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Vimos, por meio de reflexões de Jauss, implicações da inclusão do público, no caso analisado por ele, o público leitor, para a compreensão da arte, nesse caso a literatura, e o quanto o conceito de experiência estética pode ser um meio de apropriação do potencial teórico e metodológico dessa inclusão. Por seu turno, colocar o prazer estético como foco das preocupações da análise da experiência estética abre um campo grande de possibilidades de estudo de práticas de leitura que não a chamada interpretação47, identificada por Jauss com a leitura científica e com homogeneidade distante da experiência concreta do público leitor.

Por sua vez, Passeron (1995) explora, como vimos, as contribuições de Jauss dirigindo suas principais formulações para os processos sociais de recepção de imagens, incluindo portanto mecanismos não verbais ausentes nas formas de recepção abordadas por Jauss na atividade de leitura. Valorizando a concretude e a singularidade dessas experiências de recepção, Passeron acena com preocupações que podemos remeter aos nossos interesses de recortar formas de abordagem empírica do objeto: são experiências, são singulares e só podem ser estudadas com a observação direta no momento no qual se efetuam.

Incluímos as contribuições de De Certeau já contando com essas formulações de Jauss e Passeron, e tentando ressaltar o que ultrapassaria a experiência estritamente estética e o caráter individual da relação público / obra sugerido nas proposições desses dois autores. Se Passeron enfatiza em seus trabalhos a dimensão social da recepção, remete, contudo, como já lembramos anteriormente, esta dimensão aos conteúdos postos em comunicação na relação público (indivíduo)/obra (individual).

C. Geertz (1994), ao conceber a arte como sistema cultural, considera o caráter social do conteúdo comunicado por meio da experiência frente à obra de arte, conteúdo que, tal como para Passeron, seria, ao mesmo tempo, construído pelo público. Ocorre que, ao demonstrar seu argumento, Geertz

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Vale lembrar que a interpretação tal como formulada por Jauss, em oposição à experiência estética, não coincide com a prática de interpretação de obras que descreveremos no item 4.3.2.

apresenta situações de comunicação nas quais indivíduos são colocados em relação face a face, o que, de uma lado, nos ajuda a alargar o instrumental analítico embutido no modelo de Passeron, um indivíduo / uma obra, e de outro inclui interações e conteúdos comunicados que dizem respeito a outras esferas da vida social.

Geertz aponta em seu trabalho a importância das dimensões do fenômeno artístico que, para além do conteúdo veiculado por meio do sistema semiótico estudado, são reveladas por situações sociais elas próprias vazadas por diversas esferas da vida social. Assim, ao abordar e descrever situações de atuação de poetas no islã, Geertz (1994: 165), em primeiro lugar, explicita seu foco de interesse na compreensão do conteúdo veiculado pelo objeto ou fenômeno artístico, dirigindo-o a aspectos da vida social não estritamente artísticos: “Não há melhor exemplo – para o argumento de que um artista trabalha com sinais que fazem parte de sistemas semióticos que transcendem em muito a arte que ele pratica – que o poeta no islã”. De fato, Geertz (1994: 180) em diversos momentos já estendia a necessidade de reflexão sobre a arte para outros campos que não o do objeto ou da sua contemplação pelos indivíduos: “Afinal de contas, não é só com estátuas (ou pinturas, ou poemas) que temos que trabalhar, mas sim com os fatores que tornam esses objetos importantes – melhor dito, que ‘afetam’ de maneira importante aqueles que os fazem ou os possuem – e esses são tão variáveis como a própria vida.” 48

Por meio do que denomina ato, Geertz de uma só vez amplia aquela argumentação acerca da impossibilidade de fazermos um recorte estritamente “artístico” dos fenômenos chamados artísticos, e afirma o quanto é crucial tudo o que constitui concretamente o evento “artístico” experimentado pelos atores sociais e observado pelo pesquisador: “O canto, os tamborins, os dançarinos, o papel desempenhado pelo público segundo seu gênero, e os gritos de aprovação ou assobios de censura emitidos por este, dependendo do grau de sucesso com que todos esses elementos se combinaram ou não, formam um todo integrado do qual o poema não pode ser abstraído, assim como o Corão não pode ser abstraído de sua declamação. Temos, aqui também, um evento,

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C. Geertz (1994: 165) preconiza mesmo uma extensão das preocupações do antropólogo ao tratar do sistema cultural da arte como sistema particular de um sistema geral de formas simbólicas “que chamamos cultura”: “Uma teoria da arte, portanto, é, ao mesmo tempo, uma teoria da cultura e não um empreendimento autônomo”.

um ato; constantemente novo, permanentemente renovável.” (Geertz, 1994: 172)

Não apenas Geertz, mas diversos outros antropólogos, quando refletem sobre e tentam de algum modo definir ou delimitar o fenômeno artístico, efetuam descrições de situações que observam diretamente, para algumas delas concebendo eventos concretos como unidade de observação e recorte conceitual do fenômeno artístico. Assim, por exemplo, W. D’Azevedo (1959: 707), preocupado em despir os objetos artísticos de sua dimensão de “artefato” e revelar a da “estética” - embora não enfatizando, como Geertz o faz no exemplo que citamos, as interações entre os indivíduos -, dirige à situação o eixo de reflexão sobre a arte.

Sendo nosso objeto a presença do público em exposições de arte, trata- se de indagar o modo de acessá-la por meio das situações sociais que tantos autores estudados apresentaram, das maneiras as mais diversas, como forma de abordar e complexificar o estudo do fenômeno artístico. Se essa presença constitui nosso objeto, só chegaremos a ela por meio das práticas e interações sociais que os atores sociais efetuam ao longo dela. São estas práticas e interações que, em primeiro lugar, compõem as unidades de observação, porque correspondem a eventos significativos para os atores sociais que percorrem a exposição, e à concretude no espaço e no tempo dessa sua presença. Seguindo Erving Goffman (1970: 12), interessado na experiência social e localizada dos indivíduos, “No se trata, pues, de los hombres y de sus momentos. Más bien, de los momentos y de sus hombres”.

Penetrar na vida social por meio das interações e atos concretos dos indivíduos, diretamente observáveis, corresponde a nosso interesse de sondar nossas formas sedimentadas de conceber a arte, e coincide com proposições de cientistas sociais, como E. Goffman, que vêem nessas interações o objeto por excelência de suas pesquisas. A respeito deste autor, e da chamada “microssociologia”, Isaac Joseph (2000: 11) assinala: “(...) seus instrumentos (abordagem dramatúrgica, análise da conversação) se referem implícita ou explicitamente a um paradigma da disciplina a que chamaremos de

situacionismo metodológico para distingui-lo de dois outros paradigmas

dominantes nas ciências sociais: o ‘holismo’ – estruturalismo, materialismo histórico – ou o individualismo metodológico.”

Colados no objeto das pesquisas sociais centradas nas interações entre os indivíduos, encontramos tanto caminhos metodológicos muito singulares, como concepções teóricas da vida social que tomam as interações como fenômenos não redutíveis às estruturas sociais. Para Isaac Joseph (2000: 39), o “voto de pobreza original da sociologia do face a face se mantém nessa dupla recusa: não tomar as situações como exemplos decorativos da lógica estrutural e não mais considerar que a comunicação que aí se desenvolve faz surgir mensagens imediatamente interpretáveis na linguagem das estruturas”.

Em relação a nossos objetivos, E. Goffman nos forneceu conceitos que auxiliaram e foram bastante adequados para a definição da estratégia de observação e análise que utilizamos neste trabalho. Em boa medida, podemos conceber a presença do público nas exposições por meio do conceito de

ocasião social, definido pelo autor em Behavior in Public Places: “(…) une

affaire sociale, une enterprise ou un événement d’une certaine ampleur, limitée dans le temps et dans l’espace, et typiquement facilitée par um équipement fixe... Une réception, une journée de travail dans um bereau, um pique-nique ou une soirée à l’Opéra sont des exemples d’occasions sociales ”. (Goffman, 1981 : 270)

Para Goffman, as ocasiões sociais conduzem à constituição de “encontros” (gatherings) entre dois ou mais indivíduos, conformando “situações sociais” nas quais eles “controlam mutuamente suas aparências, sua linguagem e suas atividades” (I. Joseph, 2000: 94). Yves Winkin (1981: 271) cita Goffman (1969 : 18) afirmando que

“Dans la terminologie de Goffman, une occasion sociale entraîne la formation de ‘rassemblements’ (gatherings) d’au moins deux personnes. Dès qu’un individu se trouve ainsi en presence d’un autre individu, une ‘situation sociale’ prend place, qui abéit à des règles ou ‘convenances’ propes (situational proprieties). Tout acte produit dans une situation sociale est dit ‘localisé’ (situated): il comprend des aspects ‘accidentellement localisés’ (merely-

situated), qui auraient pu se produire en dehors de la situation

sociale en question, et des aspects ‘situationnels’ (situational), qui appartiennent en propre à cette situation. Ainsi, explique Goffman, une conversation comprend des elements dependant

intrisèquement de la situation et d’autres qui auraient pu être transmis par correspondence, c’est-à-dire sans qu’il y ait co- présence physique des participants”.

Essas situações sociais, portanto, para nossos fins, podem ser utilizadas como unidades socialmente significativas, modo de conceber e ao mesmo tempo descrever as interações e as práticas sociais que se dão durante a presença do público nas exposições, ocasião social na qual têm lugar e onde se encontra seu curso.

Como vimos, todos os atos produzidos em uma situação social, são, para Goffman, “localizados”. Estes atos compreendem aspectos “acidentalmente localizados” (merely-situated), que podem ser produzidos fora da situação em questão, e aqueles propriamente “situacionais” (situational), que de fato são específicos da situação. Essa distinção conceitual em boa medida atende às nossas preocupações relativas às práticas sociais em continuidade com ocasiões sociais outras que não as exposições, ainda que, sempre, de acordo com proposições de Goffman, a ocasião social contorne os traços das situações sociais nas quais estas práticas são levadas a cabo.

Recortar unidades de observação baseadas em práticas e interações, contudo, pode ainda ser feito de diversas formas, e, dentre nossos interesses, está o de aceitar e demonstrar a diversidade de formas de o público estar presente em exposições de artes plásticas. Dessa forma, contemplar a variabilidade de práticas e interações sociais que compõem esta sua diversidade consiste em cuidado preliminar à tarefa de estabelecer estas unidades de observação. Temos tentado demonstrar até agora que o fato do público estar ou não agrupado durante as visitas é item relevante para demarcar as práticas e interações que estamos estudando, e corresponde a experiências que dão lugar a eventos muito distintos.

Assim, situações sociais muito diversas ocorrerão caso os indivíduos estejam ou não agrupados, e Goffman nos ajuda também a pensar tais distinções ao diferir as interações não-focadas (unfocused interaction) das focadas (focused interactions). Assim Y. Winkin (1981: 268) expõe e traduz as palavras de Goffman (1969: 24): “Dans Behavior in Public Places (...) Goffman oppose l’interaction diffuse ou éparpillée (unfocuse interaction), qui ‘concerne la gestion de la co-présence physique pure et simple’, à l’ínteraction centrée

(focused interaction), qui se produit ‘lorsque des personnes se rassemblent et coopèrent ouvertement au maintien d’un seul objet d’attention, en particulier en prenant la parole tour à tour’ . ”

Em todos os casos, porque os indivíduos tendem a se comportar em função do caráter público de sua conduta, formas de comunicação entre eles serão desenvolvidas mesmo em situações nas quais não trocam palavras. É a respeito do “idioma corporal”, que Goffman (1981: 267) chama a atenção para que possamos compreender o significado dessas interações:

“Lorsque des individus se trouvent reunis em des circonstances qui n’exigent pas que des paroles soient échangées, ils s’engagent néanmoins, quíls le veuillent ou non, dans une certaine forme de communication. C’est que dans toute situation, une signification est assignée à divers éléments qui ne sont pas nécessairement associés à des échanges verbaux : il faut entendre par là l’apparence physique et des actes personnels tels que l’habillement, le maintien, les mouvements et les attitudes, l’intensité de la voix, les gestes comme le salut ou les signes de la main, l’ornementation du visage et l’expression émotionnelle en général. ”

No Capítulo 4, voltaremos a esses itens ao descrevermos práticas sociais que constituem a presença do público em exposições de artes plásticas.