A teoria de sistemas sociais será apresentada neste capítulo pelo viés da materialidade da comunicação. Parece possível apreender a sociedade contemporânea do ponto de vista da comunicação sem perder com isso a dimensão da materialidade dos processos comunicativos, mas também sem o recurso a uma base material exógena enraizada na esfera da produção, do trabalho ou dos interesses econômicos. A tarefa é identificar a
materialidade inerente à própria comunicação e, como tal, guiada por regras da
sociedade. Tal apresentação, contra-intuitiva, sugere algum “materialismo” em Luhmann que em geral não é percebido pela literatura especializada. Ao invés de principiarmos diretamente pelo conceito de autopoiese, apresentaremos uma via de acesso à teoria de sistemas sociais que destaca o substrato material da comunicação e sua importância para a diferenciação funcional de sistemas. Para tanto, abordaremos a materialidade da comunicação a fim de realçar um movimento de continuidade e ruptura com a tradição materialista: continuidade, por conta da revitalização do potencial crítico da teoria da sociedade permitida pela dimensão material da prática social; ruptura
porque essa dimensão material não está na esfera da produção, mas no elemento exterior da comunicação, na auto-referência objetiva que estrutura a comunicação da sociedade (seção I). O sentido, categoria fundamental da sociologia luhmanniana, somente pode ser bem compreendido tendo em conta o funcionamento dessa auto-referência objetiva (seção II). Por sua vez, a apresentação da diferenciação funcional de sistemas exigirá captar a teoria da comunicação de Luhmann ao longo dos processos de desenvolvimento da imprensa (seção III) e da institucionalização de generalizações simbólicas, abandonando-se o ato de fala como fundamento da interação (seção IV). Sobre essa base, será possível apresentar a diferenciação dos meios de comunicação simbolicamente generalizados como elemento catalisador da diferenciação funcional da sociedade (seção V). Finalmente, veremos como a diferenciação funcional da sociedade orienta o comportamento humano (seção VI).
I
Talvez uma das mais interessantes recepções da teoria de sistemas de Luhmann possa ser localizada no movimento teórico auto-intitulado “materialidade da comunicação”. Aliás, mais precisamente, o aporte para a leitura de Luhmann por esse viés parte de breves apontamentos de representantes desse movimento, deixados até hoje sem os desdobramentos possíveis. Com efeito, a indicação de um “movimento” parece exagerada para uma iniciativa de pesquisa que não logrou estabelecer uma nova corrente na teoria da comunicação ou na teoria social, tendo permanecido isolada, restrita a pesquisas especializadas e pouco difundidas na comunidade acadêmica internacional. O “movimento” se resume na verdade a um pequeno número de artigos publicados em decorrência de uma série de colóquios organizadas por Hans Ulrich Gumbrecht, professor de literatura na Universidade de Stanford e K. Ludwig Pfeiffer, professor de inglês e teoria literária na Universidade de Siegen, na Alemanha1.
1
Cf., e.g., Hans Ulrich Gumbrecht & K. Ludwig Pfeiffer (orgs.): Materialität der Kommunikation. Frankfurt: Suhrkamp, 1988; Schrift. München: Wilhelm Fink, 1993; e Materialities of Communication, trad. W. Whobrey. Stanford: Stanford University Press, 1994. Para a história dos colóquios, Gumbrecht, Diesseits der Hermeneutik. Die Produktion von Präsenz, trad. J. Schulte. Frankfurt: Suhrkamp, 2004, especialmente o capítulo “Materialität/Das Nichthermeneutische/Präsenz – Anedokten über epistemologische Verschiebungen”, ps. 17-37. A materialidade da comunicação parece ter estabelecido uma linha de pesquisa mais consistente somente no jornalismo e na teoria da comunicação – cf., e.g., a
Entende-se por materialidade da comunicação o deslocamento da análise do sentido para a prática social que o constitui, destacando-o das tradicionais formas hermenêuticas impregnadas pela filosofia do sujeito que assumiam o sentido como um dado da consciência – como intencionalidade, para falar com a fenomenologia – passando assim a inseri-lo nas condições sociais em que ele se permite constituir. Se é verdade que o problema da linguagem alcançou uma posição semelhante à ocupada pela consciência há cerca de dois séculos, seguindo o diagnóstico de Hans-Georg Gadamer2, a materialidade da comunicação cuida de substituir a apreensão do sentido pelo sujeito que interpreta o mundo (com recurso apenas à sua própria consciência) pela análise das condicionantes sociais da formação do sentido e dos portadores materiais do sentido. A materialidade da comunicação expressa assim o conjunto de elementos materiais que contribuem para a emergência do sentido, mas que não pertencem, eles mesmos, diretamente à esfera do sentido propriamente dito: o corpo humano, a consciência, o texto escrito, as novas tecnologias comunicativas e os meios de comunicação são os exemplos mais comuns – a materialidade da comunicação expressa por isso uma dimensão de exterioridade.
“Essa exterioridade, junto com o corpo humano (ou, mais precisamente: corpos humanos), é um ponto de referência central para o programa de pesquisa chamado "materialidades da comunicação". (...) [Pode-se descrever] "materialidades da comunicação" como a totalidade dos fenômenos que contribuem para a constituição do sentido sem serem, eles mesmos, o sentido”3.
Na origem, a corrente da materialidade da comunicação sustentava expressamente a pretensão de se manter fiel ao marxismo4. O progresso dos colóquios e das publicações, contudo, conduziu o movimento para uma perspectiva mais ampla de crítica das ciências humanas como “ciências do espírito” (Geisteswissenschaften) fundadas na tradição hermenêutica – isto é, na interpretação, investigação e atribuição de sentido por um sujeito ao objeto interpretado; tratava-se então de substituir a consciência hermenêutica pela análise da prática social que produz sentido objetivamente.
coletânea de Klaus Merten, Siegfried J. Schmidt & Siegfried Weischenberg (orgs.), Die Wirklichkeit der Medien. Eine Einführung in die Kommunikationswissenschaft. Opladen: Westdeutscher, 1994.
2
Hans-Georg Gadamer, “Die Universalität des Hermeneutischen Problems” in Kleine Schriften I [1967], 2ª ed. Tübingen: J. C. B. Mohr (Paul Siebeck), 1976, p. 101.
3
Gumbrecht, “A Farewell to Interpretation”, in Materialities of Communication, ps. 394-398 – gr. orig. 4
Mas se há uma afinidade entre a materialidade da comunicação e o materialismo histórico e se, não obstante essa afinidade, a materialidade da comunicação tem um sentido específico, qual a linha demarcatória entre um e outro? Qual a relação entre o materialismo e a materialidade da comunicação? E mais: se, com efeito, o materialismo histórico talvez não permitisse passar diretamente a Luhmann, como e por que a materialidade da comunicação permite alcançar nosso autor?
Não é possível nem útil para o argumento desta tese repassar a história do marxismo e de como o materialismo de Marx foi recepcionado no século XX em diferentes matizes5. Mas há que se mencionar pelo menos a teoria crítica da sociedade desenvolvida no Institut für Sozialforschung em Frankfurt, capitaneado por Horkheimer e Adorno; e, de outro lado, a semiótica textual do grupo Tel Quel, em Paris, nos anos 1960 e 1970, que contava com Jacques Derrida e Julia Kristeva, dentre outros. Enquanto a Escola de Frankfurt se organizou como teoria da sociedade no sentido dialético da crítica da economia política6, a semiótica textual – ou “semanálise”, para falar com Kristeva – orientou-se à análise da linguagem como trabalho, ao estudo da significância no texto que pretendia, com isso, renovar a crítica à ideologia e aos discursos estabelecidos7. A afinidade entre esses dois movimentos e a análise marxiana do fetichismo da mercadoria é evidente8.
O movimento de recuperação da dimensão material da comunicação foi motivado em resposta à “virada imaterial”, por assim dizer, experimentada pelos estudos culturais na França na década de 1980, originados por sua vez do estruturalismo dos anos 1960. Entre 28 de março e 15 de julho de 1985, o Centro Georges Pompidou, em Paris, apresentou uma instalação intitulada Les immatériaux, objeto do livro homônimo de Jean-François Lyotard. O projeto original, de 1983, cuidava de examinar “a matéria em todos os seus estados”, mas o resultado final da pesquisa trouxe significativa mudança
5
Basta, para tanto, fazer referência à erudita Vorlesung de Max Horkheimer, “Geschichte des Materialismus” [1957] in Gesammelte Schriften, v. 13. Frankfurt: Fischer Taschenbuch, 1989, ps. 397- 451; bem como a Perry Anderson, Considerações sobre o marxismo ocidental - Nas trilhas do materialismo histórico, trad. I. Tavares. São Paulo: Boitempo, 2004.
6
Horkheimer, “Traditionelle und kritische Theorie” in Zeitschrift für Sozialforschung 6, 1937, p. 261, nota 1.
7
Cf. Julia Kristeva, “Matière, sens, dialectique” in Tel Quel 44, 1971, ps. 27 e ss.; e Introdução à semanálise [1969], trad. L. H. F. Ferraz. São Paulo: Perspectiva, 1974.
8
Cf., nesse sentido, Karlheinz Barck, “Materialität, Materialismus, Performance” in Materialität der Kommunikation, p. 131.
de perspectiva com relação ao escopo inicial: a execução do projeto deixou claro que as novas tecnologias, especialmente as chamadas tecnologias da informação e da comunicação, representavam “materiais imateriais”, conduzindo o experimento da perspectiva da “materialidade” para a perspectiva da “imaterialidade” e, com isso, à crítica do materialismo, marxista inclusive. O ponto central, contudo, é que a crítica ao materialismo (de novo: marxista inclusive) não tem necessariamente de conduzir ao puro imaterial9.
É certo que a materialidade da comunicação não se apresenta como substituta do materialismo histórico – à luz de sua própria história, o materialismo traz consigo uma carga (política, ideológica, teórica etc.) da qual ele não pode se despir de um golpe, e foi para renovar a capacidade crítica permitida pela dimensão material da prática social que se desenvolveu o conceito de materialidade da comunicação10. Tratava-se de sustentar a possibilidade da crítica a partir da dimensão exterior ao sentido que, como tal, diz respeito às condições materiais de sua constituição. Por essa razão, ela pode parecer um programa teórico obsoleto. Mas, se não obsoleto, ou: ainda que obsoleto, a perspectiva da materialidade da comunicação é certamente uma aproximação improvável à teoria de sistemas de Luhmann. Contra a intuição e o senso comum (e, a rigor, contra o próprio Luhmann), a teoria de sistemas sociais permite o mais adequado tratamento da materialidade da comunicação. Luhmann, em seu livro sobre os meios de comunicação de massa, menciona a importância das materialidades da comunicação para esse sistema social específico precisamente para excluir tal dimensão de sua teoria da comunicação, sob o argumento de que a materialidade não pode ser comunicada11. Ora, mas é só por isso que ela condiciona a comunicação. A materialidade da comunicação não diz respeito apenas ao sistema social dos meios de comunicação de massa mas, em um nível mais geral, está relacionada à alteração da infra-estrutura social da comunicação em função da difusão da escrita e da imprensa e, por essa razão, determina a diferenciação funcional de sistemas – a despeito da rejeição expressa do próprio Luhmann.
9
Cf., nesse sentido, Pfeiffer, “The Materiality of Communication” in Materialities of Communication, ps. 1/2; e Barck, “Materialität, Materialismus, Performance”, ps. 121-129. Para a crítica dos estudos culturais na França, cf. Terry Eagleton, After Theory. New York: Basic Books, 2003.
10
Barck, “Materialität, Materialismus, Performance”, p. 128. 11
Para entender por que Luhmann oferece o melhor enquadramento para o desenvolvimento de uma teoria social que parte da materialidade da comunicação (e também para entender por que a escrita é crucial para a diferenciação funcional da sociedade), vale uma breve digressão que toca o primeiro Derrida.
A materialidade da comunicação está relacionada à exterioridade da linguagem, tal como concebida por Derrida em sua crítica ao fonocentrismo e ao logocentrismo. Na tradição ocidental, a fala subsume, como modelo comunicativo totalizante, todas as outras formas comunicativas, fazendo com que a escrita seja imaginada como derivada da fala (e o gesto, por exemplo, um rudimento da fala), tendo essa tradição alcançado sua forma mais radical na fenomenologia de Edmund Husserl. Em seu clássico ensaio A
voz e o fenômeno, Derrida faz uma crítica da metafísica com recurso à lingüística tendo
em mente o privilégio ininterrupto conferido à fala em detrimento da escrita, como se essa fosse apenas a reprodução gráfica daquela12. Essa é, com efeito, a apresentação da diferença entre fala e escrita na lingüística de Ferdinand de Saussure:
“Língua e escrita são dois sistemas distintos de signos; a única razão de ser do
segundo é representar o primeiro; o objeto lingüístico não se define pela
combinação da palavra escrita e da palavra falada; esta última, por si só, constitui
tal objeto”13.
O ponto de partida é o liame originário entre o logos e a phoné – que remonta aos primórdios da filosofia ocidental. Se, para Aristóteles, os sons emitidos pela voz são símbolos dos estados da alma, e se as palavras escritas são os símbolos das palavras faladas, tem-se uma irmandade originária entre a voz e a alma: a phoné tem um acesso privilegiado e imediato ao sentido produzido idealmente como logos14.
Husserl enfrenta o problema da intersubjetividade partindo da consciência individual orientada pela intuição, de forma que a redução ao monólogo é um pôr entre parênteses
12
Cf. Jacques Derrida, La voix et le phénomène [1967], 2ª ed. Paris: Quadrige/Presses Universitaires de France, 1998. Quanto à crítica de Derrida a Husserl, cf. Gumbrecht, “A Farewell to Interpretation”, p. 393 e ss.; e Habermas, Der philosophische Diskurs der Moderne. Frankfurt: Suhrkamp, 1985, ps. 191-218. 13
Ferdinand de Saussure, Curso de lingüística geral [1916], 27ª ed., trad. A. Chelini et alii. São Paulo: Cultrix, 2006, p. 34 – gr. acr.
14
Cf. Jacques Derrida, Gramatologia [1967], 2ª ed., trad. M. Chnaiderman & R. J. Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 2006, p. 13.
da existência empírica15. A fala, então, é o medium por meio do qual as consciências constroem a intersubjetividade: o falante se manifesta, emite um som associado a atos dotados de significado e o ouvinte compreende o sentido dessa fala. Seguindo a premissa kantiana da filosofia da consciência – a saber: compreendendo o significado idêntico a si mesmo como idealidade acessível à consciência pela subjetividade transcendental e nessa medida independente da esfera empírica – Husserl concebe um processo de auto-certificação da vivência atual que somente pode ser um processo auto-
referencial e subjetivo, enraizado na representação lingüística das palavras que
acompanham o pensamento silencioso como palavras imaginadas, tal como se fossem pronunciadas pela própria voz do sujeito desse pensamento. A redução fenomenológica do problema da intersubjetividade ao monólogo, a um expediente de “ouvir-se falar”, faz com que todo o sentido seja concebido em uma esfera de interioridade. Dessa maneira, a voz fenomenológica assegura a auto-afecção pura e independente de qualquer exterioridade, como se o sujeito dominasse perfeitamente o significante16. O falante, quando “se ouve” em pensamento, “efetua” três operações simultâneas: produz uma forma fonética, percebe que o significado dessa forma o afeta e entende a intenção de significado expressa nesse ato: “Essa propriedade explica não apenas o primado da palavra falada, mas também a sugestão de que o ser do inteligível seja a presença vivenciada sem corpo, por assim dizer; presentificada e certificada por meio da evidência imediata. Nessa medida, fonocentrismo e logocentrismo se irmanam um ao outro”17. A auto-certificação permitida pela fala é a base da tradição ocidental da filosofia do sujeito, pois fortalece o sujeito como senhor de um mundo de objetos ao estabelecer uma relação instrumental do sujeito com a linguagem18. O sentido se enraizaria exclusivamente no interior da subjetividade, como se adviesse de uma intuição originária não-significativa e como se não houvesse um entrelaçamento originariamente constitutivo entre a interioridade e a exterioridade na constituição do
15
La voix et le phénomène, p. 47. Cf., para uma apresentação geral da fenomenologia de Husserl, Jean- François Lyotard, A fenomenologia [1954], trad. A. Rodrigues. Lisboa: Edições 70, 1986.
16
Derrida, La voix et le phénomène, ps. 89/90. “Significante” entendido no sentido de Saussure, Curso de lingüística geral, p. 81.
17
Habermas, Der philosophische Diskurs der Moderne, p. 208. Cf. também Gumbrecht, “A Farewell to Interpretation”, p. 393.
18
sentido para a consciência19. O logocentrismo, ao se fixar na palavra falada, negligencia a exterioridade da linguagem ao fundar todo o sentido no interior da subjetividade20. A escrita fonética – a escrita reduzida à grafia do som da palavra (Wortlaut) – é co- originária com a metafísica desde que o logos passa a ser imante à voz, à palavra falada21. A afinidade originária entre a fonética e o logos não está relacionada à voz física, sonora, mas à voz fenomenológica que “continua a falar no silêncio”, a voz transcendental que permite a certeza (a percepção, a inteligibilidade) de si na ausência do mundo – e, em função disso, assegura a certeza da presença como consciência22. “Bem entendido, isto que se permite à voz é permitido à linguagem de palavras, uma linguagem constituída de unidades – que pudemos crer irredutíveis, indecomponíveis – fundindo o conceito significado "ao complexo fônico" significante”23.
Em síntese:
“Ora, a palavra (vox) já é uma unidade do sentido e do som, do conceito e da voz, ou, para falar mais rigorosamente a linguagem saussuriana, do significado e do significante”; “Em relação a esta unidade, a escritura seria sempre derivada, inesperada, particular, exterior, duplicando o significante: fonética”24.
O ponto central da crítica de Derrida é denunciar o engodo de uma metafísica da escritura fonética, considerando a impossibilidade de que o sentido seja constituído em uma instância interior pura – a instância da exterioridade é incontornável25. Nesse contexto, um dos méritos do pós-estruturalismo foi destacar justamente essa exterioridade e introduzi-la no cenário da formação do sentido:
19
Derrida, La voix et le phénomène, p. 67 e p. 97. 20
Para a exterioridade da linguagem em Derrida, cf. David Wellbery, “Die Äußerlichkeit der Schrift”, trad. K. Behnke, in Schrift, ps. 337-348.
21
Cf. Habermas, Der philosophische Diskurs der Moderne, ps. 193/194. Aqui vale uma referência a Heidegger, “Die Onto-Theo-Logische Verfassung der Metaphysik”, p. 66: “O mais difícil está na linguagem. Nossas linguagens ocidentais são de toda forma linguagens do pensamento metafísico”. 22
Derrida, La voix et le phénomène, ps. 15/16. 23
Idem, p. 16. 24
Gramatologia, ps. 38 e 36, respectivamente – gr. acr. 25
“E, obviamente, essa exterioridade, que está ela mesma em operação dentro da interioridade da expressão [Ausdruck] – em operação tão originariamente, que essa interioridade nunca é pura –: essa exterioridade, que obviamente não é mais simples exterioridade, chama-se inapropriadamente escrita”26.
Esse, o ponto central a ser apreendido de Derrida para os fins desta tese. Não obstante a importância da exterioridade da linguagem como crítica ao fonocentrismo, ela foi deixada em segundo plano com a seqüência das práticas de desconstrução pós- estruturalistas. Com efeito, o próprio Derrida evoluiu para uma perspectiva segundo a qual o pensamento não-logocêntrico finda por se enredar em uma cilada paradoxal ao dispor apenas da linguagem logocêntrica para se expressar – donde o nivelamento da diferença entre literatura e filosofia, pois os respiros para uma experiência textual não- logocêntrica somente poderiam ser oferecidos, se tanto, pelo texto literário. Por essa razão, a materialidade da comunicação se reporta ao primeiro Derrida, mas não se vincula à desconstrução do pós-estruturalismo maduro. A exterioridade da linguagem que nos interessa mais de perto diz respeito aos aspectos concretos, reais e materiais que têm lugar na construção do sentido nas práticas comunicativas, sem compartilhar a “virada literária” do pós-estruturalismo francês27.
Seguindo a crítica de Derrida ao logocentrismo fonocêntrico, reconhece-se a necessidade de considerar a dimensão da exterioridade na constituição do sentido. Para seguir na aproximação a Luhmann, a escrita deve ser entendida não apenas como exterioridade, mas sobretudo como poiese (pois a partir daí os processos objetivos e auto-referenciais de constituição do sentido emergirão como autopoiese). Se lembrarmos que as atividades humanas podem ser classificadas como theoria, praxis ou
poiesis, a materialidade da comunicação pretende explicitar que o acesso ao sentido não
ocorre por uma via hermenêutica – teórica, nesse sentido muito específico – ao contrário, o sentido é produzido pela prática social organizada sobre o substrato material da linguagem28.
26
Wellbery, “Die Äußerlichkeit der Schrift”, p. 342 – gr. acr. 27
Gumbrecht, “A Farewell to Interpretation”, ps. 395/396. Para essa virada, cf. Hans Hauge, “De la Grammatologie und die literarische Wende” in Gumbrecht & Pfeiffer, Schrift, 1993, ps. 319-336.
28
É por isso que a tarefa precípua da semanálise é “fazer da língua um trabalho”, captar o texto como produtividade, como a prática sobre o significante que ultrapassa a compreensão da escrita como mera descrição do existente – cf. Introdução à semanálise, ps. 10 e ss. A materialidade da linguagem em
Finda nossa digressão, é preciso chegar a Luhmann. Como visto, a exterioridade que Derrida mobiliza contra Husserl é chamada “inapropriadamente escrita”, mas tal dimensão exterior à constituição do sentido é mais “apropriadamente” expressa, por assim dizer, nos quadros da teoria de sistemas sociais, como a institucionalização da
prática social sobre o substrato material da comunicação; é pela constituição de
âmbitos simbólicos próprios, autonomizados pela prática social apoiada sobre o
substrato material da comunicação que se passa à diferenciação funcional de sistemas.
A materialidade da comunicação explicita a exterioridade da linguagem no conjunto de substratos materiais da comunicação que, como tais, permitem e condicionam a emergência do sentido sem se confundirem com ele próprio. O que Luhmann entende por sentido ficará claro mais adiante, basta por enquanto que não se apreenda a produção de sentido como a compreensão do sentido de uma palavra, como a atividade intelectiva de um sujeito hermeneuta. Essa exterioridade permite romper com uma premissa fundante das ciências humanas conforme a qual o acesso ao sentido é ato fundamental de um sujeito; como se o sentido fosse engendrado pela consciência subjetiva individual e como se, em sociedade, se tratasse apenas de transmiti-lo como