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A literatura que trata do amor aparece-nos como o lugar privilegiado em que o sentido se constitui e se destrói, eclipsa-se quando se poderia pensar que se renova. É esse o efeito da metáfora. Da mesma forma, a experiência literária revela-se como uma experiência essencialmente amorosa, capaz de desestabilizar o mesmo na sua identificação com o outro. Rival neste aspecto da teologia que, no mesmo terreno, consolidou o amor como fé, subjugando assim pelo absoluto o momento crítico que o amor comporta, a literatura é hoje a um só tempo fonte de renovação “mística” (na medida em que cria novos espaços amorosos) e negação intrínseca da teologia, na medida em que a única fé que a literatura veicula é garantida, quão dolorosa no entanto, de sua própria performance como autoridade suprema (KRISTEVA, 1988).

De acordo com Viveiros de Castro e Araújo (1977) o amor é uma noção que designa, na linguagem corrente, uma modalidade de “afeto”, ou “sentimento”, mas também é um processo, e não meramente o produto de uma experiência.

Segundo Almeida e Oliveira

[...] o ser humano vive, geralmente, num estado de incompletude, condição esta que, como regra, seria encontrada através do acréscimo do que lhe é exterior. E o mais comum é sentir que essa plenitude idealizada será alcançada através da união com uma outra pessoa, detentora de tudo aquilo que o ser humano julga não possuir em si mesmo. A expectativa desse encontro, aproximação e enlace amoroso motiva muitas pessoas a procurar parceiros para um relacionamento” (2007, p. 133).

Em Vasconcellos (1997), a procura da “alma gêmea” atende tanto às necessidades próprias, como as exigências sociais. Enquanto isso, para Solomon (1992), o amor é um processo emocional que deriva de um conjunto de idéias que são influenciadas pela sociedade e pelo contexto histórico-social nos quais se insere.

Com base no pensamento desses autores é possível formular, portanto, que o modelo cultural de emoção descrito como “paixão amorosa” representa um padrão que possibilita aos indivíduos interpretarem e ordenarem as experiências pelas quais eles passam. Como todo esquema emocional, este também representa não apenas um modelo

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de sentimento, mas igualmente um modelo de comportamento para aqueles envolvidos em seu meio social (RÖTTGER-RÖSSLER, 2008, p. 197). Designaria, também, determinadas relações sociais. Em síntese, relações sociais em que predominaria o componente afetivo ou emocional, o qual, por sua vez, estaria associado à idéia de escolha, de opção individual (VIVEIROS DE CASTRO e ARAÚJO, 1977, p. 132).

Para a família nuclear apareceria como um substituto ao controle que as famílias tradicionais exerciam sobre os cônjuges devido aos laços de parentesco, funcionando atualmente como a garantia de estabilidade que os laços de parentesco dissolviam antes. Ou seja, surge em circunstâncias nas quais a família se constitui em unidades distintas das unidades econômicas que eram (D’INCAO, 1996, p. 67).

De acordo com Carabaña (1983) a discussão sobre o amor romântico emerge dos estudos voltados para entender as rupturas que ele provocou nas estruturas das sociedades pautadas em parentescos tradicionais, na quais os critérios de eleição de cônjuge eram essencialmente endogâmicos. Ao mesmo tempo, na medida em que se converteu na base do matrimonio, caracterizou-se como quadro de referência para, segundo MacFarlane (1990), destacar a emergência da atração e afetividade antes do casamento.

Estes autores apresentam, pois, evidências que estão na base do pensamento parsoniano. Para Parsons a proeminência do romantismo em nossa cultura é acompanhada de três outras modificações na estrutura social:

[...] (a) a cultura juvenil liberta o indivíduo da família, permitindo assim que ele se apaixone; (b) o amor é um substituto para o bloqueio dos papéis do parentesco encontrados em outras sociedades, e, portanto, motiva o indivíduo a se conformar com bom comportamento conjugal; e (c) o isolamento estrutural da família liberta o casal para inclinações afetivas que permitem amarem-se um ao outro (1949, pp. 187-189, tradução nossa).

Tal sistematização nos permite chegar à conclusão de que a representação da escolha como afetiva e casual, derivada do amor romântico, é cúmplice da prática homogâmica, pois a escolha recai de modo sistemático sobre alguém que ocupa uma posição similar (ou equivalente) no espaço social. Dado o fato da inculcação do

— que começa desde logo no seio da família — se processar a um nível inconsciente e das suas disposições se naturalizarem, não constitui obstáculo que, do ponto de vista das representações e aos olhos dos seus protagonistas, essa escolha resulte da cumplicidade proporcionada pelo afeto. Aliás, o idioma do afeto constitui a linguagem legítima

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adequada à descrição do casal moderno, o que nos leva pontualmente a crítica de Duarte (2004) a o romance, onde afirma que a experiência do mundo objetivo

[...] implica a recusa de uma objetividade externa absoluta do processo de conhecimento ou da prática científica, em nome de uma consideração constante dos processos subjetivos em jogo na relação com o mundo exterior (2004, p. 11)

Para este autor o romantismo, além de representar uma ruptura, em termos de uma crítica ao universalismo em nome da singularidade, da intensidade e da experiência, é o contraponto de uma dinâmica que o ultrapassa e determina. Ele encarna, nos mesmos termos do modelo de Louis Dumont (1993), as dimensões hierárquicas e holistas do pensamento humano.

Neste sentido, a própria antropologia pode ser considerada herdeira de dimensões essenciais do amor, retratadas pelo romantismo. Por exemplo, o conceito boasiano de culturas é claramente herdeiro da noção de totalidade/unidade cultural prevalecente no romantismo desde Herder (1997 [1774]) aplicado ao conjunto ampliado das experiências humanas e não apenas aos fatos da civilização. A luta de Boas contra os reducionismos fisicalistas e racialistas que caracterizavam a academia ocidental de finais do século XIX pode ser também vista como afirmação da qualificação superior do espírito, como pedra de toque dos fenômenos culturais (DUARTE, 2004, p. 15).

Importante notar que a dimensão alcançada pelo romance no contexto em que emerge a antropologia aponta na direção de uma reflexão sobre o momento em que se dá o surgimento de um novo modelo de comportamento, menos homogeneizante e mais voltado para um questionamento do indivíduo enquanto sujeito no/do mundo. Esta mudança, como indicado no capítulo 1, revela uma nova trama na composição do cenário social moderno: a valorização do sentimento de liberdade. Significa dizer, portanto, que os efeitos desse ingrediente na composição dos sentimentos modernos contribuiu para o aparecimento de uma " & K?, ou seja, para uma nova forma de manifestação do sujeito frente às transformações pelas quais passa a sociedade.

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Empresto o uso do termo " & dos trabalhos de Chomsky, sem necessariamente afirmar que ele o utiliza no sentido que vou atribuir aqui. Para Chomsky (1980) ' L5 , enquanto capacidade mental que implica num conhecimento sistemático demanda o treinamento do sistema verbal, para que o desempenho expressional seja aperfeiçoado e convincente. Assim, nas suas pesquisas o que se destaca é a relação entre competência e desempenho, tendo em conta a variação linguística original dos sujeitos. O mesmo se dá no âmbito da performance individual, em que se faz uso de um conjunto de atitudes e ferramentas da personalidade individual para se convencer alguém de que se é (ou que se quer ser) interessante, logo passível de um relacionamento afetivo.

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Não podemos esquecer que o romantismo, ao eclodir num universo tomado pelas revoluções burguesas, se desenvolve junto com o mercado de literatura de ficção, formado principalmente por mulheres das novas classes em ascensão. Colin Campbell (2001) associa o desenvolvimento do romance moderno, cujo auge se deu entre 1790 e 1830, à ascensão dessa nova classe ao poder, e ao conjunto de valores emanados do interior de suas relações sociais, com destaque para o amor romântico, e sugere, através da análise de estudo sobre a oposição popular à novela inglesa, “que o amor no romance e o amor na vida real estavam estreitamente ligados” (CAMPBELL, 2001, p.44).

Verifica-se, pois, que o sentido do texto romântico no contexto das transformações sociais e políticas privilegia as novas classes com uma nova forma de manifestação de si no interior de uma sociedade em transformação. Não esquecendo que tal gênero passa a ser financiado e lido por uma classe emergente, sua composição e conteúdo chamam atenção do público para a realidade que o absorve na conjuntura dos novos acontecimentos, das revoluções invisíveis do pensamento, do comportamento, do sentimento.

O que é com efeito inesquecível no romance não é o ‘fato inaudito’ da revolução, mas o seu oposto: o refluir das águas, o retorno dos velhos lugares-comuns, dos egoísmos mesquinhos, das fantasias sem força e sem alcance (MORETTI, 2003, p. 14).

Sua linguagem é íntima e persuasiva, e procura, através disto, convencer o cidadão comum de sua importância enquanto ser sentimental. Para isso o poeta, como nos lembra Antonio Cândido (1989), não atua, como poderia parecer à primeira vista, transpondo os elementos observados na realidade, mas, especificamente, elaborando a referida estrutura, onde eles adquirem sentido, aproximando-se e aproximando-nos de uma . Isto significa, conforme o mesmo autor, que o poeta não encontra enredos prontos, mas precisa inventá-los a partir de fontes diversas, que podem ser a tradição, a mitologia, a história ou a pura imaginação, desde que aproximem o leitor de algo que lhe seja sensível ao pensamento.

A isto Moretti (2003) denomina . Para ele o enchimento torna o romance uma “paixão calma”, um sintoma e um aspecto da “racionalização” weberiana da existência moderna:

[...] um processo que se inicia nas esferas da economia e da administração, mas depois se transpõe e invade os âmbitos do tempo livre e da vida privada, do divertimento e do sentimento [...] Em suma, o enchimento é uma tentativa de e desencantar o

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universo narrativo: poucas surpresas, ainda menos aventuras e nada de milagres (MORETTI, 2003, p. 16) [grifo nosso].

Segundo Antonio Cândido (1989) seria como misturar açúcar num remédio amargo, mas necessário, ou pintar de ouro uma pílula de gosto repelente, para levar as crianças a ingeri-los em seu próprio benefício.

[...] a verdade crua e por vezes dura pode ser disfarçada com os encantos da fantasia, para chegar melhor aos espíritos [...] assim como o médico doura a pílula ou esconde a lanceta na esponja, o romancista enrola a verdade na fantasia; e nos dois casos o engano é para o nosso bem. Por outras palavras, a mentira pode ser às vezes um auxiliar da verdade, e isto a justifica (CÂNDIDO, 1989, p. 51-61).

A pergunta que nos incomodaria a este ponto seria: se a literatura é ficção até que ponto nos ajuda a entender a realidade? Ou melhor, em que medida um texto literário nos ajuda a compreender o comportamento subjetivo dos interlocutores de minha pesquisa?

Particularmente, em se tratando deste trabalho, não vou lançar sentenças que indiquem ao leitor a existência de demarcações objetivas acerca do que é a literatura e do que é a realidade. A linha entre elas é tênue. Minha proposta é entender ambas como discurso, e como tal, representações que orientam práticas. Isto porque a ficção, normalmente confundida com imaginação, induz o leitor/espectador a pensar fatos não reais, embora se aproprie deles para pensar a realidade dos fatos e sensações que vive. Portanto, a ficção não é uma realidade, mas conduz-nos a um disfarce acessório para chegar até ela. Daí duas conseqüências, segundo Antonio Candido: 1) o elemento central de um romance deve ser fatos reais, acontecidos; 2) o elemento inventado se justifica para torná-los mais atraentes e ressaltar neles a verdade. Assim, o disfarce não altera a natureza do real, preserva-o, “funcionando como as máscaras usadas nas festas pelas senhoras que conhecemos” (CÂNDIDO, 1989, p. 90).

De todo modo, se há romances e se eles chegam ao nosso tempo enfeitiçando ou alimentando nossos sonhos e imaginação, é por que conseguiram incorporar, absorver e conseqüentemente interpretar o contexto social e afetivo de personagens reais, demonstrando haver intensa compatibilidade e correspondência entre o que sentimos e o imaginário social (e pessoal) do autor desses sentimentos. Essa característica permite ao romance moderno, em especial aos que trabalharei aqui (mas extensivo a qualquer um outro do gênero), uma performance de expressões e reflexões capazes de estreitar a distancia do tempo e do espaço que os separam do público atual,

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mas sobretudo, de aproximar a imaginação afetiva e sentimental dos seus leitores de agora com as práticas e representações de uma classe determinada de produtores de sentimento, inequivocadamente representadas por membros da burguesia em ascensão.

Sua função, portanto é mais pedagógica que lúdica, uma vez que os indivíduos incorporam, pela leitura e racionalização, múltiplos códigos (de saberes, valores, estilos, condutas, práticas, representações) para, através deles, desempenharem uma performance expressional que lhes favoreça um (ou vários) relacionamentos afetivos, abrindo precedente, assim, para uma conduta que o torne alvo de uma possível escolha conjugal.

Para elucidar o que afirmo me reportarei a minha própria experiência com a leitura de romances. Não obstante tenha lido vários textos vi a necessidade de refinar minha seleção destacando os que mais me chamaram a atenção, com ênfase naqueles cuja escolha do parceiro conjugal é o objeto de reflexão do autor. Embora, a principio, despretensiosa, essa metodologia revelou-se bastante útil no que se refere à análise do objeto da pesquisa, facilitando meu acesso a um conjunto de variáveis que me permitiu elencar textos que tipificam a escolha enquanto um dado objetivo. E tudo isso para explicar o porquê de eu ter escolhido a obra de Jane Austen para relacionar ao que encontrei em meu campo de análise. Dentre as obras que li, considero que esta autora é a que melhor retrata – pelo conteúdo e forma de exposição – o contexto das transações matrimoniais em um momento de profundas transformações no cenário social moderno: industrialização, perda de prestígio e poder do clero e nobreza agrária, aparecimento do individualismo como categoria de pensamento do self, e que pode ser expressa pelo contínuo abandono dos padrões de arranjos conjugais pré-determinados, etc. Farei

referência, exclusivamente a três de suas obras: ,

e , enfatizando que todas elas me permitem demonstrar a tensão entre razão e sentimento, e ao mesmo tempo servem-me de ponte e inspiração para, posteriormente, identificar nessas abordagens as conexões com as práticas dos noivos entrevistados no decorrer de sua experiência pré-conjugal.