O presente estudo propôs uma investigação acerca dos impactos materiais, sociais e culturais da diplomação em cursos de alto prestígio da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Direito, Engenharia Química e Medicina, para egressos dos meios populares. Partiu-se da hipótese de que a escolarização nesses cursos específicos seria mais ampla do que o aprendizado de um ofício, impactando noutras instâncias da vida dos egressos investigados.
Podemos acompanhar, ao longo desse trabalho, que a escolarização desses jovens foi caracterizada por um grande esforço, tanto individual quanto familiar, para a manutenção no sistema de ensino até a conclusão do ensino superior, devido às frágeis condições de existência. E também por uma trajetória de excelência escolar/ acadêmica que contribuiu para o processo de escolha de cursos tão seletivos, entrada, permanência e graduação. Não obstante o esforço e a excelência de cada pesquisado, foi possível observar a importância de outros elementos, não menos relevantes, como favorecedores desse processo, como a interferência familiar (direta ou difusa), redes de apoio externas à família, conformação e docilidade às regras da escola e da universidade, dentre outros.
Como vimos, a entrada na universidade trouxe muita satisfação aos sujeitos e ao mesmo tempo estranhamento e desconfiança acerca desse novo espaço que frequentariam por um longo período, especialmente no que se refere à condição socioeconômica e cultural dos colegas de turma que desse ambiente compartilhavam. Porém, tal fato não os impediu de permanecerem e se graduarem, assim como de irem se enturmando, construírem laços de amizade e desenvolverem o sentimento de pertença àquele novo grupo e espaço (exceto Camilo (M) e Pablo (M). Além de usufruírem (na medida do possível) dos equipamentos disponibilizados à comunidade acadêmica, assim como os disponibilizados pela cidade de Belo Horizonte, como bibliotecas, o clube universitário, salas de cinema e eventos no campus e fora dele, como shows, calouradas, festas e peças teatrais. Equipamentos e eventos que talvez não tivessem acesso se não fossem estudantes da UFMG e não estivessem morando na Capital mineira em razão da graduação.
Com efeito, verificamos que a passagem pela universidade trouxe impactos positivos, principalmente, pela natureza dos cursos pesquisados e da convivência sistemática com colegas com patrimônios distintos. Em relação aos impacto materiais, que podem ser entendidos como
rendimentos auferidos, a grande maioria protagonizou uma mobilização de média e longa distância comparada ao grupo familiar de origem, com apenas quatro deles apresentando uma mobilização mais modesta. Todavia, desses quatro, dois optaram por menores remunerações enquanto se qualificavam ainda mais como Catarina (M) e Max (EQ) e não por dificuldades em encontrar melhores empregos como Técia (EQ) e Roberto (EQ). Esta constatação se faz importante, uma vez que os entrevistados não possuíam, anteriormente à diplomação, registros significativos de capitais, no sentido bourdiesiano.
Além disso, o ingresso em cursos de prestígio nesta universidade possibilitou aos entrevistados a aquisição de um capital social significativo e o trânsito mais livre noutros seguimentos sociais, o que refletiu nas redes de relacionamentos que eles acessaram para conseguir trabalho e informações úteis, assim como nas relações matrimoniais e afetivas contraídas, demonstrando um impacto social positivo.
Acerca do impacto cultural, observamos que ele foi mais difuso, estando bastante vinculado à bagagem que o entrevistado já trazia consigo, especialmente para o consumo de obras mais cultivadas, seja na literatura, no cinema ou no teatro. Ainda assim, constatamos uma
“boa vontade” cultural para o consumo dessas obras, por meio da mobilização para ler, ir ao
teatro e ao cinema da maioria dos pesquisados (mesmo sem uma significativa bagagem anterior e pouca independência em relação aos próprios gostos adquiridos ao longo da vida). Tal conjuntura pode ser creditada ao convívio com colegas com patrimônios mais elevados, como por exemplo o papel de pupilo exercido por Henrique (M) no aprendizado da literatura canônica por meio de um amigo de classe e o de Fábio (D) no aprendizado da filosofia com um professor e jazz com um amigo de sala. Além do fato de Fábio (D) e Francisco (D) terem aprendido o idioma inglês, especialmente motivados pelos colegas de turma que já detinham previamente esse idioma. Sobre a leitura literária, cabe uma observação, percebeu-se que apesar da “boa vontade” cultural para essa prática, com metade dos entrevistados terem alegado o aumento de suas leituras durante a universidade, houve também um deslocamento das leituras para o campo profissional/ acadêmico, o que levanta questionamentos acerca de uma suposta superioridade da leitura literária sobre a profissional na atualidade. Apesar disso, podemos constatar um esforço dos sujeitos para adquirirem um capital cultural que se assemelhasse ao das elites intelectuais predominantes no Brasil, durante e após a universidade (PULICI, 2010; NOGUEIRA, 2000).
Em linhas gerais podemos dizer que a diplomação em cursos de alto prestígio da UFMG trouxe impactos positivos aos egressos pesquisados, nos campos material, social e cultural e tal fato pode ser relacionado aos emaranhados de situações e contextos a que estiveram expostos ao longo de suas trajetórias escolares/ acadêmicas e de vida.
Em outra dimensão, é importante considerar que paralelamente à realização deste trabalho, há mudanças em curso na dinâmica de acesso ao ensino superior nas universidades públicas brasileiras. Estas mudanças poderão tornar menos incomum a presença de estudantes dos meios populares em cursos de prestígio, uma vez que pretende-se reservar a eles 50% do total de vagas (BRASIL, 2012). Nessa perspectiva, algumas discussões aqui apresentadas, como as desigualdades de acesso e os processos de escolha do curso superior, poderão assumir outros sentidos deslocando a discussão para a permanência universitária e aprofundando os estudos acerca dos ganhos decorrentes do diploma em nível superior.