som não-diegético – a trilha musical – é, em geral, utilizado para amplificar o estado emocional, para reforçar as emoções que se espera que determinada cena 'provoquem' no espectador”. Cabe ressaltar que o som não-diegético é a composição sonora de um filme composta apenas por música (instrumental e/ou cantada), excluindo as narrativas dos personagens e as onomatopeias que indicam o ruído de certos objetos.
O filme Up: Altas aventuras foi decupado, como já citado, em duas partes distintas. A primeira parte16 teve início com 58 segundos de filme e fim com sete minutos e 20 segundos, resultando uma decupagem de seis minutos e 28 segundos de duração. O segundo trecho17 teve início aos 13 minutos e 22 segundos da produção e terminou aos 23 minutos e 42 segundos, concluindo uma observação de dez minutos e 20 segundos de filme. As duas decupagens somam um total de 16 minutos e 48 segundos de intervalo de filme analisado.
O filme Como treinar seu dragão foi decupado em três partes. A primeira parte18 teve início aos 32 segundos e término aos nove minutos e 27 segundos, resultando em oito minutos e 55 segundos. O segundo trecho19 teve início aos 11 minutos e 32 segundos, terminando aos 15 minutos e dez segundos, totalizando quatro minutos e 35 segundos. A terceira sequência20 teve início aos 20 minutos e quatro segundos e fim aos 21 minutos e 57 segundos, retomando aos 27 minutos e 43 segundos até os 33 minutos e 13 segundos, com duração de sete minutos e 23 segundos. A decupagem integral foi realizada em um intervalo de 20 minutos e 53 segundos da produção. Contudo, a fim de enriquecer nossas análises, outras sequências dos filmes foram utilizadas. Para melhor descrever tais sequências, fizemos uso do método de síntese dos filmes.