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Concluding discussion

Effectiveness II: crime reduction

6. Concluding discussion

Depois de analisarmos as características e as fases dos escândalos mediáticos, talvez seja importante perceber que indivíduos e organizações particulares estão por detrás do escândalo, isto é, indivíduos e organizações que actuam em função de objectivos específicos e que fazem com que o escândalo se propague na esfera pública. Como os escândalos mediáticos não se limitam a acontecer, é importante incluir no conjunto de indivíduos cujas transgressões resultam num escândalo aqueles indivíduos que, mediante objectivos muito concretos, contribuem para a revelação de tais acções convertendo, assim, o escândalo num acontecimento público, num acontecimento visível.

Por conseguinte, existem muitas organizações que estão implicadas em, pelo menos, uma das fases que se refere ao desenvolvimento dos escândalos. As entidades policiais, por exemplo, desempenham um papel importante na investigação da base de evidências que pode indiciar a existência de transgressões. Tal como a esfera da justiça que, com os seus

375 «(…) no trial, no confession, no resignation, just a period of relative calm when the temp of

allegations and denunciations subsides, public interest wanes and the scandal gradually peters out».

Idem, p. 75.

procedimentos formais, que implicam a participação de magistrados, advogados ou juízes nas fases de audiência, está, muitas vezes, na origem de algumas filtrações a que os jornalistas têm acesso. Este é um tema ao qual devemos voltar nos próximos capítulos. Para já, é importante referir que, em alguns casos, e sobretudo no que diz respeito aos escândalos políticos, é previsível que as instituições político-partidárias, a par dos grupos de interesse que lhes são inerentes, procurem utilizar o escândalo como «arma política» no sentido de descredibilizar a imagem dos adversários políticos. No caso do escândalo Freeport, por exemplo, a investigação sobre alegadas suspeitas de corrupção e tráfico de influências aquando do licenciamento do centro comercial em Alcochete, em 2002 e numa altura em que José Sócrates era ministro do Ambiente, foi iniciada, em 2006, devido ao conteúdo de uma carta anónima que implicava directamente o secretário-geral do Partido Socialista. Porém, num despacho do mesmo ano sobre violação do segredo de justiça e violação de segredo de funcionário, ficou a saber-se que o «falso anonimato» visava proteger Augusto Boal, membro eleito pelo CSD-PP para a Assembleia Municipal de Alcochete. No despacho de 2006, pode ler- se que a ideia da carta anónima surgiu no contexto de encontros entre inspectores da PJ, jornalistas e figuras políticas ligadas ao PSD e ao CDS-PP. Segundo Inês Bonina, magistrada que assinou o despacho, nesses encontros participou Miguel Almeida, um deputado do PSD com fortes ligações ao principal opositor de Sócrates nas Legislativas desse ano, Pedro Santana Lopes. A magistrada chegou mesmo a admitir que Miguel Almeida tinha interesse em denegrir publicamente a imagem do candidato do PS, facto que levou alguns dirigentes do Partido Socialista a lamentar a instrumentalização política do caso num período pré-eleitoral.

Este é apenas um exemplo das relações perigosas que existem entre indivíduos da esfera política, jurídica e mediática, mormente porque a esfera mediática acaba por desempenhar um papel fulcral na disseminação das supostas transgressões que estão na base do escândalo. Deste modo, é possível identificar características das organizações mediáticas que ajudam a explicar o por quê dessas mesmas organizações desempenharem um importante papel na procura e na difusão de escândalos. John Thompson aponta quatro aspectos fundamentais: benefícios económicos; objectivos políticos; imagem profissional dos jornalistas; rivalidade entre jornalistas e entre empresas de comunicação. Segundo o autor, «juntos estes factores contribuem para gerar um clima no interior dos media que facilita – e inclusivamente, em alguns casos, estimula – a produção de escândalos mediáticos».377

Com efeito, para muitas organizações de comunicação mediatizada a capacidade de sobreviver num mercado cada vez mais competitivo depende, em grande medida, da capacidade de gerar receitas mediante a venda de produtos simbólicos. De resto, tal imperativo económico acompanha as empresas de comunicação praticamente desde o seu início. É, precisamente, neste sentido que se enquadra o aparecimento da imprensa sensacionalista, uma imprensa que procura captar a atenção dos leitores oferecendo produtos

377 «But together they help to create a climate within the media which facilitates – or even, in some

cases, actively encourages – the production of mediated scandals». Cf. John B. Thompson, Political

simbólicos específicos. Ora, vimos anteriormente que, com a massificação do consumo de bens produzidos pela imprensa, os jornais viram-se obrigados a atrair cada vez mais leitores, sobretudo porque a imprensa passou a operar tendo em conta a lógica de mercado. Por conseguinte, a procura de estórias que pudessem captar a atenção do leitor durante vários dias e, neste contexto, a publicação de acções de natureza escandalosa, adquiriu um certo valor comercial. Contudo, e apesar de no século XIX a rentabilidade económica ter assumido um importante papel na procura de escândalos mediáticos, actualmente os jornalistas e os directores dos jornais podem divulgar escândalos «sem terem os olhos fixos na caixa registadora».378 Se os objectivos financeiros que estão implícitos na estrutura dos media

podem motivar a procura de estórias coloridas que façam manchete nos jornais, não é menos verdade que a importância dos benefícios económicos é, muitas vezes, exagerada. Contudo, não pode deixar de se referir que a inclinação para a obtenção de benefícios económicos com a publicação de escândalos tem mais que ver com a estrutura das organizações de comunicação, e com as suas limitações financeiras, do que com as motivações dos próprios profissionais de comunicação. Por outro lado, o aparecimento de profissões semi-autónomas, como fotógrafos, jornalistas freelancers e paparazzis, levou ao crescimento de um mercado paralelo relacionado com a procura de escândalos mediáticos. 379

Por detrás do escândalo mediático podem estar, também, determinados indivíduos que se socorrem dos meios de comunicação para promover objectivos políticos. Neste ponto, vimos que a massificação da imprensa conduziu a uma despolitização generalizada dos media, especificamente no que diz respeito ao apoio financeiro dos partidos, mas isso não implica que as empresas de comunicação não assumam uma determinada postura no terreno político, nomeadamente porque é previsível que alguns indivíduos que possuem espaço nos media possam exercer, pelo seu prestígio e reconhecimento, influência nas próprias agendas mediáticas. Com efeito, as organizações políticas e os grupos de pressão que procurem servir- se do escândalo como arma política, especificamente no sentido de descredibilizar a imagem e o reconhecimento público dos seus opositores, podem conduzir o debate público para as alegadas transgressões que estão na base de um escândalo. De resto, com a proliferação das formas de comunicação mediatizada, de que a Internet é um bom exemplo, os actores políticos e os grupos de interesse vêem ampliada a capacidade para intervir na esfera pública. Este tipo de organizações pode realizar um conjunto de alegações públicas que são recolhidas pelos meios de comunicação e que, posteriormente, podem configurar alguns dos conteúdos das notícias.380

A imagem profissional dos jornalistas, os seus princípios deontológicos e a tendência natural para observar o poder são outros factores que podem contribuir para a eclosão de um escândalo mediático. Efectivamente, a ética jornalística que surgiu no século XIX apontava para a procura incessante de dois ideais: o relato fidedigno dos factos e a narração de

378 Idem, p. 79.

379 Ibidem. 380 Idem, p. 81.

estórias de interesse humano. De uma maneira geral, podemos dizer que a procura destes dois ideais acabou por moldar os hábitos práticos do jornalismo. Para os jornalistas que procuram estórias de interesse humano, o escândalo oferece entretidas aventuras secretas de reconhecidas personalidades públicas. De outro modo, para os jornalistas que procuram enfatizar a narração exacta dos factos, o escândalo oferece a possibilidade de o jornalista procurar «incessantemente», como é comum ouvir-se nas redacções, a verdade e nada mais que a verdade. Por conseguinte, o jornalismo de investigação configura-se, desde o século XIX, como um tipo de jornalismo que actua debaixo da superfície política, procurando desvelar dados ocultos, mas, ao mesmo tempo, como um tipo de jornalismo que ambiciona influir na agenda política e provocar uma resposta dos dirigentes políticos.

Por último, é importante incluir a rivalidade entre jornalistas e entre empresas de comunicação no conjunto de factores que podem ajudar a explicar os motivos que estão por detrás da eclosão de alguns escândalos. Os meios de comunicação estão inseridos num mercado cada vez mais competitivo e, como tal, as organizações mediáticas procuram obter uma determinada vantagem na venda de produtos simbólicos face a concorrentes que actuam no mesmo mercado. Como as notícias de ontem já não são, em absoluto, notícias, «news must be new»381, as empresas de comunicação lutam pelo «exclusivo», lutam por ser as

primeiras a avançar com a informação mais recente. Por outro lado, a competitividade existente entre os diferentes media produz aquilo que um autor como Pierre Bourdieu apelidou de «circulação circular da informação».382 Segundo Bourdieu, os media reflectem

uma certa homogeneidade na selecção dos acontecimentos que se convertem em notícia, sobretudo porque os jornalistas estão constantemente atentos às notícias dos jornais concorrentes: ninguém lê tantos jornais como os jornalistas. A produção é colectiva e, neste ponto, a concorrência homogeneíza. «Para fazer o programa do jornal televisivo do meio-dia, preciso de ter visto os títulos do das vinte horas da véspera e os diários da manhã, e para fazer os meus títulos do jornal da tarde preciso de ter lido os jornais da manhã. Faz parte das exigências tácitas da profissão».383

Com efeito, a «circulação circular da informação» produz um fenómeno de «amplificação mediática», o seja, um acontecimento que seja tornado notícia por um determinado jornal torna-se, facilmente, notícia em outros jornais ganhando, assim, mais visibilidade crescente no debate público. Por conseguinte, é normal que as mesmas estórias sejam descritas por diferentes jornais, que diferentes jornais utilizem as mesmas fotografias e recorram aos mesmos indivíduos para expressarem a sua opinião.384 Efectivamente, a

rivalidade entre as empresas mediáticas obriga os jornalistas a procurar cada vez mais informação e fazê-lo antes dos seus concorrentes. A luta por conseguir as melhores notícias pode activar ainda mais um escândalo que, por exemplo, se encontre em fase inicial. «Assim

381 Idem, p. 83.

382 Cf. Pierre Bourdieu, Sobre a Televisão, Oeiras, Celta Editora, 1997, pp. 16-23. 383 Idem, p. 19.

que comece a arder, o escândalo mediático pode converter-se, rapidamente, num incêndio incontrolável».385

Vimos que o escândalo mediático se refere, literalmente, a narrativas ou estórias que se desenvolvem nos media, narrativas que, muitas vezes, são criadas e amplificadas pelos próprios meios de comunicação. No sentido de atenuar as consequências que um escândalo mediático provoca na imagem dos indivíduos directamente envolvidos nas transgressões que, entretanto, se tornaram públicas e geraram um determinado grau de reprovação pública, é provável que tais indivíduos recorram a um conjunto de estratégias que visem minimizar as consequências de um escândalo. Neste ponto, é natural que os indivíduos que se encontrem no epicentro de um escândalo procurem descredibilizar a imprensa e os jornalistas que tornaram públicas as palavras ou as acções que deveriam permanecer em segredo. Assim que foi questionado acerca do seu alegado envolvimento no processo de aquisição de compra da TVI pela PT, José Sócrates não hesitou em lamentar a existência de um «jornalismo de buraco de fechadura, baseado em escutas telefónicas e em conversas privadas, que se faz com o objectivo de atacar pessoas».386 Como vemos, os escândalos mediáticos são janelas para o

mundo oculto que se encontra por detrás da cuidadosa apresentação pública dos actores políticos. E, quanto mais cuidadosa for a projecção dessa imagem e quanto mais prestígio e visibilidade tenham tais personalidades «públicas», maior será o interesse do «público» por uma estória que põe em causa a credibilidade e a reputação da imagem, entretanto, veiculada.

Através do escândalo mediático, podemos observar como as fronteiras que separam a esfera privada da esfera pública se diluem. Os aspectos da vida privada dos dirigentes políticos, aspectos que incluem actividades ou conversas privadas que se mantiveram num círculo fechado e restrito, são revelados e expostos na esfera pública sem que a sua protecção jurídica se cumpra. Em alguns casos, e como apenas conhecemos algumas filtrações do conteúdo e do contexto de tais acções, a vida privada dos dirigentes políticos é especulada, interpretada e comentada fora do seu contexto original. O «privado» é convertido num negócio e numa fonte de discussão pública que pretende desvelar os mais íntimos pormenores daquilo que sucedeu, e daquilo que deveria permanecer, entre portas fechadas. O lado oculto do poder, diríamos, talvez, intrinsecamente oculto, é desvelado por meios de comunicação que colocam o privado no âmbito público.

385 «Once ignited, a mediated scandal can quickly become an uncontrollable blaze». Idem, p. 84. 386 Declarações proferidas por José Sócrates no dia 6 de Fevereiro de 2010 quando questionado sobre as

notícias que davam conta de um suposto plano para controlar a estação de televisão TVI e condicionar a actuação do Presidente da República, Cavaco Silva.