• No results found

A família é a unidade básica de interacção social onde se definem e conservam diferenças humanas dando forma a diferentes papéis e funções. É uma unidade grupal onde se desenvolvem relações de aliança, filiação e consanguinidade. A partir dos objectivos genéricos de preservar a espécie, nutrir e proteger a descendência e fornecer-lhe condições para a aquisição das suas identidades pessoais, a família desenvolveu, através dos tempos, funções diversificadas de transmissão de valores éticos, estéticos, religiosos e culturais (Osório, 1996).

Para Relvas e Lourenço (2001, p. 107) pode definir-se como “um conjunto de indivíduos

que desenvolvem entre si, de forma sistemática e organizada, interacções particulares, que lhe conferem individualidade grupal e autonomia” perseguindo dois objectivos principais: a criação e o

reconhecimento de um sentimento de pertença, e a possibilidade de desenvolvimento/individuação de cada um dos seus membros.

A família possui competências que lhe permitem ultrapassar o stress inerente ao seu desenvolvimento. É considerada um sistema autopoiético (reproduz-se, mantendo-se e continuando a ser família), informacionalmente aberto (a influências exteriores) e organizacionalmente fechado (não depende das influências exteriores). Para que o sistema se reproduza, a família muda para se poder manter (Belsky e Pensky, 1988; Relvas e Lourenço, 2001).

Nas transformações que ocorrem nas famílias ao longo das épocas há manifestações que evidenciam o vivido noutras gerações, ainda que adaptadas ao momento actual. O espaço privado da família facilita a aproximação, levando a maior partilha da intimidade, sendo a ”qualidade e a

intensidade dos investimentos afectivos que servem de baliza para uma definição do grupo familiar”

(Passos, 2009, p. 16), permitindo assim diferenciá-la de outro tipo de grupos.

Ao longo da sua existência, as famílias são sujeitas a processos de desenvolvimento no sentido da sua evolução e complexificação. Observa-se uma progressiva diferenciação estrutural, com aquisições e rejeições de papéis. Neste processo, há desenvolvimentos que correspondem a situações que são esperadas. O Ciclo Vital da Família, enquanto “sequência previsível de transformações na organização

familiar em função do cumprimento de tarefas bem definidas” dá-nos conta dessas mudanças em cinco

etapas sucessivas: 1) formação do casal; 2) família com filhos pequenos; 3) família com filhos na escola; 4) família com filhos adolescentes e 5) família com filhos adultos (Relvas, 1996, p. 16).

Cada transição assinala um momento de crise assumindo-se este como oportunidade de mudança ou risco de bloqueio. A crise tem subjacente a necessidade de reestruturação relacional e funcional do sistema (eixo sincrónico), inscrito num tempo histórico (eixo diacrónico) (Relvas, 1996; Relvas e Lourenço, 2001).

A formação do casal pode considerar-se o início do ciclo vital da família nuclear. No sistema conjugal dois indivíduos, em função de desejos ou projectos, ao construírem uma nova estrutura familiar, estão a construir um novo sistema com normas, padrões e valores próprios, trazendo um património individual, que passará a fazer parte dum património comum. Pode, ou não, fazer parte o desejo de conceber um filho, mas existe o investimento afectivo dos parceiros que se reconhecem mutuamente e partilham desejos íntimos (Relvas1996; Passos, 2009), no entanto para Saraceno (1997) só existe família quando há filhos.

Considerando as famílias que projectam ter filhos, a gravidez e a maternidade assinalam uma das crises familiares: a transição da conjugalidade para a parentalidade. Trata-se de uma experiência comum que, para muitos casais, é uma transição normativa e socialmente apoiada; no entanto, para alguns pode revelar-se difícil, devido às mudanças experimentadas.

O nascimento do primeiro filho traduz-se frequentemente como uma crise de emoções e desafios. A família reorganiza-se no sentido da redefinição de papéis e funções, começando um processo de abertura progressiva ao exterior e de prestação intensiva de cuidados (Relvas, 1996). Surgem novas exigências relacionadas com os cuidados à criança, a estimulação/vinculação, a gestão de novas situações e os medos de não se ser capaz de responder às exigências. A família transforma-se numa tríade que, para Carter e McGoldrick (1995, p. 42), “constitui uma transição-chave no ciclo de

vida familiar”. Expande-se a família e vislumbra-se a sobrevivência do sistema familiar.

Complexifica-se o mapa familiar com o assumir do papel maternal, paternal e filial, que coexistem com o conjugal, o que obriga à definição de novas fronteiras, inerentes aos novos papéis e funções e às expectativas acerca dos mesmos (Relvas, 1996).

As aprendizagens inerentes à função parental, sobretudo dos primeiros tempos de vida do bebé, foram essencialmente apreendidas no seio da família, o que nem sempre é possível devido à alteração da sua dimensão, estrutura e proximidade.

Após a segunda guerra mundial aumentou o número de famílias, diminuiu a sua dimensão média e alterou-se a sua distribuição em função do tipo de estrutura (Saraceno, 1997). Em Portugal, entre 1960 e 2001 aumentaram os alojamentos unifamiliares (95,9% versus 98,5%) (Casimiro, 2003) e, entre 1970 e 2001, diminuiu a dimensão média das famílias (3,7 elementos versus 2,8) (INE, 2007). A idade média da mulher, aquando do nascimento do primeiro filho, aumentou 1,4 anos entre 2002 e 2008 (27 anos versus 28,4), bem como a proporção de nados-vivos fora do casamento (25,5% vs 36,2%) (INE, 2008). As famílias optam por uma reduzida parentela, nascendo o primeiro filho progressivamente mais tarde.

A experiência biológica de se tornar pai ou mãe ocorre no momento em que o bebé respira e chora pela primeira vez. A transição psicossocial é um processo muito mais longo, começando com o planeamento da concepção e continua ao longo dos primeiros anos de vida da criança (Glade, Bean e Vira, 2005)

Os primeiros meses após o parto são considerados o quarto trimestre da gravidez, caracterizando-se por mudanças afectivas, relacionais, sociais e fisiológicas, preenchidos com grande quantidade de tarefas parentais, ansiedade e preocupações, em que as atenções estão mais centradas no bebé e menos no parceiro, e em que a vida sexual do casal é afectada. O nascimento de um filho pode diminuir a satisfação conjugal e condicionar a “regressão” a papéis sexuais tradicionais, com os cuidados ao bebé a serem responsabilidade da mãe e ao pai ser reservado o papel de suporte e apoio (Lederman, 1984; Kitzinger, 1996; Relvas e Lourenço, 2001).

A partilha da intimidade com o recém-nascido permite o desenvolvimento de competências na prestação de cuidados, na estimulação e vinculação, na gestão dos acontecimentos de vida e na adaptação à nova etapa do ciclo vital, mobilizando recursos internos, a rede de recursos informal (familiares, amigos, vizinhos), e/ou a rede formal (profissionais de saúde).

Esta transição é então um constante desafio com que se depara a família, mas particularmente a mulher, confrontando-se com um conjunto de tarefas desenvolvimentais de ajustamento à maternidade, que passamos a analisar.

2.2.1.1-A

TRANSIÇÃO PARA A MATERNIDADE

A transição para a maternidade é um compromisso intenso e um envolvimento activo, que começa antes ou durante a gravidez e se prolonga para além do parto. Implica a passagem de uma

realidade conhecida para uma outra desconhecida, o que requer a reestruturação de responsabilidades e comportamentos, para atingir uma nova concepção de si (Barba e Selder, 1995).

O comportamento materno é mais apreendido que biologicamente determinado (Figueiredo et al., 1992), sendo a transição para a maternidade influenciada por condições pessoais, sociais, políticas e culturais. É um processo em que a mulher vai perdendo progressivamente o controlo do corpo, com sentimentos de vulnerabilidade física e de necessidade de protecção do feto (Darvill et al., 2010).

Estabelecer a identidade materna de se tornar mãe contribui para o desenvolvimento psicossocial da mulher que progride em espiral, levando a um aumento do funcionamento adaptativo (Kegan, 1982; Rubin, 1984).

A transição para a maternidade engloba aspectos relativos à satisfação pessoal e emocional, ao desempenho de cuidados, ao funcionamento familiar ou à recuperação do estilo de vida, em que estão implicadas representações da mulher acerca da gravidez e da maternidade, factores relacionados com a própria mulher, com o bebé e com condições comunitárias e sociais (Lederman, 1984; Cowan e Cowan, 2000; Mercer, 2004).

As estratégias utilizadas incluem o reconhecimento de uma mudança, a procura de informação para a construção de um nova auto-definição, a procura de modelos para uma nova realidade e o testar as competências no novo papel (Deutsch et al., 1988; Mercer, 1995).

Conforme Leal (2001), quando se coloca a questão da transição para a maternidade torna-se indispensável discutir os termos feminino e materno, estando o primeiro relacionado com a capacidade de auto-afirmação e de defesa do próprio, como figura de malignidade e de sexualidade destrutiva e o segundo associado ao afecto, ternura, cuidados, capacidade de cuidar, altruísmo, defesa e protecção. O facto de ter capacidade de procriar não é sinónimo de capacidade materna. A função materna é uma função contentora e de acolhimento, mas também interactiva e produtora de estímulos que as crianças necessitam para se desenvolverem (Bowlby, 1990), sendo um desempenho aprendido.

A gravidez e maternidade caracterizam-se pela necessidade de resolver tarefas desenvolvimentais específicas e viver crises próprias, que implicam a necessidade de reorganização. A gravidez obriga à adaptação biológica, psicológica e social, sendo um tempo de intensa aprendizagem e ajustamento a um novo papel. Em termos psicológicos pode-se considerar um tempo de preparação para ser mãe, ensaiar cognitivamente papéis e tarefas, ligar-se afectivamente à criança, iniciar o processo de reestruturação das relações para incorporar o novo elemento na sua identidade e apreender a aceitá-lo como pessoa singular (Smith, 1999; Canavarro, 2001; Corbett, 2008), podendo constituir-se como fonte de ansiedade.

A relação entre o tempo e as tarefas desenvolvimentais nem sempre é linear. Estas ocorrem antes e após o nascimento, caracterizando-se pela capacidade de cuidar e educar a criança, contribuindo para o seu desenvolvimento, bem como o da mãe.

Rubin (1975; 1984) descreve quatro tarefas maternas interdependentes:

• Assegurar uma passagem segura, durante a gravidez e parto, para a mãe e para a criança; • Assegurar a aceitação social pelos membros da família, para si e para o filho;

• Iniciar a ligação ao filho;

• Aprender a dar-se em benefício de outro.

Sugere que o processo de transição para a maternidade ocorre em três fases, que decorrem até cerca dos seis meses após o parto: a replicação caracteriza-se pela procura de elementos socialmente valorizados relativamente ao papel parental, procurando experiências no seu contexto de vida; a fantasia relaciona-se com a projecção de como será a situação com o filho; e a diferenciação, enquanto fase final, implica a auto-avaliação dos comportamentos e atitudes face ao modelo que a mulher tem de si como mãe.

Colman e Colman (1994) esmiuçaram as tarefas desenvolvimentais da gravidez, com as quais genericamente nos identificamos, e que abordaremos no que se refere à primípara, pelo que não consideramos a tarefa reavaliar e reestruturar a relação com outros filhos.

Não limitando a transição para a maternidade ao período da gravidez, mas considerando, tal como Canavarro e Pedrosa (2005), que a maternidade dá continuidade a algumas tarefas iniciadas durante a gestação, serão incluídas nas diferentes tarefas desenvolvimentais acontecimentos que ocorrem após o parto.

A aceitação da gravidez refere-se às respostas adaptativas da mulher inerentes ao crescimento e desenvolvimento pré-natal. Caracteriza-se por sentimentos de felicidade e prazer, relativamente poucos desconfortos ou alta tolerância ao desconforto, alterações moderadas de humor, e relativamente pouca ambivalência no primeiro trimestre. Quando a mulher não aceita a gravidez tende a desesperar e a deprimir. A ambivalência é comum em relação à segurança financeira e à alteração do estilo de vida, onde se incluem os conflitos entre o papel materno e a carreira, viabilidade da gravidez, aceitação do parto e em relação à própria maternidade. A presença de sentimentos intensos de ambivalência no terceiro trimestre de gravidez podem indicar conflitos não resolvidos relativamente ao desempenho do papel de mãe (Lederman, 1984; Colman e Colman, 1994; Darvill et al., 2010).

Desenvolve-se o processo de identificação materna, que envolve aprendizagem, e em que modelos maternos conhecidos, nomeadamente a mãe (Colman e Colman, 1994), a observação de outras mães ou a frequência de classes de preparação para a parentalidade podem ser facilitadores (Lederman, 1984), dando a sensação de controlo das situações (Darvill et al., 2010).

A passagem a tarefas posteriores depende da passagem com sucesso por esta tarefa.

Aceitar a realidade do feto – Numa primeira fase a gravidez é vivida como uma mudança no corpo da mulher e o feto é concebido como uma parte de si (Colman e Colman, 1994). Progressivamente a representação do bebé torna-se mais autónoma. É uma fase importante na diferenciação mãe-feto e de aceitação deste como alguém distinto. Intensificam-se fantasias relacionadas com o bebé e começam-se a ensaiar cognitivamente as primeiras tarefas de prestação de cuidados. A mãe passa por longos períodos de introspecção (Colman e Colman, 1994; Corbett, 2008).

Reavaliar e reestruturar a relação com os pais – Refere-se à representação da mulher acerca do modelo de comportamento materno proveniente da sua mãe e das suas expectativas enquanto avó, sendo o significado do relacionamento com a mãe um factor importante de adaptação à gravidez e maternidade (Lerdeman, 1984; Colman e Colman, 1994).

A partir do segundo trimestre de gravidez há uma reavaliação do relacionamento com os pais, sobretudo durante a infância e adolescência. Aumentam os contactos com a mãe, nas dimensões de ajuda/apoio e de relação, que contribuem para preparar e antecipar acontecimentos futuros. A disponibilidade da mãe permite desenvolver competências e sentimentos de segurança. (Colman e Colman, 1994; Mercer, 1995; Cowan e Cowan, 2000), podendo facilitar o ajustamento materno; no entanto, a excessiva intrusão pode ter efeitos negativos.

Com o novo ser processa-se a concretização biológica das famílias de origem e a continuidade familiar (Relvas e Lourenço, 2001). O bebé pode contribuir para a aproximação às famílias de origem, mas também para o aumento da conflitualidade Após o nascimento pode surgir confusão entre gerações, relativamente aos papéis a desempenhar, devendo-se negociar o equilíbrio entre apoio e autonomia (Lederman, 1984; Colman e Colman, 1994; Canavarro e Pedrosa, 2005; Corbett, 2008), para que os novos pais possam ensaiar e assumir os novos papéis e funções.

As relações tendem a ser recriadas no relacionamento geracional, e o modo como os membros as gerem, entre si, e com a família de origem, tem influência na sua qualidade e na protecção na transição para a parentalidade (Mendes, 2007).

A qualidade da relação com os pais durante a infância é um preditor do relacionamento conjugal e com as crianças (Knauth, 2001). Recordações de rejeição ou de aceitação materna e paterna foram preditores de sintomas depressivos e de sensibilidade materna aos 5 a 6 meses de idade do bebé, sendo mediados pela auto-estima (Crockenberg e Leerkes, in Mercer, 2004). A qualidade da relação da mulher com a sua mãe influencia o estado de humor (Matthey et al., 2000).

A família é o principal recurso mobilizado pelas jovens mães. Figueiredo et al. (2006) identificaram a mãe, o companheiro, a irmã e familiares do companheiro. Kitzinger (1996), referindo-se a um estudo de Firth, Hubert e Forge, considera que 40% dos casais não recebia

qualquer ajuda, e a avó materna era o principal recurso mobilizado, sendo que a sua não utilização pode indicar a sua falta na proximidade. Situação semelhante foi observada por Mendes (2002) e Darvill et al. (2010), em que a mãe foi um recurso importante e, quando esta estava distante, foi utilizada a rede de proximidade (vizinhos e amigos).

Reavaliar e reestruturar a relação com o cônjuge/companheiro – Com o nascimento do primeiro filho, o parceiro, para quem eram canalizadas as atenções, passa a assumir a identidade de pai, com a responsabilidade de cuidar e educar a criança, sendo “desafiado” o relacionamento conjugal, nomeadamente a relação afectiva, sexual e de rotinas diárias. Há necessidade de flexibilizar a aliança conjugal para fomentar a parental (Colman e Colman, 1994; Figueiredo, 2005; Glade, Bear e Vira, 2005). É fundamental o suporte emocional e a partilha, de modo a facilitar a confrontação com o desconhecido e ansiogénico, até porque o cônjuge se constitui como o principal recurso de apoio, ainda que diminua a satisfação conjugal. Conforme Darvill et al. (2010), em períodos precoces da gravidez este tem dificuldade em entender as necessidades somáticas da mulher, não sendo considerado um apoio; no entanto, face à sua ausência há maior dificuldade em lidar com a gravidez. É considerado um importante recurso de apoio no trabalho de parto, nomeadamente no encorajamento e reforço da confiança.

Durante o primeiro ano após o nascimento diminui a comunicação, aumentam os conflitos conjugais e a desagregação (Colman e Colman, 1994). A insatisfação conjugal tende a aumentar desde a gravidez até ao pós-parto, particularmente na mulher, sendo normal a descoberta de conflitos de valores, necessidades, expectativas, aumentando os desafios emocionais (Belsky e Pensky, 1988; Colman e Colman, 1994; Cowan e Cowan, 2000; Knauth, 2001; Glade, Bear e Vira, 2005; Harwood, McLean e Durkin, 2007; Figueiredo et al., 2008a). O ajustamento na relação conjugal entre as 22 e as 25 semanas de gravidez é elevado (Mendonça, 2002), sendo que os conflitos conjugais aumentam do último trimestre de gravidez até aos noves meses após o parto (Belsky e Pensky, 1988), e a satisfação conjugal diminui até aos 18 meses (Cowan e Cowan, 2000).

No relacionamento, os padrões de comunicação são, frequentemente, deficientes. Centram-se nas expectativas com a chegada da criança, desprezando as ansiedades individuais (Cowan e Cowan, 2000). A comunicação favorável e o apoio emocional mútuo entre os parceiros encontram-se positivamente associados à sensibilidade materna para as necessidades do filho, constituindo-se protector na relação conjugal. Não enfrentar conflitos está relacionado com a diminuição da satisfação conjugal. Mesmo em situações negativas de afecto, se os membros do casal lidam abertamente com o conflito, a satisfação conjugal é maior (Glade, Bean e Vira, 2005). Estas questões tornam-se problema quando os casais não encontram forma de expressarem os sentimentos sem ser num clima acusatório (Cowan e Cowan, 2000; Christie; Poulton e Buting, 2007).

As relações são melhores entre os casais que co-habitam e entre os que a gravidez foi desejada. Pior qualidade do relacionamento encontra-se associada a níveis mais elevados de ansiedade e depressão (Figueiredo et al., 2008a).

Parece que o suporte emocional e a comunicação positiva levam ao aumento do bem-estar que, por sua vez, tem uma influência positiva sobre o comportamento parental.

A qualidade da relação tem ainda outras implicações. Uma relação conjugal pobre está associada ao início de trabalho de parto mais precoce, administração de sedativos e tranquilizantes para diminuir a ansiedade, e consequente maior duração do trabalho de parto (Lederman, 1984), enquanto experiências positivas de cuidados estavam relacionadas com a qualidade da relação conjugal (Paris e Helson, 2002).

A eficácia no papel parental também é influenciada negativamente por níveis mais elevados de depressão, ansiedade, ambivalência e conflitos conjugais durante a gravidez (Porter e Hsu, 2003).

As mudanças físicas e emocionais têm efeitos directos nos sentimentos de intimidade do casal. Para Colman e Colman (1994) e Corbett (2008), a conciliação do papel parental com o casal sexuado pode ser delicada. Durante a gravidez a sexualidade é afectada por factores físicos, emocionais e de interacção. A diminuição do interesse, actividade e prazer sexual no primeiro e terceiro trimestres de gravidez está relacionado com desconforto, queixas somáticas, fadiga, medo e sentimento de incómodo físico. Durante o segundo trimestre o aumento do bem-estar da mulher e da congestão pélvica podem aumentar o desejo sexual, ao passo que no terceiro trimestre o aumento das queixas somáticas e do volume abdominal podem provocar a sua diminuição, bem como do prazer.

Silva e Figueiredo (2005) referem que durante a gravidez há diminuição da actividade sexual, no entanto com grande variabilidade individual.

De Judicibus e McCabe (2002) identificam, como factores associados à diminuição do desejo sexual, o ajuste às mudanças de papéis sociais durante a transição para a parentalidade, a satisfação conjugal, o humor, a fadiga e as mudanças relacionais com o nascimento do bebé.

O adiamento da relação sexual após o parto está associado a medo da dispareunia, cansaço e necessidade de recuperação física e psicológica (Mendes, 2007), a infecções mamárias e embaraço com a saída do leite (Cowan e Cowan, 2000)

A amamentação encontra-se associada à qualidade da vivência da sexualidade, nomeadamente a redução do desejo de coito (Forster, Abraham e Llewellyn-Jones, 1994; Glazener, 1997; Sydow, 1999), identificando-se motivos de ordem biológica: elevados níveis de prolactina durante a amamentação, com diminuição da produção de estrogéneos, com consequente diminuição da lubrificação vaginal (Sandre-Pereira, 2003; Lowdermilk e Perry, 2008); psicológica: em que as mulheres vêem satisfeitas as necessidades eróticas que a amamentação pode proporcionar, e o cansaço decorrente da amamentação, que podem deixar as mulheres menos disponíveis (Hyde et al., 1996;

Abuchaim e Silva, 2006). Também Sandre-Pereira (2003) corrobora estes resultados e acrescenta o tabu acerca do seio materno, com o dualismo entre o seio maternal versus o seio erótico, referindo situações de proibição do uso do seio pelo parceiro enquanto decorre o período de amamentação.

Os casais, durante a transição para a maternidade, passam por um período “voltado para o interior”, com diminuição dos contactos sociais. Os padrões sexuais tradicionais tornam-se mais presentes, tendo-se alterado mais na teoria que na prática. Aumenta o trabalho em casa para ambos os membros do casal, mas é consideravelmente maior para a mulher. A transição para a parentalidade exerce um importante impacto na tradicionalização da divisão do trabalho em casa (Colman e Colman, 1994; Cowan e Cowan, 2000; Glade, Bean e Vira, 2005), com impactos negativos na satisfação conjugal.

Para Ausloss (2003), nos seis meses após o nascimento, os casais passam por um período de crise pessoal, que uma vez ultrapassada é enriquecedora. Expectativas não satisfeitas do envolvimento do pai nos cuidados à criança e nas tarefas domésticas afectam negativamente a qualidade da relação conjugal. O maior envolvimento do pai reduz a carga de trabalho da mãe, com consequente maior disponibilidade de tempo para a relação conjugal, fazendo também com que aquele valorize as exigências dos cuidados à criança e não se sinta marginalizado (Knauth, 2001).

A qualidade da relação conjugal declina desde o período anterior ao nascimento até aos seis meses após o parto, sendo mais evidente nas mulheres (Cowan e Cowan, 2000; Nyström e Öhrling, 2004).

Após o nascimento há maiores necessidades sociais e económicas, menos tempo para os membros do casal (Belsky e Pensky, 1988; Cowan e Cowan, 2000), mais conflitos relacionados com a divisão do trabalho (que é a principal causa de conflito nos primeiros dois anos), a vontade de falar acerca do relacionamento sexual, a qualidade do tempo dispendido em conjunto, o relacionamento com os sogros, as ideias acerca de como educar a criança, a vontade de melhorar o relacionamento, ou formas de conviverem conjuntamente. Quando os casais gerem com equilíbrio as disponibilidades para o trabalho e para a família há mais satisfação com a qualidade do