Foi perante esta envolvência que subjugava a sua essência, que a prática desportiva surgiu como uma forma de cada um (à excepção de um que não praticou desporto) se sentir “mais livre” quando jogava. Esta satisfação e breve sensação de liberdade, veio realmente ajudar os ex-reclusos a sobreviver dentro do estabelecimento prisional. Não só pela pura alegria de jogar, mas pelas suas regras e pelas possibilidades de saída para o exterior para uma socialização e convívio que os fazia sentir livres e permitia respirar ar puro, ainda que apenas por umas breves horas.
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Participante 1 – “Era uma referência que mantinha em comum com alguns amigos do exterior… O desporto, tal como a sociedade, possuem regras que normalizam e possibilitam a sua prática… São momentos que possibilitam bastante descompressão… Estes jogos são encarados como um desafio maior; alguns jogadores/reclusos destacavam-se como estratégias de conseguir “vantagens” e alguma ajuda para manter laços com o exterior… era encarada como se fosse um grande prémio.”.
Participante 2 – “Era a maneira de nos conhecermos melhor e criarmos mais amizade… Deixar de pensar um pouco que estávamos presos, maior capacidade de descontrair… Maior capacidade para abstracção do ambiente e ocupação do tempo… Comunicar com as pessoas sem qualquer tipo de discriminação… Sentirmo-nos mais em liberdade.”.
Participante 3 – “Na medida em que vários tipos de pessoas se relacionam com um clima saudável… As actividades desportivas lembram as regras de conduta e o necessário respeito pelo próximo… Integração entre os reclusos… O contacto com outras pessoas só se tornava possível nestas situações. Reviver momentos passados… Preparar-se para a liberdade.”.
Participante 4 – “A transição das regras desportivas para a vida… O desporto tem regras e o resto também… Passar o tempo da melhor maneira. Maior qualidade de vida na cadeia… A socialização… A saída para o exterior (preparar a liberdade) e a socialização.”.
Participante 5 – “A transição das regras desportivas para a vida… A respeitar toda a gente e nas minhas relações… Convívio e conhecimento e ajudar a aliviar o stress… Convívio e o contacto com as pessoas… Nunca experimentei, mas é uma boa ideia.”.
Participante 6 – “O desporto como meio de socialização… O respeito pelo próximo… Interacção com reclusos que nem sempre se encontram… A confraternização e um certo elo de liberdade… Provar a doce liberdade, nem que seja por uns momentos.”.
Participante 7 – “Era muito importante. Para mim revelou-se fundamental. A socialização é fundamental… Quem respeita as regras do jogo tem mais facilidade e transpô-las para a vida diária e em sociedade… É muito importante porque durante o jogo não nos sentimos como se estivéssemos presos, passando melhor o tempo e sentindo-nos bem fisicamente… É um convívio salutar, muito importante para a nossa auto-estima… Muito importante. É uma grande escola para a nossa reinserção. O espírito destas iniciativas é totalmente diferente. Traz-nos mais responsabilidade. Muito importante.”.
Participante 8 – “Não praticava desporto… Não sei porque não praticava desporto… Significava trabalho de equipa… Auto-estima e rivalidade… Saber como conviver e gerir rivalidades.”.
Participante 9 – “Sentia-me mais livre quando jogávamos… Uma forma de respeitar para não ser expulso do jogo… Fazer equipas e ganhar para ser mais respeitado… Eram visitas sempre vistas com muita alegria. As pessoas que vinham gostavam de nós… O facto de sair para fora da cadeia, sentir-me mais livre e melhor comida, boas relações com a sociedade.”.
Participante 10 – “Relação com os outros… De uma forma natural e para poder jogar é preciso cumprir regras… Passar melhor o tempo e estar bem física e psicologicamente… O convívio provocado pela prática desportiva… Sentimento de confiança e liberdade.”.
Como se pode constatar pelos excertos acima apresentados, a visão sobre o papel do desporto na sua vida na cadeia pode possibilitar a “integração entre os reclusos”, assim como as implicações do mesmo na sua entrada na vida activa. Este aspecto está bem patente quando falam da transposição “das regras desportivas para a
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vida” e de ser “uma grande escola para a … reinserção”, até porque “quem respeita as regras do jogo tem mais facilidade e transpô-las para a vida diária e em sociedade”. Outro ponto muito focado é o de o desporto funcionar como um escape para o stress, algo bem demonstrativo quando se referem aos jogos como momentos que possibilitam “bastante descompressão… abstracção do ambiente e ocupação do tempo”. Em relação aos convívios com pessoas do exterior, tanto na cadeia, como no exterior, os ex-reclusos revelaram que eram situações que lhes proporcionava a possibilidade de “comunicar com as pessoas sem qualquer tipo de discriminação”, assim como sentirem-se “mais em liberdade” ou “provar a doce liberdade, nem que seja por uns momentos”, servindo para se prepararem para “a socialização”, por lhes trazer “mais responsabilidade”. Tudo isto era visto como um tónico “muito importante para a nossa auto-estima”.
Participante 11 – “Ao obedecer às regras do jogo foi-me mais fácil obedecer às regras da prisão e de convívio com os outros reclusos.”.
Participante 12 – “Foi através do desporto que consegui ultrapassar o desânimo, tornando-se mais fácil conviver com os colegas.”.
Participante 13 – “Encontrei no desporto, um escape para os meus medos e solidão dentro da cadeia e aprendi a transferir as regras do jogo, para as regras da vida.”.
Participante 14 – “As regras do jogo ajudavam a compreender melhor as regras que tínhamos de cumprir em relação aos colegas, aos profissionais e à sociedade.”.
Participante 15 – “Se não obedecesse, era castigado, não jogando, o que me levou a ganhar bons hábitos.”. Participante 16 – “Serviu como um grito para a liberdade, de agir e pensar sem nunca ultrapassar as regras de boa conduta.”.
Participante 17 – “Muito importante, porque nos ajudou a conhecermo-nos melhor a nós próprios.”.
Participante 18 – “Dava-nos alento para ter uma melhor saúde, higiene e boa relação entre todos os camaradas presos… Foi uma das melhores maneiras de perceber as leis da vida.”.
Participante 19 – “Neste aspecto era das únicas situações que nos permitia ser mais expansivos e alegres… As regras de conduta, todas elas estavam nas nossas obrigações. Quem não as cumpria ficava de fora.”.
Participante 20 – “Era o melhor que me podia acontecer dentro da cadeia, pelas relações humanas e a melhoria da minha preparação física… Quem não aceitasse o que estava referido nas regras não podia jogar e era afastado do grupo.”.
É de realçar a importância atribuída pelos participantes ao transfer efectuado, das regras do jogo para as regras da vida, sendo esta a perspectiva mais enunciada pelos reclusos, reforçando ainda mais o papel desempenhado pelo desporto na reabilitação e integração dos ex-reclusos na sociedade.
Visto que o papel desempenhado pelo desporto assumia tão grande importância, tornou-se relevante saber qual seria a perspectiva de continuidade da sua prática após a sua libertação.
Participante 1 – “Sim. Manutenção física e motivos são a saúde, prazer e estilo de vida… Ser saudável e activo já é um bom contributo. O desporto também se relaciona com a auto-estima do indivíduo.”.
Participante 2 – “Penso que sim, caminhadas e corridas para me poder sentir bem fisicamente… No aspecto físico e mental.”.
Participante 3 – “Sim. Actividades de ginásio e futebol… A maior consistência física e mental.”. Participante 4 – “Sim. Desporto ligado à natureza… Capacitar-me ao nível físico e mental.”. Participante 5 – “Futebol, porque é um desporto que gosto… Alívio do stress e convívio.”.
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Participante 6 – “Sim, porque o culturismo é bom para a saúde… Maior resistência física e mental.”.
Participante 7 – “Sim, sempre. Ginásio e futebol… Contribuiu muito. Posso afirmar que para mim foi o melhor que me poderia ter acontecido.”.
Participante 8 – “Não… Para mim em nada.”.
Participante 9 – “Claro. Nunca mais deixarei de praticar desporto. Futebol e futsal, porque faz bem à saúde e aumenta o companheirismo… Melhor saúde, melhor compreensão das regras e maior disciplina.”.
Participante 10 – “Sim. Desporto de manutenção… Tornando-me mais activo e responsável.”. Participante 11 – “Sim, para continuar a ter uma boa saúde física e mental.”.
Participante 12 – “Sim, gostaria de continuar a jogar futebol porque foi através do desporto que eu consegui encarar melhor o tempo de reclusão.”.
Participante 13 – “Sim, ganhei gosto pelo desporto e tenciono praticar sempre.”. Participante 14 – “Sim, pretendo continuar a praticar desporto sempre que possível.”. Participante 15 – “Sim. Futebol e condição física.”.
Participante 16 – “Sim. Na base da manutenção física, de obter uma boa saúde e estilo de vida.”. Participante 17 – “Sempre a continuar a prática e em especial o futebol.”.
Participante 18 – “Sim, todas as actividades que fazia lá dentro. Futebol e ginásio.”.
Participante 19 – “Nunca mais deixarei de fazer a minha prática desportiva. Será o futebol e o voleibol.”.
Participante 20 – “É claro que sim. Já saí e vou três vezes por semana ter com uma equipa de amadores e treinar com eles.”.
Para a grande maioria (excepção feita ao participante 8 que não praticou desporto) o desporto irá manter-se como uma rotina das suas (sob as mais variadas formas como futebol, culturismo, ginásio ou mesmo algo ligado à natureza) “novas" vidas. Algo que só é considerado assim por ter contribuído, em muito, para a sua reabilitação, por permitir uma “maior resistência física e mental” ou, por outras palavras, que melhor se capacitem, a “nível físico e mental”, e por lhes ter dado “melhor saúde, melhor compreensão das regras e maior disciplina”. Há, no entanto, uma afirmação que salienta a epítome que a prática desportiva significou para a vida da esmagadora maioria destes ex-reclusos, quando um deles revela que “foi o melhor que me poderia ter acontecido.”. É de evidenciar o facto de alguns participantes, demonstrarem como é importante sentirem-se parte de um grupo, o que é bem salientado pelo participante 20 quando diz que se juntou a uma equipa de amadores para prosseguir a prática desportiva.