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muitos outras, de “vários metaes, tintas e outros generos”, as quais demarcou mas não teve possibilidade de as analisar.

Em relação aos produtos explorados, pouco se sabe actualmente do uso preciso da caparrosa (ou caparosa). Menções a caparrosa verde e azul aparecem em listas de materiais de droguista publicadas nas bases para orçamentos das empreitadas da construção civil em 1880 e 1896 (Cohen, 1880 e 1896). Nestes documentos contudo, a única referência encontrada ao seu possível emprego como pigmento é na composição de uma receita de pintura a cal (cf. ponto 2.2.1.2.) É possível que este mineral, um provável sulfato de ferro, também fosse utilizado como carga, tendo sido nos inícios do século XX um dos materiais utilizados para falsificar o pigmento verdete9 (Segurado, 1923).

O “ouro-pimenta”, também conhecido por “amarello real” no início do século XX e actualmente designado ouropigmento ou auripigmento, é um sulfureto de arsénio (As2S3) conhecido e utilizado em pintura desde a Antiguidade10 (Cabral, 2001; Cruz (a), 2007). Muito apreciado pela sua tonalidade amarelo dourado11 era um pigmento que, pela sua natureza química, só era aconselhado para as técnicas a seco (sobretudo a óleo), sendo de evitar nas artes da cal por reagir com hidróxido de cálcio e formar óxidos de arsénio. Por outro lado, também facilmente reage com pigmentos de cobre (ex. malaquite e azurite) e de chumbo. Outra desvantagem deste pigmento é sua elevada toxidade, o que fez com que progressivamente fosse posto de parte, quase não sendo empregue em pinturas de edifícios e decoração em 1903 (Fleury, 1903).

A palavra “azougue”, de origem árabe é sinónimo do metal pesado mercúrio. Pela constante menção a este tipo de jazida nas descrições do reino mineral durante este século, é possível que delas se pudesse extrair o cinábrio (um sulfureto de mercúrio natural, HgS) conhecido também como minium nos textos em latim da antiguidade Clássica e da Idade Média (Sá, 1783; Cruz, 2004; Cabral 2006). Esta hipótese é corroborada pela afirmação de Frei João Pacheco (1830-41) acerca de um pigmento que ele designa como “vermelhão” :(…) vermelhão: he um mineral, que tem a cor vermelha muito viva, e resplandecente. O

9 “ O verdete é um acetato de cobre, obtido pela acção do vinagre sobre o cobre; é uma cor pouco sólida e muito

venenosa. Falsificam-no com sulfato de cobre, cré e gesso e às vezes com caparossa verde” (sulfato de ferro). (Segurado, J.E dos Santos, op. cit., 1923, p. 205).

10 Este pigmento foi também, por vezes, associado directa ou indirectamente ao termo jalde em alguns textos de

origem portuguesa, como por exemplo, na Descripção do Reino de Portugal de Duarte Nunes de Leão (1610) ou no Tratado de Pintura de Filipe Nunes (1615) (Cruz, A.J., ‘A cor e a substância: sobre alguns pigmentos mencionados em antigos tratados portugueses de pintura - pigmentos amarelos’, ARTIS, 6, 2007, pp. 140-144).

11 O auripigmento que, possui, na generalidade, uma tonalidade mais intensa que o ocre amarelo, deve o seu

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vermelhão, ou cinabrio mineral, de que antigamente usavão os Pintores, era huma cor, a modo de pedra vermelha, que se tirava das minas de azougue”12.

Parece haver uma certa lógica nesta afirmação, apesar da aparente confusão que o autor faz entre a forma mineral (cinábrio) e o seu sucedâneo artificial (vermelhão)13 descoberto aparentemente na Idade Média14 (Cabral, 2006). O facto deste autor se referir à sua utilização no passado pode relacionar-se com o elevado custo do mineral desde a época dos romanos onde teve o seu auge de prestígio e utilização, sobretudo na pintura mural (Cabral, 2001; Cruz, 2004 e 2007(b)).

Dos levantamentos realizados por Luís António Furtado de Mendonça, José António de Sá e Domingos Vandelli, é de citar em primeiro lugar o Compéndio de observações que formam o plano da Viagem política e filosófica, que se deve fazer dentro da pátria, publicado em 1783 (Sá, 1783). Neste documento, José António de Sá, apesar de transcrever o inventário já feito na dissertação de Furtado de Mendonça15, acrescenta, de forma inédita, o uso que se fazia dos recursos minerais existentes em Portugal (capítulo VIII, Parte I - Da utilidade da viagem).

Para este autor, o reino mineral16 oferecia “infinitos productos para o uso das Artes”17 e “(…) diversas, e bellíssimas argilas, de que se faziam optimas manufacturas”. (…) As pedras, sais, enxofres, metais, semimetais e as terras são interessantissimas a todo o commercio”18.

Porém, sobre as terras classificadas como “terras pro pictura”, só é feito um breve apontamento sobre a sua localização junto a Monte Redondo19. Nos restantes tipos, é referida a sua utilização na agricultura, nas artes do vidro, na tinturaria e na olaria.

12 Pacheco, Frei J., op. cit., 1730-1741, p. 176.

13 Confusão que se mantém no Manual de Acabamentos da Construção Civil, da autoria de João Emílio dos

Santos Segurado (1923,2 ed.) (Segurado, J.E.S., op. cit., p. 204).

14 O primeiro processo de síntese do vermelhão é atribuído por alguns autores aos chineses tendo, á posteriori ,

sido trazido para o ocidente possivelmente pelos Árabes. No manuscrito de Lucca, redigido por volta de 600 e traduzido para latim na segunda metade do séc. VIII em Itália, já existe referência a uma receita para a sua fabricação. Outras duas podem ser encontradas no Mappae Clavicula (séc. IX). (Cabral, J.M.P., ‘História Breve dos Pigmentos: 3 - Das Artes Grega e Romana’, Química, 82, 2006, p. 36).

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Dissertação intitulada De incremento agricultae quod obtinetur ex. Historia naturali, Physica Experimentali,

et Chimica. Luís António Furtado de Mendonça seria o primeiro a receber o grau de Doutor em Filosofia depois

da Reforma Pombalina. (Pinto, M.S., Andrade, A.S., ‘Sobre o conhecimento dos recursos minerais de Portugal no séc. XVIII’ in Comunicação dos serviços geológicos de Portugal. Tomo 84, Fasc2 (1998), 1998, p. 38.

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No século XVIII, o termo mineral assumia um significado mais abrangente do actual pois referia-se a todos os objectos sólidos de ocorrência natural e não vivos no globo (Pataca, E. M., op. cit,, 2006, p. 108).

17 SÁ, J. A. de, Compendio de observaçoes, que formão o plano da Viagem politica, e filofofica, que fe deve fazer dentro da Pátria, Officina de Francisco Borges de Soufa, Lisboa, 1783, p. 37.

18

Ibidem.

19 A sua localização não é certa pois existem dois lugares antigos com este nome, um no concelho de Leiria e o

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