A tabela abaixo resume os resultados dos testes estatísticos para os diferentes agrupamentos de acordo com as variáveis sociodemográficas (tempo de bombeiro e estado civil) e as oito estratégias de coping, tanto focadas no problema como focadas na emoção.
Tabela 23 Estratégias de coping vs Tempo de Bombeiro e Estado Civil
ESTRATÉGIAS DE COPING vs TEMPO DE BOMBEIRO E ESTADO CIVIL
ESTRATÉGIA TEMPO DE
BOMBEIRO* ESTADO CIVIL**
Estratégia 1 - Confronto 0,308 0,55
Estratégia 2 - Afastamento 0,066 0,066
Estratégia 3 - Autocontrole 0,26 0,049
Estratégia 4 - Suporte Social 0,536 0,337
Estratégia 5 - Aceitação de Responsabilidades 0,922 0,477
Estratégia 6 - Fuga, Esquiva 0,439 0,556
Estratégia 7 - Resolução de Problemas 0,538 0,287 Estratégia 8 - Reavaliação Positiva 0,729 0,136 * Foram utilizados testes Mann-Whitney
Tabela 24 Cruzamento Estratégia de coping Auto Controle vs Estado Civil
ESTRATÉGIA AUTO CONTROLE vs ESTADO CIVIL
Estado civil N
Estratégia Auto controle
Casado(a) ou União
Estável 110
Divorciado(a) 4
Solteiro(a) 34
Total 148
ESTRATÉGIA AUTO CONTROLE
Chi-Square 4,306
df 2
Asymp. Sig. ,116
a. Kruskal Wallis Test
b. Grouping Variable: Estado civil
As tabelas 24 e 25 ilustram que com referência às estratégias de coping utilizadas pelos bombeiros (confronto, afastamento, autocontrole, suporte social, aceitação de responsabilidades, fuga e esquiva, resolução de problemas e reavaliação positiva) encontramos apenas significância estatística entre a estratégia Autocontrole e Estado Civil (p>0,049). Quanto ao Tempo de Bombeiro, não houve significância estatística e as estratégias de coping. Os profissionais que estão divorciados obtiveram significância estatística (p>0,116), portanto são os que mais utilizam a estratégia Autocontrole. Contudo, a amostra de divorciados é muito pequena N = 4, sugerindo então um viés de seleção.
Tabela 25 Cruzamento das estratégias de coping focadas no problema vs subescala de Despersonalização do MBI - HSS
ESTRATÉGIAS DE COPING FOCADAS NO PROBLEMA vs SUBESCALA DE DESPERSONALIZAÇÃO - MBI
ESTRATÉGIAS DESPERSONALIZAÇÃO Média de
Ranks P valor Estratégia Suporte Social Nível baixo 63,12 Nível Médio 75,17 Nível Alto 76,53 ,452 Estratégia Aceitação de Responsabilidade Nível baixo 44,32 Nível Médio 72,75 Nível Alto 82,26 ,002 Estratégia Resolução de Problemas Nível baixo 52,32 Nível Médio 81,20 Nível Alto 74,78 ,041 Estratégia Reavaliação Positiva Nível baixo 52,24 Nível Médio 72,12 Nível Alto 80,97 ,026
ESTRATÉGIAS DE COPING FOCADO NO PROBLEMA VS SUBESCALA DE DESPERSONALIZAÇÃO
Estratégia Suporte Social Estratégia Aceitação de Responsabilidade Estratégia Resolução de Problemas Estratégia Reavaliação Positiva Chi-Quad. 1,587 12,645 6,405 7,328 df 2 2 2 2 Sig. Assint. ,452 ,002 ,041 ,026
a. Kruskal Wallis Test
Referente a estratégia de coping Suporte Social e a subescala de Despersonalização – MBI, observa-se que a média do rank no nível baixo é 63,12, no nível médio 75,17 e nível alto 76,53. Já a estratégia Aceitação de Responsabilidades, nível baixo 44,32, nível médio 72,75 e nível alto 82,36. Relativo a estratégia Resolução de Problemas, nível baixo 52,32, nível médio 81,20 e nível alto 74,78. Por último, a estratégia Reavaliação Positiva apresenta-se em nível baixo e média 52,24, nível médio 72,12 e nível alto 80,97. Nota-se que, ao comparar as médias dos ranks, a Despersonalização é de nível alto quando a utilização das técnicas de coping é mais alta. Foi aplicado o teste de Kruskal Wallis para 4 fatores de coping (focados no problema). Apenas na estratégia de Suporte Social não houve significância estatística (p>0,452). Ao utilizarem as estratégias de Aceitação de Responsabilidades, Resolução de Problemas e Reavaliação Positiva nota-se significância estatística. Portanto, quanto mais utilizam estas três estratégias focadas no problema, maior é a Despersonalização.
Tabela 26 Estratégias de coping focadas no problema vs Exaustão Emocional do MBI - HSS
ESTRATÉGIAS DE COPING FOCADAS NO PROBLEMA X SUBESCALA EXAUSTÃO EMOCIONAL – MBI
Exaustão Emocional Média de Ranks P valor
Estratégia Suporte Social Nível baixo 73,01 Nível Médio 73,99 Nível Alto 79,77 Estratégia Aceitação de Responsabilidade Nível baixo 63,67 Nível Médio 81,51 Nível Alto 93,75 Estratégia Resolução de Problemas Nível baixo 72,95 Nível Médio 76,50 Nível Alto 75,50 Estratégia Reavaliação Positiva Nível baixo 72,12 Nível Médio 68,60 Nível Alto 91,90
ESTRATÉGIAS DE COPING FOCADO NO PROBLEMA VS EXAUSTÃO EMOCIONAL Estratégia Suporte Social Estratégia Aceitação de Responsabili dade Estratégia Resolução de Problemas Estratégia Reavaliação Positiva Chi-Square ,563 12,934 ,234 6,056 df 2 2 2 2 Sig. Assint. ,755 ,002 ,889 ,048
a. Kruskal Wallis Test
Quanto à subescala de Exaustão Emocional – MBI e às estratégias de
coping focadas no problema, nota-se que no que se refere à exaustão emocional e à
estratégia Suporte Social a média do rank no nível baixo é 73,01, nível médio 73,99, nível alto 79,77. Na estratégia de Aceitação de Responsabilidades no nível baixo a média é 63,67, no nível médio 81,51 e no nível alto 93,75.
Já para a estratégia Resolução de Problemas, a média no nível baixo é 72,95, no nível médio 76,50 e no nível alto 75,50.
Por último, a Reavaliação Positiva, tem média 72,12 no nível baixo, 68,60 no nível médio e 91,90 no nível alto. Novamente, nota-se que ao comparar as médias dos ranks, a Exaustão Emocional é de nível alto quando a utilização das técnicas de coping é mais alta. Foi aplicado o teste de Kruskal Wallis para 4 fatores de coping (focados no problema) e em dois fatores Suporte Social e Resolução de Problemas não houve significância estatística. Por sua vez, em relação à Aceitação de Responsabilidades (p>0,002) e a Reavaliação Positiva (p>0,048) foi encontrada significância estatística.
7 DISCUSSÃO DE RESULTADOS
Dentre as profissões de ajuda, a de bombeiro tem sido considerada uma das que mais exigem de seus profissionais. Pode-se mesmo afirmar que se trata de uma profissão de risco ao se considerar a natureza das funções desempenhadas, o confronto diário com situações e experiências de graves danos pessoais e materiais e a iminência da morte para os que esperam ser salvos e casuisticamente também para os salvadores.
Perrenoud (1999), antropólogo francês, define a profissão de professor com a frase “ensinar é agir na urgência e decidir na incerteza” ( p.5), característica que imprime ao ofício do professor um alto grau de predisposição ao estresse e ao
burnout. Ressalvadas as diferenças da condição na qual exercem suas atividades,
pode-se afirmar que os bombeiros estão como os professores cotidianamente agindo na urgência e decidindo na incerteza, colocando constantemente à prova os seus recursos emocionais, desafiando-se permanentemente para se manter saudável no contexto propício à doença (estresse e burnout).
Neste estudo pretendeu-se pesquisar a prevalência do estresse e da síndrome de burnout em bombeiros que atuam na cidade de São Paulo. O foco da pesquisa foi investigar a relação entre estes transtornos e as estratégias de coping desenvolvidas pelos profissionais. Procurou-se, em síntese, responder à questão se os sintomas do estresse e da síndrome de burnout podem sofrer influência preventiva ou minimizadora através do fortalecimento das estratégias de coping na população estudada.
Os dados da caracterização da amostra mostram que a grande maioria dos bombeiros entrevistados é do gênero masculino 98,0%. Esta grande diferença entre gêneros possivelmente reforça a ideia da força física que esses profissionais precisam dispor constantemente, “corpos diferentes, direitos iguais”38. Um
percentual de 94,6% dos pesquisados não recebem atendimento psicológico ou psiquiátrico nem precisaram se afastar do trabalho por licença médica e 89,8% não precisaram se afastar do trabalho por licença médica. Este resultado pode ser visto de forma positiva em função do contexto potencialmente estressante em que atuam, mas por outro lado, deixa algumas questões a serem investigadas: A maioria não é
tão jovem (têm mais de 30 anos) e têm mais de 15 anos de trabalho (experiência). Estas condições os deixariam emocionalmente melhor preparados para lidar com as dificuldades da profissão? Ou até que ponto o fato de não estarem em atendimento psicológico e psiquiátrico e nem em licença médica tem uma relação linear com a ausência de distúrbios ou sofre a influência da maneira como por questões de valores e formação se admite e se lida com o estresse? É importante considerar ainda que a maioria dos entrevistados relata não ter nenhum problema de saúde (89,9%), o que se constitui outro fator potencialmente preventivo do estresse e suas decorrências. Dos que relatam algum problema de saúde, 42 profissionais apontam para problemas na coluna. Ao que parece, este problema não se configura crônico na corporação, visto que continuam atuando em uma profissão que boa saúde e um condicionamento físico notável são indispensáveis.
O tratamento dos dados obtidos com a aplicação da Escala de Estresse no Trabalho (EET) aponta para um percentual de 71,6% da amostra em situação de estresse ou com risco de estresse. Este resultado apresenta uma contradição em relação à situação de pouca incidência de doenças e licenças médicas, o que sugere a existência de mecanismos internos (recursos emocionais) e condições externas (ambiente de trabalho, missão, valores, reconhecimento, condicionamento físico) para o enfrentamento do estresse. Ao serem classificados de acordo com a escala sobre os cinco fatores desencadeadores do estresse (autonomia e controle; papéis e ambiente de trabalho; relacionamento com o chefe; relações interpessoais e crescimento e valorização pessoal. Entre os indivíduos estressados e com risco de estresse, há uma tendência a valorizar o fator 1 (autonomia e controle) e o fator 2 (relacionamento com o chefe) e o fator 5 (crescimento e valorização profissional). Por outro lado, os profissionais sem estresse dão maior importância aos fatores 2 ( papéis e ambiente de trabalho) e 4 (relações interpessoais). Diferença de posições justificáveis quando se considera que o estresse tem entre seus sintomas a sensação da perda do controle, a irritação, impaciência e ansiedade, sentimentos nada propícios ao cultivo das relações e à valorização pessoal e profissional.
Na questão da correlação entre o estresse e a faixa etária, observa-se significância estatística (p>0,012), demonstrando um aumento do nível risco de estresse e estresse diretamente proporcionais ao aumento da faixa etária. Os profissionais situados na faixa etária entre 18 – 28 anos apresentam pontuação abaixo de 2, portanto de acordo com a nota de corte da Escala de Estresse no
Trabalho (abaixo de 2 sem estresse, 2 a 2,5 risco de estresse e 2,5 estresse)39 estão
categorizados sem estresse. Por sua vez, os bombeiros que estão na faixa etária 29 – 39 anos e 40 – 50 anos têm respectivamente pontuação 2,41 e 2,50, indicando uma incidência maior de risco de estresse. Por fim os profissionais pertencentes à faixa etária de 51 – 61 anos apresentam pontuação 2,6, indicando a que nesta faixa etária há um aumento da prevalência do estresse.
É importante salientar que aos 25 anos de serviços prestados à Polícia Militar, os profissionais bombeiros militares podem se aposentar, e supondo que muitos se aposentem na idade de 45 anos são jovens para que fiquem sem nenhuma atividade laboral. Segundo relatos dos próprios bombeiros durante a coleta de dados, esta situação pode se constituir em fator de estresse pela iminência de terem que se desligar da corporação tão importante em suas vidas e encontrar uma nova atividade laboral. Também há relatos de que muitos adoecem após a aposentadoria, suposição constatada durante a conversa com três profissionais que se aposentariam em poucos meses, situação que não é exclusiva dos bombeiros, mas de modo geral a todas as pessoas que ingressam nesta nova fase de vida.
Sobre a Exaustão Emocional e a Despersonalização e Estresse há significância p<0,001. Esta significância estatística em ambas as subescalas do MBI (Maslach Burnout Inventory) e a Escala de Estresse no Trabalho sugere que quanto maior o nível de estresse, maior a Exaustão Emocional e maior a Despersonalização o que corrobora com a literatura.
Sobre o Estresse e a Realização Pessoal, o resultado obtido na comparação entre os grupos “sem estresse” e “risco de estresse” com o grupo “estresse” encontra-se significância p menor que 0,01. Portanto, conclui-se que, quem tem Realização Pessoal alta (nota menor) tem menos estresse, indiciando que a alta Realização Pessoal se constitui fator preventivo de estresse.
Em relação à síndrome de burnout, os resultados são positivamente significativos quando se focaliza o sintoma da Exaustão Emocional. Entretanto, embora mais da metade dos indivíduos que compõem a amostra não apresentar sintomas de esgotamento (51,4%), uma parcela importante (31,1%) sofre de níveis médios de esgotamento emocional. O percentual dos profissionais com alto nível de exaustão emocional é de 17%, índice estatisticamente pequeno, mas indicador da
necessidade de se investigar porque alguns profissionais não têm os mesmos recursos para lidar com o estresse. Esta situação alerta para a necessidade de mais estudos e ações de prevenção do estresse no trabalho como estratégia para minimizar a incidência do burnout, lembrando que a somatória dos profissionais com nível médio e alto de exaustão emocional alcança 48,1% da amostra, número bem próximo aos que não sentem exaustão emocional. Os dados provocam também a reflexão sobre as estratégias utilizadas pelos profissionais para conviver com a situação geradora de estresse e se proteger dela defendendo-se naturalmente do sofrimento de exaustão emocional.
O alto índice representativo do nível de Despersonalização (52,7%) somado ao índice de nível médio (35,8%) mostra que com maior ou menor intensidade este sintoma estaria presente em 88% dos bombeiros. A despersonalização caracteriza- se pelo desenvolvimento de atitudes indiferentes e até mesmo negativas em relação às pessoas com quem trabalha, levando o profissional a agir como se fosse outra pessoa. Nesta perspectiva, neste momento é necessário distanciar-se um pouco da evidência estatística e refletir se esta não seria uma postura defensiva e protetiva nos momentos em que o profissional se coloca diante de situações emergenciais que são impactantes a qualquer profissional. Como tal, as respostas podem indicar um comportamento pontual e esporádico durante os momentos mais dramáticos do desempenho das funções, um distanciamento defensivo que precisa ser mais bem investigado para caracterizá-lo como o sintoma da Despersonalização no burnout Não obstante, segundo o IBOPE40, o Corpo de Bombeiros manteve o primeiro lugar em 2014 (no topo desde 2009) como a instituição mais confiável do País. Esta é a conclusão do Índice de Confiança Social (ICS) – Instituições referentes ao ano de 2014, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope). As 18 instituições avaliadas no ICS pertencem tanto à esfera pública quanto à privada, além da sociedade civil e buscam representar diversos setores do país. Em 2014, o Corpo de Bombeiros manteve-se na liderança do ranking, pelo quinto ano consecutivo. Em segundo lugar, estão as Igrejas seguidas pelas Forças Armadas. Portanto, a impessoalidade, insensibilidade e distanciamento afetivo para quem recebe seus serviços e atendimentos que a Despersonalização sugere, apresenta incompatibilidade com os dados desta pesquisa. Outro dado
40 Disponível em http://www.brasil.gov.br/defesa-e-seguranca/2015/07/ibope-corpo-de-bombeiros-e-a-
intrigante é a correlação forte e positiva entre a baixa Exaustão Emocional e a alta Despersonalização que esta população retrata. É proposto na teoria de burnout que haja correlação positiva entre estas variáveis somente quando apresentarem o mesmo índice representativo (exaustão alta, média ou baixa e despersonalização alta, média ou baixa), e uma for precursora da outra: a Exaustão Emocional prediz a Despersonalização o que não ocorreu com esta população. Citando caso que corrobora com a teoria Maslach proposta para o burnout, uma pesquisa realizada com 81 bombeiros de Cascavel – PR41 a Exaustão Emocional e a
Despersonalização apresentam níveis baixos e a Realização Pessoal nível médio. A reflexão comparativa sobre estas pesquisas sugerem que a despersonalização encontrada nos bombeiros militares da cidade de São Paulo podem indicar um afastamento psicológico transitório e pontual em situações emergências, que por vezes, pode prevenir o esgotamento emocional circunstancial. No entanto, acende a luz indicativa da necessidade de mais estudos e reflexões.
Os resultados obtidos em relação à Realização Pessoal surpreende pelo seu alto índice, demonstrando que a despeito dos problemas e das dificuldades do trabalho os profissionais bombeiros sentem-se pessoalmente realizados, independentemente da Exaustão Emocional ou Despersonalização. Alguns fatores podem explicar esta situação. A maioria dos profissionais está casada ou em união estável, tem filhos trabalham há mais de 15 anos, indicando estabilidade no aspecto familiar e profissional. Ainda que se queixem da falta de reconhecimento e valorização profissional, têm ciência de que socialmente seu trabalho é bastante reconhecido, colocando-os muitas vezes como heróis, homens dotados de coragem e energia para enfrentar situações de perigo e ajudar pessoas. A formação dos profissionais transmite valores e princípios de disciplina e solidariedade, reforçando- os constantemente.
O alto índice de Realização Pessoal pode ser, portanto, considerado uma das principais condições que fortalecem estes profissionais para o exercício de suas complexas atividades, constituindo-se em uma ferramenta reducionista o burnout e do estresse em bombeiros.
Apesar da elevada satisfação profissional e do baixo índice de exaustão emocional, tais profissionais estão vulneráveis visto que diariamente enfrentam
41 Disponível em http://www.sbpcnet.org.br/livro/58ra/SENIOR/RESUMOS/resumo_1272.html. Acesso
situações emocionalmente intensas, a agilidade em decidir muitas vezes sob pressão, com urgência e em condições de risco ou de limitação de recursos.
Com relação ao coping foi possível constatar que as estratégias de coping mais utilizadas em ordem decrescente e considerando a somatória dos que as utilizam “quase sempre” e em “grande parte das vezes” foram: Reavaliação Positiva, Aceitação de Responsabilidades, Resolução de Problemas e Suporte Social, todas focadas no problema. As menos utilizadas, em ordem crescente e também levando em conta a somatória dos que utilizam “quase sempre” e “grande parte das vezes” foram Auto Controle, Confronto, Fuga e Esquiva e Afastamento.
A Reavaliação Positiva, a primeira mais utilizada, é uma estratégia na qual o indivíduo lança mão de recursos cognitivos que o ajudem a aceitar a realidade. Busca encontrar elementos que amenizem a situação ou aspectos positivos da mesma num processo de diminuir a carga emocional envolvida no acontecimento. A segunda estratégia mais utilizada, Resolução de Problemas, também se constitui de ações focadas no problema, buscando alterar a resolver o problema e recompor a situação que o originou. A Aceitação de Responsabilidade, estratégia centrada no problema, dá conta de ações voltadas para reconhecer qual o seu papel na situação ou problema e para encontrar formas de resolução. São estratégias proativas que se coadunam com a formação, valores e missão da corporação. Outra vez os profissionais se esforçam para se apresentarem fortes e capazes de enfrentar situações estressoras e esta imagem de força tanto é moldada pela construção contínua das competências profissionais e pessoais como também pela resposta exigida pela sociedade, chefia, pares, enfim, pelo contexto do trabalho e social.
Por conjectura, em situações emergenciais as estratégias de coping focadas no problema são fundamentais e decisivas para o êxito da ocorrência em incidentes críticos, ainda que os dados obtidos não apontem para uma relação linear com a diminuição do estresse. Inicialmente a Reavaliação Positiva exerce um papel crucial ao se depararem com situações traumáticas e impactantes, lançando mão de recursos internos para ressignificação positiva e cenário calamitoso. A seguir, a Aceitação de Responsabilidades e a Resolução de Problemas aparentam estar coadunadas. O reconhecimento do próprio papel e a concomitante tentativa de resolvê-lo empregados com o objetivo de alterar a situação e associados a uma abordagem analítica para resolvê-lo configuram o passo seguinte da ocorrência. Por último, tomada a decisão, buscam o Suporte Social das equipes de apoio, da
corporação e da população. Por outro lado, a estratégia Autocontrole focada na emoção e com índice muito próximo ao Suporte Social, indicando uma crença na necessidade de regular os sentimentos e a próprias ações para que se a situação estressante passe, aparenta também exercer grande influência no momento do incidente crítico.
Embora menos utilizadas, as estratégias focadas na emoção também amparam no momento crítico. Ao utilizar a estratégia de Confronto, o individuo acredita que tem que enfrentar a situação sem se afastar das condições de risco que estão expostos. Há esforços agressivos para alterar o cenário, e neste caso tais esforços agressivos são positivos para que o desfecho da ocorrência seja benéfico. Porém, se houver risco de morte iminente (desabamento no caso de incêndios) há a Fuga/Esquiva para escapar dos riscos. Por último, a menos utilizada pelos bombeiros é o Afastamento da situação emergencial. Portanto, pode-se aventar a importância de se utilizar todas as estratégias de coping fundamentalmente em situações emergências para que a ocorrência se desenvolva com êxito.
Os resultados deste estudo, quando visualizados de forma global indicaram que os profissionais bombeiros entrevistados apresentam bom nível de realização pessoal e profissional. Também de forma geral, se pode concluir que os níveis de estresse e burnout não são elevados, ainda que se encontrem níveis altos de despersonalização e baixo índice de exaustão emocional em alguns entrevistados. Estes e outros eventos estatísticos podem significar uma vulnerabilidade ao estresse e ao burnout, entretanto, apesar desta vulnerabilidade também se percebeu que diferentes fatores agem como protetores dos bombeiros. É bastante provável que um destes fatores seja a elevada satisfação profissional.
Também há que se considerar que a natureza de seu trabalho, que lhes dá a possibilidade de salvar vidas e ajudar pessoas, a despeito de predispor ao estresse e ao burnout também são fontes de satisfação e realização. Não se pode esquecer ainda que são profissionais socialmente muito valorizados.
O ambiente de trabalho, o relacionamento com a chefia e a conduta dentro da disciplina militar não se constituíram fatores de insatisfação com o trabalho.