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A Reforma tinha que acontecer no século XVI. Naquele momento histórico houve uma conjugação de fatores políticos, econômicos, sociais e culturais que criaram ambiente propício para a Reforma78. Em Lutero temos questões de interesse teológico que se somam a questões de interesse ideológico dos príncipes, da nobreza e do povo – entre elas um desejo de

77 Veja também LIENHARD, 1998, p. 280ss.

78 Veja a respeito em BRENDLER, 1983, p. 101ss. Brendler apresenta conflitos sociais de diferentes setores da

sociedade resultantes da crescente diferenciação entre ricos e pobres impulsionada pelo capitalismo emergente. Estes conflitos revelam ser esta uma sociedade doente, na qual algo não está bem e/ou são resultado de uma mudança de mentalidade à medida que as pessoas criam uma nova imagem de si, do mundo ao redor de si e do seu lugar no mundo. A segunda hipótese impulsiona o indivíduo: na relativização de costumes morais, de uma religiosidade mais introspectiva e, por consequência, as pessoas buscam em si a culpa pela situação vivida. Lutero tem participação na constituição deste segundo modelo. Brendler conclui: o movimento da Reforma em Lutero obteve êxito por conta da conjuntura de crise da sociedade no início do século XVI, o que não aconteceu com os outros movimentos pré-reformadores.

independência em relação a Roma.79 Embora Lutero permaneça fiel aos princípios teológico- cristãos, é inegável que sua teologia funciona como fermento nos interesses ideológicos da burguesia, catalisando-os em movimentos de resistência a Roma.80 O povo, por sua vez, experimenta a vulnerabilidade social que se mostra na forma de angústia diante de temas como a morte.

Por outro lado a sociedade está em movimento na medida em que busca respostas pastorais capazes de tranquilizar consciências, almas e vidas.81 Neste contexto é que surgem práticas pastorais as mais diversas, cujo objetivo era aplacar a ira de Deus. Também Lutero formula esta preocupação na busca do Deus misericordioso. Em princípio é a mesma preocupação. Mas a resposta para a pergunta é diferente. Enquanto a Igreja e a prática religiosa da época visavam aplacar a ira de Deus por obras meritórias, Lutero enfatiza que a confiança não pode ser colocada na obra do ser humano, mas na obra penitencial de Deus. Dreher, (1996, p. 42) escreve assim:

Lutero descobriu que o preparo criterioso a que se submetia para realizar a satisfação e a boa obra após haver recebido o sacramento da penitência – prática a que se submetia semanalmente – era problemático, pois levava-o a colocar toda a sua confiança na consecução da salvação nele próprio e não em Deus. Para diminuir a ira de Deus por causa do pecado, o ser humano procura reconciliar-se com Deus através de sua obra penitencial. Ao proceder assim, Lutero descobriu que não conseguia se aproximar de Deus. Apesar da absolvição, sabia-se cada vez mais distante de Deus e mais enredado no pecado.

Pode parecer pitoresco, mas esta angústia se revela na vida de Lutero durante os acontecimentos em Stotternheim82 quando, surpreendido por um temporal, pede pela ajuda de Santa Ana e, em troca, se tornaria monge. O temor da morte estava presente. Mas também a fé no Deus cuidador e salvador. “Martim Luder passou pela experiência da total dependência de

79 A cada vez que houvesse troca de bispado, enormes quantias de dinheiro e ouro tinham que ser pagas à corte

de Roma. (FEBVRE, 2012, p. 99). Huten (de onde provém o nome Hutenitas – um grupo nacionalista resistente à Roma), no contexto da perseguição de Roma a Lutero, afirma: “se o perseguiam, era por ser Lutero um alemão que, erguendo-se, perigosamente, à porta da Alemanha, pretendia proibir sua frutífera exploração aos italianos.” (apud FEBVRE, 2012, p. 169-170).

80 Brendler (1983, p. 205–209) afirma que a aproximação entre a teologia de Lutero e a ideologia se dá em 2

níveis principais: a) Lutero mantém a hierarquização político-social do feudalismo tardio e o faz com o objetivo de conclamar as autoridades (reis e príncipes) e instituições da época a fazer frente ao poder do papado. Devem assumir a função que lhes compete de ordenar a sociedade; b) no relacionamento do indivíduo com a sociedade – a Justificação pela Fé somente aproxima o ser humano da palavra de Deus, a Bíblia, e o distancia dos mecanismos de controle da sociedade, fazendo com que assuma diante deles uma postura mais crítica. Os problemas que dizem respeito a todas as pessoas precisam ser resolvidos pela classe dirigente da sociedade. Esta é sua função. Brendler afirma que o melhor exemplo desta aproximação é o texto À Nobreza da Nação Alemã, acerca da Melhoria do Estamento Cristão – 1520. (texto disponível em ObSel, 2.277 – 340 [1520]).

81 Não é objetivo deste texto investigar os motivos pelos quais os movimentos pré-reformadores não

conseguiram levar a cabo uma reforma na sociedade e igreja antes do século XVI ou, em contrário, avaliar os motivos que fizeram em Lutero haver certo êxito reformatório – embora não total. Veja DREHER, 1996, p. 7 – 13 e BRENDLER, 1983, p. 186 – 216.

82 Lutero havia ingressado no curso de direito. No retorno de uma viagem a Mansfeld foi surpreendido por um

temporal em Stotternheim e um raio cai bem perto dele. É quando invoca o nome de Santa Ana, a padroeira dos mineiros e necessitados, e clama por ajuda. Veja DREHER, 1996, p. 24-25; BRENDLER, 1983, p. 25.

Deus, sem que tivesse os meios para alcançar sua graça e misericórdia.” (DREHER, 1996, p. 25). Ou seja, Lutero experimentou o cuidado de Deus sem ser por obra meritória. Registre-se, todavia, que isto é especulação tardia. De fato Lutero ingressou no convento agostiniano de Erfurt em 1505. O convento era o lugar para onde iam os que perseguiam a salvação, estratégia adotada por muitos à época. Em 1509 Lutero assume aulas de Bíblia, interpretando os salmos entre agosto de 1513 e outubro de 1515. É no contexto acadêmico que são publicadas as 95 teses83 de 1517 que tem como pano de fundo uma questão que o envolvia como cura d’almas: os abusos da igreja (particularmente as indulgências) inibem o verdadeiro arrependimento e penitência dos fiéis. Lutero faleceu a 18 de fevereiro de 1546, em Eisleben e foi sepultado em Wittenberg.

O centro da vida religiosa do século XVI é a teologia e prática da penitência. Esta, como vimos, tem seu centro na prática de obras meritórias. Igualmente a pergunta angustiante se colocava: como saber se fiz o suficiente para aplacar a ira de Deus? Dreher (1996, p. 42) afirma que a busca pelo Deus misericordioso é a motivação maior de Lutero em toda a sua construção teológica. Esta pergunta não era uma pergunta só de Lutero, mas de toda a Igreja. O diferencial está em que a busca pelo Deus misericordioso encontrou em Lutero caminho diferente. Na tese 62 Lutero afirma (ObSel, 2.27 [1520]): “o verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e graça de Deus”. Temos aqui uma inversão da perspectiva confiante em Deus: se para conseguir aplacar a ira de Deus, conforme dinâmica penitencial medieval, a pessoa pratica obras meritórias, agora é convidada a confiar na graça de Deus, por fé.84 (DREHER, 1996, p. 42).

Tal concepção é possível por que Lutero, por nova exegese, chegou a novas conclusões em relação aos temas religiosos candentes (Deus, fé, justiça, ...). Exemplo temos na compreensão do termo justiça: justiça é entendida pela filosofia e teologia escolásticas como uma qualidade da pessoa, sendo dela e produzida por ela (ALTHAUS, 2008, p. 244). Em Lutero justiça é um ato de Deus que imputa e reconhece o pecador como justo. Deus o faz por amor a Cristo. É, portanto, uma justiça dada a nós, alheia, “extra nos”. Ele afirma (WA 39/1,83; 1,87 e 40/2.35, apud ALTHAUS, p. 244, notas 16, 17 e 18, respectivamente):

83 Febvre (2012, p. 112-116) afirma que antes de Lutero outros já haviam gritado contra as indulgências no

sentido de que o perdão não poderia ser comprado. Nisto não teria sido original. Nem a bula papal pode ter impulsionado seu intento. Febvre atribui a rápida multiplicação das teses ao “homem alemão”, ou seja, uma nação que está angustiada e em busca de paz. As teses vêm ao encontro da angústia vivida por uma sociedade.

84 Na interpretação à Epístola aos Romanos (1516/1517) Lutero afirma: “a justiça de Deus é, pois, a causa da

salvação. E aqui, mais uma vez, não se deve entender por ‘justiça de Deus’ aquela através da qual a pessoa é justa em si mesma, mas, sim, aquela através da qual somos justificados a partir do próprio Deus, o que, por sua vez, acontece mediante a fé no Evangelho.” (ObSel, 8.259 [1515/1516]).

- Agora não há nenhum pecado (...) imputado a nós, como se não houvesse mais pecado (estão) removidos pela remissão;

- Nós somos considerados justos por causa de Cristo;

- Tu és justo por misericórdia e piedade. Isso não é minha própria condição ou uma qualidade do meu coração, mas algo fora de mim mesmo, isto é, misericórdia divina. Esta justiça é passiva porque nós somente a recebemos (WA 39/1,447 e 40/1,41, apud ALTHAUS, 2008, p. 245): “Assim eu sou justificado como se eu fosse uma peça de material e eu sofro; eu não faço nada”;85 ou ainda: “A justiça que vem de nós não é justiça cristã. A justiça cristã é oposta: ela é passiva e nós a recebemos.” Dreher (1996, p. 42s) conclui:

Justiça de Deus passou a ser a justiça com a qual Deus se compadece do ser humano pecador e o presenteia com sua justiça. Os pecadores se apropriam dessa justiça pela fé. Não por intermédio de boas obras, tais como indulgências e satisfação, pois Deus não se compadece de justos, mas de injustos, de pecadores que creem.

E (WA, 2,14[1518], apud DREHER, 1996, p. 42-43):

Nenhum preparo te torna apropriado, nenhuma obra te torna digno para a recepção, mas somente a fé, pois somente a fé na palavra de Cristo justifica, vivifica, dignifica e torna apto, e sem ele qualquer outro esforço é tão-somente sinal de presunção ou de desespero. Pois o justo não vive por causa de seu preparo, mas por causa da fé. Por isso de modo algum deves duvidar de tua indignidade, pois é justamente por causa disso que te diriges ao sacramento, porque és indigno, para seres declarado digno e justo por aquele que busca tornar bem-aventurados os pecadores e não os justos. Se, porém, creres nas palavras de Cristo, honrá-lo-ás e, com isso, és justo e digno da vida eterna.

Registre-se com clareza que em Lutero é o ato de Deus fora de nós que justifica o ser humano e que esta justiça é recebida pela pessoa que crê somente pela fé. Em momento algum Lutero se volta contra a ação humana. Interessa-lhe, antes, duas outras coisas: a primeira é deixar claro que a obra do ser humano não tem capacidade justificadora do ser humano diante de Deus (veremos mais adiante que esta é importante na perspectiva de fruto da fé) e a segunda a qualidade da obra definida pela fé:

Sem a fé, a obra dá chance a que o ser humano se vanglorie diante de Deus. Ele se coloca no lugar de Deus. Na fé, porém, reconhece que Deus é Deus e, inclinando-se perante ele, realiza boas obras de gratidão. A fé produz ‘amor, paz, alegria e esperança’. (WA, 6,206 [1518], apud DREHER, 1996, p. 43).

De forma concisa a Confissão de Augsburgo (CA)86 define a Justificação pela Fé em seus primeiros sete artigos. Os artigos de 1 a 4 assinalam que o ser humano é afastado de

85 Esta concepção, embora amplamente aceita na teologia e confessionalidade luterana, não fica sem

consequências. Ela gera a acusação de passividade à Justificação pela Fé e ao luteranismo. Queremos aqui manter a pergunta aberta: será realmente esta a compreensão de Lutero? Esta perspectiva “coram Deo” define a questão da justiça na Justificação pela Fé? Lutero realmente o entendeu assim, como sendo o crente um objeto passivo da graça de Deus? Na sequência do texto retornaremos ao tema.

86 A Confissão de Augsburgo (CA) é uma síntese da “nova fé” que vinha sendo confessada, resistente a Roma.

Ela foi elaborada quando o imperador Carlos V convocou uma dieta imperial em 1530 na cidade de Augsburgo com o objetivo de manter o império unido diante da ameaça de invasão dos turcos. Para manter a unidade do império era preciso resolver o conflito religioso. Foi assim que o príncipe Frederico, o Sábio, solicitou uma síntese das mudanças na confissão da fé que estavam em andamento. Teólogos (Filipe Melanchton [1497-1560] à frente) prepararam este texto que ficou conhecido como Artigos de Torgau. Depois de lido, o texto foi rejeitado e os envolvidos acusados de heresia pela Igreja de Roma. Melanchton então redigiu uma defesa dos artigos com

Deus pelo pecado original e que tem inclinação má. À condição humana Deus responde de forma salvadora em Jesus Cristo, levando-o à justificação (LC 30.1ss – CA, 1530):

Ensina-se também que não podemos alcançar remissão do pecado e justiça diante de Deus por mérito, obra e satisfação nossos, porém que recebemos remissão do pecado e nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé quando cremos que Cristo padeceu por nós e que por sua causa os pecados nos são perdoados e nos são dadas justiça e vida eterna. Pois Deus quer considerar e atribuir essa fé como justiça diante de si, conforme diz São Paulo em Romanos 3 e 4. O 5º artigo afirma que a justificação é comunicada aos crentes pelo Espírito Santo, por meio dos sacramentos (LC 30.1ss – CA, 1530):

Para conseguirmos essa fé, instituiu Deus o ofício da pregação, dando-nos o evangelho e os sacramentos, pelos quais, como por meios, dá o Espírito Santo, que opera a fé, onde e quando lhe apraz, naqueles que ouvem o evangelho, o qual ensina que temos, pelos méritos de Cristo, não pelos nossos, um Deus gracioso, se o cremos.

Nos 6º e 7º artigos são assinalados os resultados da graça no ser humano e na Igreja – a graça cria no ser humano disposição em realizar boas obras (com o limite de que estas obras não têm força salvífica, mas são resposta da fé). A respeito da obra que segue à fé se enfatiza (LC 38.27-39 – CA, 1530):

Ensina-se, ademais, que boas obras devem e têm de ser feitas, não para que nelas se confie a fim de merecer graça, mas por amor de Deus e em seu louvor. (...) Por isso não se deve fazer a essa doutrina concernente à fé a censura de que proíbe boas obras; antes deve ser louvada por ensinar que se façam boas obras e oferecer auxílio quanto a como se possa chegar a praticá-las. Pois que sem a fé e sem Cristo a natureza e capacidade humanas são por demais frágeis para praticar boas obras, invocar Deus, ter paciência no sofrimento, amar o próximo, exercer com diligência ofícios ordenados, ser obediente, evitar maus desejos etc. Tais obras elevadas não podem ser feitas sem o auxílio de Cristo, conforme ele mesmo diz em Jo15: ‘Sem mim nada podeis fazer.’

Encontramos um primeiro indicativo de resposta para a questão da passividade acima elencada. O ser humano é justificado por Deus e, como postura inerente à justificação, pratica boas obras em favor do seu/sua irmão/ã. Esta percepção de Lutero difere de uma prática teológica muito popular da Igreja da Idade Média: A imitatio Christi. À imitatio Christi Lutero responde com a fides Christi. Ocupemo-nos com a justa diferenciação.

base em documentos editados anteriormente, como os Artigos de Schwabach (1529) que eram, em verdade, um apêndice ao escrito de Lutero acerca Da Santa Ceia de Cristo. Combinados estes dois textos formam um novo, mais abrangente que se constitui em confissão de fé, não mais simplesmente uma defesa da fé. (Confira GASSMANN ; HENDRIX, 2002, p. 21-22, 42-44, 79-85; LINDBERG, 2001, p. 273ss). Os textos (a CA e a apologia) se encontram em LC, 1993, p. 17-304.

2.3 “IMITATIO CHRISTI” E “FIDES CHRISTI”: RESPOSTAS PASTORAIS