• No results found

Nos dias atuais, é muito comum receber informações sobre novidades tecnológicas veiculadas pelas mais diferentes mídias. Geralmente, as inovações estão pautadas no desenvolvimento da tecnologia digital. Sejam computadores mais velozes, equipamentos cada vez menores e mais leves, inteligentes, ecológicos, de menor custo, a cada ano é possível ter acesso a tais surpresas tecnológicas. Estar na vanguarda da “evolução” tecnológica, tornando os artefatos digitais sonhos de consumo, cada vez mais parece ser um desejo social construído.

A lógica da sociedade digital baseia-se no contínuo gerenciamento a partir da comunicação e informação instantâneas. Os discursos e as práticas sociais são reconstituídos nessa sociedade na qual a universidade está inserida (BASTOS, 2009). As tecnologias digitais passaram a fazer parte da cultura atual, penetrando também no âmbito da educação, embora nem sempre vivenciada em sua plenitude. Os jogos eletrônicos; as ferramentas da Web 2.0, preferencialmente as mídias sociais; e, os dispositivos móveis, representados por celulares e computadores portáteis, em geral, são as ferramentas mais utilizadas pelos usuários (ALMEIDA; SILVA, 2011).

O desenvolvimento da tecnologia digital e sua incorporação nos espaços sociais, apesar de serem concebidos do ponto de vista teórico e educacional, ainda hoje não ocupam um espaço relevante na prática docente das universidades brasileiras. Embora exista a necessidade premente da utilização desses recursos e ferramentas, ora as salas de aula não estão preparadas para receber equipamentos, ora não existem equipamentos suficientes para todos os docentes. Os laboratórios de informática muitas vezes são disputados e compartilhados mediante o revezamento de horários, o compartilhamento de equipamentos por diferentes profissionais que não construíram um planejamento conjunto para pensar a proposta interdisciplinar ou transdisciplinar de suas disciplinas. Percebe-se com isso, que a fragmentação do saber não é exclusiva do conhecimento, mas se materializa na disputa por espaços, materiais e equipamentos, principalmente nos espaços físicos disponibilizados pelas

universidades públicas brasileiras. A limitação e, em alguns casos, a inexistência de tecnologias digitais disponíveis em larga escala para o exercício da docência, é um dos obstáculos importantes a serem superados para a integração entre as TDIC e o fazer pedagógico (COLL, 2009).

Considera-se ainda que as estratégias utilizadas na docência para o uso de dispositivos digitais continuam sendo as antigas estratégias pedagógicas enquadrando o uso das mídias à lógica historicamente instituída (BASTOS, 2009). Este uso é coerente com seus pensamentos pedagógicos. Aqueles que apresentam uma compreensão do ensino como transmissão do conhecimento tendem a utilizar as TDIC para reforçar as estratégias de apresentação e transmissão dos conteúdos. Aqueles que possuem uma visão mais ativa do ensino tendem a utilizar as TDIC para promover atividades de exploração, de questionamentos diante de um trabalho autônomo e colaborativo (COLL, 2009).

Assim, a incorporação e o uso das TDIC à prática docente não garantem sua transformação, apenas reforçam as práticas já existentes. O uso das TDIC em prol da melhoria dos processos de ensino e aprendizagem depende principalmente do contexto de uso e não de suas características específicas. As atividades propostas por docentes e discentes são os elementos principais que auxiliam e valorizam esse processo. A inovação acontecerá quando se iniciar uma dinâmica de inovações e trocas educativas mais amplas por meio da utilização das TDIC em atividades diferentes, colocando-as a favor dos processos de ensino e de aprendizagem que não seriam possíveis sem o uso de suas ferramentas (COLL, 2009).

Almeida e Valente (2011) corroboram com essa constatação revelando que as mudanças para promover a integração entre as TDIC e o currículo ainda não aconteceram e os resultados obtidos em tentativas pontuais provocaram mudanças pouco sistêmicas e difundidas. As mudanças provenientes de uma imposição externa, não considerando a real necessidade dos atores do processo de ensino e de aprendizagem, sejam oriundos da educação básica ou superior é, para os autores, uma das justificativas para o problema que se apresenta. As TDIC tornam-se, portanto, mais uma das ferramentas, nem sempre disponíveis, que complementam os acontecimentos da sala de aula e são utilizadas de forma desintegrada dos assuntos abordados. As TDIC apenas apresentam as velhas práticas de forma diferenciada e mecânica.

Apesar de as justificativas serem diferentes e complementares, a convergência para o problema é latente e persiste mesmo diante da mudança do comportamento social e da compreensão de uma necessária transformação da educação que contemple os saberes de forma integrada e colaborativa. No entanto, os ganhos com a utilização das tecnologias

digitais nesse contexto são possíveis e sua contribuição pode auxiliar de forma favorável os processos de ensino e aprendizagem. De que forma, então, as TDIC podem ser utilizadas em prol dessa transformação? Quais são as mudanças necessárias para iniciar esse processo?

A principal mudança está pautada na conscientização do docente sobre as necessárias alterações de postura diante de novas ideias e novas situações provenientes do uso das TDIC na docência. É preciso que o docente se destitua do papel de grande conhecedor e abra espaço para que o protagonismo do discente se faça presente no processo de ensino e de aprendizagem que agora se caracteriza de forma recíproca: discentes e docentes ensinam e aprendem. O computador não substitui o docente, mas proporciona, ao ser utilizado em sua plenitude, a abertura de um espaço no qual o docente possa se desfazer de parte do poder que lhe é atribuído (LIMA JUNIOR, 2004).

A função do docente não é mais a de expositor de conteúdos, nem mais a de facilitador do conhecimento; seu papel é também de aprendiz. Diante do grupo de discentes, o docente pode se colocar na posição de quem compartilha os conhecimentos estabelecendo uma aprendizagem mútua. O diálogo, a discussão, o questionamento, a reflexão sobre os conceitos e as estratégias utilizadas na busca de soluções para os problemas que lhe são apresentados, outros que são descobertos, permite o desenvolvimento de uma postura ativa de docentes e discentes diante do processo de ensino e de aprendizagem, tornando-os menos consumidores e mais geradores de conhecimento (ALMEIDA; VALENTE, 2011).

Para possibilitar essa conscientização é importante que o docente se aproprie da cultura digital e das propriedades das TDIC em contextos diferentes. É preciso que o docente utilize-as em sua própria aprendizagem para que compreenda seu uso na prática pedagógica; reflita sobre a necessidade de se utilizar a tecnologia digital e como utilizá-la em sua prática docente; além de refletir sobre as contribuições que ela pode trazer ou não para a aprendizagem e para o desenvolvimento curricular. As práticas pedagógicas devem estar “baseadas no desenvolvimento de projetos, na resolução de problemas e na aprendizagem ativa” (ALMEIDA; SILVA, 2011, p. 7).

A compreensão apresentada pelos diferentes autores, apesar de não tratarem do tema transdisciplinaridade, contribuem com uma visão que muito se aproxima de seus preceitos. Diante de propostas de mudanças didáticas e pedagógicas pautadas na resolução de problemas, na utilização de temas geradores e no desenvolvimento de projetos, a utilização das TDIC de forma integradora possibilita a reestruturação da prática docente. Compreende- se que essa integração pressupõe a abertura para o diálogo, para o fazer pedagógico diferenciado, atendendo às necessidades dos docentes que, ao trabalharem juntos a

transdisciplinaridade, podem alcançar transformações que contribuem favoravelmente para tornar a aprendizagem de docentes e discentes mais significativa. Os estudos que abordam a temática da interdisciplinaridade e transdisciplinaridade de forma a integrar as TDIC na docência têm revelado resultados importantes para a compreensão dos aspectos favoráveis e dos entraves desse processo.

Os resultados de pesquisa de Amem e Nunes (2006) expõem que as TDIC podem auxiliar no trabalho com a interdisciplinaridade pelo fato de permitir a utilização de métodos não convencionais de aprendizagem, facilitando a troca de informações, a adaptação aos estilos de aprendizagem, o aprimoramento da organização das ideias, a interação entre os usuários e a integração entre os conhecimentos. Para os docentes, sujeitos da pesquisa, o uso da internet aproxima o ensino, a pesquisa e os serviços de saúde. Além de ter acesso variado ao conhecimento, o professor pode abandonar seu papel de transmissor da informação, desempenhando um papel de orientador para o discente. Os autores advertem que o grande desafio está em extrapolar as aulas expositivas, esclarecendo qual é o papel da informática no processo de aprendizagem a partir da compreensão da quantidade excessiva de informações disponíveis na internet e nas diversas formas utilizadas para selecioná-las.

Esses aspectos também se destacam nos resultados da pesquisa realizada por Andalécio (2009) com pesquisadores e docentes que discutem a transdisciplinaridade na UFMG. As mudanças que advêm com as TDIC são consideradas como uma revolução na execução de tarefas docentes. Dessa forma, são consideradas importantes para o desenvolvimento de um trabalho transdisciplinar, diante da construção colaborativa do conhecimento por meio de trocas que envolvem também os aspectos culturais. Apesar de serem consideradas importantes, na opinião dos sujeitos, não são suficientes para uma transformação, considerando-se que a atitude de quem as utiliza é um fator relevante para a instauração de um quadro de mudanças.

Quando a transdisciplinaridade está inserida no contexto do uso das TDIC na área da saúde, os resultados pouco diferem do que se obteve até o momento. Galvão, Ricarte e Daura (2011) afirmam que essa inserção caracteriza-se principalmente pelo convívio de docentes e discentes de diferentes disciplinas nos diversos espaços destinados à execução do processo de ensino e de aprendizagem; nos espaços sociais, atuando junto a profissionais de outras áreas e à população em situação de estágios, emprego, entre outros; pela flexibilização curricular, permitindo a experiência da transdisciplinaridade com convívios fora de sala de aula, incluindo o uso das TDIC. Em pesquisa realizada com pesquisadores e profissionais da área da saúde detectaram que o uso das TDIC no modelo pedagógico transdisciplinar

possibilitou diversas transformações acadêmicas. Os chats e o correio eletrônico tornaram-se ferramentas digitais utilizadas para discussão do desenvolvimento de conteúdos disciplinares, análise de projetos futuros e em andamento, promovendo, dessa forma, o diálogo contínuo entre docentes e discentes mediante a interação, a flexibilidade e o incremento dos tempos de docência e disponibilidade do professor.

Os pressupostos teóricos da transdisciplinaridade, bem como os saberes relacionados às TDIC podem ser de grande auxílio na integração dos saberes na Formação do Professor de Ciências. A universidade precisa pensar em reformulações para as Licenciaturas com a finalidade de romper as barreiras disciplinares e a fragmentação dos saberes, por meio de um processo integrativo dos conhecimentos, no desenvolvimento do trabalho docente baseado em parcerias internas entre docentes, e externas entre docentes, discentes e comunidades. Nesse sentido, compreender como acontece os processos de ensino e aprendizagem diante de sua dinamicidade, da necessidade do estabelecimento de parcerias e da possibilidade de ser significativa pode contribuir com propostas pedagógicas de se colocar a transdisciplinaridade na ação. Sobre esta temática, a discussão se aprofunda no próximo capítulo.

4 APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA E MAPEAMENTO COGNITIVO NA