Chapter 4. Discussion and Recommendation
4.2 Conclusions and Recommendations
Para fazer um diagnóstico de uma perturbação de linguagem específica, Balboni e Cubelli (2011, p. 86) especificam que este diagnóstico deve estar baseado em baterias de testes que confirmam, ou não, um desfasamento de determinada área da linguagem em relação ao esperado para idade cronológica, inteligência e escolaridade.
Como observam Adams e Fras (1988, p. 413), apesar de ainda não existir uma definição internacionalmente reconhecida que exclui ou inclui a disortografia, devemos, contudo, reger-nos para a obtenção deste diagnóstico pelas ferramentas internacionalmente reconhecidas de classificação de doenças e transtornos que dispomos. Referimo-nos,
nomeadamente à Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID 10 (2013) e Classificação Internacional das Deficiência, Incapacidades e desvantagens – CIF (2004), ambas da Organização Mundial da Saúde (OMS), como também o manual de classificação das doenças mentais Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM – IV) da Associação Psiquiátrica Americana.
A CID-10 está organizada em vinte e um capítulos, encontrando-se a referência à disortografia no capítulo cinco, desordens de desenvolvimento mentais, comportamentais e neurológicas, nomeadamente enquadrada nos Transtornos Específicos do Desenvolvimento das Habilidades escolares (F.81) sob o código F-81.1 – Transtornos Específicos da Soletração e da Escrita (World Health Organization, 2013, p. 230; Cappa et al., 2012, p. 57).
O manual da CIF está organizado em quatro partes, composto pelos componentes das Funções do Corpo (código /b/ de body), Estruturas do Corpo (código /s/ de structure) Atividade e Participação (código /d/ de domain) e Fatores Ambientais (código /e/ de
environment) (OMS, 2004, p. 193).
A disortografia enquadra-se na componente das Funções do Corpo, nomeadamente no
b16711 – expressão da linguagem escrita, relativas às funções necessárias para produzir
mensagens escritas com significado; b1672 – funções da linguagem, referentes às
funções mentais que organizam o significado semântico e simbólico, a estrutura gramatical e as ideias para a produção de mensagens em forma de linguagem oral, escrita ou outra (OMS, 2004, p. 59). Tendo em consideração a componente das Atividades e Participação, a disortografia pode ser classificada através do código d145–
aprender a escrever, desenvolver a capacidade de produzir símbolos em forma de texto que representam sons, palavras ou frases de forma que tenham significado, tais como, escrever sem erros e utilizar corretamente a gramática; e o código d345 - escrever mensagens, ou seja, produzir mensagens com significado literal e implícitas transmitidas através da linguagem escrita. Finalmente, no que respeita à componente de Fatores Ambientais, propõe-se para o caso de um transtorno na expressão escrita, os produtos e tecnologias de apoio para a comunicação (e1251).
O DSM-IV-TR (American Psychiatric Association, 1994) está organizado em dezasseis classes de diagnóstico e uma última classe adicional para outras condições que poderão ter um foco de atenção clínica (1994, p. 9). A desordem de expressão escrita da disortografia, enquadra-se no capítulo das Perturbações Inicialmente Diagnosticados na Infância ou Adolescência – Dificuldades de Aprendizagem, sob o código 315.2, referente à desordem de expressão escrita. O diagnóstico é referente à alteração acentuadamente abaixo do nível esperado de habilidade na planificação da linguagem escrita com repercussões na aprendizagem da ortografia, gramática e redação de textos tendo em consideração a idade cronológica, o potencial intelectual e a escolaridade adequada para a idade (American Psyciatric Association, 1994, p. 38; Fernández et al. 2010, p. 500, Cappa et al.; 2012, pp. 57-58).
Adams e Fras (1988, p. 413) enfatizam que o diagnóstico para se integrar neste tipo de distúrbio deve obedecer a determinados critérios, nomeadamente a ocorrência contínua e permanente em diferentes ocasiões de composição escrita e não ocorrer como parte de outro distúrbio. Esta perturbação deverá estar presente e interferir não só no rendimento escolar como também nas diversas atividades da vida diária que exijam habilidades de escrita, não se cingindo, deste modo, em contexto escolar. Sadock e Sadock (2009, p. 41) lembram que faz parte do diagnóstico da disortografia uma combinação de dificuldades na composição de textos escritos, evidenciando nestes múltiplos erros, uma desordem na expressão escrita, uma ortografia incompreensível como também a incapacidade de escrever ortograficamente bem, sequenciar frases e apresentar uma falta de encadeamento de ideias no texto como também a falta de elementos fundamentais como “quem”, “onde” e “quando”. A criança poderá apresentar dificuldades de ordem gramatical, frásica, semântica, omissões, inversões ou substituições de letras, sílabas ou palavras. Finalmente, a pontuação poderá também estar alterada, da mesma forma como o uso de letras maiúsculas e minúsculas.
Importa distinguir a disortografia de outras perturbações de linguagem, tal como a dislexia e a disgrafia por esta, apesar de poder aparecer em comorbidade das perturbações da leitura e da escrita, ter as suas próprias particularidades ou isoladamente. Ao colocar todas estas perturbações “no mesmo saco” estamos a redundar o diagnóstico e a equivocar as intervenções de reeducação da criança que poderiam ser
mais específicas, certas e efetivas tendo em conta as características de cada caso (Fernandéz, 1998, p. 67).
Adams e Fras (1988, p. 413) alertam, contudo, que no que diz respeito ao DSM – IV, as dificuldades na expressão escrita poderão ser consideradas tanto de ordem motora-grafia (disgrafia) como cognitiva-composição escrita (disortografia), quando estas se manifestam na altura em que a criança apresenta nestas duas atividades características significativamente inferiores a outras crianças da mesma faixa etária, nível escolar e com idênticas capacidades cognitivas.
Finalmente, tendo como suporte qualquer uma destas ferramentas de diagnóstico e classificação de doenças ou distúrbios, Lamônica (2008, p. 76) afirma que para um diagnóstico abrangente é necessário considerar, analisar e refletir os diferentes fatores da criança ou jovem, tal como os fatores orgânicos, emocionais, sociais e ambientais. Desta forma, pretende-se, no final, obter um retrato objetivo e globalizante das características da criança ou jovem, como as suas dificuldades e facilidades; estigmas e problemas emocionais, as suas necessidades nas interações com a família, escola, e sociedade.