Para construir uma ideia sobre o cenário do reggae em JP-C-CG, a pesquisa de campo foi o instrumento principal na construção deste capitulo. Primeiro, a partir de abril de 2013, os espaços (clubes, bares, casas de show) onde o reggae é tocado, escutado e produzido foram detectados. Durante a segunda metade de 2013 e todo o ano de 2014 foram realizadas as visitas de campo nos shows e eventos para fins de observação acerca dos fenômenos ocorrentes nas cidades de João Pessoa, Cabedelo e
71 Campina Grande, na Paraíba (fig. 5). Além dos shows das bandas locais, freqüentei shows de famosas bandas nacionais e internacionais que estiveram em João Pessoa, como o brasileiro Edson Gomes, as bandas nacionais Ponto de Equilíbrio, Vibrações, Mato Seco e Rastafeeling, e as bandas estrangeiras Groundation, SOJA e Reemah.
Figura 5: Brasil, destaque para Paraíba e a região de JP-C-CG (municípios de João Pessoa, Cabedelo e Campina Grande). Fonte: Produzido a partir do Google Maps.
Entre maio e setembro de 2014 oito entrevistas semi-estruturadas com sujeitos da pesquisa foram realizadas. Seis entrevistas foram realizadas com as bandas ou seus representantes: banda Pedecoco, Denys da banda Geração Rasta, Febuk, Coloral da banda GunJah, banda Candeeiro Natural e banda DigZin. Uma entrevista foi realizada com o locutor do programa de reggae Transa Reggae e promotor de eventos e shows Dado Belo e outra com Tiago e Zazuka, os representantes do Movimento de reggae João Pessoa. Além disso, várias conversas informais com membros de outras bandas (como André e Allyson da banda Dona Terezza, Bruno da banda Kayapira, Kabeça da banda Tribo Ras, David da banda Datura Reggae, Allyson e David da banda Emboscada e outros) serviram como fonte de informação. Com relação ao perfil do público regueiro e os consumidores de reggae (ouvintes, frequentadores de shows, etc.), observações e várias conversas informais com simpatizantes de reggae foram realizadas nos shows e outras ocasiões também (como, por exemplo, conversas com visitantes do programa Transa Reggae).
Quatro músicas foram escolhidas para a análise musicológica e técnico- linguística, que junto com a análise das entrevistas serviram como base para a identificação de como as metáforas são expressas na música e como elas afetam a
72 criação ou refletem a identidade dos artistas individuais. Os critérios para escolher as bandas e as músicas analisadas foram os seguintes:
Banda GunJah (música Raízes, álbum GunJah; 2008): o CD da banda GunJah foi o primeiro disco de reggae paraibano que eu tive oportunidade de escutar. As referências ligadas ao reggae jamaicano já são evidentes na capa do disco. As cores vermelha, amarela, verde e preta (consideradas as cores do reggae) com a silhueta de um leão. Estas características aliadas aos nomes de algumas músicas do álbum como Homen Rasta, Sonho na Babilônia e Raízes, chamaram a minha atenção para incluir uma das músicas do CD (Raízes) na análise da presente pesquisa. Outro elemento importante para esta escolha foi o fato da banda possuir em sua composição músicos profissionais (formados pela UFPB), o que não é muito comum no reggae, onde se costuma observar bandas formadas apenas por amadores. A banda não existe mais, mas entre os
regueiros paraibanos ainda é considerada uma das melhores da região.
Febuk e a banda Santo Graal (música Queimação, álbum Jah está comigo; 1999): ao longo da pesquisa, Febuk foi identificado como uma das pessoas mais importantes para o desenvolvimento do cenário de reggae em JP-C-CG. Foi um dos primeiros que trouxeram, divulgaram e tocaram reggae na região. Além de ser músico, também é sócio-fundador e presidente da ACRPB - Associação Cultural do Reggae do Estado da Paraíba. A sua música
Queimação foi considerada “o hino” dos regueiros de Jõo Pessoa, segundo o próprio Febuk. Portanto, escolhi esta música para analisar na presente pesquisa devido a toda essa carga emblemática ao seu redor.
Banda Pedecoco (música Drop Time, álbum Manifesto de pensar; 2014): hoje em dia, entre o público regueiro paraibano, a banda Pedecoco é considerada a melhor da região. Além disso, dois fatores foram importantes para incluir a música Drop Time na presente análise. O primeiro foi o fato do álbum
Manifesto de pensar ter recebido um considerável investimento na sua produção, cuja mixagem e masterização foram feitos nos EUA. O segundo foi a origem social da banda, que é da classe média. Alguns regueiros denominaram a banda até de “elitizada” apesar de ser aceita e respeitada entre
73 muitos regueiros paraibanos. A música Drop Time também foi incluída na coletânea da FUNESC43Music From Paraiba 2.
Banda Geração Rasta (o nome da música não colocado): em um dos primeiros shows que eu frequentei em JP, eu tive a oportunidade de conhecer o trabalho desta banda. Naquela noite, houve a apresentação de duas bandas locais de reggae, sendo a primeira a tocar a banda Emboscada - uma banda localmente famosa e, tecnicamente falando, mais “trabalhada”, mais impregnada de signos expressivos do que Geração Rasta. O que chamou a minha atenção foi a reação de um ouvinte com quem eu conversei naquele show. Ele ficou a noite inteira esperando a banda Geraç̃o Rasta, porque ele se “identificou mais” e porque “ela passa a mensagem mais verdadeira”. Ao contrário da banda anterior, Pedecoco, esta banda é de uma classe social mais baixa e, como as primeiras bandas do reggae roots jamaicano, surgiu num bairro pobre da capital paraibana (Bairro Padre Zé). A músicaanalisada no presente trabalhoé muito bem recebida nos shows da banda.
Paralelo a todo o processo de contatos e entrevistas, foi feito um levantamento e coleta de músicas (CDs, mp3s, vídeos, etc.), das letras e outros materiais de divulgação relacionados às bandas e eventos regueiros em JP-C-CG. Em relação às mídias de divulgação de reggae, foi feito o acompanhamento presencial do programa de rádio Transa Reggae (visitas ao estúdio da Rádio Tabajara) e acompanhamento de mídias de internet, como páginas das bandas e o Facebook.
Uma parte do trabalho de campo foi realizada usando a técnica de investigação chamada observação participante, que me permitiu observar atividades, ocasiões, interesses e afetos em duas bandas de reggae de João Pessoa, que tive oportunidade de integrar. Como contrabaixista, eu participei dos shows das bandas Dona Terezza e Geração Rasta. Com a banda Dona Terezza (desde novembro de 2013) eu também tive possibilidade de participar no processo de criação das músicas. Esta experiência me permitiu observar em detalhes várias fases de processo de criação artística. Isso me ajudou a entender melhor como funciona o cotidiano de uma banda no cenário de reggae em João Pessoa - desde o processo de organizar os encontros e os ensaios, a parte de processo criativo em termos de composição das músicas, comunicação entre
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74 os membros da banda, até o processo de divulgação e realização dos shows e apresentações.
Nesse contexto, meu papel não foi só de observar, mas aplicar um tipo de entrevista com grau de formalidade diferente. De certa forma, a posição de observador (pesquisador) e participante (músico) criou uma situação de, por um lado, me adequar às necessidades da banda, e por outro lado, manter o necessário espírito crítico e a isenção científica. Todavia, essa experiência me ajudou a obter algumas informações pouco visíveis, por exemplo, no caso de banda Geração Rasta. A interação com eles, na realidade do seu dia a dia no bairro Padre Zé, me ajudou a entender melhor os contextos sociais e cotidianos da criação do seu reggae. Outro exemplo é o uso de maconha entre os músicos de reggae, que é uma atividade ilícita, mas para alguns artistas de reggae, não todos, tem um significado especial, importante, até sagrado. Essas observações dificilmente poderiam ser alcançadas de outro modo. Além disso, o trabalho de campo me ajudou a aprender novas normas e as linguagens específicas - gírias, que se mostraram significativas para entender melhor alguns contextos ao longo do processo etnográfico.
Todavia, o meu envolvimento pessoal com os sujeitos da pesquisa poderia ter influenciado a minha objetividade, além da minha presença poder perturbar o normal decurso da interação social. Mas, como todos os sujeitos foram informados sobre a minha pesquisa antes da colaboração começar e o fato de já conhecerem os meus objetivos acadêmicos, eles aceitaram o meu duplo papel sem preconceitos identificados. Às vezes, alguns até falavam pra mim: “Isso você já pode usar na sua pesquisa” ou “Utiliza isso na sua dissertaç̃o”, ou citações similares. As ́ltimas participações minhas aconteceram na segunda quinzena de dezembro de 2014.