Os intrumentos de pesquisa compreendem as técnicas de coleta e análise dos dados. Mantendo a coerência com os pressupostos qualitativos de pesquisa, houve a integração das seguintes técnicas de coleta de dados: 1) realização de entrevistas individuais e coletivas, semiestruturadas e não estruturadas; 2) observação direta e indireta sistemática; e 3) levantamento de dados documentais. A articulação de diferentes técnicas de pesquisa é uma das características da pesquisa qualitativa. Nessa forma de interação, segundo Denzin e Lincoln (2006), cada técnica revela uma diversidade de significados, sendo essa uma base importante para a produção do conhecimento.
O conjunto de entrevistas realizadas, em alguns momentos, por meio de roteiro semiestruturado (Apêndices A, B e C), constituiu de encontros agendados de forma prévia e individual. No entanto, dentre os 22 (vinte e dois) agendamentos, 3 (três) encontros foram realizados coletivamente, junto a cinco pichadores; três jovens vinculados a uma produtora cultural da cidade, dos quais apenas um participara da ação de despiche no Complexo da Lagoinha; e dois gestores da Coordenadoria da Juventude, vinculada à estrutura da SMGO. Reconheço que o caráter coletivo tende a influenciar as discussões, uma vez que um indivíduo pode responder a determinada questão ou se posicionar ante a um assunto polêmico de acordo com os demais respondentes. Todavia, tratei de lidar com esse aspecto conduzindo a conversa de forma não estruturada, direcionando os questionamentos a cada um dos entrevistados, sem perder de vista as temáticas estudadas.
As observações realizadas durante a fase de coleta de dados contemplam sobremaneira os lugares de despiche e os lugares de encontro para as entrevistas. A técnica, realizada entre maio e dezembro de 2013, permitiu um contato mais direto com a realidade dos lugares; o exame das perspectivas que foram apontadas pelos sujeitos; e a evidenciação de dados não constantes nos roteiros. As observações foram feitas individualmente de forma direta e indireta de forma sistemática, buscando registrar aspectos e elementos significativos para a pesquisa segundo as temáticas teorizadas. Cada deslocamento, seja para entrevistas ou para a simples observação, foi acompanhado de registros fotográficos, a fim de reduzir as dificuldades de organização dos dados observados, assim como a dependência da memória, que poderia gerar interpretações meramente subjetivas ou parciais dos fenômenos.
Dos vinte dois lugares de pesquisa, conforme a Figura 4, três compõem os lugares de pesquisa e foram analisados em relação aos aspectos identitários e topográficos, bem como à sua representação para a cidade de Belo Horizonte. Nesses busquei registrar imagens com uma câmera fotográfica pessoal, modelo digital, com 16.2 megapixels de resolução. Tendo em vista o compartilhamento de histórias e memórias que evidenciaram experiências e percepções acerca do passado da cidade, recorri a imagens disponíveis na internet a fim de elevar a capacidade de análise espaço-temporal, compreensão dos temas estudados e visualização do que me era relatado.
Os dados secundários referentes à pesquisa correspondem a documentos de domínio público e particular, incluindo apresentações, cartilhas de divulgação e relatórios. Dentre os documentos acessados, destaca-se o programa de governo ou o Planejamento Estratégico BH 2030, idealizado para a gestão 2009-2012 e 2013-2016, e seus desdobramentos em projetos e ações estratégicas, publicados no Portal de Serviços e Informações da Prefeitura de Belo Horizonte (Portal PBH) ou cedidos pelos entrevistados. Dentre os documentos também constam as orientações legais sobre pichação19 e informações históricas de Belo Horizonte, citadas e referenciadas ao final da pesquisa. O levantamento de dados secundários permitiu um exame inicial sobre o Projeto de Combate à Pichação e o mapeamento dos lugares alcançados pelas ações do projeto nas nove regionais administrativas. Com esse levantamento inicial foi possível ir a campo em busca de mais detalhes sobre o projeto e sua interface com os temas investigados no âmbito da cidade.
Associado aos meios de coleta de dados selecionados para a pesquisa de campo, conforme recomendam Lopes et al., (2002), Malinowski, (1997) e Roese et al., (2006), foram realizados relatos como em um diário de campo para registro de fatos que se sobressaíram nas trajetórias pela cidade e junto aos sujeitos de pesquisa no período que contempla a fase de coleta de dados, estendendo-se em outros momentos do estudo. Nesse estudo minhas anotações de campo são apresentadas de forma complementar aos dados em notas de rodapé, somando aos discursos e às imagens fotográficas algumas interpretações que muitas vezes fogem dos momentos de entrevistas e aos registros de imagens. Em conjunção ao caderno de campo, também são
complementares os registros fotográficos dos lugares observados. De acordo com Banks
19 Dispostas no Código de Posturas; na Lei de Crime Ambiental; Leis de Direito à Paisagem; Lei Nº 10.059 (políticas
anti-pichação); Lei Nº 6368/93 (comercialização de tintas e recipientes de spray); Lei 6995/05 (proíbe pichação no âmbito do município); Lei Nº 12.408/11 (descriminalização do grafite).
(2009, p. 50), há um leque de possibilidades em pesquisas que adotam essa técnica, uma vez que o tipo de dado coletado em registros fotográficos são representações de um complexo maior.
Como meio de apreensão e análise da “real das ruas” os instrumentos de coleta de dados
contribuíram na captação de diferentes vozes, leituras e visões compartilhadas a partir dos textos primários e secundários, de imagens diretas e indiretas e das percepções do campo. Cada uma das técnicas marcou pontos entre pessoas e lugares que pouco se relacionam a uma dada distância física entre si. Nesse mapa existem então os relevos psicogeográficos, algumas correntes constantes, pontos fixos, eixos de passagens e multidões que dificultam e facilitam o acesso aos portões de entrada e às saídas de certas zonas urbanas. Para tanto, não escolhi um veículo específico, pois com cada um deles guiei e fui guiada a delineamentos que, embora se trate por precisão, permitiram seguir o fluxo da dinâmica urbana na cidade.
No que tange a técnica de análise dos dados, tendo em vista a interpretação da realidade segundo as perspectivas dos sujeitos e a defesa da comensurabilidade entre os paradigmas epistemológicos, aproprio-me de uma forma estruturalista de análise, segundo os pressupostos da Análise do Discurso. Essa técnica de tratamento dos dados permite um exame sistemático de textos e busca compreender os discursos, aprofundar o entendimento de suas categorias gramaticais em relação às ideologias e extrair os aspectos mais relevantes explícitos, implícitos e silenciados (FIORIN, 2005). A Análise do Discurso, assim entendida, configura-se na vertente francesa ou estruturalista, cuja abordagem articula as categorias linguísticas aos aspectos sócio-históricos e ideológicos, o que confere destaque para a relação entre linguagem e produção social (ORLANDI, 2009). Nessa concepção, o discurso é a materialidade simbólica da produção social, uma categoria de linguagem que está diretamente conexa ao sujeito, que, por sua vez, está sempre ligado a uma ideologia.
Nos estudos organizacionais, a Análise do Discurso vem sendo empregada como método que ultrapassa as práticas discursivas escritas, faladas e interacionais no ambiente das organizações. Seu principal objetivo é servir de instrumento de leitura e desvendamento do objeto, respaldando, ainda, as possibilidades de teorização (CARRIERI et al., 2009). De acordo com Godoi (2010), no campo organizacional não se pretende uma análise de textos, mas a reconstrução dos sentidos dos discursos e dos interesses dos sujeitos na organização. Segundo Melo (2009, p. 3), “o objeto de estudo de qualquer análise do discurso não se trata tão somente
da língua, mas o que há por meio dela: relações de poder, institucionalização de identidades
sociais, processos de inconsciência ideológica, enfim, diversas manifestações humanas”.
Dessa forma, a aplicação da Análise do Discurso ultrapassa uma simples análise verbal ao incluir aspectos não verbais e engendrar uma análise interacional. Seu diferencial está na evidenciação do sujeito no texto e na consideração da possibilidade de que os que as pessoas dizem nem sempre condiz com seus sentimentos e vivências (GODOI, 2010). Em sua complexidade os discursos compõem diversos elementos que preconizam uma análise contextualizada. Assim, nesse momento da pesquisa, talvez não mais à deriva, aproprio-me de um roteiro20 estruturado de análise, conforme as dimensões da vertente francesa, para identificação e análise dos elementos, conforme os itens a seguir:
a) Acervo lexical – conjunto de palavras enunciadas em um discurso;
b) Temas e figuras (explícitos ou implícitos) e personagens – evidência de elementos mais abstratos e concretos de um discurso;
c) Percursos semânticos estruturados a partir dos temas e figuras – repetição contínua de elementos semânticos;
d) Aspectos interdiscursivos – relação entre um conjunto de discursos ou um conjunto das unidades discursivas de um mesmo discurso;
e) Aspectos da sintaxe discursiva - estrutura ou disposição lógica pela qual um discurso é construído, incluindo figuras de linguagem (metáforas, metonímias, prosopopeias, e hipérboles);
f) Aspectos refletidos e refratados nos discursos – aspectos refletidos preservam o sentido socialmente estabelecido, aspectos refratados reinterpretam os sentidos conforme os referenciais dos enunciadores (ressignificação de temas nos discursos);
g) Condições de produção dos discursos - contexto da enunciação discursiva ou condição real disposta ao enunciador do discurso;
20 Os elementos desse roteiro são didaticamente tratatos pelo Professor Doutor Antônio Augusto Moreira de Faria, da
Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, e se baseiam nos pressupostos de Faria (1998); Fiorin (1999); Mainguenau (1999); Bakhtin (2006) sobre a Análise do Discurso na vertente francesa. Sua organização na forma de um roteiro foi feita pela primeira vez em Saraiva (2009).
h) Discursos presentes no texto – processos cognitivos de produção social de textos;
i) Aspectos ideológicos defendidos e combatidos – em termos discursivos, intenção do texto ou posição imanente a um dado enunciado discursivo;
j) Posição do texto em relação ao discurso hegemônico na sociedade – contraposição entre o discurso do enunciador e o discurso hegemônico da sociedade em termos dominantes e marginais.
A narrativa construída a partir da análise dos discursos seguiu da tabulação dos dados e seleção de fragmentos relevantes às discussões evidenciadas pelos sujeitos de pesquisa, relacionadas, ainda, às temáticas estudadas. Para fins de compreensão, os vocábulos sublinhados nos fragmentos referem-se aos léxicos que serão analisados, para os quais usei o destaque em itálico quando da sua retomada analítica. Adotei como suporte a introdução de trechos entre colchetes para destacar vocábulos que não foram enunciados pelos entrevistados, mas ajudam a conferir sentido às enunciações segundo a dinâmica da entrevista.