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Depois da entrada da Itália no conflito, todas as regiões enfrentaram as dificuldades acarretadas pelo ambiente beligerante. A Sicília sofreu, como os outras regiões119 do sul da

115 FACCHINETTI, Luciana. A imigração italiana no segundo pós-guerra e a indústria brasileira nos anos

50. 2003. 139 f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003. p. 32-33.

116 CAROCCI, Giampiero. Storia d’Italia dall’Unità a Oggi. Milano: Feltrinelli, 1989. p. 52-53.

117 VIZENTINI, Paulo Fagundes. As guerras mundiais (1914-1945). Porto Alegre: Leitura XXI, 2003. p. 161-

163.

118 TRENTO, Angelo. Fascismo italiano. São Paulo: Ática, 1986. p. 76-77.

119 Região – refere-se às unidades territoriais (Regione) na Itália. O país é constituído por 20 Regiões,

Península, um agravamento de sua situação com o alastramento dos combates. Francesca Coniglio Ducceschi120 recorda que:

Com a declaração de Guerra, haviam começado os ataques aéreos e, desta maneira, foi preciso pensar em providenciar abrigos nas próprias residências, já que as bombas principiavam a cair como chuva. [...] À noite, ficava-se na dúvida entre ir para a cama e esperar o alarme, que tocava, religiosamente, por volta das onze e meia, acompanhado pelos respectivos bombardeios. [...] Pelas ruas, as pessoas se olhavam como fantasmas, estupefactas por estarem ainda vivas. A cada dia, recebíamos notícias de amigos, parentes e outras pessoas que morriam; as casas iam abaixo como fossem feitas de biscoito, sepultando famílias inteiras.

Cabe referir, também, que o conflito trouxe enormes problemas para o abastecimento, pois os mercados se encontravam fechados e a importação de comida foi inviabilizada. Logo, um grande número de insulares ficou com uma dieta restrita a laranjas, entre outras frutas, e a grãos cultivados na região.121

A ilha, além dos problemas internos por que atravessava, era estratégica para as tropas aliadas desembarcarem e iniciarem o ataque às tropas do Eixo, visto que, historicamente, a região sempre foi entrada para aqueles que desejassem invadir a Península Itálica. Em julho de 1943, as tropas aliadas desembarcaram na Sicília; os Exércitos americanos passaram por Gela em direção a Palermo e depois para Messina, enquanto que os britânicos de Pachino foram para Siracusa e Catania. Dali posteriormente adentraram no Continente. As defesas inapropriadas e arcaicas eram inúteis para deter qualquer espécie de invasão: os Aliados, assim, não tiveram empecilho para aportar em território “inimigo”.122

Os soldados ingleses, mas especialmente os americanos, trouxeram para os sicilianos – como ao restante da população meridional, à medida que as tropas Aliadas avançaram – alimentos, como, por exemplo, pães e chocolate, entre outras provisões. Desse modo, aos olhos dos habitantes os jovens militares eram vistos como os heróis dos filmes de Hollywood (protagonizados por John Wayne, Clark Gable e James Stuart, entre outros grandes atores que brilhavam nas produções cinematográficas norte-americanas). O regime não conseguiu impedir o ingresso do sonho americano através do cinema, que, durante o regime fascista, foi utilizado como veículo difusor da propaganda do regime.123

Vale ressaltar que os combates ocorridos entre as tropas aliadas e as do Eixo deixaram um rastro de ruína nas cidades sicilianas; algumas localidades quase desapareceram. Após a

120 DUCCESCHI, Francesca Coniglio. O catavento da vida. Porto Alegre: Prosapiens, 2010. p. 39.

121 FINLEY, Moses I.; SMITH, Denis Mack; DUGGAN, Christopher J. H. Breve storia della Sicilia. Bari:

Laterza, 2009. p. 321.

122 Ibidem, p. 322.

123 COLARIZI, Simona. Storia del novecento italiano: cent’anni di entusiasmo, di paure, di speranze. Milano:

conquista militar realizada pelas tropas aliadas, a comida e os medicamentos, entre outros itens importantes, retornaram à sociedade insular através das mãos dos vencedores.124 Muito mais que mantimentos, Mangiameli125 afirma que “a presença americana definiu uma marca democrática de resgate e de atenção para aqueles setores campesinos que deram uma maior contribuição para a emigração. O mito da América alcançou assim o seu ponto máximo”.

De fato, a consequência da ocupação da Sicília gerou uma instabilidade fatal para o regime fascista. A tomada da ilha pelas forças aliadas foi um ponto imprescindível para a destituição de Mussolini do cargo de Primeiro-Ministro. Em 1943, o novo Ministro, General Badoglio, tratou a questão do armistício da Itália com os Aliados na cidade de Cassibile, Província de Siracusa. Porém, depois dessa ação do Estado italiano, as tropas alemãs processaram uma maior ocupação na Península e transformaram-na em um efetivo campo de batalha.126

Em meio à Guerra, a Máfia começou novamente a se movimentar. As ações fascistas que combateram duramente a referida organização, através das medidas do Prefeito de Palermo, Cesare Mori, foram eficazes, mas não extirparam as organizações criminais. Com o ambiente beligerante, os Chefes da Máfia conseguiram retornar à cena.127

Uma das principais circunstâncias que favoreceu o retorno das organizações mafiosas foi a situação de caos, de fome e de desesperança que golpeou a sociedade siciliana. Os camponeses, que aos poucos recomeçavam a trabalhar nas terras dos grandes proprietários, mais uma vez retornaram para servir aos latifundiários. Através dos serviços contratados junto aos Chefes da Máfia, os donos de terras garantiam uma exploração da mão de obra existente, que se via sem outra alternativa senão a submissão à rotina de trabalho anterior.128

124 FINLEY, Moses I.; SMITH, Denis Mack; DUGGAN, Christopher J. H. Breve storia della Sicilia. Bari:

Laterza, 2009. p. 322-323.

125 MANGIAMELI, Rosario. La Sicilia dalla prima guerra mondiale alla caduta del fascismo. In: BENIGNO, F.

e GIARRIZZO, G. (a cura). Storia della Sicilia: Dal Seicento a oggi. Bari: Laterza, 2003. p. 172. [Tradução livre do autor].

126 Ibidem, p. 173.

127 COLARIZI, Simona. Storia del novecento italiano: cent’anni di entusiasmo, di paure, di speranze. Milano:

BUR: Biblioteca Univer. Rizzoli, 2009. p. 299.