A forma como um indivíduo interpreta uma situação específica e decide enfrentá-la determina em grande medida que esta situação se torne ou não stressante.
(Labrador, 1992)
Chama-se “cognitivos” aos diferentes aspectos que enformam a interpretação do indivíduo de uma determinada situação (Labrador, 1992): a recolha da informação, a filtragem da informação recebida, a canalização da atenção para determinados aspectos da informação, a interpretação da informação, a reflexão sobre quais as condutas de que se dispõe e que podem ser mais ou menos úteis, etc. Todos estes aspectos são úteis para o controle da situação e para decisão sobre quais as condutas a adoptar. O resultado desta actividade cognitiva determina a forma como a situação afecta a pessoa e a maneira como esta lhe responde.
As diferentes condutas cognitivas perante situações de stresse permitem definir, segundo Meichenbaum e Turk (cit. in Labrador, 1992), três tipos diferentes de indivíduos.
Os indivíduos auto-referentes são aqueles que, em vez de se concentrarem na situação stressante de modo a fazer-lhe frente, se centram em si mesmos: a preocupação que desenvolvem com a sua própria realização, a consideração repetitiva sobre as possíveis consequências de uma conduta inadequada, os pensamentos e sentimentos referidos à sua própria inutilidade (autocríticas, autocondenação). Esta maneira de actuar faz com
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que a pessoa perceba a situação de stresse cada vez com mais medo, pensando que é incapaz de lhe fazer frente. Assim, o mesmo tipo de situação será cada vez mais stressante para o indivíduo.
Um outro tipo de pessoas encara as situações de stresse preocupando-se em primeiro lugar por saber o que a situação lhes exige. São os indivíduos auto-eficazes. Centram, por isso, o seu interesse na análise das características da situação e na forma como a poderão resolver, o que lhes permite obter uma melhor informação, melhor escolher as condutas adequadas e assim colocar fim à situação de stresse.
Finalmente, os indivíduos negativistas são os que negam a existência de problemas ou de exigências do meio, independentemente do que possam ou não fazer nessas situações. Tal modo de actuar não permite uma percepção adequada sobre a exigência das situações, não favorecendo como tal o aparecimento de comportamento eficazes para lhes fazer frente. A pessoa não resolve as situações de stresse, mas tão-pouco sofre no seu organismo as suas consequências negativas.
Em suma, e no que se refere à resposta cognitiva ao aparecimento das situações de stresse, Lazarus e Folkman apontam, segundo Labrador (1992), oito formas habituais de encarar essas situações. A “confrontação” refere-se à resposta com acções directas e até certo ponto agressivas para alterar as situações. O “distanciamento” sugere a realização de esforços não para enfrentar as situações mas, pelo contrário, para produzir o afastamento delas. O “autocontrole” é a atitude caracterizada por esforços conscientes para regular os seus próprios sentimentos e acções. A “busca de apoio social” refere-se à concretização de acções em busca de conselho, informação, ou simpatia do outro para com os problemas. A “aceitação da responsabilidade” é um tipo de conduta em que subjaz o reconhecimento da responsabilidade no problema. A “fuga-evitamento” acontece quando a pessoa foge, evita, nega a situação de stresse. Entende-se como atitude de “planificação” a atitude em que há esforços para alterar a situação que implicam uma aproximação analítica aos problemas. Finalmente, entende-se por atitude de “reavaliação positiva” a atitude caracterizada pela existência de esforços para criar um significado positivo e que conduza à resolução do problema com correspondente
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desenvolvimento e enriquecimento pessoal.
As condutas motoras básicas perante situações de stresse podem ser, então, de enfrentamento (ataque) e de fuga ou evitamento e de passividade (colapso). De modo particular, as duas primeiras implicam grande activação fisiológica com uma importante libertação de recursos para que o organismo possa desenvolver, se for caso disso, intensas condutas motoras.
Na verdade, esta activação é pouco útil. No mundo em que hoje se vive, são sempre mais de esperar, em resposta às situações de stresse, as respostas cognitivas do que as respostas motoras. Poderemos dizer que é a falar, e não com o emprego da força física, que se espera que as situações sejam resolvidas.
O que é verdade é que o organismo activa-se intensamente e põe em circulação uma série de recursos que lhe permitem realizar intensos esforços físicos. E, se na maior parte das vezes, esses esforços físicos não são utilizados, o que é facto é que os recursos “entraram em circulação”; e ao não serem utilizados (e as condutas cognitivas não os utilizam), podem vir a acarretar o problema adicional de favorecer o desenvolvimento de perturbações fisiológicas e psicológicas.
Para Selye (Labrador, 1992), as situações de stresse produzem um aumento geral da activação fisiológica do organismo, ao que chamou de Sindroma Geral de Activação.
Esta síndrome baseia-se, eminentemente, num modelo de stresse baseado na resposta. Na verdade, Selye considera que o stresse é uma resposta inespecífica do corpo a qualquer pedido. E considera que essa resposta seria sempre a mesma qualquer que fosse a natureza da causa do stresse e seguiria sempre o mesmo padrão universal (Hespanhol, 2005).
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A fase de alarme caracteriza-se pela resposta imediata, psicofisiológica, em que após uma fase de choque inicial de baixa resistência se segue um contra-choque. É a fase em que, perante uma situação de stresse, o organismo produz de imediato uma intensa activação fisiológica que lhe faculta mais recursos para uma possível actuação. Esta fase é geralmente curta em duração (de alguns segundos a alguns dias). Se este esforço extraordinário permite colocar um fim na situação de stresse (permitindo e facilitando a análise da situação e organização da resposta adequada à mesma), coloca um fim, também, na SGA. Se a situação de stresse se mantém, o organismo continua a fazer o seu esforço de adaptação através da activação fisiológica. Contudo, chegará o momento em que o organismo, não podendo manter este esforço acrescido, evoluirá para uma fase seguinte.
A fase de resistência da SGA acontece quando o organismo, no intuito de utilizar os seus recursos excepcionais para ultrapassar a situação de stresse que continua a enfrentar, mantém uma activação fisiológica acima da normal, mas menos intensa, apesar de tudo, do que na fase de alarme. Ou seja, não se trata de uma fase de aumento da activação fisiológica, antes sim, da manutenção no tempo de determinados níveis de activação. Se tal esforço de manutenção permite chegar a uma solução, põe-se fim à SGA. Se tal não é ainda possível, esta hiperactivação, menor do que na fase de alarme mas, contudo, mantida durante a fase de resistência, vai levar a que o organismo esgote os seus recursos e perca, progressivamente ou de forma repentina, a sua capacidade de activação, a qual chega por vezes a descer a níveis mais baixos do que os habituais (os que existiam antes da “entrada” na fase de alarme).
Chama-se à terceira fase a fase de esgotamento. Se, apesar de todos os sinais que possam começar a surgir, o organismo tenta ainda manter a sua activação no nível máximo, o resultado será o esgotamento total, com consequências altamente negativas e por vezes mortais.
Este modelo (da SGA) mostra de algum modo a evolução da activação do organismo para enfrentar situações de stresse, primeiro com uma grande hiperactivação, depois com uma hiperactivação menor mas que perdura no tempo, e por fim com algum tipo de
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disfunção, física ou mental, geral ou específica. Se este modelo de adaptação tem a vantagem de ser claro e intuitivo, não explica contudo, em pormenor, tudo o que se passa na realidade.
Aparece então como claro que, se a exposição a situações de stresse não constitui um mal em si mesma nem implica efeitos necessariamente negativos, tal não se passa quando as respostas de stresse são excessivamente intensas ou duradouras no tempo, podendo então produzir-se diversas perturbações. Leves de início, de maior impacto depois.
Assim, pode considerar-se como efeitos negativos da activação reiterada produzida pela resposta de stresse três níveis de resposta.
Ao nível fisiológico, situações como o aumento do ritmo cardíaco, da pressão arterial, da sudação, do ritmo respiratório, dos níveis de adrenalina e noradrenalina e do açúcar em circulação, da actuação do sistema digestivo e do sistema imunológico, a diminuição do fluxo sanguíneo, a sensação de “nó na garganta” e de secura da boca (...) são comuns.
Ao nível cognitivo, são respostas mais comuns as preocupações, a incapacidade de tomar decisões e de concentração, a sensação de confusão, a redução da atenção, a desorientação, entre outros.
Ao nível motor são frequentes sinais como falar depressa, tremuras, gaguez, voz entrecortada, imprecisão, precipitação, explosões emocionais, predisposição para os acidentes, consumo de drogas legais (tabaco, álcool, fármacos) e ilegais, comer demais, falta de apetite, riso nervoso, bocejos, (...).
Em suma, pode considerar-se de esperar o encontro, associado ao stresse, de problemas cardiovasculares (hipertensão arterial, doença coronária, taquicardia, arritmias, ...), problemas respiratórios (asma brônquica, hiperventilação, ...), problemas imunológicos (artrite reumatóide, gripe, herpes, ...), problemas endócrinos (hipertiroidismo, Síndrome
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de Cushing, ...), problemas gastrointestinais (dispepsia funcional, intestino irritável, colite ulcerosa, ...), problemas dermatológicos (prurido, sudação excessiva, ...), dor crónica e cefaleias, problemas musculares (aumento do tónus muscular, tremuras, tiques, ...) problemas sexuais (impotência, vaginismo, alterações da libido, ...) problemas psicopatológicos (ansiedade, medos, fobias, depressão, consumo de álcool, comportamentos alimentares alterados, ...).
A resposta de stresse é um recurso fundamental do organismo para fazer face, em condições tão melhores quanto possível, às possíveis ameaças que poderiam afectá-lo.
Embora o Homem tenha sido capaz, ao longo de milhares de anos, de mudar radicalmente o meio que o rodeia e mesmo outros organismos, o que é facto é que o seu próprio organismo não mudou ao mesmo ritmo. Continua, como acontecia com os seus antepassados pré-históricos, a activar-se perante situações ameaçadoras, preparando-se para realizar intensos esforços físicos que lhe permitam escapar ou lutar melhor. Para Labrador (1992), é muito possível que o Homem não esteja biologicamente adaptado ao novo mundo que ajudou a criar; que as exigências que agora o meio impõe não sejam aquelas para as quais o organismo está mais adaptado. Ou seja, a humanidade é, de certo modo, vítima da sua própria ingenuidade; a sua capacidade para manipular o ambiente levou-a a desenvolver uma sociedade para a qual o seu corpo não está adaptado.
A resposta de stresse assinala que há no ambiente algo de anormal, que as exigências do meio se modificaram e exigem do organismo uma nova resposta de adaptação.
São várias as possíveis reacções a estas exigências. Uma delas consiste em modificar o meio de modo a que deixe de apresentar exigências excepcionais, ou pelo menos, tão frequentes. Outra, passa por modificar as próprias respostas às exigências do meio.