O movimento, liderado pelo padre suíço Theodor Amstad, organizou diversos congressos católicos entre 1897 e 1900, e, no último deles foi criada a Associação Rio- Grandense de Agricultura, uma entidade de caráter multiconfessional, que deveria abranger católicos e luteranos alemães. Foi no âmbito dessa sociedade que surgiram as primeiras caixas rurais do país. A primeira delas foi a Caixa de Economia e Empréstimos, organizada em 1902 na localidade de Nova Petrópolis (posteriormente Caixa Rural de Nova Petrópolis)277 e a mais importante fora a Caixa de Economia e Empréstimos de Santa
Cruz do Sul, posteriormente, Caixa Cooperativa de Crédito Santa-Cruzense (1904)278.
Essa caixa obteve sucesso em atrair as poupanças da colônia alemã e chegou a manter filiais em diversas cidades do estado, mudando, posteriormente, sua dede para Porto Alegre e, em 1938, transformou-se no Banco Agrícola e Mercantil S/A.
Em 1912, durante o IX congresso católico realizado em Venâncio Aires, o movimento católico alemão resolveu criar uma nova sociedade, a Sociedade União Popular que existe ainda hoje. Essa entidade, de abrangência estadual, era composta por sessões formadas por entidades similares organizadas nos distritos municipais e chegou a contar com 9.000 sócios em 1914. Seu objetivo era atender tanto os interesses religiosos e culturais, como também os econômicos da comunidade alemã do estado, tendo organizado em 1925 a Central das Caixas Rurais da União Popular do Estado do Rio Grande do Sul, que por volta de 1933 contava com 34 caixas cooperativas filiadas279.
A maioria dessas associações de crédito faliu ou perdeu sua característica de cooperativas após a reforma bancária de 1964. De acordo com Gentil Corazza, a Central
277 Cf. OBERACKER JUNIOR, Carlos H, “Vestígios suíços na história do Brasil”. Revista de História, São Paulo, v. XXXV, n. 72, p. 463-482, 1967, pp. 471-2; NORONHA, Andrius E, Beneméritos empresários: história social de uma elite de origem imigrante do sul do Brasil (Santa Cruz do Sul, 1905- 1966), Porto Alegre, PUC-RS (Tese de Doutorado), 2012, pp. 278-294; SCHALLENBERGER, 2003, op. cit.
278 Esta caixa não era exatamente uma sociedade do tipo Raiffeisen, assemelhando-se aos bancos populares
do tipo Schulze-Delitzsch, sendo composta por comerciantes e industriais alemães, tanto católicos como protestantes. Cf. NORONHA, 2012, op. cit, pp. 278-294.
122 das Caixas Rurais faliu em 1967 e no mesmo ano o Banco Agrícola e Mercantil foi incorporado pelo banco Moreira Salles para formar o Unibanco280.
O eixo de difusão do cooperativismo de crédito desenvolveu-se em torno do movimento que Sônia Regina de Mendonça denominou de “ruralismo brasileiro”, liderado principalmente por engenheiros da Escola Politécnica do Rio de Janeiro e intelectuais ligados à lavoura de Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul que, em 1897, organizaram a Sociedade Nacional de Agricultura281, influenciada pelo agrarismo
francês282.
A SNA, liderada por Assis Brasil, Wenceslao Bello e Joaquim Ignácio Tosta, empreendeu intensa campanha em prol do associativismo rural que levou à aprovação do Decreto n. 979, de 6 de janeiro de 1903 que regulamentava o estabelecimento de sindicatos rurais e caixas agrícolas no país. O modelo adotado era o da lei de liberdade sindical, aprovada na França em 1881283. Segundo a legislação francesa os sindicatos
eram organizações estritamente profissionais, mas que podiam adquirir equipamentos e adubos para uso de seus sócios e atuar como institutos de previdência. Eles não podiam, entretanto, operar caixas de crédito nem realizar operações comerciais. Para realizar essas duas funções, eles organizavam, paralelamente, cooperativas de produção para comercializar seus produtos e caixas rurais para depósitos de poupança e financiamento de seus sócios. Enquanto isso, a lei brasileira de 1903 permitia aos sindicatos agrícolas operar como caixas rurais e também na comercialização de produtos agrícolas, o que mais tarde seria modificado pela aprovação do Decreto n. 1.637, de 5 de janeiro de 1907, que separava as esferas de funcionamento dos sindicatos e das sociedades cooperativas284.
Na sequência da aprovação da lei n. 979 surgiu um grande número de publicações a respeito do assunto, como o trabalho do conselheiro da SNA Carvalho Borges Junior,
280Cf. NORONHA, 2012, op. cit, pp. 278-294; CORAZZA, Gentil, “Sistema financeiro (e
desenvolvimento) do Rio Grande do Sul”, Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 23, Número Especial, p. 491-516, 2002.
281 Segundo Mendonça, a SNA estava comprometida com um projeto agrário independente da política
hegemônica desenvolvida em torno da cafeicultura, buscando incentivar a diversificação da agricultura e a modernização das práticas de cultivo. Cf. MENDONÇA, Sônia Regina de, “A Sociedade Nacional de Agricultura e a institucionalização de interesses agrários no Brasil”, Revista do Mestrado em História (Universidade Severino Sombra), V. 2, 1999.
282 MENDONÇA, Sonia Regina de, O Ruralismo Brasileiro: 1888-1931, São Paulo, Hucitec, 1997. 283 Cf. LACOMBE, Américo Jacobina, “A igreja no início do século XX (1900-1910)”, In: Luiz Antônio
Severo da COSTA, Brasil: 1900-1910. Rio de Janeiro: Biblioteca nacional, 1980, pp. 47-60; SILVA, Giovane José da, O batismo de clio: catolicismo-social e história em Jonathas Serrano (1908-1931), São João Del Rei: UFSJ (Dissertação de Mestrado), 2011.
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Propaganda Cooperativa285; Caixas Economicas e o Credito Agrícola de Alfredo Rocha
(1905) 286. Posteriormente, a SNA patrocinou a publicação de uma obra francesa sobre
sindicatos agrícolas de Gailhard Bancelo, traduzida por João Batista de Castro com o título Manual Pratico dos Syndicatos Agrícolas287 e o Ministério da Agricultura publicou
o trabalho de Wenceslao Bello, A Previdencia e o Credito Agrícola (1908); assim como a obra de Sarandy Raposo, funcionário do ministério que teve seu trabalho: Theoria e
Pratica da Cooperação, publicado como anexo ao relatório de 1911288.
Recentemente, Giovani José da Silva, ao estudar a obra do militante católico Jonathas Serrano identificou ligações entre o projeto associativista da Sociedade Nacional de Agricultura com o movimento do catolicismo social, principalmente pelo seu vínculo com o Círculo Católico do Rio de Janeiro (CCRJ) e a União Católica Brasileira (UCB)289.
Ao estudar as obras de difusão do associativismo de crédito no Brasil, notamos também uma estreita relação entre a SNA e o Círculo Católico do Rio de Janeiro, principalmente pela atuação do deputado Joaquim Ignácio Tosta, autor da lei sobre sindicatos agrícolas e que compunha a direção da SNA e era membro do Círculo Católico do Rio de Janeiro. Tosta era fundador da Sociedade Baiana de Agricultura, entidade que presidiu o Congresso Canavieiro da Bahia (organizado pela SNA em 1901) e esteve também à frente do II Congresso Católico Brasileiro.
Outra convergência observada foi a realização quase simultânea do Congresso Católico e do II Congresso Nacional de Agricultura, realizados entre julho e agosto de 1908 e que contaram com a participação do belga Emilio Vlieberg, apontado como autoridade nos temas dos sindicatos agrícolas e das caixas rurais. Vlieberg era líder da Liga Democrática Belga e professor de economia rural da Universidade de Louvain290 e
285Livro reúne o texto de sua conferência no 1º Congresso Nacional de Agricultura, realizado em 9 de
novembro de 1905, intitulado “Sobre o cooperativismo e a lavouar” e artigo publicado no Jornal do Comércio intitulado “Sobre a instictuição do syndicatos agrícolas”.
286Alfredo Rocha era funcionário do Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas e membro da SNA,
tendo também participado da comissão que organizou o II Congresso Nacional de Agricultura, Cf. Correio Paulistano, 31/8/1908, p.1.
287 MOURA, 2013, p. 12.
288 RAPOSO, C. A. Sarandy. “Theoria e pratica da cooperação (da cooperação em geral e especialmente
no Brasil)”. In: BRASIL. Relatorio apresentado ao presidente da República dos Estados Unidos do Brazil pelo Ministro do estado dos Negocios da Agricultura, Industria e Commercio, Dr. Pedro de Toledo, No anno de 1911 (v. III). Rio de Janeiro: Directoria Geral de estatística, 1911.
289SILVA, 2011, op. cit., p. 68.
290 Cf. A LAVOURA, XII, n. 1 e 2, 1908, pp. 4-7; DUARTE, A. Teixeira. Catecismo da Cooperação: O
cooperativismo em Minas Gerais (1908-1911) – Seu histórico, suas practicas, seus resultados, Belo Horizonte: Beltrão & Comp., 1912, pp. 9-19; SILVA, 2013, op. cit., p. 69-71.
124 suas conferências proferidas nos congressos agrícola e católico versavam sobre política católica, sindicalismo e crédito agrícola. Elas foram publicadas, em 1910, como folhetim avulso da revista A Lavoura que era mantida pela SNA291. Segundo Américo Lacombe, a
obra de Vlieberg sobre o sindicalismo agrário belga teria inspirado o projeto de Joaquim Ignácio Costa sobre sindicatos agrícolas em 1901292.
Em 1910, foi organizado o Centro Católico do Brasil, cuja assembleia de fundação fora convocada por Ignácio Tosta, Cândido Mendes de Almeida, Leôncio de Carvalho (membro da SNA em São Paulo e primeiro presidente da Sociedade Paulista de Agricultura) e Lucio José dos Santos, delegado da diocese de Mariana e difusor do raiffeisianismo em Minas Gerais, autor do livro Ao Povo Mineiro: As Caixas Agrarias do Systema Raiffeisen (1911). O Centro Católico deveria atuar como um partido político, a exemplo do Centro Católico Alemão: segundo o discurso de Plácido de Mello, o Centro seria núcleo organizador de um partido nacional, com sede na cidade do Rio de Janeiro,
destinado a concentrar a direção política dos católicos brasileiros293. Plácido de Mello
fez uma ampla explanação sobre as caixas rurais do modelo Raiffeisen, reivindicando aos católicos e, principalmente, à orientação do Papa Leão XIII o seu sucesso:
A caixa rural ou cooperativa do sistema raiffeisen, senhores, é a aplicação prática da encíclica ‘Rerum Novarum’ nos domínios da atividade agrícola, onde, como sabeis, moureja a grande maioria dos nossos compatriotas.
É uma obra católica não porque seja obra confessional, mas porque se baseia no credito pessoal. Não há credito pessoal sem moralidade, nem moralidade sem religião, bem entendido, sem religião católica, que é a única religião verdadeira. Raiffeisen não conseguiu fazer medrar sua instituição entre protestantes; daí provavelmente a sua conversão ao catolicismo294.
O Centro Católico incentivou a publicação de várias obras a respeito das caixas Raiffeisen, como o trabalho de José Júlio Soares, citado anteriormente, o trabalho de Teixeira Duarte Catecismo da Cooperação: O cooperativismo em Minas Gerais (1908-
291 As conferências de Vlieberg versavam sobre os seguintes temas: I. Os católicos belgas: o que tem
contribuído para a sua permanência no poder há vinte e quatro anos; II. Os congressos anuais dos Católicos alemães; III. As tendências dos povos latinos e germanos na solução da questão social; IV. Das obras agrícolas da Bélgica; V. Do crédito agrícola; VI. Seguro contra moléstia; VII. Seguro contra invalidez e a velhice; VIII. Seguro contra a falta de trabalho. Cf. SILVA, 2013, op. cit., p. 71
292 Cf. LACOMBE, 1980, op. cit., pp. 47-60. 293 O Paiz, 5/11/1912.
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1911) – Seu histórico, suas practicas, seus resultados (1912), além da obra de Plácido de Mello, O Evangelho em Ação Social – Caixas Rurais (1913)295.
Se a defesa do sindicalismo agrícola e das caixas Raiffeisen aproximava a Sociedade Nacional de Agricultura do Círculo Católico do Rio de Janeiro na década de 1900, na década seguinte parece ter havido um distanciamento entre elas, pois, em 1913, Plácido de Mello defendia a criação de uma liga agrícola católica. Ele se justificava dizendo que se a lei sindical era cristã, cristã haveria de ser a Liga dos lavradores296.
Nas propostas de organização de caixas rurais e bancos populares em São Paulo, não se observa nem a vinculação entre sindicato e cooperativa, característico do modelo francês, seguido pela Sociedade Nacional de Agricultura, tão pouco se observa uma forte tendência doutrinária.