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O método qualitativo foi escolhido para entender a complexidade dos fatores emocionais, crenças e percepções que influenciam comportamento (Grosvenor, 2000). Questões de “como” e “por que”, processos comportamentais, definição de contexto, motivações, estratégias e atitudes e percepções são melhor entendidas por métodos qualitativos (Clifton, 2011).

Dentre as diversas técnicas de pesquisa qualitativa, foram consideradas inicialmente entrevistas em profundidade, grupos focais e observação (Clifton, 2011; Grosvenor, 2000). Métodos de observação foram descartados porque seria inviável a observação no momento de planejamento e decisão sobre o acesso a aeroportos, e depois na execução deste plano. Os grupos focais costumam ser utilizados quando se imagina que a interação entre os integrantes irá beneficiar a análise dos dados, porém dados detalhados tendem a não aparecer (Clifton, 2011; Grosvenor, 2000). No caso da presente pesquisa, o interesse é de se obter informações sobre processos individuais de escolha; compreender qual informação o indivíduo seleciona, como ele representa essa informação e por fim como escolhe de posse dessa informação. Portanto, se exige elaboração individual das ideias e não visões generalistas ou normativas, e inúmeras questões são propostas. Em função disso, o método considerado mais adequado foi o de entrevistas em profundidade (Grosvenor, 2000), que será detalhado no item 3.4.1.

As entrevistas foram propostas para coletar dados da fase de planejamento, conforme descrito no item 3.2. Os dados da fase de implantação foram obtidos através de auto- declarações, obtidas por e-mail ou telefone. A Figura 6 a seguir ilustra as fases da Pesquisa Qualitativa:

Figura 6 – As duas fases da Pesquisa Qualitativa

3.4.1 1ª Fase - Entrevistas em profundidade semi-estruturadas 1ª Fase Entrevistas Semi-Estruturadas 2ª Fase Auto-Declaração Pesquisa Qualitativa Protocolo

O tipo de entrevista escolhido foi o de “entrevistas em profundidade semi-estruturadas”, um método fenomenológico que tenta entender um determinado fenômeno sob o ponto de vista dos entrevistados, com uma descrição de situações específicas e não opiniões gerais (Kvale e Brinkmann, 2008).

Um dos desafios da pesquisa qualitativa em geral é o pesquisador não impor o seu entendimento particular ao comportamento a ser investigado; ele deve deixar o comportamento emergir da própria pesquisa (Clifton e Handy, 2003). Na verdade, o conhecimento gerado a partir de entrevistas provém inevitavelmente da interação do entrevistador-entrevistado. Por isso, embora existam poucas regras ou convenções metodológicas consagradas, é importante que o entrevistador tenha, em primeiro lugar, interesse sobre o tema do trabalho, sendo capaz de encaminhar a entrevista para esclarecer pontos ambíguos e contraditórios, revelando se estes se configuram como inconsistências reais do processo de escolha ou apenas dificuldades na comunicação (Kvale e Brinkmann, 2008). Em segundo lugar, os autores sugerem que o entrevistador deve criar um palco onde o indivíduo esteja livre para falar, sem ser extremamente impessoal, “calibrando a distância social exata para garantir que o indivíduo não se sinta como um inseto em um microscópio”. Por esta razão, definiu-se que os entrevistadores seriam os próprios participantes do projeto, não sendo prevista uma terceirização desta etapa.

Para se obter dados mais espontâneos dos viajantes, a entrevista foi iniciada com um método denominado “pensar-alto” (Ericsson e Simon, 1993). Anteriormente ao início da entrevista, o entrevistador coletava alguns dados básicos sobre a viagem aérea e questionava o entrevistado se este já teria planejado o seu acesso ao aeroporto. Em seguida, ao invés de perguntar diretamente ao entrevistado questões específicas sobre o acesso ao aeroporto, o entrevistador simplesmente perguntava:

“Será que você pode tentar fazer uma espécie de “exercício”? e tentar descrever, pensando alto, como você decide sobre seu acesso ao aeroporto? Tente não deixar de mencionar nenhum passo do seu raciocínio. Você não precisa justificar nada para mim, faça como se você estivesse sozinho,

falando consigo mesmo, pensando sobre seu acesso... Não existe certo nem errado, fale o que vier à sua cabeça.”

A ideia do método é que o respondente não se preocupe em justificar o comportamento, simplesmente relate seu raciocínio como se estivesse falando consigo mesmo (Ericsson e Simon, 1993). A ideia não é tampouco que o entrevistado responda necessariamente com regras racionais, mas estimular que ele declare como de fato escolhe, eventualmente indicando um processo afetivo-intuitivo e não utilitário e compensatório (Kaa, 2008).

A partir dos dados deste método, o objetivo era construir mapas cognitivos de escolha, isto é, mapas que ilustrassem o processo pelo qual o indivíduo representa mentalmente o mundo real (Laszlo, 1993). Esse mapa poderia ajudar a analisar o processo de escolha (Axelrod, 1976).

Nesta parte da entrevista, o foco era na formação do plano e não nos determinantes da escolha. A ideia era observar quais escolhas estavam sendo feitas, se havia geração de alternativas, quais os critérios para decisão e as interdependências com outras atividades. Portanto, o método procurou descrever os mecanismos envolvidos nas escolhas de acesso a aeroportos.

Em seguida, uma entrevista geral com questões abertas, tipo “respostas prospectivas” foram aplicadas (Lee-Gosselin, 1996). Foram propostas questões como:

“Em quais situações você mudaria seu comportamento e porquê?

“Você mudaria a maneira como você decide se (fosse desacompanhado/ estivesse viajando a lazer/ o congestionamento estivesse pior no dia)?”

“Em quais circunstâncias estar des)acompanhado seria desejável?” “O que você faria se o voo fosse em uma sexta-feira?”

Com um roteiro na mão, o entrevistador adaptava as questões às respostas anteriores do entrevistado, propondo cenários ligeiramente diferentes para “acionar” sua visão sobre um assunto determinado. Por exemplo, se o entrevistado mencionava que iria acompanhado no acesso, o entrevistador perguntava no quê o plano seria alterado caso não estivesse acompanhado e porquê isso seria pior para ele.

As entrevistas foram gravadas e embora não tenham sido utilizadas técnicas de codificação, partes da entrevista foram condensadas segundo seu significado, uma técnica normalmente útil para se encontrar significado em entrevistas extensas (Kvale e Brinkmann, 2008). Um roteiro típico da entrevista pode ser encontrado no Apêndice A deste estudo.

3.4.2 2ª Fase – Autodeclaração

Após a entrevista inicial, os dados da implantação do plano foram coletados. Argumenta- se que se o comportamento for cuidadosamente planejado, é mais provável que ele se reflita em ação, por um maior comprometimento dos indivíduos (Gärling e Gillholm, 1998). No entanto, restrições no dia da viagem, desde condições de tráfego até aspectos afetivos podem moldar a decisão final. Ainda que um planejamento cuidadoso tenha sido feito, os fatores que influenciaram a decisão na fase de planejamento podem ser diferentes dos que influenciam a decisão no dia da viagem, até pelo aspecto contínuo e oportunista do planejamento. Os entrevistados foram solicitados a responder (por e-mail ou telefone) o comportamento final no dia da viagem, apontando razões para o eventual não cumprimento do plano inicial. As declarações foram transcritas e adicionadas às entrevistas para a análise.