2.7 R ESEARCH METHODS
2.7.1 Computational methods
Quem eram os nacionais? Como estavam organizados no período proximamente anterior à chegada dos imigrantes? Que regime de poder articulavam na região? Que disposições predominantes podemos identificar? Todas essas questões são de fundamental importância pois a revolta dos imigrantes em 1923 vai acontecer no bojo da luta entre grupos nacionais pelo poder político da cidade de Orleans. Por isso uma compreensão das características do grupo nacional permite estabelecer elementos do conjunto de forças que se articulavam naquele espaço. Elementos importantes já foram sugeridos na análise da produção do espaço. Dirijamo-nos agora para a formação étnica.
Não há estudo específico que estabeleça uma relação entre a cultura do grupo nacional e as relações de poder que se estabeleceram no sul catarinense no vale do Rio Tubarão no período anterior à imigração. A análise dos documentos, principalmente dos relatórios produzidos pelas comissões que vieram analisar a região para a ereção da Colônia Grão Pará, bem como as pesquisas orais publicadas, nos oferecem elementos que permitem criar um panorama geral sem precisar voltar demais no tempo, até porque, a baixa densidade demográfica associada a uma economia de subsistência, não criou uma sociedade demasiadamente estratificada onde as relações de poder pudessem ser prevalentemente compreendidas a partir do substrato econômico.
Estamos num contexto espacial onde os elementos de socialização pouco modificaram-se pelas poucas trocas culturais. Além do que, a população é extremamente escassa em relação à área habitada. A região do Vale do Rio Tubarão é tão pouco povoada que é usada por foragidos da Lei.
Em abril de 1862 fixaram-se no local onde hoje se encontra a cidade de Braço do Norte292 diversos moradores. Vieram do Desterro, chefiados pelo indigitado Tomás Pinto, que havia cometido um homicídio e por isto fugia à ação da justiça. Acompanharam-nos José Marcolino da Rosa, Manoel Nazário Correia, Leandro Demétrio e suas famílias. Em meio ao sertão julgaram-se ao abrigo do poder judiciário.293
292 Vila que se tornou a sede de uma próspera colônia espontânea de imigrantes alemães. Essa
colônia ficava a leste da colônia Grão Pará. Conferir mapas em anexo.
No Relatório Leslie de 1881 encontramos também indicações sobre os primeiros moradores da região. Ao fazer referência a um dos primeiros núcleos coloniais da região do vale do Rio Tubarão, assim relata sobre o surgimento da localidade chamada de “Guerrilha”:294
Guerrilha deve seu nome a um homem que teve esse sobrenome. Duvidoso se era paulista ou paranaense. Foi assassinado em casa pelos anos de 46(1846) a 49. Refugiado de Lages no tempo da Revolução de 39(1839). Tendo entrado em 38 Loureiro com a força legal, José Mariano, Guerrilha, fugiu com os rebeldes.295
Portanto, poucas décadas antes da chegada dos imigrantes, a região em que vai nascer a Colônia Grão Pará havia se tornado um refúgio de pessoas que fugiam da justiça por causa de crimes cometidos. Outros, aí se refugiavam por causa dos movimentos revolucionários que assolavam constantemente o Rio Grande do Sul. A interferência do Estado, na expressão do Relatório Leslie, “a força legal”, não é bem vista na região. Os primórdios da organização social dessa sociedade regional se articulam pelas mãos de quem tem mais força e pode se impor. Caracterizada pela presença de extensas áreas de terras devolutas e antigas sesmarias, a região do vale do Rio Tubarão, mais do que um ambiente de produção econômica se estabelece como território de ausência das forças do Estado: “[...] as matas e sertões da costa da Serra acoitaram muito bandido que ali se homiziava, sabendo-se ao seguro de batidas policiais”.296 Espaço onde pessoas e famílias vão esconder-se, “aquele tempo em que você, a pistolinha e seu facão só arriava quando se deitava de noite. Mais, não podia né. Tinha que estar toda a vida aprecatado”.297
Há uma interessante listagem de características das pessoas que chegavam à região, feita pelo Pe. Valentim Oenning:298 “A riqueza da terra atraía especuladores do tipo mascates, trocadores, livreiros, investidores, prendeiros e
294 Nome dado à localidade que mais tarde será a sede da colônia espontânea de Braço do Norte. O
nome de localidade é até indevido, pois apenas “Guerrilha” morava aí com sua família. De qualquer forma tornou-se o primeiro nome daquela localidade. A seqüência dos nomes dessa localidade é: “Guerrilha”, “Quadro do Norte” e atualmente, “Braço do Norte”.
295 Relatório do engenheiro Charles Mitchel Smith Leslie - 1º de agosto de 1881. Arquivo do
Museu da Imigração Conde D´Eu, Orleans, Santa Catarina.
296 DALL’ALBA, João Leonir. Colonos e Mineiros no Grande Orleans. Orleans, edição do autor,
Instituto São José, 1986. p. 249.
297 Entrevista concedida por PINHEIRO, Ireno. In DALL’ALBA, João Leonir. O vale do Braço do Norte. Orleans, edição do autor, 1973. p.367. Ireno Pinheiro foi um dos grandes “bugreiros” da região.
Era pago pelos colonos e por empresas colonizadoras para “missões de limpeza”, ou seja, era um mercenário especializado na caça aos índios que habitavam a região do vale do Rio Tubarão.
bandeiras, entendidos, falsos imigrantes, flagelados de guerra, multadores e intermediários, forasteiros, intimidadores e absolvedores, ladrões e corruptos; outros tantos motivos que psicologicamente influenciaram o subconsciente para uma vivência individualista”.299 Apesar de que muitas das qualificações não sejam mais compreendidas pelos contemporâneos, fica claro que a região era procurada como refúgio para os mais diferentes tipos sociais da época. O padre parece querer caracterizar grupos humanos que vêm para a região como pessoas sem grandes projetos prévios e sem laços familiares, confiando mais nos interesses individuais.
Na acepção tipológica construída por Sérgio Buarque de Holanda, diríamos que o nacional do vale do Rio Tubarão se enquadra no tipo social aventureiro. “Do ponto de vista do aventureiro, são desprezíveis os esforços que não visam um proveito material imediato, mas a paz, a estabilidade e a segurança imediata”.300 Mas ressalte-se, estamos nos referindo, a um tipo ideal, modelo este que não existe fora da lógica do discurso daquele que quer dar sentido à multiformidade do social. É uma extrapolação de elementos genéricos que nos permitem identificar disposições de um tipo de conduta predominante numa sociedade, como de fato, tendemos perceber.
Não é de estranhar a facilidade com que mais tarde os imigrantes que chegam, em poucas gerações, tomarão posse dessas terras por meio da compra. Principalmente porque algumas regiões de colonização espontânea estavam fazendo limites ao patrimônio dotal que constituía a Colônia Grão Pará. O Relatório Leslie de 1881 chega mesmo a afirmar que a colonização da Colônia Grão Pará teria começado com estes primeiros grupos.
“A colônia espontânea do Braço do Norte (Rio), teve seu começo em 1874 com 52 famílias alemãs. [...] Por achar-se esta colônia confinante com o Patrimônio, tanto na sua parte setentrional como na meridional, colocada, por isto, bem no centro do Patrimônio, e as suas terras idênticas com a do Patrimônio, pode-se dizer que a colonização das terras de SS.AA. já começou em 1874 pela entrada das primeiras 52 famílias alemãs pelas margens do Braço do Norte”.301
299 Relatório do Pe. Valentim Oenning – Braço do Norte, 25 de abril de 1973. In DALL’ALBA, João
Leonir. O vale do Braço do Norte. Orleans, edição do autor, 1973. p.283.
300 MOTA, Lourenço Dantas (organizador). Introdução ao Brasil – Um banquete no trópico. São
Paulo, SENAC, 1999. p. 242.
301 Relatório do engenheiro Charles Mitchel Smith Leslie - 1º de agosto de 1881. Arquivo do
Desse contato, forjaram-se entre os imigrantes algumas opiniões sobre os nacionais. A tradição oral dos imigrantes guardou a seguinte percepção sobre os nacionais que haviam se fixado na área próxima à Colônia Grão Pará, a partir dos comentários feitos nas homilias por um padre que foi pioneiro no atendimento aos imigrantes alemães da região do vale do Tubarão, principalmente os de origem alemã.
Monsenhor e todo o povo de São Ludgero não gostavam muito da vila de ‘Assa-peixe e Guaxuma’. ‘Matabastatt’, era a expressão alemã com que se designava o centro luso. Monsenhor quase não vinha visitar o centro, apesar de ter que passar por aqui para ir a todas as capelas da paróquia. Dizia que o povo daqui não gostava de trabalhar, e dizia-o do púlpito, incitando a maior atividade.302
Os primeiros contatos geraram um conjunto de preconceitos que percorreram durante todo o século XX os contatos inter-étnicos na região. A família desse pesquisador, toda de origem açoriana, só começou a casar com grupos étnicos de origem imigrantes no final do século XX. Um descendente da primeira geração dos alemães chegados ao vale do Tubarão, mais especificamente na região de um de seus afluentes, o Rio Braço do Norte, assim deixou sua percepção numa entrevista concedida:
“Os lusos, podiam ser classificados em duas categorias bem distintas. Os proprietários, do eixo Braço do Norte-Gravatá, e arrendatários e camaradas nas terras dos germânicos. Aos poucos as terras dos nacionais foram sendo vendidas aos alemães. Não tinham ideal agrícola. A grande maioria era analfabeta, os pais não sentiam a necessidade de enviar os filhos à escola, enquanto que para alemães era o capricho principal: ler e escrever e praticar bem a religião. A falta de cultura não permitiu, em linha geral, grandes progressos na população”.303
Quando analisamos a produção do espaço, antes da chegada dos imigrantes, as fontes não faziam referência a “arrendatários”304 e “camaradas”.305 Com a chegada dos imigrantes começa a entrar na região nacionais que, não tendo terras, se colocarão na condição de “arrendatários” e “camaradas”. O espaço começa a
302 Entrevista concedida por BRÜNING, Daniel. In DALL’ALBA, João Leonir. O vale do Braço do Norte. Orleans, edição do autor, 1973. p.220.
303 Entrevista concedida por BRÜNING, Daniel. In DALL’ALBA, João Leonir. O vale do Braço do Norte. Orleans, edição do autor, 1973. p.221.
304 Na região, refere-se às pessoas que trabalham em terras alheias em troca de um percentual da
produção.
305 Termo muito usado na região para se referir àqueles que trabalham por dia. Geralmente recebem
complexificar-se não por causa de um crescimento vegetativo mas pela chegada de outras famílias que não têm condição de comprar terras. Irão aos poucos se colocar como oferta de mão-de-obra. Além disso, após a proibição do trabalho escravo, muitos afro-brasileiros irão procurar trabalho nas áreas de imigração. Os testemunhos revelam que os alemães procuravam contratar afro-brasileiros como “camaradas”, a qualquer outro, para trabalhar nas roças e na pecuária incipiente que iniciava, principalmente na criação de porcos para a produção de banha de porco, tão apreciada nos mercados do Rio de Janeiro.
Chama a atenção o fato de que, diferente dos nacionais e dos italianos, os alemães recebiam os negros dentro de suas casas. “Agora, camarada melhor era o negro. Trabalhava muito. Era o que mais dava por aqui”.306 Segundo Dall’Alba, “os negros que encontramos falando alemão atestam que sempre foram benquistos pelos colonos, ainda que não neguem certo distanciamento”. 307 Na região do vale
do Rio Tubarão nas áreas em que os lotes foram comprados por famílias alemãs, era comum encontrar negros falando alemão, o que, inversamente, nos leva a admitir a possibilidade de que em muitas famílias, o primeiro contato cotidiano com a língua portuguesa é intermediado pelos afro-brasileiros. Da pesquisa oral com os italianos, a atitude de pedir a benção dos mais velhos parece revelar certa aceitabilidade do afro-brasileiro: “O rapaz sempre pedia a benção para os mais velhos, quer pretos, quer brancos”.308
Para nossa análise da sociedade que se forjava nesse espaço, certas práticas dos imigrantes conotam uma percepção mais participativa das relações sociais, baseadas estas no fato de que aquele que trabalha merece o respeito de seu labor, seja negro ou branco. É difícil ao historiador generalizar, a partir das poucas entrevistas, o quanto essa relação para com os afro-brasileiros estava disseminada na área de imigração. Não há nenhum estudo específico no sul de Santa Catarina sobre a relação entre o afro-brasileiro e os imigrantes que chegavam. As poucas observações que fazemos devem, portanto, ser vistas com muita reserva pois se referem ao espaço na e ao redor da Colônia Grão Pará. Contudo, a impressão das poucas testemunhas desvela uma atitude bastante diferente das relações que se criaram durante séculos por causa do trabalho escravo, em outras regiões.
306 Entrevista concedida por OENNING, Guilherme. Id., ibid., p. 238. 307 Id., ibi., p. 220.
308 Entrevista concedia por MARTINS. Leonil J. In DALL’ALBA, João Leonir. Colonos e Mineiros no Grande Orleans. Orleans, edição do autor, Instituto São José, 1986. p. 175.
Talvez, a visão positiva do trabalho por parte dos imigrantes esteja por traz dessas atitudes. De fato, o elogio feito pelo imigrante ao trabalho dos afro-brasileiros brota da boa impressão que estes provocavam por causa da disciplina no trabalho. O que se percebe é que a admissão, ainda que radical, da diferença étnica, não incidia numa hierarquização e desqualificação destas diferenças. Não há uma desqualificação do sujeito afro-brasileiro por ser descendente de negros africanos. A idéia de que é o esforço humano, ou seja, a visão de que é o trabalho que constrói o sucesso econômico das comunidades, permitiu o nascimento de uma abordagem diferente. Diferente porque não baseada essencialmente numa tradição histórica de desprezo cultural por um grupo que por tantos séculos representou uma atividade que se considerava degradante. Na visão dos imigrantes o trabalho é o elemento fundamental do bem estar da família.
Percebemos, a partir da visão cultural do imigrante, que a participação política não é defendida a partir de um horizonte aristocrático, mas a partir de uma perspectiva em que o sujeito que trabalha tem o direito de manifestar-se politicamente. É uma disposição cultural cujo substrato nasce de um novo modo de conceber a produção material: o trabalho livre em pequenas propriedades e uma visão positiva do trabalho braçal.
Se mais tarde se fizeram presentes expressões sociais que revelam “racismo” em relação aos afro-brasileiros na região sul catarinense, estas expressões sociais de racismo não teriam como raiz a região e nem a formação social desse espaço, mas seriam como que, frutos de uma transposição de valores culturais de outras regiões que aqui aos poucos chegaram no processo de inserimento desta região à economia catarinense e esta ao espaço nacional. Talvez possamos afirmar sobre a região do vale do Rio Tubarão o que RODRIGUES observava a respeito de Uberlândia:
A predominância de uma população livre e de trabalhadores(as) assalariados(as) deu uma outra dimensão à sociedade que emergia no município, extremamente diferenciada da escravocrata que criara formas de convívio baseadas na relação senhorial.309
Parece que em sua matriz histórica a região do vale do Rio Tubarão se erige com uma atitude de maior receptividade para com o diferente, o “outro”. Mas
admitimos que podemos estar cometendo extrapolações indevidas. Há muito o que pesquisar sobre esse assunto.310 De fato,
Sabemos mais sobre as relações escravistas do que sobre as que se estabeleceram com base no trabalho livre e assalariado e conviveram com um modo de produção não dominante no país, mas que a historiografia generalizou a partir de certas áreas de predomínio do trabalho escravo.311
Desse contexto concluímos que no momento da chegada dos imigrantes nos encontramos num espaço cultural que não é mais sociedade européia, porque o nacional havia construído um ethos próprio, típico das relações construídas com o meio. Evitamos mesmo até chamá-los de “brasileiros” porque não é possível afirmar que os nacionais da região tivessem uma homogeneidade e laços que os identificassem com um projeto nacional que lhes desse consistência identitária própria de pertencimento à nação. A República Juliana com sede em Laguna, mais tarde a Revolução Federalista, ficando Desterro como um bastião avançado do grupo gaúcho que lutava contra Floriano Peixoto, ambos movimentos separatistas que nasceram no Rio Grande do Sul e reverberaram profundamente na região sul catarinense devido o acesso para o norte através dessa região, não permitem uma afirmação desse tipo sem certas ressalvas que fogem ao escopo desse trabalho.312 Certamente há no vale do Rio Tubarão reflexos do mundo maior, contudo esse “mundo maior” não explica as especificidades da vida social ali sendo socializada. Nossas fontes não permitem afirmar que se auto-denominassem “brasileiros”.
Além disso, o sul catarinense não partilha da visão típica da ideologia do branqueamento veiculada nos grandes centros urbanos. Simplificada em seus traços gerais, essa visão etnocêntrica afiança que a nação entraria na senda do progresso quanto mais branca fosse. A idéia de uma nacionalidade forjada a partir de sangue etnicamente “evoluído” (leia-se, europeu), não fazia parte do projeto dos “nacionais” do sul catarinense quando da chegada dos imigrantes.
310 A tendência geral é afirmar que a ausência de grandes propriedades no sul gerou um ethos
diferente em relação aos afro-descendentes. Contudo, toda a literatura histórica é muito genérica. Falta ao afro-descendente sul catarinense aquela mesma intenção da historiografia inglesa: “Estou tentando resgatar o pobre tecelão de malhas, o meeiro ludita, o tecelão do obsoleto tear manual, o artesão utópico... [...]. ... Eles viveram nesses tempos de aguda perturbação social, e nós não. Suas aspirações eram válidas nos termos de sua própria experiência...”. In THOMPSON, Edward. A
formação da classe operária inglesa. Volume 1, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987. p. 13. 311 RODRIGUES, Jane de Fátima Silva. Op. cit., p. 156.
312 Cf. DOLHNIKOFF, Miriam. Elites regionais e a construção do Estado Nacional. In JANCSÓ, István.
A idéia de sangue novo, sangue purificador das veias contaminadas pela selvageria vinda da África, típica da teoria do branqueamento não está como movente do movimento imigracional para a região sul catarinense. Esse é um projeto das elites do Rio – São Paulo, que no fundo, mais do que ideologia, estavam preocupadas com a possibilidade dos lucros da exploração do café. A ideologia do branqueamento é mais uma ideologia de Estado do que dos próceres da economia cafeeira.
Num contexto de baixíssima densidade demográfica e de extrema dificuldade de circulação de mercadoria, a capacidade de autonomia diante das injunções do meio material entalhou um tipo de homem cujo estilo de vida é a não dependência de outros e do meio. A falta de “ideal para a agricultura”, percepção dos imigrantes em relação aos nacionais, mais do que indolência era uma adaptação construída muito antes da chegada dos imigrantes para permitir a sobrevivência sem dependência de ajuda externa. O fato de, no dizer de um imigrante ao se referir aos nacionais, “os pais não sentiam a necessidade de enviar os filhos à escola” não pode ser caracterizada por uma falta de interesse para com a formação educacional de sua prole. É uma adaptação às condições do meio geográfico e do abandono do Estado.
“Não consigna a Província uma grande parte de suas rendas à instrução pública e pelo fato de ser pouco vantajosa à sua receita, também é pequena a parte relativa àquela consignação. A deficiência, pois, de numerário consignado é uma das principais causas do atraso em que se acha a instrução popular na Província”.313
Em relatório de 1881, assim escreve um Juiz de Direito sobre as famílias da região, mostrando que já na época se intuía que certa prática dos nacionais estava diretamente ligada às condições de circulação de mercadoria, e não a alguma característica cultural específica desses grupos, típica das teorias racistas desse período.314
313 Descrição do Município por Francisco Isidoro Rodrigues da Costa - 1881 - Comarca de Santo Antônio dos Anjos – Laguna. Op. cit., 68.
314 Devido ao crescimento econômico da região sul catarinense com a chegada dos imigrantes a
partir de 1877, algumas análises superficiais da região tenderam a caracterizar o insucesso