De acordo com dados da Abicalçados, a indústria Brasileira de calçados passou a ocupar posição de destaque no mercado internacional, sendo atualmente a terceira maior produtora de calçados, o quinto maior mercado consumidor e também o quinto maior exportador de calçados do mundo.
3.4.1 Produção e consumo
A indústria Brasileira de calçados comporta mais de nove mil empresas constituídas quase totalmente por capital nacional, emprega diretamente cerca de 300 mil pessoas e, indiretamente mais de 1 milhão, deste modo, caracteriza-se por ser uma indústria intensiva em mão-de-obra. No ano de 2005, a indústria Brasileira produziu 762 milhões de pares de calçados, destes 538 milhões de pares (70,6%) foram consumidos no mercado interno e 190 milhões de pares (24,4%) foram destinados à exportação.
3.4.2 Exportações
Entre os tipos de calçados exportados pelo Brasil, os calçados confeccionados com cabedal em couro são os que possuem maior destaque na pauta de exportação, devido à grande disponibilidade desta matéria-prima no mercado nacional. Em 2005, dos 190 milhões de pares de calçados exportados, 55% foram do tipo cabedal em couro.
Atualmente as exportações de calçados do Brasil destinam-se para mais de 100 países, com a característica de serem concentradas para alguns países. Dentre estes, no ano de 2005, o com maior destaque foram os Estados Unidos, Reino Unido, Argentina, México Espanha, Canadá e Itália. Em relação à origem estadual dos produtos destinados ao mercado externo, o Rio Grande do Sul é considerado o maior estado exportador, seguido pelos estados de São Paulo e do Ceará.
3.4.3 Importações
No que tange às importações brasileiras de calçados, percebe-se que são quase irrelevantes, uma vez que, dos 555 milhões de pares consumidos no mercado interno em 2005, apenas 3,05% foram importados, ou seja, 16,94 milhões de pares.
3.4.4 Distribuição espacial da produção
O setor calçadista brasileiro caracteriza-se pela presença de micro e pequenas empresas e geralmente com gestão familiar. Seguindo a tendência mundial terceiriza partes das atividades do processo produtivo e depende de intensiva utilização de mão-de-obra, o que o torna um dos setores que mais gera emprego no país, em 2004, aproximadamente 299 mil trabalhadores atuavam diretamente na indústria.
O setor no Brasil é concorrencial e pulverizado, está presente em quase todos os estados. Os principais pólos produtores localizam-se nos estados do Rio Grande do Sul (denominado Vale dos Sinos, que é o maior pólo do Brasil abrangendo 26 municípios e é especializado na fabricação de calçados femininos de couro); São Paulo (onde há três importantes pólos: Franca - especializada na produção de calçados masculinos, Birigui - grande produtora de calçados infantis, e Jaú - produtora de calçados femininos) e Minas Gerais (que abriga quatro pólos: Nova Serrana (calçados esportivos), Belo Horizonte (produção diversificada com certa predominância de calçados femininos), Uberaba (produção diversificada) e Uberlândia (calçados femininos artesanais)). Outras aglomerações importantes encontram-se nos estados Ceará, Bahia, Paraíba e Santa Catarina (região de São João Batista) (Abicalçados, 2006).
A indústria nacional teve que se adaptar para não ficar em atraso quanto às estratégias competitivas adotadas pelas empresas dos outros países. Sendo assim, na década de 90, grandes empresas dos estados de São Paulo e Rio Grande Sul deslocaram parte do seu parque fabril para a região Nordeste. Inicialmente o mais favorecido foi o estado do Ceará, depois a Bahia e mais recentemente quase todos os estados nordestinos possuem instalações vindas de empresas originárias do Sul ou Sudeste (Garcia, 2003 e Guerreiro, 2004).
O processo de descentralização regional da produção foi motivado pela busca da redução de custos. Esta redução de custos se verifica em dois aspectos: o primeiro deles se refere aos incentivos fiscais e financeiros concedidos pelos estados daquela região, tais como deferimento de ICMS incidente sobre importações de máquinas, equipamentos e matérias-primas, isenção parcial do Imposto de Renda, isenções de impostos municipais e empréstimos automáticos sobre exportações; o segundo aspecto é explicado pelos atrativos dos menores custos da mão-de-obra, nos estados nordestinos os salários pagos aos trabalhadores são expressivamente menores do que aqueles pagos aos trabalhadores das regiões tradicionais e ainda as empresas se utilizam extensivamente de algumas formas de precárias de relações de trabalho (Garcia, 2003 e Guerreiro, 2004).
No entanto, visto a baixa qualificação da mão-de-obra do local, as empresas procuram efetivar no Nordeste apenas a produção de calçados com menor valor agregado e algumas linhas de produtos complementares às existentes nas regiões originais. Mantendo assim nas regiões tradicionais a produção de linhas mais sofisticadas, além de todas as outras atividades referentes ao processo de produção, como o gerenciamento da atividade produtiva, a concepção e design dos calçados e o desenvolvimento do produto. Por estas razões, dependendo do mercado destino há uma distinção entre a procedência de fabricação dos produtos, isto é, os calçados produzidos da região Nordeste têm sido para atender o consumo interno e os produtos das fábricas localizadas nas regiões Sul e Sudeste que são para exportação (Garcia, 2003).
Outro fator que também deve ser considerado quanto aos deslocamentos de plantas industriais refere-se à característica da indústria de calçados brasileira de se especializar em mercados específicos e operarem em aglomerações. Neste sentido, a regionalização da indústria é segmentada conforme as peculiaridades territoriais. Os setores mais sujeitos à relocalização são os de calçados de materiais sintéticos, nos quais as vantagens comparativas dos pólos do Vale dos Sinos e de Franca são menores, devido sua tradição na
produção de calçados de couro. Assim, os novos pólos de produção são bastante diferentes dos antigos, seja em perfil de produto, seja em perfil de empresa (Azevedo, 2002 e Guerrero, 2004).