1.3 Tools to understand oceanic circulation and variability
1.3.1 Concepts of water mass analysis
Adorno acreditava que a experiência estética da obra de arte é um processo ativo, na qual, porém, sujeito e objeto são ativos de forma diferenciada: o sujeito, de modo a buscar “recapitular a lógica interna da obra” (NICHOLSEN, 2009, p. 89); o objeto de arte, na medida em que não se encontra estático, isto é, pronto para ser simplesmente interpretado e, como tal, dominado. Interpretar a obra, no processo para entendê-la, significa comportar- se em relação a elas de forma mimética: a obra de arte “aguarda o comportamento mimético” diria Adorno (TE, p. 194).
Pelo efeito refratário, seus elementos não se assemelham a nada que lhe seja externo, portanto, as obras de arte “nada imitam a não ser a si
50 No seguinte trecho: “O espanto provocado por obras importantes não é utilizado como desencadeador
de emoções próprias, de outro modo recalcadas. Faz parte do instante em que o receptor se esquece e desaparece na obra: instante de profunda emoção” (TE, p. 368 / grifo nosso) No alemão original:
Betroffenheit durch bedeutende Werke benutzt diese nicht als Auslöser für eigene, sonst verdrängte Emotionen. Sie gehört dem Augenblick an, in denen der Rezipierende sich vergißt und im Werk verschwindet: dem von Erschütterung. (ADORNO, Ästhetische Theorie. In: Gesammelte Schriften.
93 mesmas”, por isso, “só pode compreendê-las quem as imita” (Ibidem, Idem) e não quem o busca por meio de semelhanças e identidades.
Daí que a arte não possa ser tomada como o sempre o mesmo, ao qual o sujeito pode passivamente apreender. Isto dá à arte o seu caráter enigmático. Dizer sobre as obras de arte que estas são enigmáticas, significa que o seu conteúdo de verdade está oculto, que a arte aparece como uma interrogação que exige resposta. Isto, pois ela parece dizer algo importante e profundo e que não se resolve, uma vez que o não-idêntico não assume caráter discursivo. O enigma surge do esforço da racionalidade em tentar articular aquilo que a arte diz – essencialmente mimético – em uma linguagem, por sua vez, essencialmente conceitual. Diz Adorno: “a imagem enigmática da arte é a configuração da mimese e da racionalidade” (Ibidem, p. 196). E mais adiante: “enquanto esforço mimético contra o interdito, a arte procura proporcionar a resposta e, no entanto, porque carece de juízo [Urteil], não a fornece; deste modo se torna enigmática” (Ibidem, p. 197). Não se trata, portanto, de algo que está meramente na composição da obra, mas do embate entre a racionalidade (especialmente a de tipo instrumental) e algo que não se deixa conceituar:
Quanto melhor se compreende uma obra de arte, tanto mais ela se revela segundo uma dimensão, tanto menos, porém, ela elucida o seu elemento enigmático constitutivo. Só se torna resplandecente na mais profunda experiência da arte. Se uma obra se abre inteiramente, atinge-se então a sua estrutura interrogativa e a reflexão torna-se obrigatória; em seguida, a obra afasta-se para, finalmente, assaltar uma segunda vez com o “que é isto?” aquele que estava seguro da questão (Ibidem, 188).
Assim, o enigma sobrevive a qualquer tentativa de interpretação racionalista51. Mas há algo deste aspecto que é mais importante e que não diz
51 Adorno pensa que a resolução do enigma das obras de arte é o que justifica a estética, uma vez que o
seu conteúdo de verdade não pode ser absorvido por “determinações racionalistas” (TE, p. 197). Vem daí também a dificuldade percebida em Adorno para o tratamento sobre o tema. Muitas vezes Adorno utiliza metáforas que vão formando uma constelação em torno do assunto, que podem até se assemelhar ao linguajar de filósofos metafísicos conhecidos pelo seu obscurantismo. Porém, no caso de Adorno, o que há é uma busca para tentar descrever a experiência estética que precisa encontrar semelhanças externas ao que ocorre no interior desta (que de maneira alguma podem ser tomadas de forma literal), uma vez que seria impossível fazê-lo de outra forma. Por isso também, não é possível encontrar provas e argumentos para comprovar suas teses: Adorno as toma como factuais e, portanto, passiveis de comprovação somente empírica; e esta só se pode dar na experiência estética – analogamente ao que ocorre com o Belo kantiano.
94 respeito somente ao ajuizamento estético, mas também ao tipo de experiência que a obra de arte causa.
Demonstramos acima o porquê, para Adorno, o juízo sobre a arte não é unitário, em função do não-idêntico, e que a arte é expressão do sofrimento, o que também se refere à violência que a obra de arte inflige ao sujeito na experiência estética.
As obras de arte têm o caráter de serem um ato, diz Adorno, isto é, são algo que aparece como momentâneo: de forma metafórica, são como fogos de
artifício, mediante o caráter efêmero que a arte também assume. Em suas
palavras:
O fenômeno do fogo de artifício (...) é prototípico para as obras de arte; (...) O fogo de artifício é apparition : aparição empírica liberta do peso da empiria, enquanto peso de duração, sinal celeste e produzido de uma só vez, Mené Teqél52, escrita fulgurante e fugidia,
que não se deixa ler no seu significado (Ibidem, p. 129).
Deste modo, a arte é recepcionada esteticamente como se fosse uma aparição, algo que está ali em um determinado momento e no instante seguinte não está: “perante a contemplação paciente, as obras de arte entram em movimento” (Ibidem, p.127). Isto se liga, claro, ao seu caráter enigmático: ao mesmo tempo em que a arte parece comunicar algo, esconde-o. A arte é, portanto, “aparição expressiva fulgurante” (Ibidem, p.129), ou seja, tal como o
belo natural, sua experiência envolve um mutismo, uma incômoda
incomunicabilidade: “no mundo administrado, a forma adequada em que são recebidas as obras de arte é a da comunicação do incomunicável, a emergência da consciência reificada” (Ibidem, p 297).
Todas essas características presentes nas obras de arte (caráter
enigmático, mimético, momentâneo, mutismo, expressão, entre outras) dão à
experiência estética da arte seu caráter de violência.
Pela suspensão da possibilidade ajuizamento através de um esquema de apreensão conceitual, a arte leva o sujeito à admiração, um sentimento de surpresa que não é mais possível, ou ao menos rotineiro perante objetos empíricos comuns. Como diz Adorno (na passagem que deixamos completa, pelo seu brilhantismo):
52 Segundo o índice de palavras não traduzidas da Teoria Estética de Adorno, a palavra é de origem
hebraica e significa “destino fatídico”. “Esta expressão é tirada do livro bíblico de Daniel, 5,25-28, onde se profetiza o fim do império de Baltazar” (TE, p. 546).
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Quanto mais compactamente os homens cobriam o que é diferente do espírito subjetivo com a rede das categorias, tanto mais profundamente se desabituaram da admiração perante esse outro53 e, com familiaridade crescente, se frustraram da estranheza. A arte, como que numa gesticulação bem depressa fatigada, procura, debilmente, reparar isso. Leva a priori os homens à admiração, como outrora Platão exigia da filosofia, que se decidiu pelo contrário (Ibidem, p. 195).
Isto nos leva diretamente à semelhança da experiência estética com a experiência do sublime.