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Com o passar do tempo, o projeto original do Instituto foi sofrendo alterações. O plano pedagógico previsto para o Instituto foi desfigurado, devido ao advento do Estado Novo, que reprimiu o modelo de educação popular emancipadora frente às transformações da sociedade brasileira que seria promovido pelo Instituto de Educação. O autoritarismo do novo regime, com apoio decisivo da igreja, buscou silenciar os setores que repercutiriam os anseios de renovação da educação (KULESZA et al, 2001: 09-11).

Com isso, os edifícios projetados para o Instituto passaram a ser usados com funções diferentes do que foram pensados. O edifício central passou a abrigar o Lyceu Parahybano, já em 1939, pouco depois de ser inaugurado. O Lyceu passou a fornecer o ensino secundário, entretanto, este possuía uma proposta de ensino tradicional, baseada no ideário do ensino propedêutico e religioso. A formação de professores, função principal do Instituto, deixou de ocorrer até a criação de um novo prédio para esta função, em 1958 (KULESZA et al, 2001: 11).

Em 1975, o edifício do Jardim da Infância passou a abrigar a Escola Estadual de Ensino Fundamental Argentina Pereira Gomes17. O edifício da Escola de

Aplicação, nunca chegou a funcionar como tal, abrigou a Faculdade de Filosofia do Estado da Paraíba, a Coordenação de Assistência ao Estudante, e em 1977, se transformou na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Olivina Olívia. Os três edifícios ocupam as últimas funções citadas até hoje.

Com as novas funções e a necessidade de servir à maior número de alunos, foram construídos no lote reservado inicialmente aos edifícios do Instituto vários anexos, em geral sem qualidade arquitetônica, e sem preocupação em manter uma comunicação com a linguagem estética dos três edifícios previstos no plano inicial. O lote também foi segregado com muros, que dividiram o espaço entre os três edifícios, intervenção que fragmentou a antiga noção do conjunto, uma característica importante do projeto original.

Em 1958, foi inaugurado um novo edifício para o Instituto de Educação (figura 144), para voltar a inserir o ensino juntamente com a formação de professores. Foi

17 Não foi identificado se o edifício teve mais alguma função além de Jardim da Infância e Escola Argentina Pereira Gomes.

instalado no mesmo lote que foi previsto o Instituto originalmente, ocupando áreas do terreno que ficaram vazias no projeto original. Este edifício foi locado paralelo à antiga Avenida Tiradentes, (atualmente denominada Avenida Camilo de Holanda), ao lado do antigo edifício do Jardim da Infância. O edifício do novo Instituto de Educação apresenta arquitetura moderna, assim como a maioria das construções públicas no período em que foi construído: tem forma de um prisma retangular, bastante horizontal, fachada principal marcada por pilares que sobressaem das paredes (resaltando sua estrutura independente em concreto armado) e cortada pelas janelas horizontais em fita, e faz uso de panos de cobogó como vedação, elemento já bastante utilizado na arquitetura moderna nacional.

Figura 144: Atual Instituto de Educação, inaugurado em 1958. Fonte: Arquivo da autora, 2013.

Além do novo Instituto de Educação e dos anexos e expansões realizadas nos edifícios previstos originalmente, ainda foram construídos no lote do complexo educativo quatro ginásios de esportes, uma quadra e um pequeno campo de futebol (suprindo a falta dos equipamentos esportivos que eram desejados originalmente, mas não tinham sido projetados), galpão de artes industriais, cantina, praça central, e aos fundos da Escola Olivina Olívia funciona a Coordenadoria técnica para Serviços de Engenharia (COTESE), da Secretaria de Estado da Educação, Paraíba.

Figura 145: Croqui mostrando a implantação atual com os novos edifícios construídos no lote do antigo Instituto de Educação da Paraíba. Fonte: Elaborado pela autora à partir de planta cedida pela COTESE.

Figura 146: Anexo da Escola Argentina Pereira Gomes, antigo Jardim da Infância. Percebe-se a arquitetura sem expressão do anexo, que ainda interfere na visão do antigo conjunto como um todo, escondendo parte do Edifício Central e Jardim da Infância. Fonte: Acervo da autora, 2013.

Figuras 147 e148: Escola Argentina Pereira Gomes, antigo Jardim da Infância, onde se vê a maneira que o anexo se engasta junto ao auditório do antigo Jardim da Infância (foto esquerda), e anexo visto no interior da escola, escondendo a vista do antigo Edifício Central. Fonte: Acervo da autora, 2013.

Figuras 149 e 150: Anexo que serve ao Lyceu Paraibano e à Escola Argentina Pereira Gomes, antigos Edifício Central e antigo Jardim da Infância. Pode-se observar a presença do muro que divide a área ocupada pelo Lyceu Paraibano e pela Escola Argentina Pereira Gomes, construído entre o anexo e o volume que abrigava o auditório e o museu do antigo Instituto, quebrando com a visão da parte semicircular, que tem bastante expressão plástica, mas não pode mais ser observada por completo. Fonte: Acervo da autora, 2013.

Figuras 151 e 152: Ginásio de esportes construído posteriormente, entre os antigos edifícios do Instituto de Educação e a Escola de Aplicação. Fonte: Acervo da autora, 2013.

Cabe frisar que os edifícios que funcionavam como Edifício Central, Escola de Aplicação, e o atual Instituto de Educação da Paraíba (que não fazia parte do plano original), são tombados pelo IPHAEP através do decreto nº 8644, de 26 de agosto de 1980. Entretanto, o antigo Jardim da Infância do Instituto de Educação não está sob proteção, mesmo sendo tão antigo e importante quanto os outros no conjunto do antigo Instituto de Educação da Paraíba. Entre os edifícios do complexo escolar, é justamente este que está mais descaracterizado, com ampliações e demolição do terraço semicircular que possuía. Sendo assim, reconhecemos que todos os edifícios previstos no plano original do Instituto paraibano tinham sua importância específica dentro do novo sistema educacional para o qual foram projetados, e assim, devem ser valorizados e preservados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho optou por estudar as escolas públicas de João Pessoa construídas no início do século XX, visto que através do estudo de instituições públicas é possível verificar a atuação do Estado na modernização das mesmas, assim como, quais seriam as características de uma arquitetura verdadeiramente democrática, que atenderia todas as classes sociais, não só a elite. Nesse período, de busca por identidade nacional, a escola representava um meio de promover o progresso do Brasil, através da educação de seus cidadãos voltada para o mundo moderno.

Portanto, pretendeu-se, com a presente dissertação, investigar a influência das novas ideias pedagógicas do movimento Escola Nova, na modernização da arquitetura escolar.

Após o primeiro momento da pesquisa, adotou-se como objeto empírico o complexo escolar do Instituto de Educação da Paraíba, pois foi visto com a busca de bibliografia e documentos que esta instituição foi planejada como modelo da nova educação proposta com a reforma da instrução pública da Paraíba, ocorrida em 1935.

Através da análise do objeto empírico, foi possível confirmar a hipótese inicial, de que a arquitetura escolar de João Pessoa se modernizou com a adoção dos princípios do movimento pedagógico Escola Nova. Além disso, constatou-se como ocorreu tal modernização, nos três edifícios que compunham o antigo Instituto de Educação da Paraíba.

Desde a escolha da localização do conjunto, em uma área de expansão da cidade, a forma diferenciada do lote e a maneira que edifícios foram implantados, já demonstravam a busca por construções escolares diferentes das que existiam até então. A documentação da época mostrou que nos anos 1930, os grupos escolares não possuíam mais estrutura física adequada para o ensino que deveria ser proposto, com isso, estes tiveram que sofrer reformas, adaptando seus edifícios da maneira que fosse possível. O desejo do Governador Argemiro de Figueiredo de modernizar a capital, juntamente com as novas necessidades do ensino, levaram ao

projeto de novos tipos de grupos escolares e do Instituto de Educação da Paraíba, que possuía edificações consideradas ideais para a arquitetura escolar do período.

O memorial da obra Sobre o plano do Instituto de Educação foi de grande importância para o desenvolvimento da pesquisa, pois mostrou o pensamento da equipe que elaborou o projeto, através do discurso do seu diretor, o engenheiro Ítalo Joffily. Neste documento, foi reafirmado em vários trechos, a intenção de realizar construções de acordo com a “verdadeira arquitetura moderna”, e enumerado a importância da aplicação dessa arquitetura para o desenvolvimento da proposta de ensino nos moldes da Escola Nova. Observou-se que havia nesse momento uma tentativa de desenvolver uma arquitetura que aliasse os princípios do movimento moderno com as singularidades do espaço escolar.

Sendo assim, cabe ressaltar que para a inserção das novas características almejadas no projeto do Instituto de Educação da Paraíba, os membros da DVOP responsáveis pela obra e do departamento de educação estadual foram em busca de conhecimento específico sobre o tema (tanto prático, como teórico), através de viagens para conhecer os novos edifícios escolares do Rio de Janeiro e de São Paulo, do estudo do guia Novos prédios para Grupos Escolares (publicado em 1936 pela Comissão de prédios escolares de São Paulo) que trazia normas técnicas para construção escolar desenvolvidas nos Estados Unidos, Itália e França, e de leituras sobre o movimento Escola Nova e sobre arquitetura moderna, em especial, escritos de Le Corbusier e Lucio Costa, que são citados ao longo do memorial da obra.

Com isso, foram adotados princípios que deveriam estar presentes no projeto. Estes se referiam à características de edificações escolares que serviriam a pedagogia da Escola Nova, e/ou aos princípios da arquitetura moderna.

Entre as prescrições para um espaço escolar escolanovista foram propostos ambientes que passaram a ser considerados indispensáveis: o auditório teve grande importância no projeto dos três edifícios do Instituto, e em todos se destacou volumetricamente das demais funções, através da maior área reservada e finalização semicircular. O auditório era um ambiente que possuía diversas finalidades, pois poderia abrigar apresentações de cinema, teatrais e musicais, palestras, assembleias e reuniões do corpo docente. A maior valorização da leitura levou a construção de bibliotecas no edifício central e na escola de aplicação. O

edifício central e a escola de aplicação apresentam também museu e laboratórios, que representam a busca por uma educação mais científica e prática.

Outros ambientes presentes nos três edifícios do complexo educativo são reflexo do caráter inclusivo da Escola Nova, que pretendia desenvolver um ensino gratuito e igualitário, para todas as classes sociais. Então, foram construídos espaços onde ocorreriam atividades de assistência aos alunos de família de baixa renda, como por exemplo, o provimento de alimentação, que fez surgir nas construções escolares cozinha, cantina e refeitório, a assistência médica e de dentista, onde cada profissional ocupava uma sala separada, e implantação de vestiários com chuveiros, para que os alunos pudessem desenvolver o hábito do banho diário.

Os princípios da arquitetura moderna puderam ser encontrados por todo o conjunto do Instituto de Educação, pois seu plano previu construções baseadas na funcionalidade e racionalidade. Nesse quesito, foi a busca pela adequação das obras ao clima local resultando em edifícios confortáveis que orientou grande parte das decisões projetuais. As mais representativas foram:

 A implantação no lote e o posicionamento dos ambientes em planta, pensados para obter a orientação mais adequada para receber maior ventilação e menor insolação.

 Uso de corredores de circulação abertos, como varandas.

 Adoção de janelas horizontais envidraçadas, para as salas de aula, com dimensões e posicionamento calculados para não provocar ofuscamento nas carteiras dos alunos e no quadro.

 Utilização de marquises para sombreamento das aberturas.

Além da questão do conforto climático, outras características baseadas em princípios do movimento moderno foram adotadas:

 Organização espacial baseada na funcionalidade, gerando edifícios mais dinâmicos, através da separação de funções em diferentes blocos, característica do zoneamento moderno, além da modulação das salas de aula.

 Utilização do concreto armado, que permitiu a construção de balanços, marquises, do terraço superior e a rampa curva e leve do edifício central e do pilotis na escola de aplicação.

 Repertório formal característico – ausência de ornamentos, marquises, janelas horizontais, de canto e circulares, contraste entre volumes retos e arestas curvas ou volumes semicirculares, volumes com diferença de altura.

Uma qualidade importante dos edifícios do complexo educativo é o privilégio dado às salas de aula, que são os ambientes posicionados para receber maior ventilação, são protegidos do excesso de insolação, foram dispostos separados das demais funções, com precauções até com o barulho em demasia. O cuidado no projeto das salas de aula demonstra a valorização dos educandos, prezada pela Escola Nova, pois o ambiente que ocupariam maior parte do tempo foi pensado para trazer-lhes o maior conforto possível, estimulando-os a frequentar as aulas.

Foi identificado que as edificações do Instituto de Educação da Paraíba possuem várias semelhanças com os edifícios escolares provenientes das reformas educacionais de São Paulo e principalmente do Rio de Janeiro, tal como a organização espacial com disposição das salas de aula linearmente, e auditório em sentido transversal, e a estética dos edifícios. No entanto, as construções locais são mais abertas, permeáveis. Os três edifícios possuem o diferencial da inserção de varandas como solução de circulação horizontal, criando um espaço de transição entre o exterior e o interior. Este recurso, do mesmo modo que proporciona uma boa solução para adequação climática, traz um caráter tropical às construções, não só ao edifício central, conforme Trajano Filho (2005) já havia estabelecido, mas a todo o conjunto.

Entre os edifícios do Instituto de Educação, o edifício central é o que reúne todos os conceitos pregados no memorial de maneira mais completa. A ele foi dada maior importância, tanto na composição volumétrica, como nas soluções estruturais mais ousadas que os outros, e na qualidade dos materiais construtivos adotados. Sua valorização provavelmente se deve por este ter sido projetado para abrigar a função de formar professores, sendo assim, de importância decisiva na reforma da educação.

Durante o desenvolvimento desta pesquisa, surgiram várias questões que podem ser discutidas em pesquisas futuras, entre elas: Qual a influência da arquitetura do Instituto de Educação na arquitetura dos edifícios escolares construídos em João Pessoa posteriormente? Qual a semelhança de sua arquitetura com a de edificações escolares construídas em outros países no mesmo período?

Por fim, percebeu-se com esta pesquisa que a arquitetura, ainda mais de edifícios públicos, não é só expressão da genialidade do arquiteto, mas, também é resultante do projeto político, da conjuntura social e da ideologia e pensamentos de uma época. Dessa forma, pode-se concluir que a construção do Instituto de Educação representou não somente uma obra de caráter social, capaz de adequar os novos princípios pedagógicos com a arquitetura, mas também, uma das que marcou o início da arquitetura moderna na Paraíba. O Instituto de Educação representava a renovação, a imagem moderna que o Estado da Paraíba queria transmitir.

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