Heisler et al. (2003) analisam o uso de comentários metadiscursivos, que têm efeito avaliativo no que foi dito ou no que está para ser dito, e as relações desses comentários com o trabalho de face4 na interação conversacional.
Conforme os autores (2003: 1615), comentários metadiscursivos servem para direcionar a interpretação de um enunciado ao qual eles se referem. Eles permitem aos falantes caracterizarem seu próprio discurso para tornar explícito o status que eles desejam atribuir ao que expressam . Os comentários podem atuar nos níveis interacional, textual e emocional.
No nível interacional, os comentários metadiscursivos atraem a atenção do interlocutor para a importância do enunciado, sem qualificá-lo de alguma maneira. Segundo os autores, ao prefaciar a fala com enunciados do tipo Eu vou te dizer uma coisa , o falante chama a atenção do interlocutor para o fato de que algo será dito e lhe permite se preparar para sua recepção.
No nível textual, os comentários metadiscursivos atraem a atenção do interlocutor para a relação que o falante deseja estabelecer entre o objetivo do enunciado e outro elemento da conversa. Ele faz isso ao prefaciar a sua fala com comentários do tipo Eu estou te dizendo isso por que... . Ao fazer essa escolha, o falante apresenta a relevância do que foi dito anteriormente. Outro exemplo é continuar um item anterior de fala com enunciados do tipo nós podemos dizer que... Com essa escolha, o falante apresenta a próxima fala como uma conclusão da fala precedente. Já no nível emocional, os comentários metadiscursivos atraem a atenção do interlocutor para uma fala particular, qualificando-a de maneira tal a dar proeminência a uma emoção ou a uma impressão relacionada ao seu discurso. Segundo os autores, ao prefaciar sua fala com enunciados do tipo É triste dizer isso , o falante antecipa e torna explícita uma avaliação negativa de sua fala, baseado no seu potencial de evocar um sentimento de tristeza, lástima ou arrependimento. Nesse nível, os comentários são denominados pelos autores de
comentários metadiscursivos de avaliação .
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Heisler et al. (2003) ressaltam que, embora os três níveis sejam freqüentemente sobrepostos, um nível é mais proeminente que o outro. Por exemplo, além de comentário metadiscursivo de avaliação atuar no nível interacional, ele adiciona uma dimensão emocional, que não é encontrada no comentário metadiscursivo interacional estritamente. Essa classificação resulta de um valor adicionado em vez de um valor só. Os autores também pontuam que somente os comentários metadiscursivos de avaliação são caracterizados pelas dimensões proleptica e diafônica, que se tornam aparentes quando consideramos que será possível, em princípio, para o interlocutor formular a avaliação que foi expressa pelo falante. Essa possibilidade deriva do fato de que as avaliações que são feitas explicitamente nos comentários metadiscursivos são baseadas em representações sociais, tais como atitude, valores e crenças, que são reconhecidas e potencialmente sancionadas pelos membros de uma mesma comunidade sócio-cultural.
Baseados na noção de face (Goffman, 1967), Heisler et al. (2003) relacionam os comentários metadiscursivos de avaliação com o trabalho de face na interação. Seguindo Goffman (1967), eles afirmam que, no discurso produzido em interação verbal, os falantes fazem mais do que apenas comunicar conteúdos proposicionais: eles também dizem coisas importantes sobre si mesmos, apresentam-se e auto- representam para aqueles com quem interagem. Assim, ao usar comentários metadiscursivos de avaliação, os falantes admitem a responsabilidade pelo conteúdo de seus enunciados, mostrando durante todo o tempo, que eles mesmos não deveriam ser prejudicados por um julgamento que possa se originar de sua própria fala. Os autores discutem três aspectos desses comentários que podem afetar diretamente a imagem que os falantes constroem de si mesmos na conversa: a) o tipo de qualificador; b) o tipo de ameaça à face e c) a posição do comentário no discurso do falante.
Ao discutirem o tipo de qualificador, os autores distinguem dois tipos gerais de qualificadores discursivos: i) aqueles que evocam o caráter incomum do que é expresso o falante insere em seu discurso a idéia do que é incomum ou inesperado com relação às normas sociais implícitas; e ii) aqueles que evocam emoções ou julgamentos por parte do interlocutor. Eles podem ser realizados por adjetivos, tais como bizarro, estranho, ridículo, estúpido ou qualquer outra forma gramatical (e.g. Eu não quero me gabar, mas... ).
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Quanto ao tipo de ameaça, os autores também identificam dois tipos de comentários metadiscursivos que ameaçam a face: i) aqueles que julgam negativamente os valores éticos, morais e psicológicos da auto-imagem do falante; e ii) aqueles comentários que fazem objeções ao que é expresso no discurso em si mesmo, por parte do interlocutor. Por exemplo, ao apresentar um argumento fraco para propor a discussão de um tema, o falante pode receber recusa ou rejeição, por parte do grupo, em discutir o tema proposto. Segundo os autores, a ameaça está no status questionável do assunto a ser discutido.
Em relação à posição do comentário no discurso do falante, Heisler et al. (2003) afirmam que os comentários metadiscursivos podem ocupar duas posições: a) prospectiva prefaciando a fala; e b) retrospectiva seguindo a fala que é avaliada. Essas posições são realizadas por qualquer início ou segmento de fala.
Outro ponto para o qual os autores chamam a atenção é que, embora o protótipo dos comentários metadiscursivos seja o de conter alguma forma do processo verbal dizer , existem ocorrências de construção de comentário metadiscursivo sem a forma verbal (ou tampouco com qualquer verbo de fala que torna o ato de dizer mais preciso) e, quando o verbo não é enunciado, o comentário metadiscursivo, principalmente os avaliativos, não incorrem no risco de mudar a essência da fala ou a natureza das relações entre os comentários e o enunciado avaliado. Isso porque, segundo eles, não é necessário explicitar o que está sendo chamado à atenção para realizar o ato ilocucionário em questão. Assim, quando alguma forma do verbo não é dita, ela está implícita.
As noções que vimos delineando até aqui aprofundam o escopo da interpessoalidade, na medida em que mostram que essa função não se limita a atos de pedir e dar informação ou bens e serviços , como preconizou Halliday (1994: 69), mas inserem a dimensão afetiva na linguagem atitudinal do falante, expondo sua posição em relação à proposição para o ouvinte. Isso nos será útil, porque estudar quais os recursos utilizados pelos falantes para expressar suas atitudes e avaliações, suas atribuições mais escolhidas e os tipos de papéis que projetam um sobre o outro, trazem elementos importantes para que possamos entender a natureza das relações entre os participantes de uma interação.
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