Para além de condições objetivas na consecução da retomada da escolarização formal, é necessário que elementos subjetivos, pertencentes à pessoa inserida nesse contexto, estejam presentes. Um deles, denominado “motivação”, constituiu-se como uma das subcategorias emergentes nas falas dos sujeitos investigados.
Segundo Santos (2012), a motivação humana está intrinsecamente relacionada com as
questões sociais que permeiam o sujeito e os “vínculos e seus afetos” (p.11). Sendo assim, os
motivos que envolvem a execução de uma meta pessoal estão inter-relacionados com várias dimensões da vida individual e coletiva da pessoa em desenvolvimento.
Nos casos estudados, observou-se que a motivação para ingressar na EJA e, consequentemente, para aprender, esteve entrelaçada com o incentivo recebido pela família,
pelos colegas de trabalho e pela própria instituição na qual trabalham (por meio da oferta de bolsas de estudo e do horário de trabalho reduzido, em virtude de estar estudando); pela possibilidade de aumento salarial; pelo turno vespertino das aulas; pela necessidade de aprender e qualificar-se para uma melhor execução das atividades do trabalho; pela busca da sabedoria, do domínio e de inserção na cultura letrada e pela realização de um sonho pessoal e familiar (nesse caso, da figura paterna).
[...] Eu trabalho dentro de uma Universidade aonde assim, tu tens chance de ter muitos conhecimentos. Isso fez com que eu precisasse adquirir mais conhecimento para melhorar dentro da minha área de trabalho [...]. E a cultura. A gente tem que saber, tem que buscar, né. (Pedro)
[...] Tudo me motiva: o conhecimento que a gente vai ter e um dinheirinho a mais, né. Além do incentivo dos meus colegas. Eu até cheguei a comentar com um colega: “Márcio, não adianta entrar na aula que eu sou burro!”. E ele me disse: “Burro se tu não estudares! ”. Aí aquilo me abriu: “Pô, eu estou perdendo mesmo!”. Fora o apoio da instituição. Quando eu vi, eu já estava matriculado! (Fábio)
Eu decidi voltar a estudar para melhorar o meu salário e porque eu sempre tive vontade de estudar, mas eu não tinha aquele incentivo, né.
A reação de todos quando eu decidi voltar a estudar foi: “É isso aí! Nunca é tarde demais para aprender! Tem que tocar para a frente! ”. (João)
Uma das pessoas que me incentivou foi a Lúcia e a minha filha.
Muitos ficaram pasmos quando eu falei que iria voltar a estudar: “Tu estás brincando! Tu não vais aguentar!”. E eu falei: “Eu vou sim”.
[...] Não é a questão financeira de bolsa. É pela minha questão de sabedoria que eu voltei a estudar!
É um sonho que vai se realizar. Tanto do meu velho (pai) quanto o meu, voltar e terminar os estudos! (Alexandre)
A partir dos relatos, constatou-se que houve a conjugação de diferentes fatores motivacionais, extrínsecos e intrínsecos ao próprio sujeito, para a retomada da escolarização nesse momento. Para além de uma melhoria do salário e, consequentemente, das condições de vida, as verbalizações dos sujeitos pesquisados apontaram movimentos que os orientaram para a mudança, para a transformação de si e dos diferentes contextos que os cercavam.
De acordo com Bronfenbrenner (2011), as orientações da pessoa rumo à ação concorrem para o seu desenvolvimento.
Coerente com a visão ecológica da interação do organismo com o ambiente, a orientação parte da concepção de pessoa como agente ativo que contribui para o seu desenvolvimento. [...] as características pessoais são distinguidas no seu potencial
para evocar segundo a resposta de alterar ou criar o ambiente externo, influenciando o percurso subsequente do crescimento psicológico da pessoa. (p. 151)
Nesse movimento cíclico e dinâmico, a pessoa em desenvolvimento se desenvolve biopsicossocialmente, alimentada pelos aspectos cognitivos, socioemocionais e motivacionais (BRONFENBRENNER, 2011).
Estudos sobre o educando adulto que frequenta a EJA (CALDEIRA, 2011; CAMPOS, 2014; LARA, 2011) demonstraram as diferentes razões pelas quais os mesmos voltaram a estudar. Dentre elas, a busca por maior qualificação para inserção no mercado de trabalho, a EJA como uma oportunidade para adquirir um status de cidadania e inclusão sociocultural, acesso ao conhecimento vinculado na escola, busca pela (re)construção de si, desejo de certificação, socialização, a busca por melhores condições de vida, melhor enfrentamento de desafios, aprendizagem da leitura e da escrita, influência de terceiros (cobrança dos filhos para retornar à escola), o anseio de interar-se com os acontecimentos do cotidiano e a necessidade de tirar uma carteira de habilitação.
Com base nas falas dos pesquisados é plausível constatar que muitos dos motivos oriundos das entrevistas vão ao encontro daqueles expostos na literatura. No entanto, percebeu-se que os sujeitos em questão apresentaram um diferencial dos demais públicos que frequentam a EJA: os mesmos são servidores públicos que têm estabilidade empregatícia e a maioria deles está em vias de se aposentar.
Indiscutivelmente, a possibilidade de aumento salarial motivou a muitos deles, mas, ao contextualizar as falas numa perspectiva mais ampla, observaram-se motivações pertencentes à ordem subjetiva. Subjetiva porque traz em si o desejo e a necessidade de mudar o curso do seu desenvolvimento, no momento em que três características da Pessoa, segundo a perspectiva bioecológica, primam por esse movimento: as disposições (motivações), os recursos bioecológicos (o desejo de retomar a Educação formal) e as demandas (curiosidades) advindas da inter-relação com o ambiente onde está inserida (BRONFENBRENNER, 2011).
Dessa maneira, a junção entre todas as características elencadas (biológicas, cognitivas, emocionais e comportamentais), os contextos do desenvolvimento (por meio da interligação entre família, trabalho e escola), o tempo histórico vivido e, em especial, as conexões entre Pessoa e ambientes criam as possibilidades de “[...] moldar o sentido do desenvolvimento futuro, em razão de influenciar a direção e a força do processo proximal
durante o ciclo de vida.” (p. 25). Assim, a tomada de decisão para a execução de um novo
projeto de vida, ou a retomada dele, nesse caso, o da Educação formal, envolveu tanto elementos facilitadores/apoiadores como aqueles pautados pela automotivação e o desejo
próprio de autonomia e autoconhecimento. A convergência desses elementos foi importante e necessária para que um novo ciclo de desenvolvimento pudesse ser iniciado na fase adulta. Ademais, a busca por uma Educação para além da escolarização, fundamentada no aprimoramento pessoal e profissional pareceu se entrelaçar com aspectos mais simbólicos, ligados ao plano da subjetividade dos pesquisados, como por exemplo, o reconhecimento social e a efetivação de um direito que lhes foi negado durante a infância e a adolescência: o direito à Educação.
Nessa perspectiva, as motivações dos sujeitos da pesquisa pela Educação formal puderam ser compreendidas no âmbito da autorrealização, que, para tal, requer a busca de sentidos, movida por vínculos e afetos (JOSSO, 2004).