No seu agir, o enfermeiro tem o dever de manter permanentemente “standards” de elevado profissionalismo, isto é, uma performance de excelência.
(Ordem dos Enfermeiros, 2003)
O exercício da enfermagem comporta inúmeras responsabilidades éticas. Conceitos éticos como “advocacia”, “responsabilidade”, “cooperação” e “cuidado” providenciam a fundamentação moral do exercício da profissão. Estes conceitos constituem dimensões éticas no trabalho do enfermeiro com o indivíduo, a família, o grupo e a comunidade. A responsabilidade implícita nesta relação fiduciária – responsabilidade de zelar por interesses e proteger os direitos dos doentes – decorre da assunção de um dever de garante por parte do profissional face à Pessoa (Silva, 2008).
O enfermeiro com manifestações de síndrome de burnout desenvolve face ao doente uma atitude de frieza e insensibilidade, vendo-o como objecto, criando barreiras para impedir em si o impacto nocivo do seu sofrimento e dos seus problemas, podendo mesmo chegar ao ponto de ignorar as necessidades do outro, atitudes que se podem traduzir em hostilidade e desumanização. Assim sendo, que condições tem este profissional para exercer a sua profissão tendo em conta a declaração de compromisso de cuidar da Pessoa ao longo do ciclo vital, na saúde e na doença, de forma a promover a sua vida na plenitude da sua dimensão humana e que constitui o domínio genérico do agir profissional ao qual se associa o compromisso de cuidar e a ética da promessa (Nunes, 2004)?
Stresse profissional. Consumo de bebidas alcoólicas. Estudos numa amostra de enfermeiros.
58
O enfermeiro em risco de burnout ou em burnout tem dificuldade em desenvolver a capacidade de estabelecer uma relação interpessoal eficaz quer com os seus doentes e família quer com toda a equipa multidisciplinar em que está inserido, o que traz implicações éticas significativas, dado que a relação que estabelece com o “outro” constitui um processo de fundamental importância na sua actividade diária, sem a qual a prestação efectiva de cuidados de enfermagem perde a sua qualidade, ou simplesmente não se realiza.
Estas atitudes, embora possam não comprometer no plano técnico, comprometem certamente no plano relacional, na medida em que o facto de o enfermeiro entrar em conflito com os outros e consigo próprio poderá fazê-lo esquecer-se dos princípios e valores que devem nortear o seu desempenho profissional (Loff, cit. in Neves e Pacheco, 2004).
Segundo Serra (2007), as enfermeiras que apresentam de forma mais acentuada manifestações de burnout têm tendência a passar menos tempo em contacto directo com os doentes, estabelecendo relações interpessoais claramente insatisfatórias. Esta “ausência” do enfermeiro impede que se estabeleça uma relação de ajuda, uma relação que tem por base a empatia, a congruência, o respeito, a confiança, a escuta activa, o humanismo e a autenticidade (Riley, Smith e Rogers, cit. in Amaro, 2007), e que exige do enfermeiro que ele dê o seu tempo, a sua competência, o seu saber, o seu interesse e a sua compreensão. Em suma, que dê uma parte de si próprio (Santos, 2002b).
Que condições têm os enfermeiros em burnout para cuidar efectivamente, de prestar cuidados de excelência, se para o fazer é fundamental dar tempo e atenção ao “outro”, reflectir com ele sobre a sua situação e agir em seu favor (Pires, 2001)? Não basta mobilizar apenas algumas competências para cuidar; é necessário utilizar todos os conhecimentos, toda a experiência acumulada e a reflexão ética, fazendo da relação estabelecida uma relação autêntica, verdadeira e de ajuda (Deodato, 2004).
A dimensão ética na enfermagem assume particular importância; a clarificação desta importância por parte do enfermeiro nos seu agir profissional é um imperativo na
Stresse profissional. Consumo de bebidas alcoólicas. Estudos numa amostra de enfermeiros.
59
aproximação às referências em torno das quais se centram as decisões dos cuidados à Pessoa como ser único e singular (Sousa, cit. in Neves e Pacheco, 2004).
O enfermeiro tem o dever de assumir uma competência ética que é fundamental para a concretização da excelência dos cuidados e que se concretiza por uma atitude de grande empenho na promoção da autonomia e autodeterminação do doente face ao seu próprio processo de cuidados na saúde e na doença. É a defesa e a protecção dos direitos do doente que está em causa.
O enfermeiro exausto, física e emocionalmente, poderá não ter condições para assumir esta responsabilidade que lhe é atribuída. Na verdade, cuidar é muito mais do que um acto; é uma atitude de ocupação, de preocupação, de responsabilização e de envolvimento afectivo com o outro. É, portanto, uma forma de estar na vida que induz a um verdadeiro olhar para o outro. Este olhar será tanto mais capaz de ver a Pessoa na sua globalidade quanto mais o enfermeiro for capaz de incorporar na sua vivência profissional e pessoal valores que, sendo universais, não poderão nunca estar afastados da sua prática.
O enfermeiro com manifestações de burnout não apresenta condições para dar atenção ao outro e ter em atenção os seus objectivos, não sendo capaz de desenvolver com ele uma atitude altruísta e solidária, valores que têm em vista fazer o “bem”. E a função da ética em enfermagem é guiar a actividade do enfermeiro a favor do “bem” presumido do outro, visto que as decisões de enfermagem afectam significativamente a vida das pessoas. Este potencial para fazer o “bem” depende por um lado dos recursos e competências do enfermeiro, e por outro dos valores das pessoas envolvidas (Bandman e Bandman, 2002).
As exigências do trabalho e os recursos individuais do profissional exausto entram muitas vezes em confronto, o que o impede de cumprir as normas deontológicas que o regem e que definem o comportamento que o cidadão dele espera, o cuidado devido e o respeito pelos seus direitos, e que estão enquadrados em princípios e valores específicos que a ética da enfermagem apresenta como fundamentos da moral profissional (Vieira,
Stresse profissional. Consumo de bebidas alcoólicas. Estudos numa amostra de enfermeiros.
60
2003).
Do ponto de vista das atitudes que caracterizam o exercício profissional de enfermagem, os princípios humanistas de respeito pelos valores, costumes e religiões (e todos os demais previstos no Código Deontológico do Enfermeiro) dão forma a uma boa prática. Cuidar com empatia, compreender e respeitar, são expressões do exercício que ficam comprometidas no enfermeiro com manifestações de burnout. A excelência dos cuidados também é posta em causa pois o enfermeiro não consegue estabelecer uma relação autêntica, uma verdadeira relação de ajuda, uma vez que não é capaz de colocar tudo o que é dele nos cuidados que presta, já que esgotou os seus recursos pessoais e sociais.
Na perspectiva ética, a relação entre o enfermeiro e o doente é pautada por princípios e valores, tendo o respeito pela dignidade humana, verdadeiro pilar de todos os outros princípios, que estar presente sem qualquer equívoco nas decisões e intervenções do enfermeiro. No nº 1 do art.º 78º do Código Deontológico do Enfermeiro (o artigo ético do articulado deontológico) pode ler-se que as intervenções de enfermagem são realizadas com a preocupação de defesa da liberdade e da dignidade da pessoa humana e do enfermeiro. Este princípio da dignidade humana é inerente a todos os seres humanos em virtude da sua personalidade e revela a visão unitária da Pessoa, visto que o Homem é sujeito de direito, e não objecto (Nunes, Amaral e Gonçalves, 2005).
Ao desenvolver uma atitude de frieza e de hostilidade em relação ao outro, o enfermeiro não tem condições para respeitar na sua plenitude este artigo ético, visto que nos cuidados que presta vê o outro como “algo” e não como “alguém”, não como um fim em si mas como um instrumento, não como “sujeito” mas como “objecto”, não como “nominal” mas como “numeral” (Pinto, 2006). Torna-se gradualmente um enfermeiro frio, distante e insensível ao sofrimento e à dor, não tendo em consideração a humanização dos cuidados. A humanização requer um processo reflexivo acerca dos valores e princípios que norteiam a prática profissional e pressupõe, além de um cuidado digno, solidário e acolhedor ao doente – ser fragilizado – uma postura ética que permeie todas as suas actividades profissionais. O enfermeiro com manifestação de
Stresse profissional. Consumo de bebidas alcoólicas. Estudos numa amostra de enfermeiros.
61
burnout não se encontra, do ponto de vista emocional e físico, capaz; daí, não dispor de condições objectivas e práticas para ajudar os doentes, os quais constituem a razão de ser da sua profissão.
Conhecer o sofrimento dos doentes é humanizar as relações profissionais. Para que tal aconteça, é necessário conversar com o doente sobre as suas experiências, consciencializar os seus significados profundamente pessoais e escutar com todos os sentidos a expressão dos seus sentimentos, as suas angústias e os seus medos. Esta relação, considerada a verdadeira essência do agir em enfermagem, concretizada no cuidar, implica um raciocínio moral e ético, uma atitude reflexiva e que pode constituir para o doente um processo facilitador de integração dessa vivência crítica de modo a evitar a percepção de perda de controlo e a facilitar a descoberta de algum sentido positivo para a própria experiência do sofrimento (Gameiro, 1999), algo que o enfermeiro em burnout não tem condições para concretizar.