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Os recursos, quer laborais quer pessoais, que os trabalhadores dispõem são essenciais tanto para a origem como para o desenvolvimento dos riscos psicossociais, particularmente do stresse ocupacional.

Stevan Hobfoll, Professor do Departamento de Psicologia da Kent Stat University, Estados Unidos, desenvolveu, em 1989, em dois artigos (Hobfoll, 1989; Hobfoll et al., 2001), uma teoria inovadora sobre o stresse, em que os recursos assumem um papel central. A Teoria da Conservação de Recursos apoia-se no modelo transaccional de stresse de Lazarus e Folkman, de interacção dinâmica indivíduo-ambiente. Contudo, veio procurar suplantar a visão dominante do stresse destes dois autores, que pese

embora dizerem que o stresse não reside nem na situação nem no indivíduo, mas na transacção entre o indivíduo e a situação, tem sido criticada por ser considerada demasiado individualizante, ao valorizar mais, em alguns casos exclusivamente, o indivíduo em detrimento do ambiente, os factores individuais mais que os factores colectivos.

A Teoria da Conservação de Recursos pretende, por isso, ser uma teoria do stresse alternativa, considerando, em partes iguais, os aspectos do ambiente e dos indivíduos. O postulado fundamental desta teoria é que os indivíduos são motivados «para obter, manter, proteger e desenvolver os recursos que eles valorizam; que o que é ameaçador para eles é a perda actual ou potencial destes recursos (Hobfoll, 1989, p. 516; 1989, p. 55). Para Hobfoll, contudo, quer a avaliação quer as respostas resultam mais de processos colectivos do que de particularidades individuais, estão ligadas a modelos sociais operatórios (Hobfoll, 1998). O seu modelo pretende ser uma alternativa menos individualizante e mais social do stresse (Gamassou, 2004).

Por recursos, entende Hobfoll (1998, pp. 45 e seg.), os elementos materiais, financeiros, as condições ou situações, as características pessoais ou as energias às quais se atribui valor e que permitem adquirir recursos com valor ou, no domínio do trabalho, os aspectos físicos, psicológicos, sociais ou organizacionais, que podem ser utilizados para conseguir alcançar objectivos profissionais, reduzir os constrangimentos profissionais ou contribuir para o desenvolvimento pessoal. Hobfoll (ibid., pp. 57 e seg.) distingue 74 tipos de recursos, nomeadamente, objectos (roupa, aparelhos domésticos, jóias, etc.), «condições de trabalho» (emprego estável, papel de liderança, saúde da sua família, dos seus amigos, vida conjugal feliz, etc.), características pessoais (sentido de humor, autodisciplina, qualificações, etc.) ou elementos que favorecem o dinamismo (conhecimento, apoio dos colegas, vigor, resistência, etc.). Todos estes recursos podem ser valorizados em si próprios ou porque eles permitem preservar ou obter outros recursos. Segundo Hobfoll (ibid.), estes recursos estão ligados entre si. Consequentemente, um ganho numa categoria de recursos terá repercussões positivas noutras categorias. Obter um estatuto valorizado contribuirá para fazer crescer a estima pessoal. Inversamente, uma perda numa categoria causará prejuízos noutras categorias de recursos. Perder o emprego reduz o poder de aquisição de bens e de elementos que

favorecem o dinamismo. O stresse psicológico aparece nos seguintes três casos: 1º quando os recursos dos indivíduos são ameaçados; 2º quando os recursos dos indivíduos são efectivamente perdidos; 3º quando os indivíduos investem recursos e não recebem o retorno.

A Teoria da Conservação de Recursos assenta num conjunto de princípios e de corolários (Hobfoll, 1998, pp. 51 e seg.):

1º) Princípio do primado da perda de recursos: «a perda de recursos tem um impacto desproporcionado comparativamente ao ganho de recursos» (p. 62). Considerando quantidades iguais de perdas e ganhos, as primeiras têm um impacto (negativo) maior comparativamente ao impacto (positivo) dos segundos. «Mais do que as recompensas, são as perdas ou o receio de ver os seus recursos diminuir que influenciam o comportamento» (Trouchot, 2004, p. 63). Este princípio, diz Krohne (2002), contradiz o postulado fundamental da escala dos eventos de vida, de Holmes e Rahe, segundo a qual o stress ocorre quando os indivíduos são forçados a reajustar-se eles próprios às circunstâncias, sejam elas positivas (casamento, por exemplo) ou negativas (perda de um ente querido, por exemplo). Segundo teste empírico efectuado a este princípio por Hobfoll e Lilly (1993, cit. in Krohne), estes concluíram que somente a perda de recursos estava relacionada com o distresse.

Contudo, apesar da primazia das perdas, os ganhos não podem ser negligenciados. Terão pelo menos duas funções principais. A primeira, a de prevenirem a diminuição da probabilidade e do impacto das perdas e a de reduzirem a vulnerabilidade do indivíduo. A segunda, um capital importante de recursos protege igualmente as perdas ao afastar acontecimentos stressores.

Segundo Hobfoll (1998), a maior parte dos recursos são observáveis objectivamente e apreciados colectivamente. A perda de um recurso é percebida, normalmente da mesma maneira, pelo indivíduo e pelos seus colegas. A importância dada a um recurso é culturalmente determinada. Aqui reside uma diferença entre Hobfoll e Lazarus (Gamassou, 2004; Trouchot, 2004). Hobfoll considera o processo de avaliação de

Lazarus «um indicador individual e proximal do stresse», sendo a sua influência limitada, cronologicamente, aos instantes que precedem o comportamento, revelando por isso, uma fraca capacidade predictiva a médio e a longo prazo por, o processo de avaliação, ser concebido fora do contexto objectivo e social. Para a Teoria da Conservação de Recursos, o processo de avaliação é comum aos indivíduos de uma cultura, corresponde a uma interpretação de grupo. É por isso importante estabelecer quais são as características do ambiente de trabalho percebidas como stressores para uma maioria de indivíduos (Hobfoll, 1998).

2º Princípio da necessidade de investir em recursos: os indivíduos devem investir em recursos a fim de se protegerem das perdas de recursos e de adquirir novos recursos (Hobfoll, ibid., p. 73). Este princípio tem os seguintes corolários (id., ibid., pp. 73 e seg.): Primeiro Corolário: Os indivíduos que têm mais recursos são menos vulneráveis face aos riscos de perda de recursos e mais capazes de orquestrar um grande ganho de recursos. Inversamente, os que perderam recursos são mais vulneráveis face aos riscos de perda e menos capazes de adquirir novos recursos. Estar em posse de um recurso maior faz crescer a probabilidade de possuir outros recursos e inversamente a falta de um recurso importante faz prever a ausência de outros recursos; Segundo Corolário: Não são somente os indivíduos a quem faltam recursos que são vulneráveis à perda de recursos, mas esta perda inicial gera novas perdas; Terceiro Corolário (que minimiza o corolário anterior): Os indivíduos que possuem recursos estão aptos a obter ganhos e o ganho inicial de recursos gera novos ganhos. Contudo, tendo sido postulado que o ritmo das perdas é mais forte que o dos ganhos, os ciclos de perdas terão mais impacto e serão mais acelerados que os ciclos dos ganhos. Com efeito, se as perdas têm efeitos psicológicos mais importantes que os ganhos, os indivíduos que têm recursos limitados não irão procurar obter novos recursos se os ganhos forem difíceis de obter (Trouchot, 2004).

Salanova et al. (2005, p. 364; cf. também, Gamassou, 2004, p. 8) salientam o contributo da Teoria da Conservação de Recursos de Hobfoll para gerar organizações positivas, pela importância que esta Teoria dá aos recursos laborais como factores de motivação «em si mesmos». Para estes autores, a Teoria da Conservação de Recursos, ao considerar que as pessoas procuram «reter, proteger e construir recursos» podem gerar

«espirais positivas» ou «espirais de ganhos» de recursos, fazendo com seja mais fácil criar outros recursos no futuro e manter os recursos actuais mais valiosos, incrementando, deste modo, a motivação para criar mais recursos, assim como o bem estar geral dos trabalhadores e das organizações.