5 General Discussion
5.4 Conclusion
Durante muito tempo, o trabalho com o texto se pautou na tipologia tradicional: narração, descrição e dissertação. Mas as teorias mais recentes, sobretudo trabalhos desenvolvidos no âmbito da teoria da enunciação, da linguística textual e da análise do discurso, que têm se voltado para a relevância de se considerar a função social da linguagem, têm mostrado que essa classificação triádica não dá conta das diferentes práticas sociais representadas por meio da linguagem.
Com estudos apontando para essa perspectiva de tratar a linguagem, encontramos na literatura estudiosos que discutem a distinção entre as noções de gênero discursivo e tipo textual. Percebemos que a distinção entre essas noções não é simplesmente de ordem terminológica, mas de ordem conceitual, e se reflete no processo de análise como critério teórico-metodológico.
Bakhtin (1997) chama a atenção para a heterogeneidade dos gêneros do discurso, já que a variedade virtual da atividade humana é inesgotável. Para o autor, cada esfera dessa atividade comporta um repertório de gênero do discurso que vai se ampliando à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa.
Adotamos a definição bakhtiniana que concebe gêneros textuais como “tipos relativamente estáveis de enunciados”, associados a diversas atividades desenvolvidas, que se caracterizam pelos conteúdos e pelos meios linguísticos de que se utilizam. Assumimos, com Bakhtin41, um enfoque sócio-interacionista, que associa a diversidade do uso da linguagem à diversidade das práticas sociais dos diferentes grupos. O enfoque sócio-interacionista também se encontra em Bronckart (1999), para quem as ações de linguagem se materializam discursivamente dentro dos diferentes gêneros discursivos.
Por encararmos a língua como instrumento de interação social e pretendermos tratá-la em seus aspectos discursivos, adotando uma perspectiva pragmática para a linguagem, e não em seus aspectos formais, partimos da ideia defendida por Bakhtin (1997) e Broncart (1999) de que a comunicação verbal só é possível a partir de um gênero textual.
Bakhtin42, ao definir gênero, o divide em dois tipos: primários e secundários. Gêneros primários, a conversação e a carta pessoal, “são constituídos em circunstâncias de comunicação verbal espontânea”; e gêneros secundários, o romance, o teatro, o discurso científico, entre outros, “aparecem em circunstâncias de uma comunicação cultural mais complexa e relativamente mais evoluída, principalmente escrita” (BAKHTIN, 1997, p. 28). Segundo o autor, o gênero se caracteriza a partir de três critérios: o conteúdo ou seleção de temas; o estilo ou a escolha de recursos linguísticos e a construção composicional.
Percebemos que a notícia impressa, gênero adotado nesta pesquisa, pode ser incluída na categoria dos gêneros secundários, proposta por Bakhtin43. Ela se estabelece como gênero com propósitos específicos e conforme padrões linguísticos e culturais estabelecidos socialmente. Segundo Charaudeau (2010), na notícia, o sujeito informante (jornalista e instância midiática) “tratará a informação de acordo com certos modos discursivos em função
dos dispositivos44 pelos quais ele passa” (CHARAUDEAU, 2010, p. 129). O autor chama a
atenção para o fato de toda situação de comunicação ter suas restrições instauradas pelos indivíduos, o que deve ser levado em consideração por todos que querem se comunicar. Nesse
41 Op. cit. 42 Id. 43 Id.
44 Segundo o autor, o dispositivo é um componente do contrato de comunicação sem o qual não há interpretação possível das mensagens. Cf. Charaudeau, 2010, pp. 104-106.
sentido, segundo o autor, a interação se realiza num quadro no qual todo locutor deve submeter-se a essas restrições e supor que seu interlocutor tem a capacidade de reconhecer tais restrições, do mesmo modo que o interlocutor deve supor que o locutor tem consciência dessas restrições.
Bakhtin (1997) também enfatiza a questão das relações intersubjetivas entre locutor e destinatário, chamando a atenção para a noção de audiência. Para ele, essa questão acaba determinando a diversidade dos gêneros do discurso. O intuito discursivo do locutor se realiza na escolha de um gênero do discurso e determina os modos de organização discursiva e a seleção dos recursos linguísticos a fim de provocar um efeito de sentido que poderá se refletir na atitude do destinatário. Nessa perspectiva, o locutor constrói seu discurso a partir da pressuposição sobre os conhecimentos que o seu destinatário possui a respeito do assunto, bem como as opiniões deste em relação ao que se apresenta no texto. Percebemos que as considerações do autor coadunam com a proposta do modelo de interação verbal de Dik (1989), apresentado no capítulo 3, no qual o autor salienta que o falante organiza suas expressões linguísticas com o objetivo de provocar uma modificação na informação pragmática do destinatário.
A visão bakhtiniana tem inspirado concepções mais recentes a considerar a noção de audiência um fator determinante para a dimensão social da linguagem. Segundo Biasi- Rodrigues (2002), por exemplo, a noção de audiência influencia diretamente nas escolhas que o falante faz em situação de produção. Para a autora,
O sentido de audiência exerce influência direta nas escolhas que o falante/escritor faz, quando em situações de produção: seja do tópico, da quantidade e do balanceamento das informações (mais ou menos explícitas), das estratégias de organização do texto em termos de seleção lexical e de relações semântico- sintáticas, seja do estilo e do registro mais adequados para criar textualidade e interagir com o provável ouvinte/leitor (BIASI-RODRIGUES, 2002, p. 51).
A concepção de audiência apresenta-se como imprescindível para a pesquisa empreendida neste trabalho, visto que analisamos num gênero específico, no caso a notícia, as estratégias empreendidas pelo enunciador como recurso para persuadir o enunciatário. Consideramos que é essa noção de audiência que leva o enunciador a fazer suas escolhas linguísticas para atrair a atenção do enunciatário para determinados aspectos do fato noticiado. Para construir a interação a partir do texto da notícia, o enunciador precisa organizá-lo considerando os parâmetros de organização textual relativos ao gênero escolhido, os conhecimentos e a opinião que pressupõe ter o enunciatário. Esses parâmetros partilhados
pelos usuários da língua, na maioria das vezes, são reconhecidos pelo enunciatário, a audiência potencial do texto.
Embora tenhamos consciência de que em qualquer gênero textual o enunciador necessita atrair a atenção do enunciatário, acreditamos que, no caso do gênero notícia, esse jogo argumentativo é muito mais forte, visto que, segundo Medina (1988), “a mensagem jornalística, como um produto de consumo da indústria cultural, desenvolveu uma componente verbal específica, que serve para chamar a atenção e conquistar o leitor” (MEDINA, 1988, p. 137).