Durante a apresentação do Ciano
há muitas conversas paralelas, risinhos e olhares de reprovação entre algumas professoras. O trabalho dele, a meu ver, realmente deixa um pouco a desejar, faltam objetivos claros e conteúdos melhor desenvolvidos, ficando muito próximo da atividade pela atividade, mas penso também que isso não é motivo para desdenhar a sua comunicação.
(Nota de Campo 19, de 04//12/06)
Temos percebido que os indicadores apresentados, conforme foi explicado no Item 4.4 deste estudo, estão explicitamente presentes nos sujeitos de nossa investigação: pessoas e grupo. Entretanto, diferentemente daquelas mencionadas até o momento, as características que agora apresentamos possuem uma especificidade tal que se aproximam muito mais das questões individuais do que das coletivas, colocando em uma evidência maior os indivíduos, embora as mesmas não passem despercebidas pelo grupo. Foi possível observar em diferentes momentos da pesquisa, inclusive na entrevista coletiva realizada, que o grupo tem notado algumas dessas características, sinalizando-as como aspectos que precisam ser melhorados em prol de seu desenvolvimento. Por conseguinte, destacaremos tais características em determinados sujeitos individualmente, visando a uma compreensão das dificuldades e limites presentes no grupo investigado.
Cravina, por exemplo, é uma professora que não possui uma presença relevante
dentro do grupo de professores de Arte do CEMEPE, como podemos verificar na análise da freqüência apresentada no início deste capítulo (Item 4.2). Todavia, nas poucas reuniões das quais participou, a sua presença foi registrada tanto nas notas de campo quanto nas gravações dos encontros.
A Cravina, embora também seja antiga na Rede Municipal de Ensino, não é muito
participativa, mesmo querendo passar para as professoras novatas a imagem de quem é muito entendida em todos os assuntos, ela acaba dando muitos “foras”. Até as professoras recém- chegadas ao grupo já perceberam isso e comentaram comigo.
(Nota de Campo 04, de 15/09/05)
Depois de mais de uma hora de reunião chega a professora Cravina, que geralmente se
atrasa. Ela é uma das professoras mais antigas do grupo e também é uma das que não costuma se envolver muito com ele
(Nota de Campo 14, de 07/08/06)
A reunião começou há duas horas e trinta minutos atrás e só agora a Cravina chega e vai
entrando no assunto como se o seu atraso nada significasse. [...] A Jasmim começa a dar
algumas orientações, mas a Cravina a interrompe e entra no assunto querendo se fazer de
muito entendida. Na verdade, ela começou a falar muita bobagem, assim a Jasmim teve que
intervir para a conversa não descambar. [...] Faltando ainda meia hora para a reunião terminar, a Cravina procura a Lista de Presença e a assina antes de ir embora. Esse fato lhe
é recorrente e, embora sempre tente disfarçar, tal atitude já foi notada por várias pessoas do grupo.
(Nota de Campo 16, de 18/09/06)
De modo semelhante, a professora Gérbera também não tem uma freqüência muito expressiva dentro do grupo, contudo a sua participação igualmente não nos passou despercebida:
Gérbera diz que no grupo as professoras deveriam só “trocar figurinhas” ao invés de ficar
ouvindo as apresentações das palestrantes convidadas. Para ela as leituras são totalmente dispensáveis, cada professor deveria trazer trabalhos dos alunos e mostrar uns para os outros. Eu fico pensando sobre isso, pois essa foi a proposta realizada durante o ano de 2004: troca de experiências, mostra de trabalhos de alunos e dos processos de criação dos mesmos, troca de idéias e oficinas. Contudo, não me recordo em nenhum momento de vê-la envolvida ou entusiasmada com isso.
(Nota de Campo 05, de 06/10/05)
Sienna, que costuma estar sempre interessada pelos eventos do grupo, participando
inclusive das reuniões extras para a elaboração das Diretrizes Curriculares Municipais, em determinado momento também se mostrou alheia e até mesmo contrária à dinâmica proposta:
Sobre a apresentação de hoje, Sienna em voz alta diz frases do tipo: “– Olha que lindo!” ou
“– Maravilhoso, não?”, para logo em seguida cochichar com a Gérbera algo como: “–
Nossa Senhora! Só rindo pra não chorar!”. Sienna e Gérbera continuam cochichando e
criticando o assunto discutido hoje. Dá pra ouvir completamente o que dizem, pois estão ao meu lado, e percebo que agora já não falam mais apenas sobre a apresentação da palestrante, pois ouço, seguida de risos, nitidamente a frase: “– Olha só a roupa dela!” [...]
sabem tudo. [...] Sienna e Gérbera param de cochichar, mas continuam dialogando através
da escrita, passando um papelzinho pra lá e pra cá, quando a palestrante vira de costas.
(Nota de Campo 05, de 06/10/05)
Olmsted (1970, p. 24) afirma que “dentro de um grupo, nem todos se comportam da mesma maneira. Por várias razões, há uma distinção de funções: um membro torna-se o palhaço, outro o trabalhador exemplar; alguns são líderes, e outros seguidores”. Há também aqueles que às vezes tomam atitudes infantis, para chamar a atenção sobre si; ou se portam como adolescentes, com uma rebeldia gratuita. No entanto, também não faltam dentro do grupo pesquisado alguns temperamentos e personalidades difíceis:
A Camélia armou o maior rebuliço por causa do seu pouco tempo de apresentação e da
ausência de alguns colegas para assisti-la. Na verdade ela ficou estressadíssima e culpou a
Rosa pela má organização do tempo, fazendo um “show” à parte.
(Nota de Campo 08, de 08/12/05)
Camélia chegou atrasada, depois que as apresentações já haviam sido feitas, e chegou
agitando, falando alto e gesticulando muito. A Jasmim fala algo e nesse momento a Camélia
a interrompe, tumultuando um pouco a reunião com um comentário que não tem nada a ver com o assunto. A sua postura hoje parece ser a de fazer de tudo para perturbar o andamento da reunião. Ela conversa paralelamente em voz alta, atrapalhando todo o grupo.
(Nota de Campo 09, de 06/03/06)
A Camélia interrompe e se exalta (como sempre) e fala de um assunto que já foi explanado no
início do evento, mas que ela não ouviu porque chegou atrasada (como sempre).
(Nota de Campo 15, de 11/09/06)
Depois de muita discussão sobre o assunto, chega a Camélia, já falando alto e tumultuando a
reunião, como lhe é peculiar. No entanto, dessa vez, as pessoas presentes, como se tivessem um acordo tácito, resolveram ignorar o seu “show” e direcionam sua atenção à Margarida
que fala algo importante sobre o assunto em voga. A Dália entra no assunto da Margarida e
nesse momento a Camélia começa a chamar a Rosa, que está do outro lado da sala, em voz
alta. A Rosa, ao contrário do que costuma fazer comumente, não lhe dá atenção naquele
momento, o que faz com que a Camélia aumente ainda mais o volume da sua voz,
incomodando a todos e atrapalhando a audição do que está sendo dito. Nesse instante a Rosa
lhe pede para esperar um pouquinho para ouvir o que a Dália está falando, como uma forma
de lhe dizer que ela está sendo inconveniente.
(Nota de Campo 16, de 18/09/06)
Alguns integrantes do grupo investigado costumam chegar e/ou sair das reuniões de uma maneira bastante peculiar: sorrateiramente, em silêncio, como se desejassem passar despercebidos para não ter que se posicionarem frente a qualquer questão. Dentre estes sujeitos destacamos Oliva, e para exemplificar tal comportamento os seguintes excertos:
Com uma hora e meia de atraso chega a Oliva. Já faz bastante tempo que não a vejo e
quando ela aparece está geralmente atrasada.[...] Encerramos a reunião e dessa vez, para a minha surpresa, ficam na sala além da turma de sempre (a do “Firimfimfim”) a Cravina, a Camélia e a Oliva, justamente as três que costumam chegar atrasadas e tumultuar as
reuniões.
(Nota de Campo 16, de 18/09/06)
Com duas horas passadas de reunião chega a Oliva, como sempre atrasada. Mais uma vez
ela perde a dinâmica do dia. [...] Nesse momento vejo a Oliva folheando uma revista,
totalmente alheia ao que se passa. Sem prestar atenção ao que é dito, uma vez ou outra ela chama a Bromélia ao seu lado para ver alguma coisa na revista. Vejo que a Bromélia lhe dá
atenção rapidinho e demonstra com seus gestos que está interessada em ouvir as explicações
da Coral sobre o tema trabalhado hoje. [...] Faltando ainda uma hora para o término da
reunião, retornando para o segundo andar, eu me deparei com a Oliva, junto com a Marinha,
descendo a rampa sorrateiramente para ir embora. Não é raro ela sair mais cedo das reuniões ou não se envolver nos eventos propostos.
(Nota de Campo 18, de 06/11/06)
A Oliva, como sempre chega atrasada, entrou hoje na sala de reuniões justamente no
momento do sorteio, e mal se sentou no lugar já foi contemplada. O grupo todo deu logo um grito de alarme (de brincadeira, é claro!), reclamando por ela não ter se atrasado um pouco mais no dia de hoje, já que tem dias que ela chega quase na hora do intervalo. Todo mundo caiu na risada, mas ficou no ar uma concordância velada de que “toda brincadeira tem um fundo de verdade”.
(Nota de Campo 19, de 04/12/06)