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6. Discussion

6.4 Conclusion

Para Paulo, a formação da comunidade é obra de Deus e da Sua graça, que se manifesta visivelmente nos carismas e dons, aí compreendido o ministério apostólico (Rm 12, 3-5; 1 Cor 12, 12-31a; Ef 4, 13-16), por obra do Espírito Santo e de Sua livre vontade, para a utilidade e conveniência do único corpo de que são membros os cristãos.

O Concílio Vaticano II redescobre e afirma que a ação do Espírito Santo em repartir seus dons como lhe apraz continua ocorrendo, através de carismas simples ou eminentes, adaptados às necessidades da Igreja.

Mencionando a nova era agregativa dos fiéis leigos, com fisionomia e finalidade específicas, João Paulo II aponta a riqueza e a versatilidade de recursos que o Espírito infunde no tecido eclesial (CfL, n. 29) e descreve essa realidade como dom do Espírito ao nosso

tempo. Significa que ela se insere na missão do Espírito na história da salvação e também na

autoconsciência da Igreja hoje, pois que a auxilia no discernimento dos sinais dos tempos e do modo pelo qual realizar a sua missão. Trata-se, portanto, da presença dos carismas do Espírito, que conduz às novas agregações, sinal da liberdade de forma em que se realiza a única Igreja, ao lado de formas permanentes de vida eclesial.

Tanto João Paulo II quanto Bento XVI ratificam, em várias ocasiões, essa dimensão carismática das Novas Comunidades e dos Novos Movimentos, apontando para a unidade dual das dimensões carismática e institucional da Igreja, de modo que o fiel que experimenta Cristo no movimento ou na comunidade realiza uma experiência autêntica de Igreja. Os carismas do Espírito são meios pelos quais se manifesta o amor do Cristo Ressuscitado e que dão eficácia ao testemunho de Sua presença na Igreja e no mundo.

Tem sido considerado como um dos elementos mais significativos das Novas Comunidades esse projeto carismático que agrega seus membros e cria comunhão.

Com efeito, João Paulo II, observa, no seu discurso aos participantes do I Congresso Mundial dos Movimentos Eclesiais, que, “Pela sua natureza, os carismas são comunicativos e fazem nascer aquela ‘afinidade espiritual entre as pessoas’ (cf. CfL, 24) e aquela amizade em

Cristo que dá origem aos ‘movimentos’”169. Estes, como define na ocasião, são uma realidade concreta na Igreja, de que participam principalmente fiéis leigos – inobstante possam tomar parte também clérigos e membros de institutos de vida consagrada e sociedades de vida apostólica; realidade que se funda sobre um carisma originário recebido por um fundador em circunstâncias histórias e modos determinados; um carisma vocacional, isto é, que incita o fiel cristão a assumir empenhos de vida que abraçam a existência inteira e comportam uma doação pessoal a Deus. Acrescenta que os movimentos eclesiais são portadores de uma pedagogia própria da fé que conduz os membros a um encontro pessoal com Cristo e, ao mesmo tempo, impele-os ao apostolado.

O carisma que deflagra as NC é, certamente, um carisma de comunhão, embora não lhes seja exclusivo. Revela a origem pneumática das Novas Comunidades. Stanislaw Rylko, no Curso para os Bispos no Rio de Janeiro, em 2013, frisa que é o carisma nascente e não a pessoa do fundador que gera a afinidade espiritual entre as pessoas que se sentem atraídas por tal proposta de vida, de modo que nasce uma nova comunidade (ou um novo movimento)170.

Libero Gerosa assegura que teólogos e Magistério concordam em que as funções dos movimentos estão estreitamente ligadas à sua origem carismática.171 E sublinha as características principais da noção de carisma transmitida por essas agregações. Este carisma:

1. Consiste numa nova forma de seqüela Christi, que vive de forma particularizada a universalidade e a totalidade do mistério eclesial, no seu sacerdócio comum, não se confundindo com o sacramento do batismo;

2. Cria uma relação entre fundador e seguidores, de geração para a fé e de acompanhamento até a maturidade na fé, sendo vivido comunitariamente, e sendo uma verdadeira escola para a superação do individualismo e a compreensão da

___________________ 169

JOÃO PAULO II. Discurso aos participantes do Congresso Mundial dos Movimentos Eclesiais, 27 de maio

de 1998, Cidade do Vaticano. Disponível em:

<http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/laity/documents/rc_pc_laity_doc_27051998_movement s-speech-hf_po.html>. Acesso em: 29 ago. 2014.

170

RYLKO, S. Movimentos eclesiais e novas comunidades: um poderoso recurso para a missão continental na América Latina. In: XXI Curso para os Bispos, 4 a 8 de fevereiro de 2013, Rio de Janeiro. Disponível em: <http://www.laici.va/content/dam/laici/documenti/rylko/italiano/Corso%20per%20i%20Vescovi%20brasiliani% 20Rio%20de%20Janeiro%204-8%20febbraio%202013%20LAICATO%20PORTOGHESE.pdf>. Acesso em: 1 set. 2014.

171

GEROSA, L. Carismi e Movimenti nella Chiesa Oggi: Riflessioni canonistiche alla chiusura del Sinodo dei Vescovi sui laici. JUS CANONICUM, n. 56, p. 672-675.

63 vivência da communio fidelium com outras agregações e com todos os membros da Igreja, acentuando a catolicidade;

3. Tem uma força de penetração missionária, apanágio de todo o povo de Deus, mas pouco vivida pelos fiéis em geral;

4. Proporciona uma experiência de participação no carisma, permite e facilita aos membros vivenciarem sua identidade de batizados, de ser pessoa-em-relação, isto é, tanto mais pessoa quanto mais seu ser e seu agir correspondem à lógica da comunhão, quanto mais são capazes de fazer o dom incondicionado de si; convergem os movimentos, neste particular, com a expressão papal escolas de

comunhão.172

Do ponto de vista das NC, pode-se dizer que os carismas se apresentam com algumas características comuns:

1. São distribuídos aos fiéis de todas as classes, como apraz ao Espírito; 2. Podem ser simples ou ordinários e extraordinários;

3. Têm por função renovar e edificar a Igreja;

4. Exercitam-se em comunhão com os irmãos e o episcopado; 5. Submetem-se ao discernimento do Bispo;

6. São comunicativos e vocacionais (chamam a um empenho da existência na doação a Deus).

No documento Igreja Particular, Movimentos Eclesiais e Novas Comunidades, a Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), situa o despertar das NC e bem examina a questão dos carismas, afirmando que sua autenticidade pode ser discernida e provada na medida em que estes constroem a comunhão, gerando uma unidade inclusiva e não excludente, enviando à missão173. Supõem os carismas uma dinâmica e estrutura dialogal, abertura à diferença do outro, que edifica a

___________________ 172

GEROSA, L. Carisma e diritto nella Chiesa: Riflessioni canonistiche sul carisma originário dei nuovi movimenti ecclesiali, p. 80-1.

173

comunidade, superando experiências puramente emocionais, embora levando em conta a dinâmica afetiva da subjetividade moderna.174

No Estudo n. 104, Comunidade de Comunidades: uma nova Paróquia, a CNBB volta a referir-se às Novas Comunidades, também ressaltando o aspecto carismático e a união à Igreja particular, devendo ser acolhidas e integradas nas paróquias, evitando uma atuação em paralelo. No Documento n. 100, que se preocupa com a conversão pastoral da paróquia, como comunidade de comunidades, mencionam-se os carismas específicos que o Espírito doa às associações de fiéis e movimentos, cuja diversidade sempre foi acolhida pela Igreja.

Em acréscimo, esse elemento carismático originário deve conferir substrato à formação dos membros das NC, mesclando a única doutrina cristã com as moções particulares do Espírito, que, por óbvio, nada acrescentam à Revelação Pública, mas que permitem a edificação daquele sujeito eclesial em particular e de seus membros, de forma dinâmica, sem apego ao saudosismo nem submissão a modismos.

Esse carisma, que também pode ser chamado de primordial, é o carisma dado através de uma pessoa pelo Espírito, para conformar o fiel a Cristo, num caminho pessoal de santificação; vai iluminar os seguidores, por meio de uma compreensão particular do mistério de Cristo e da Igreja. Cada um descobre, como consequência do carisma e de sua força, sua vocação particular como resposta aos desafios do tempo. O carisma originário, ademais, deve ser objeto de renovada adesão e permanente fidelidade por aqueles que são membros de uma NC, para que seja potencializada sua força missionária.

João Paulo II, no Congresso de 1998, esclarece que a passagem do carisma originário ao movimento acontece pela atração misteriosa exercida pelo fundador sobre quantos se deixam envolver na sua experiência espiritual sob a ação do Espírito. Esses membros caminham para a realização de uma missão dentro da evangelização, graças ao vigor missionário proveniente do carisma original e da vivência da comunhão, convergindo com o fim apostólico da Igreja toda (AA, n. 19). Tanto para o fundador como para os seguidores, acontece um kairós, um encontro pessoal com Cristo, que pode ser uma primeira ou segunda conversão. E a convivência comunitária é experiência concreta da comunhão que conduz à maturidade na fé e deve ser acompanhada pelo fundador.

___________________ 174

65 Desse modo, os movimentos reconhecidos oficialmente pelas autoridades eclesiásticas propõem-se como formas de autorrealização e reflexos da única Igreja, ainda segundo João Paulo II naquele Congresso Mundial.

O carisma, portanto, é elemento essencial nas NC, seja o originário, sejam os demais dons do Espírito Santo, que se distribuem entre seus membros (colocando-os em posições próprias, normalmente chamadas de ministérios) e permitem assumir a eclesialidade com sua especificidade, na abertura à ação livre do mesmo Espírito, em comunhão com os sucessores dos apóstolos e o sucessor de Pedro, com aquele entusiasmo que é próprio a essas agregações e que promana da experiência feita das coisas de Deus e da abertura aos irmãos na Igreja.

Os carismas ainda são canais para a vivência de novas formas de religiosidade diante dos desafios das culturas moderna e pós-moderna, respondendo à necessidade de experiência pessoal de Deus e de busca de sentido para a vida, contribuindo para a vivência da fé e a participação na Igreja, bem como na evangelização do mundo175, superando a procura superficial de Deus, do Mistério Invisível de que fala Maria Clara L. Bingemer176.

Encontra-se, pois, no carisma um núcleo essencial das NC.

Mirjam Kovac denomina-o carisma coletivo: dom de Deus a um grupo, estendido no tempo, orientado à construção da Igreja e da comunhão, determinando o objetivo de tal grupo, sua missão e atividade e, ainda, o estilo de vida, a espiritualidade, ou seja, o modo concreto de participação num aspecto do mistério de Cristo, de estar em relação com Deus e agir para o bem dos irmãos, um ambiente vital que dá ao fiel a possibilidade de exprimir e viver o que ele é177.

Libero Gerosa lhe dá o nome de carisma comunitário, pois entende que a outra expressão se aplicaria mais à vida consagrada.178

Ambos os diferenciam do carisma meramente associativo, existente em outros tipos de associações de fiéis. Estas também têm em comum um mesmo carisma, o qual, contudo, não abrange toda a vida da pessoa e do grupo, tampouco um estilo próprio de espiritualidade,

___________________ 175

CNBB, Estudo n. 03, n. 23.

176

BINGEMER, M. C. L. A Sedução do Sagrado. Religião e Sociedade, v. 16, p. 85. Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/108636483/409843-seducao-Do-Sagrado>. Acesso em: 7 jul. 2014.

177

KOVAC, M. Vita consecrata: le questione aperte. I consacrati e I movimenti ecclesiali. Quaderni di diritto ecclesiale, n. XI/1, p. 94.

178

GEROSA, L. Carismi i diritto nella Chiesa, p. 67. Segundo ele, a doutrina e o Magistério o chamam de fisionomia própria, tradições, patrimônio dos institutos religiosos (LG, n. 45a; PC n. 2a.b;3a).

de apostolado e de estrutura de governo, que, segundo Gianfranco Ghirlanda, são os elementos estruturais do carisma coletivo.179

A propósito, este último autor faz a distinção entre carisma coletivo particular e

carisma coletivo de fundação (ou de fundador/fundadora). O primeiro engloba os carismas do

fundador, a ele dados, muitas vezes extraordinários e que podem influenciar no carisma coletivo, mas que não obrigam os membros do grupo. Já do carisma coletivo de fundação, por natureza, participam os outros; é o carisma do primeiro núcleo, que o compartilha, enriquece e leva a um crescimento maior o carisma do fundador. Há, ainda, o carisma pessoal, de cada membro, como participação do carisma coletivo ou como carisma individual, para ativar a vocação da pessoa naquela realidade eclesial. Podem ajudar no enriquecimento, esclarecimento e explicitação do carisma coletivo na história, devendo ser com ele coerentes.

Por força do carisma que as impregna, as NC são consideradas uma das respostas à crise de identidade e vocações vivida nos anos 1970 na Igreja, bem como o meio ambiente necessário para a recepção do Concílio Vaticano II por Dominique Rey.180

Estando assentado o entendimento de que as NC fazem parte daquilo que o Espírito

diz à Igreja (Ap 3,6), encorajando os fiéis a viverem como protagonistas da sua fé em Jesus

Cristo, por meio de diversificados carismas que conduzem a uma vida mais plena de caridade, na edificação do Reino de Deus e em sua Igreja, infundindo na Barca de Pedro, no momento certo, os novos necessários dinamismos, passam-se a examinar as características destas novas realidades eclesiais.