Jane Austen (1775-1817) nasceu em Steventon, Inglaterra. Assim como Defoe, Richardson e Fielding, seus escritos deram ao romance inglês o primeiro impulso para a modernidade. Com aguda percepção psicológica e um estilo de ironia sutil abordava o cotidiano de pessoas comuns. Descreve, assim, o que vê e conhece: as tentativas de ascensão na escala social, o valor das pessoas determinado pela sua renda anual, o grau de ignorância dos falsos nobres, a maldade das pessoas boas e, mais que tudo, a luta das mulheres para se casarem, única porta de saída para a modificação (ainda que precária) de seu de animal doméstico. “É o mundo das casas dos nobres e abastados da província, cuja vida rotineira segue indiferente às convulsões sociais que agitam a Inglaterra” (CEVASCO, 1999, p.52).
No que se refere ao seu estilo de aguda percepção psicológica38, ao criar personagens reais, com vícios e virtudes, revela sempre uma ironia dissimulada pela leveza da narrativa, que possui um tom irônico e na qual os sentimentos são contidos. Isto se deve a sua profunda sensibilidade literária, já que trata com ironia aquilo que não pode ser confundido com o real, mas que nos faz pensá-lo como tal. O que segundo Colasante (2005) se confunde com a paródia, dado o propósito da autora em estabelecer um distanciamento entre a vida real e a criação literária:
Sendo o romance um gênero com raízes nas realidades do tempo histórico e do espaço geográfico, mas que ao mesmo tempo tem sua realidade apenas dentro da própria narrativa, a paródia tem o poder de ressaltar a literariedade do texto, já que, através dela, haverá um outro texto contra o qual a obra deverá ser simultaneamente medida e entendida. Nesse contexto, a ironia, um de seus elementos essenciais, é um mecanismo retórico primordial para despertar a consciência do leitor para o mundo ficcional, permitindo que ele avalie e interprete a obra, e o comentário narrativo torna- se fundamental para esse processo, já que ele pressupõe um distanciamento crítico entre o texto parodiado e a nova obra que o incorpora, invertendo-a ou negando-a precisamente através do tom irônico. Deve-se ressaltar, porém, que tal procedimento exige do leitor que ele consiga identificar alusões ou citações. Caso contrário, ele limitar-se-á a naturalizá-las, adaptando-as ao contexto da obra, o que eliminaria uma parte significativa tanto da forma como do conteúdo do texto. Desse modo, para que o texto paródico seja
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Conforme afirma Watt, Jane Austen teria conseguido unir a proximidade psicológica de Richardson e Defoe à análise irônica e distanciada empregada por Fielding, conseguindo conjugar numa “unidade harmoniosa as vantagens do realismo de apresentação e as do realismo de avaliação, das abordagens interior e exterior da personagem” (1996, p. 158).
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identificado como tal, é necessário fazer coincidir sua elaboração com seu reconhecimento ou interpretação (COLASANTE, 2005, p. 31).
Ao mesmo tempo, preconiza um tipo de romance que busca observar o seu tempo presente, o seu país, a sua observação do comportamento social de famílias pertencentes à aristocracia agrária. E a forma escolhida pela autora dá a ela a capacidade de criar imagens poderosas para transmitir suas idéias e orientar a reflexão do leitor. Para isso faz uso do discurso , técnica ideal para dar forma ao conteúdo das contradições e filigranas presentes no itinerário social de suas heroínas, deixando assim, um espaço livre à voz individual (e um espaço % = conforme as personagens e as circunstâncias: exatamente como sucede às pessoas de carne e osso no curso de sua socialização), mas ao mesmo tempo mistura e subordina a expressão individual ao tom abstrato e suprapessoal do narrador (Moretti, 2003). Jane Austen pode, assim, nos ajudar a compreender como estão refratadas no texto de ficção suas projeções como mulher, bem como alguns elementos da ideologia e cultura da sociedade burguesa que lhe era coetânea, a partir da qual ela compõe suas personagens.
Em parte a razão para isto está no fato de que sua obra se confunde com o período britânico da Regência de Jorge IV como Príncipe de Gales, durante a enfermidade de seu pai, Jorge III, e constitui uma ponte entre o período georgiano e o vitoriano. Este cenário permitiu-lhe descrever com precisão a sociedade rural georgiana que estava em vias de desaparecer e não tanto as mudanças sofridas com a chegada da modernidade. Isto se dá em razão de dois fatores externos fundamentais: por um lado, a revolução agrária, que constitui o começo da revolução industrial, e suas importantes repercussões sociais; por outro lado, o colonialismo, as Guerras Napoleônicas e a extensão do Império Britânico39.
A era georgiana caracterizou-se pelas mudanças sociais no aspecto político. Foi a época das campanhas para a abolição da escravatura, da reforma das prisões e das críticas à ausência de uma justiça social. Foi também a época em que os intelectuais começaram a defender políticas de bem-estar social, e se construíram orfanatos, hospitais e escolas dominicais. Na literatura também exerceu influência, que se manifesta pelo ressurgimento do romance e pela discussão se esse era realmente um gênero literário e de qualidade.
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Contudo, o que se pode estranhar no texto de Jane é ausência de referências as estas mesmas revoluções. A conclusão a que se pode chegar é que ela driblou o discurso oficial, evidenciando como esta se deu na vida íntima das pessoas.
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De acordo com Ian Watt (1996), em seu ensaio 8 " 3 , onde discute a ascensão do romance, está intrinsecamente enlaçado com o florescimento da classe burguesa, que, diferentemente da nobreza, não havia sido educada com os clássicos, não conhecia o latim, nem o grego, e tampouco compartilhava o interesse pelos temas das literaturas clássicas.
Hoje se reconhece que mais da metade dos autores desta época eram mulheres que, através da escrita, conseguiam certa independência econômica. Não obstante, a qualidade da maioria dessas obras deixava a desejar, pois era repleta de tópicos e clichês de linguagem e de personagens, herança da literatura gótica. No caso de Austen, que defendia um estilo mais erudito, tomou o romance como gênero de qualidade.
Durante a época de Jane Austen não existia um sistema de educação propriamente dito, e a educação das crianças era feita nas escolas dominicais, ou, no caso das famílias mais abastadas, através de tutores. Por outro lado, existiam algumas “escolas para damas”, que tinham má reputação, pois ofereciam uma educação deficiente. Também era comum mandar os filhos homens para viver na casa de um tutor, como o era o pai de Jane Austen. Crescendo nessa casa, pode-se supor que a autora foi uma mulher bastante instruída para seu tempo.
O tratado de educação mais relevante para a época era o de Rousseau, que tem suas bases no Iluminismo. A influência do Iluminismo fez com que se começasse a criar um sistema educativo fundamentado na razão. Sem dúvida, tanto em Rousseau, como em muitos outros pensadores do Iluminismo, a mulher estava excluída dessa necessidade educativa. Como exemplo, em se faz referência à educação da mulher através da sugestão para Sofía, a mulher destinada a casar-se com Emilio: a mulher deve ser educada para cumprir suas funções de esposa e mãe, e obedecer a seu marido. Sendo assim, não é de se estranhar que os manuais de casamento citados anteriormente tenham se popularizado no século XVIII, ensinando doutrinas morais e enfocando a educação em aspectos domésticos, religião e “talentos”, e separando-as de outros conhecimentos, que a tornariam pouco desejável aos olhos masculinos. Há muitas passagens na obra de Jane Austen dedicadas aos “talentos”, porém se há algo que todas as obras têm em comum é que nenhuma de suas heroínas está muito interessada neles. Por talentos, então, se pode entender as diferentes habilidades que uma mulher que busca marido deve cultivar para atrair a atenção dele. Acerca disso em Orgulho e Preconceito nossa autora escreve o seguinte:
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“Fico impressionado”, disse Bingley, “com a paciência que têm as jovens para se tornarem tão prendadas”. […] “Todas elas pintam mesas, forram biombos e tecem bolsas. Não conheço nenhuma que não saiba fazer tudo isso e tenho certeza de que nunca ouvi uma moça ser mencionada pela primeira vez sem ser informado de que era muito prendada”. (…) “Uma mulher deve ter um amplo conhecimento de música, canto, desenho, dança, e línguas modernas para merecer essa palavra (talentosa); e, aparte de tudo isso, deve haver algo em seu ar e em sua maneira de andar, no tom de sua voz, em sua forma de relacionar-se com as pessoas, e em sua expressão que, se não for assim, não merecerá completamente a palavra” (AUSTEN, 2010b, p. 54)
Assim, Austen advoga, em seus romances, por uma educação liberal para a mulher, independente de todos esses “talentos”, que funcionavam como marcadores de seletividade, e que ajudavam na definição de que esposa escolher para casar. Suas heroínas não são, portanto, instruídas por governantas, nem tampouco são exímias desenhistas ou sabem tocar instrumentos musicais.
Em seu célebre estudo sobre a obra de Jane Austen, Butler (1990) defende que há dois padrões de heroínas presentes nos romances da autora: “a heroína que está certa e a heroína que está errada” (Butler, 1990, p. 166). Butler argumenta que as heroínas
que estão certas – Elinor, em (2008), Fanny Price, em $ "
H (2010) e Anne Eliot, em 5 (‘Persuasão’ [2009]) – agem em nome de uma
ortodoxia conservadora e advogam princípios, deveres e o sacrifício de suas próprias vontades em nome do bem estar de outros. Já as heroínas que estão erradas atingem esse nível de compreensão da verdade num momento mais tardio da narrativa. Partindo de um erro intelectual, que poderia ser motivado por imaturidade – como no caso de
Catherine, em 3 <N Emma, em (2010); ou Elizabeth, em
(2010) – as heroínas descobrem suas “falhas” pouco antes do desfecho do romance, e um dos grandes momentos desse tipo de enredo é a auto-descoberta, seguida de uma decisão de, no futuro, seguir a razão. Com isso ela tentar passar a mensagem de que a racionalidade e o desenvolvimento estão ligados a métodos tradicionais de educação.
Dentre as diversas obras da escritora, três, em particular, tornam-se objeto de estudo aqui, devido à representatividade das mesmas na produção literária da escritora e
sua relação com a proposta do projeto. Numa delas, , referência
em minha análise, é relatado como o amor dos protagonistas é forte o bastante para superar barreiras de orgulho e preconceito, da diferença social entre eles e do escasso poder de decisão concedido à mulher na sociedade da época, sobretudo no que se refere à margem de liberdade que apóie, fazendo valer, sua própria escolha afetiva. Nesta obra,
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o diálogo predomina, refletindo a criatividade e a habilidade de captação psicológica da escritora. A temática feminina é polêmica por ser discutida no perigoso terreno da ambigüidade entre desejos femininos de ascensão social (racionalidade) e de amor (afetividade) que se entrelaçam nos dilemas familiares40.
Na convergência entre os enredos de tão diferentes romances é possível notar que a autora não tem como objetivo discutir a educação formal de modo geral. Seu olhar está, de fato, voltado para o papel desempenhado pela família e pelas regras de conduta social na formação do caráter, da moral, do bom senso e, principalmente, da racionalidade da mulher. Conjugados a isto está sua ambivalência no tocante á relação entre razão e afetividade, que no decorrer dos textos colocam os personagens em contradição consigo mesmos e com os arquétipos de racionalidade de sua época.