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Administrar significa responsabilizar-se pelo bem-estar do lugar, mesmo que, em nome de um interesse pessoal consciente, a responsabilidade significa estar preso ao lugar. Ela requer presença e engajamento (BAUMAN, 2001). A educação só é possível quando há responsabilidade, engajamento e, por consequência, a presença. Porém, no mundo fluido, onde as relações não são mais sólidas, duradouras, ao contrário são líquidas, como se pode tornar presente?

De acordo com a teoria de Bauman, a falta de segurança afeta a todos. Para o mercado, o que vale é a competitividade, a produtividade e a eficácia. (2001, p. 185) Professores não sabem mais se o conhecimento é suficiente, a cada hora surge um novo saber, a satisfação deve ser instantânea. Como educar nessa era? O que priorizar? Para Gadotti, a escola é um espaço de relações, “a escola não é só um lugar para estudar, mas para se encontrar, conversar, confrontar-se com o outro, discutir” (2007, p. 12). Ela não é apenas um espaço físico, mas um modo de ser e de ver. Para o autor, vivemos em uma sociedade aprendente, onde o mais importante é aprender a pensar autonomamente, onde o papel do professor é muito mais de mediador do conhecimento.

É fundamental dizer que o ser humano é um ser de relações, e não só de contatos. “Não apenas está no mundo, mas com o mundo” (FREIRE, 2009, p. 47). Estar no mundo e não só com o mundo significa influenciar e ser influenciado por ele, relacionar-se, dialogar. É ter abertura e disponibilidade para reconhecer a realidade.

Moraes afirma que “educar é um processo de transformação conjunta na convivência, no qual o aprendiz transforma-se em comunhão com seus professores e companheiros em seu espaço educacional” (2008, p. 252). A autora defende ainda que, essa transformação ocorre tanto na “dimensão explícita ou consciente, como na implícita ou inconsciente” (2008, p. 252). Estando muitas vezes a afetividade na sua dimensão implícita, porém permanentemente presente.

Freire (1996) afirma que ter disponibilidade para o diálogo pressupõe compreender que só o diálogo comunica, e que quando os dois polos do diálogo se ligam, com amor, com esperança, com fé um no outro, se fazem críticos na busca de algo, “instala-se então, uma relação de simpatia entre ambos” (2009, p. 139). Só o diálogo torna uma relação horizontal, possibilita ver o outro como ser humano, uma vez que a existência, enquanto humana, não pode ser muda, silenciosa, nem tampouco pode nutrir-se de falsas palavras. Nesse sentido, dialogar é mais do que se comunicar, é dar ao outro a possibilidade de se colocar, se posicionar. É tanto um exercício de escuta, como uma prática de pronúncia, possibilitando um olhar diferente para com o aluno. Neste sentido, Batalloso colabora, afirmando que:

Optar pelo ser humano em vez de optar pelo aluno, optar pela pessoa e não pelos seus papéis ou suas máscaras, optar pelas suas circunstâncias ou singularidades especiais significa entender que o componente principal de toda ação de educar é, antes de mais nada, ajudar, estimular, acompanhar, animar, criar o ambiente adequado para que os seres humanos aos quais servimos cresçam, se desenvolvam, amadureçam e se tornem autônomos, no mais amplo sentido do termo (BATALLOSO, 2011. p. 36).

Dessa forma, é imprescindível que o professor assuma o aluno como um ser humano, um ser em desenvolvimento, assumindo uma postura de ajuda, de auxílio. O ambiente pedagógico deve ser um lugar de fascinação, não de inibição, devendo propiciar aprendizagem, conhecimento, alegria e prazer. E isso só se torna possível a partir do olhar acolhedor e presente do professor, de sua postura dialógica e aberta.

Para Assmann, é necessário reintroduzir na escola o princípio de que toda a morfogênese do conhecimento tem algo a ver com a experiência do prazer, “quando esta dimensão está ausente, a aprendizagem vira um processo meramente instrucional” (2007, p. 29). Bauman, por sua vez, afirma que o mundo é inóspito à educação. Para ele, na modernidade líquida, a crise da educação é totalmente nova, a sociedade não é hospitaleira, não acolhe a educação como esta merece. “O conhecimento sempre foi valorizado por sua fiel representação do mundo, mas se o mundo se transformar de tal maneira que desafie continuamente a verdade do conhecimento existente” (2011, p. 114).

A partir desta reflexão, surgem duas questões que sempre estiveram presentes na formação dos professores. A primeira justifica a necessidade e os benefícios do repasse de informação dos professores para os alunos. A segunda incutiu nos professores a autoconfiança necessária para insistir na validade atemporal do modelo que desejavam ver seguido e imitado por seus alunos.

A educação assumiu muitas formas no passado e se demonstrou capaz de adaptar-se à mudança das circunstâncias, de definir novos objetivos e elaborar novas estratégias... A mudança atual não é igual às que se verificaram no passado. Em nenhum momento crucial da história da humanidade os educadores enfrentaram desafio comparável ao divisor de águas que hoje nos é apresentado... Ainda é preciso aprender a arte de viver num mundo saturado de informações. E também a arte mais difícil e fascinante de preparar seres humanos para essa vida (BAUMAN, 2011, p. 125).

Nesse sentido, Turnbull afirma que a complexidade da vida no século XXI acompanhando as contínuas mudanças sociais tem tido impacto muito grande no papel profissional dos professores. Ele insiste que é necessário trabalhar de forma eficaz, aberta e assertiva. Este novo enquadramento implica “deixar de ser um sábio no pódio para tornar-se um guia ao lado do aprendiz” (2009, p. 20).

É importante ressaltar que, de acordo com a teoria interacionista de Vygotsky (2007), a aprendizagem e o desenvolvimento estão inter-relacionados, ou seja, a criança vai se desenvolvendo de acordo com as aprendizagens desenvolvidas e, ao mesmo tempo, ela vai construindo novas aprendizagens na medida em que ela vai se desenvolvendo. A isso o autor denomina de Zona de Desenvolvimento Real e Zona de Desenvolvimento Proximal. A primeira está relacionada àquilo que a criança consegue fazer por si mesma, e a segunda está relacionada ao que a criança é capaz de realizar com a ajuda de um adulto.

Ela (a Zona de Desenvolvimento Proximal) é a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (VYGOTSKY, 2007, p. 94).

Dessa forma, a Zona de Desenvolvimento Proximal revela os modos de agir e de pensar que ainda estão em fase de elaboração na criança e exigem a ajuda do outro para alcançar a autonomia. Daí a necessidade de comunicação, base do desenvolvimento da criança. Assim, o papel primordial do professor é trabalhar na Zona de Desenvolvimento Proximal, auxiliando o aluno para que ele crie possibilidades de, na medida em que ele for capaz de realizar uma tarefa sozinho, prosseguir para a próxima. Nesse sentido, é necessário que o professor esteja presente e atento às reais situações de cada um.