• No results found

No segundo capitulo, do volume II denominado “A linguagem e o pensamento da criança na teoria de Piaget” (2001, p. 19-96) Vigotski se dedicou a uma análise crítica da teoria piagetiana, discordando do entendimento que Piaget tinha sobre a relação entre pensamento e linguagem. Não pretendemos abordar em detalhes a análise crítica realizada por Vigotski, pois isso já foi realizado por Duarte (2006, p. 213-256). Limitaremos nossas considerações a um único aspecto, mais diretamente ligado ao tema desta tese. Trata-se da divergência fundamental entre Vigotski e Piaget sobre o percurso de desenvolvimento da linguagem na criança, divergência essa que se revela com particular nitidez na discussão sobre a função da linguagem egocêntrica no desenvolvimento psicológico infantil. Essa discussão traz contribuições para nossas críticas ao método construtivista para a alfabetização.

Vigotski (2001) analisou duas obras de Piaget da década de 20: A Linguagem e o Pensamento na Criança, de 1923 e O Juízo e o Raciocínio na Criança, de 192430 e destacou que o método clínico empregado por Piaget teria levado à descoberta de novos dados e novos problemas de pesquisa no campo da psicologia. Mas, se por um lado, Vigotski assinala esse mérito das pesquisas realizadas por Piaget, por outro analisa de forma radicalmente crítica os equívocos dos pressupostos dos quais partiu o pesquisador suíço e das conclusões a que chegou.

O primeiro equívoco teria sido justamente a desvalorização da discussão sobre os pressupostos teóricos e a adoção de uma atitude de pura descrição dos fatos constatados pela investigação empírica:

Todavia, [assinala Vigotski] quem analisa os fatos, o faz indefectivelmente à luz de uma ou outra teoria. Os dados estão indissoluvelmente entrelaçados com a filosofia, sobretudo os dados relativos à evolução do pensamento infantil descobertos, expostos e analisados por Piaget. Se desejamos encontrar a chave de tão rico acúmulo de dados novos, devemos explorar primeiro a filosofia do fato, a filosofia subjacente à sua obtenção e interpretação. De outro modo, os fatos permanecerão mudos e mortos (VYGOTSKI, 2001, p. 32, grifos do autor).

30

Em nota de rodapé da edição espanhola das obras escolhidas, é informado que “Ao longo deste capítulo Vygotski oferece numerosas citações tanto de Le Langage et la pensée chez enfant (Piaget, 1923), como de Le jugement et le

raisonnement chez l’enfant (Piaget, 1924). Dessas citações depreende-se que maneja uma edição conjunta – muito

Mas sua análise concentrou-se no pensamento egocêntrico da criança, porque o considerou como “[...] o nervo basilar de todo o sistema piagetiano, a pedra angular de toda a sua construção teórica” (VIGOTSKI, 2000, p. 27). Considerado, por Vigotski, como sendo a chave da teoria de Piaget, o pensamento egocêntrico da criança passou a ser analisado em sua essência.

Discordando das concepções desenvolvidas por Piaget, Vigotski as revisou e encontrou uma estrutura teórica questionável a ponto de comprometer todo o trabalho desenvolvido pelo pesquisador suíço. Diante dessa constatação, Vigotski segue outro caminho para compreender a teoria e os princípios que determinavam a pedra angular do conhecimento desenvolvido por Piaget, ou seja, o egocentrismo da linguagem e do pensamento infantil. Para isso, Vigotski analisou pontualmente as peculiaridades do pensamento infantil, como o sincretismo, o autismo, mas se deteve no egocentrismo porque, dizia ele, essa forma de pensamento infantil é o fenômeno universal da teoria piagetiana.

Em suas análises Vigotski (2000, p. 32) constatou que para Piaget “[...] o pensamento egocêntrico é um ponto intermediário, uma fase transitória no desenvolvimento do pensamento entre o autismo e a lógica”. Do mesmo modo Piaget caracterizava a linguagem egocêntrica como a fase em que a criança fala consigo mesma, não se incomoda se tem alguém ouvindo, não mantém diálogo, aliás, torna-se um monólogo. Nesse caso, tomando para análise apenas o conteúdo básico da teoria piagetiana, Vigotski concluiu que, para Piaget, a linguagem egocêntrica não cumpria nenhuma função comunicativa e também “[...] não modifica essencialmente nada nem na atividade da criança, nem nas suas vivências, como um acompanhamento que, na sua essência, não interfere no desenrolar nem no sistema da melodia central que ele segue” (VIGOTSKI, 2000, p. 50). Em termos funcionais, Vigotski identificou que na teoria de Piaget a linguagem egocêntrica podia ser sustentada por duas teses: a primeira tese dizia que a linguagem egocêntrica não alteraria o comportamento da criança, porque seria uma linguagem individual, somente para sua satisfação pessoal, situada muito próxima a um devaneio e não a um pensamento real. A segunda tese, diretamente ligada à primeira, considerava que a linguagem egocêntrica como expressão do pensamento infantil em forma de devaneio, não servia para desenvolver nenhuma função psíquica da criança, seria “[...] natural reconhecer nela um sintoma de fraqueza, de imaturidade do pensamento infantil, sendo de se esperar naturalmente que esse

sintoma venha a desaparecer no processo do desenvolvimento da criança”. (VIGOTSKI, 2000, p. 51)

Como se vê, para Piaget, a linguagem egocêntrica da criança é inútil para seu desenvolvimento, por isso ela desaparecerá, extinguir-se-á com a substituição do pensamento egocêntrico pelo pensamento socializado. Pondo isso à prova, Vigotski (2000, p. 53) realizou experimentos com Luria, Leontiev e outros colaboradores e constatou diferentemente de Piaget “[...] que a linguagem egocêntrica da criança começa muito cedo a desempenhar em sua atividade um papel sumamente original”. Essa conclusão levou Vigotski a observar que essa forma de linguagem tornava-se um meio de pensamento para a criança desempenhando novas funções em seu comportamento. Nos exemplos citados por Vigotski é possível compreender que, nessa fase, quando a criança se encontra diante de uma tarefa com obstáculos ela realmente fala consigo mesma, mas essa fala está ligada à situação que precisa ser resolvida, ou seja, sua fala se torna um instrumento do pensamento, uma tomada de consciência da situação problemática em que se encontra.

Quanto aos dados experimentais que Vigotski e sua equipe analisaram, uma questão era essencial: qual a função e o destino da linguagem egocêntrica? Essa tarefa os levou a formular a hipótese de que a linguagem egocêntrica seria um estágio transitório da linguagem exterior para linguagem interior. Isso mudou consideravelmente o conceito de linguagem egocêntrica que passou a ter uma função decisiva no desenvolvimento do pensamento infantil. Assim, os experimentos reiteraram qual era a função da linguagem egocêntrica da criança:

[...] trata-se do fato de que a linguagem egocêntrica da criança não só pode não ser expressão do pensamento egocêntrico como ainda exerce uma função diametralmente oposta ao pensamento egocêntrico – a função de pensamento realista – e, assim aproximar-se não da lógica do sonho e do devaneio mas da lógica da ação e do pensamento racionais e sensatos (VIGOTSKI, 2000, p. 60, grifo nosso).

Resolvida essa questão, os estudos do grupo de Vigotski verificaram que a linguagem egocêntrica tem sua origem na linguagem social por meio da transferência das “[...] formas sociais de pensamento e formas de colaboração coletiva para o campo das funções psicológicas pessoais” (VIGOTSKI, 2000, p. 64). Nesse entrelaçamento é que as pesquisas vigotskianas demonstram o percurso do desenvolvimento da linguagem infantil, que vai da linguagem socializada, no plano

das funções interpsicológicas, para a linguagem interior, no plano das funções intrapsicológicas.

Assim sendo, a linguagem egocêntrica é uma fase de transição entre a linguagem externa e a linguagem interna. Ou seja, o que ocorre não é, como defendeu Piaget, uma atrofia da linguagem egocêntrica em razão da substituição do pensamento egocêntrico pelo pensamento socializado mas, sim, a interiorização da linguagem.

O movimento real do processo de desenvolvimento do pensamento infantil não se realiza do individual para o socializado mas do social para o individual. É esse o resultado fundamental do estudo tanto teórico quanto experimental do problema que está no foco de nosso interesse (VIGOTSKI, 2000, p. 67).

No capítulo 6 do livro Vigotski e o Aprender a Aprender, Duarte (2006, p. 257-280) desenvolve uma análise crítica do sócio-construtivismo característico da psicologia piagetiana. Para esse autor, a despeito de muitos pesquisadores considerarem que as críticas de Vigotski a obras do jovem Piaget não seriam aplicáveis ao restante da produção científica do epistemólogo suíço, a psicologia piagetiana nunca teria abandonado a tese de que o desenvolvimento da criança caminha do individual para o social31.

No que interessa diretamente a este trabalho, constatamos que esse pressuposto é adotado pelo construtivismo também no campo da alfabetização, o que leva os construtivistas a afirmarem que o domínio da língua escrita seria uma progressiva substituição das hipóteses formuladas pela própria criança. Essas hipóteses caminhariam em direção a formas mais “socializadas” de se operar com a língua escrita. Para Vigotski a linguagem egocêntrica é uma fase intermediária entre processos psicológicos exteriores e processos psicológicos interiores, ou seja, trata- se de um processo de interiorização do social. Para os construtivistas a alfabetização é um processo que caminha do interior para o exterior, do individual para o social.

31

Uma análise detalhada dos princípios ideológicos defendidos pelo construtivismo é apresentada no livro de Rossler (2004) intitulado Sedução e Alienação no Discurso Construtivista.