(ou “apertar”) das mesmas durante essa operação eram outros dois respeitados preceitos para proporcionar uma adequada adesão ao substrato subjacente e compactação dos vários componentes da argamassa. Desta forma, era possível um maior controlo da retracção durante o processo de endurecimento como, no geral, uma maior durabilidade dos acabamentos. A resistência à penetração na estrutura de água no estado líquido (ex. água das chuvas) é reforçada devido à descontinuidade das camadas enquanto a permeabilidade ao vapor de água, essencial para a “ respiração das paredes”, não é afectada (Veiga e al, 2004).
Em geral, nos edifícios habitacionais mais correntes, o número de estratos nunca foi aparentemente elevado, optando-se por uma ou no máximo duas camadas de guarnecimento com granulometrias variáveis, como se pode comprovar pela análise estratigráfica da amostragem recolhida em 43 concelhos do Alentejo (ver ponto 5.1).
2.1.2.2. Estuques
Os estuques que constituíram, um dos ramos mais importantes das artes decorativas aplicadas à construção civil, quando feitos à base de gesso e água de cola, ou de gesso e cal em pasta, não eram aconselhados para os exteriores49. Contudo, algumas tipologias não possuíam gesso na sua composição e por isso podiam ser empregues no exterior. João Emílio dos Santos Segurado (1923) e Luís Augusto Leitão (1896) apelidam-nas de estuques à italiana enquanto Francisco Liberato Telles (1898) as referencia como stucolustro.
O estuque á italiana não leva gesso, e é assente em três camadas: primeira de cal e areia branca grossa, no traço 1:2; a segunda, de cal e areia fina ao traço 1:2 e a terceira, de composição idêntica à anterior mas com o traço 1:1. Sobre a terceira camada ainda se poderia aplicar outra de cal simples quer era apelidada de meter o fundo. Seguia-se então a pintura com as tintas compostas de sabão, cal e a cor (às quaes se junta pó de jaspe, se o estuque é para fachadas), e o brunido a ferro
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Apesar dos valores de referência para as últimas camadas se situarem normalmente entre os 2 a 5 mm, os resultados das análises feitas às camadas cromáticas do Alentejo apontam igualmente para espessuras inferiores (ver ponto 5.2). Com espessuras reduzidas, o processo de carbonatação é mais rápido visto a maior acessibilidade e difusão do CO2 ao longo da estrutura (Aguiar, José, 2005, op. cit, p. 242; Aguiar, e al, op. cit.,
CENFIC 1998, p. 38).
49 Sabe-se que existem referências à utilização de gessos no exterior, sobretudo em regiões de clima seco (ex. do
Norte de África). Por outro lado, existem alguns tipos de gessos, como o gesso de Paris por exemplo, que adquirem propriedades hidráulicas quando calcinados a temperaturas mais altas que as habituais e, como tal, podiam ser aplicados nos acabamentos de fachadas.
quente corrido suavemente sobre a superficie estucada que, quando já bem secca, se passa com uma flanella embebida em uma preparação de água-raz e cera branca 50 .
O estuque à italiana é feito sem gesso e destina-se a ser pintado a fresco (…). (…) Metido o fundo segue-se a pintura com tintas que não sejam alteradas pela cal: o azul-cobalto, o azul ultramarino, o ocre amarelo, o almagre, o negro de fumo, o vermelhão, etc. As tintas que se não combinam com a água empregam-se diluídas em cola 51.
O sabão devido às suas propriedades tensioactivas possibilitava uma maior dispersão do ligante e das partículas de pigmento melhorando a plasticidade da argamassa. O pó de jaspe (um óxido de silício) era possivelmente aconselhado para o exterior pelo facto de favorecer o polimento da superfície ao mesmo tempo que lhe conferia certo de grau de impermeabilização. O polimento e a passagem final com cera asseguravam a protecção e o lustro das superfícies (Veiga e al, 2004). Esta operação final era aparentemente mais recorrente em paredes interiores. Este tipo de acabamento de paredes quando feito com cal e pó de mármore (Opus Marmoratum) deu mais tarde origem ao popular termo italiano de marmorino (Veiga e al, 2004).
A verdadeira escaiola ou scagliola italiana é um exemplo da sofisticação alcançada pelo estuque brunido para a imitação de pedras ornamentais, sobretudo de mármore. Nesta técnica, feita tradicionalmente com diferentes massas de gesso e cola animal, os pigmentos são adicionados directamente nas massas (Dimos, 1978). João Emílio do Santos Segurado (1923) também refere a utilização do cimento Portland branco para a confecção das massas embora defenda que a melhor escaiola era obtida com gesso da mais fina qualidade e não com cimento.
Outras técnicas de argamassas sem gesso com pigmentos incorporados foram e continuam, embora de forma incorrecta, a serem apelidadas de escaiola52. Estas técnicas, que envolviam a incorporação dos pigmentos nas massas, eram da responsabilidade dos estucadores enquanto os estuques à italiana e o stucco-lustro envolviam a colaboração de pintores (Aguiar e al, 1998).
50 Leitão, L.A., op. cit, 1896, p. 375 51
Segurado, J. E. dos Santos, op. cit., 1923, pp. 177 e 178.
52 Segundo José Aguiar em Portugal, foi e ainda continua a ser frequente associar o termo “escaiola” a todo o
tipo de fingimentos de pedra, independentemente da técnica utilizada ser a pintura ou massas com pigmentos incorporados. Este facto, na sua opinião, é facilmente comprovado em dicionários das Belas-Artes dos séculos XIX ou XX (Aguiar, J., op. cit., 2005, p. 258).
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Enquadramento Histórico das técnicas a cal (século XVIII ao XX)A escaiola é uma espécie de estuque cuja massa se compõe de areia fina e lavada, cal em pasta e pó de pedra branca, em partes iguaes, podendo-se misturar-lhe a cor que se quiser. Applica-se à talocha em paredes rebocadas e bem seccas. Nas paredes exteriores substitui-se o pó de pedra por cimento 53.
No Alentejo, ainda hoje se fala além das técnicas decorativas dos estuques interiores, também de “estuques exteriores” ou “estucos” que correspondem, no fundo, a variados tipos de trabalhos com massas de areia, isto é, à aplicação de pormenores decorativos que são moldados em jogos de alto ou baixo relevos. Para a sua feitura, segundo Emílio dos Santos Segurado (1923) eram utilizadas argamassas de cal com pó de pedra (sobretudo o pó de mármore) e/ou areias, geralmente, muito finas e do tipo siliciosa, com os traços volumétricos de 1:1 a 1:2 (cal em pasta/agregado). Este tipo de guarnecimento, poderia ser pintado com cores que contrastavam com as caiações simples ou monocromáticas dos panos de fachada. Muitos são os exemplos só espalhados pelos quatro distritos do Alentejo, que se conjugam com fingidos por pintura (Fig. 2.5). De entre os vários existentes, citando apenas a cidade de Évora, salientam-se os presentes nas fachadas dos edifícios que emolduram a Praça do Geraldo, os paramentos exteriores da Igreja do Antigo Convento de S. Francisco que imitam alvenaria de pedra, do Colégio do Espírito Santo e os da Igreja do Antigo Convento de Nossa Senhora da Conceição
Fig. 2.5: Exemplos de trabalhos de massa na região do Alentejo. Muitos deles encontram-se em mau estado de conservação ou cobertos com camadas sucessivas de caiações e tintas modernas que lhes obliteram os pormenores decorativos e atenuam os relevos iniciais.
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2.1.2.3. Esgrafitos
O esgrafito é uma das mais populares técnicas decorativas presentes nas fachadas alentejanas, feitas igualmente com base em argamassas de cal e agregados minerais. Trata-se de uma técnica que, na região em estudo, se desmultiplicou em várias formas ornamentais, algumas das quais de um elevado requinte técnico54 (Fig. 2.2). Apesar de os esgrafitos não serem alvo da pesquisa em estudo, importa fazer referência aos mesmos, visto também com frequência terem sido utilizadas
argamassas com pigmentos
incorporados e de se ter recorrido às mesmas técnicas de transposição do desenho da pintura mural artística (ver ponto 2.2.1.2).
Também costumão fazer a fresco de rascunho em paredes, figura, e laçarias, e tudo o que querem, como se vê em muitas quintas, e fazem deste modo: Guarnecem a parede a cal com preto&depois de seca & feita toda preta dão-lhe outra mão de cal a colher, ao modo de estuque, &quando se quer ir secando, ou logo em fresco vão abrindo o debuxo com hum prego, ou estilo duro, &fica então aparecendo o debuxo em preto que estava por baixo55.
54 Para aprofundamento da temática do esgrafito, ler: Sofia Guilherme, As Superfícies Arquitectónicas de Évora: o esgrafito. Contributos para a sua salvaguarda [texto policopiado], Évora, 2005.
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Liberato Telles, F., op. cit., 1898, p. 83.
Fig. 2.6: Técnica do esgrafito: processo de execução (ao alto) e dois pormenores existentes na Igreja Matriz de Santa Clara, Concelho de Almodôvar.