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Dando continuidade aos estudos sugeridos nesta pesquisa, temos como ponto a ser aprofundado a questão da colonialidade/descolonialidade. Para tanto, tomarei como referência as contribuições dadas por Aníbal Quijano (1993; 2005; 2010), Walsh (2008) e Figueiredo (2009; 2010).

Segundo Quijano, a globalização é fruto da constituição da América e do capitalismo colonial/moderno e eurocentrado como novo padrão mundial. A imposição da classificação racial/étnica da população mundial sustenta o padrão de poder capitalista e opera nos meios e dimensões materiais e subjetivos da existência social cotidiana. Esse autor nos fala que a “raça” aparece como a primeira categoria social da era moderna, dividindo a sociedade em inferiores/superiores, irracionais/racionais, primitivos/civilizados, tradicionais/modernos. Figueiredo ilumina este pensamento afirmando que:

A colonialidade implica em algo mais que colonizar, ou seja, exercer domínio ou supremacia sobre (uma colônia) – pois incorpora o reconhecimento da imposição de um imaginário social, uma ideologia, um padrão cultural, epistemológico, de crenças, valores e normas, com o intuito de dominar acima de tudo em seu aspecto cultural, simbólico, imaginário, cognitivo-afetivo(FIGUEIREDO, 2009, p.5).

Percebemos, portanto, que a colonialidade, apesar de sua origem e seu caráter colonial, instala-se de forma mais duradoura e estável. Tendo como pilar a visão eurocêntrica, a colonialidade opera sobre a produção e o controle da subjetividade, em especial do conhecimento, associando-se à ideia de homogeneidade, continuidade, unilinearidade, unidirecionamento evolucional ao “progresso”.

Neste momento, cabe perguntar-nos: Mas que “progresso”, que conhecimento? Tem- se na “ciência” um único caminho de descoberta de saberes a ser percorrido. Como, porém, alerta-nos Figueiredo (2009) ao classificar pejorativamente outras expressões como “tradicionais” ou “primitivas”, estamos negando uma gama de possibilidades de lógicas e/ou cosmovisões próprias, e abordagens de processos histórico-culturais diferentes.

Catherine Walsh (2008) fala-nos da necessidade de uma mudança radical e descolonizadora partindo de uma transgressão dos padrões do poder colonial. Walsh elabora suas contribuições a partir das reflexões trazidas por Quijano, abordando o enfrentamento descolonializante enquanto teoria e ferramenta de análise-síntese. A descolonialização desvela a base de conflito das relações e domínio colonializante potencializando, portanto, ações descolonializantes.

Segundo a referida autora, a colonialidade tem suas atribuições concentradas em pelo menos quatro eixos entrelaçados de implicações mútuas. O primeiro deles é a colonialidade do poder, que se refere ao estabelecimento de um sistema de classificação social baseada em uma hierarquia social e sexual fundamentando-se em uma lógica discriminatória de dominação social e exploração do trabalho, tendo o uso de “raça” como instrumento de dominação e controle.

O segundo eixo é a colonialidade do saber. Mais evidenciada no campo educacional, tal colonialidade reconhece a ciência e o conhecimento europeu como a única forma de se fazer/pensar ciência e único conhecimento válido, descartando a existência (e a possibilidade de vir a existir) e a viabilidade de outras racionalidades epistêmicas e outros conhecimentos.

O terceiro eixo é a colonialidade do ser, o qual atua por meio do trato da não- existência do(a) outro(a), ou seja, há a inferiorização, subalternização e desumanização da pessoa humana, visto como sem capacidade, diminuído em sua natureza material, social e humana.

No quarto eixo temos a colonialidade da mãe natureza, que tem em sua base a divisão binária entre natureza e sociedade. Para Walsh, a negação da relação espiritual e integral entre ser humano e natureza serve como subsídio para a exploração e o controle da natureza, não reconhecendo a base cosmológica de vida dos povos ancestrais – indígenas e afrodescendentes.

Como elabora Figueiredo (2009), existe ainda a colonialidade ambiental na qual há uma releitura da colonialidade com ênfase na colonialidade da mãe natureza, porém diferenciando-se desta ao passo que aponta para uma re-conexão com o cosmo.

O termo “ambiental” surge como uma forma de enfatizar a necessidade de que nos “conectemos com a realidade em que vivemos, ao optar por outros paradigmas epistemológicos, outras intencionalidades para a nossa práxis” (Op. Cit, 2009, p.10). A colonialidade ambiental fortalece o entrelaçamento da colonialidade da mãe natureza com os demais eixos: a colonialidade do poder, a colonialidade do saber e a colonialidade do ser.

A retomada desses eixos pode “constituir aberturas, potencialidades para outros mundos possíveis, nos quais a solidariedade, a equidade, os direitos e os deveres compartilhados reflitam simultaneamente a sociedade e os indivíduos que a compõem.” (Op. cit. p. 12). O autor esclarece ainda que o emprego do adjetivo “ambiental” torna-se necessário para que haja uma conexão com a realidade em que vivemos, ao optar por outros paradigmas epistemológicos.

A colonialidade ambiental, retratada pela pacha mama (ou mãe natureza), mas não se encerrando nesta, entra em cena como um eixo transversal, já que perpassa pelos outros eixos, buscando desvelar a lógica colonializante e favorecer transformações descolonializantes. A colonialidade ambiental serve-nos então como uma lente para realizarmos uma leitura crítica acerca das outras colonialidades, a partir do momento que perpassa por todas e foca na mãe natureza.

Dessa forma, acredito ser necessária a discussão acerca da colonialidade ambiental, pois esta, caminhando por todas as “colonialidades”, tem muito a contribuir com a tentativa de dialogar com os saberes ancestrais indígenas, a partir do momento em que os reconhece enquanto conhecimentos válidos, verdadeiros e relevantes para uma mudança de paradigma necessária ao contexto atual da sociedade.

Conhecer as “colonialidades” nos ajuda a pensar, conceber e perceber ações descolonializantes por parte dessas partes estigmatizadas, favorecendo que caminhemos no sentido contrário da unilaterização pertinentes ao discurso da ciência preconizada pela sociedade moderna/capitalista e eurocentrada, valorizando lógicas e possibilidades outras.

Com o intuito de estabelecer relações entre os pressupostos da Colonialidade/Descolonialidade e as ações pedagógicas dos professores Tapeba da escola do Trilho, tomar nota das questões discutidas acima se tornam essenciais. Uma ação descolonializante se dá a partir de um desvelamento da opressão à qual a população indígena vem sendo submetida ao longo da história.

Os(as) professores(as) de uma escola diferenciada indígena são representantes da luta do povo pelo reconhecimento de sua cultura, pela igualdade dos direitos enquanto brasileiros, pela demarcação de suas terras. Até que ponto suas ações pedagógicas se pautam na

superação dessa compreensão de sociedade marcada pela diferenciação, estigmatização, logo, pela discriminação entre os indivíduos? Como seus discursos e suas práticas ajudam ou não a romper com esse modelo capitalista/moderno societário que nega toda a riqueza trazida por sua cultura, sua tradição?

Diante disso, o estudo desses conceitos ajuda-nos a perceber com um olhar mais apurado a dinâmica existente na comunidade Tapeba, buscando observar ações descolonializantes por parte do corpo docente da escola, na tentativa de sobrepujar as relações de domínio que fazem calar lógicas diferentes do que determina a ciência e a sociedade à qual esta se encontra submetida.