No que diz respeito à natureza do processo, os profissionais de RVC realçam que os adultos “apresentam dificuldades em compreender a lógica do processo.” (P2) dado que “trazem muitas vezes a ideia de que vão receber formação e sentem-se um pouco perdidos face à autonomia que é requerida.” (P2) e, por isso, em muitos casos, “temos histórias de vida que são histórias acerca das competências. Não têm nada de pessoal acerca deles.” (P3) Os adultos não trazem referências relativamente ao modelo de reconhecimento, distinto dos modelos de aprendizagem tradicionais e por eles conhecidos e, frequentemente, manifestam dificuldade em compreender a lógica de funcionamento deste paradigma: ” nas sessões, o método de ensino, não se explica nada” (A7), “quem esteja a ler e não tenha aconselhamento vai achar isto muito difícil e muito confuso.” (A6)
De acordo com os profissionais, alguns candidatos revelam dificuldades porque “não é unicamente a não compreensão do referencial é a lógica do processo que eles não compreendem”(P2), não compreendem o que significa validar competências, não compreendem o que é uma competência, e “fazem uma análise muito descritiva mas pouco reflexiva sobre a competência”(P2).
50
A noção de competência refere-se à capacidade que o sujeito dispõe para, face a um determinado problema, num determinado contexto, saber utilizar os diferentes tipos de saberes que possui (Cavaco, 2007). A competência apresenta um carácter integrador, dos diferentes saberes que o individuo detém, mas também dinâmico e contextualizado porque está sempre ligada a uma acção num certo contexto. Ao adulto em processo de reconhecimento é pedido que desoculte as competências que adquiriu num momento da sua vida, apelando não só para a memória mas, sobretudo, para a reflexão sobre a sua trajectória de vida. Este facto coloca problemas na identificação e avaliação da competência, não só “porque o processo de reconhecimento e validação ocorre diferido no tempo” (Cavaco, 2007), mas, fundamentalmente, porque exige uma capacidade reflexiva – para perceber se aquela experiência originou aprendizagens das quais resultaram competências – que “não é idêntica em todas as pessoas” (Pires, 2007). A reflexividade implica uma reelaboração e reconstrução da experiência que permite ao sujeito atribuir sentido àquela situação de vida no contexto da sua realidade actual. De acordo com Cavaco (2008) perceber a lógica do processo de RVCC é fundamental para que os adultos consigam reflectir sobre a sua experiência e dessa forma “rentabilizar as potencialidades formativas “ do processo. Só a reflexão sobre a experiência permite a consciencialização do saber-fazer que se traduzirá num saber.
O balanço de competências que o sujeito terá de efectuar no decurso do processo de reconhecimento implica um retorno à sua história de vida que lhe permita identificar as aprendizagens decorrentes da experiência. Nesse sentido, o processo de reconhecimento pressupõe uma auto avaliação do sujeito face à sua experiência de vida que, em última análise, implica uma avaliação das suas acções, das suas opções, do seu eu. A avaliação de situações de vida significativas confronta o sujeito consigo próprio e pode contribuir dessa forma para a construção da sua identidade. Este processo de auto avaliação, quando vivido positivamente, pode constituir um reforço da auto-estima e da auto- imagem do sujeito muito considerável. Se, pelo contrário, for realizado de forma pouco construtiva pode “ contribuir para uma fragilização em termos
51
identitários” (Pires, 2007), levando alguns adultos a afastarem-se do processo. A lógica do processo, bem como todos os procedimentos e a terminologia específica, é esclarecida na fase inicial de acolhimento do adulto no CNO, pela Técnica Diagnóstico e Encaminhamento e, posteriormente, nas primeiras sessões de reconhecimento, pelos profissionais de RVC. Ainda assim, a incompreensão da lógica do processo, a não identificação com o sistema de reconhecimento de competências, ou a dificuldade em exercer a capacidade de reflexão pode levar alguns adultos a afastarem-se do processo. Esta exigência reflexiva é uma marca do processo de nível secundário que, por um lado, nem sempre está patente nos candidatos e, por outro, quase nunca há o tempo suficiente para se provocar e construir. Neste âmbito, pensamos ser importante reforçar e diversificar o esclarecimento sobre a natureza do processo, no inicio e ao longo de todo o processo, recorrendo, se necessário a instrumentos que estimulem e trabalhem, a dimensão reflexiva do reconhecimento de competências.
Na perspectiva dos profissionais entrevistados, um dos factores determinantes no insucesso dos adultos em processo de RVCC-NS é o que poderemos designar por ausência de pré-requisitos. Muitos candidatos não concluem o processo de reconhecimento dado que não apresentam o perfil adequado: porque “não têm experiência profissional, não têm capacidade autónoma (P3), revelam “ausência de métodos de estudo” (P3), “ausência de competências ao nível do domínio da expressão escrita” (P1), “falta de organização” P2) e “falta de competências básicas para realizarem o processo, no domínio das TIC” (P2). Alguns adultos citam estes factores ainda que não os considerem absolutamente relevantes: “eu tinha um problema sério é que eu tinha que fazer um curso de informática” (A2); “é um processo que temos de pôr por escrito toda a nossa experiência de vida e eu tenho dificuldade nisso” (A11). A questão do perfil adequado para o processo é pertinente uma vez que os adultos são submetidos a um processo de encaminhamento prévio à entrada
52
em processo de RVCC. No caso concreto deste Centro Novas Oportunidades, na fase de diagnóstico, são realizados testes de TIC, Língua Estrangeira e Cidadania e Profissionalidade / Cultura, Língua e Comunicação que possibilitam o posicionamento dos candidatos face a competências estruturantes do processo RVCC-NS. São igualmente apresentadas aos candidatos diversas alternativas formativas de acordo com o seu perfil. No entanto, muitos candidatos procuram efectivamente uma possibilidade de completar o seu percurso formativo que lhes pareça mais rápida e que lhes ocupe menos tempo semanalmente. Ainda que esta ideia seja, muitas vezes, ilusória.
Apesar de tudo, parece-nos que podem ser desenvolvidas iniciativas que permitam colmatar algumas das dificuldades reveladas pelos adultos, nomeadamente ao nível das TIC ou da expressão escrita, sugerindo, por exemplo, a frequência de Formações Modulares Certificadas nessa área.