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As observações foram feitas no período entre 27 de maio e 11 de junho de 2015, perfazendo um total de quinze horas/aula. As mesmas se constituíram elemento importante na tentativa de propiciar à pesquisadora vivenciar o contexto no qual os sujeitos investigados estavam imersos, além de contribuir na compreensão da Educação voltada a um público majoritariamente adulto maduro, com necessidades específicas de aprendizagem.

A turma observada era composta por 24 educandos, sendo 21 homens e 03 mulheres. Desse total, 19 eram servidores públicos, todos eles homens. A faixa etária da turma se situava entre aproximadamente 20 e 68 anos, sendo que somente 05 jovens perfaziam o total do número de educandos da turma.

As aulas da EJA vespertino iniciavam no horário das 16 horas, com término às 19 horas, intercaladas por um intervalo de 15 minutos. Esse horário diferenciado foi estabelecido por meio de uma parceria com a instituição escolar e a instituição onde trabalhavam os servidores, de modo que pudessem ser liberados mais cedo do local de trabalho para frequentar a escola.

Duas vezes por semana eram ofertados Laboratórios de Aprendizagem, onde os educandos tinham a possibilidade de reforçar alguma disciplina com maior dificuldade, como por exemplo, a Matemática e o Português. Essas aulas de reforço tinham a duração de uma hora (das 15 horas às 16 horas), sendo realizadas dentro da própria sala de aula da turma.

As aulas práticas observadas ocorreram nos laboratórios de Química, Ciências e Informática. Na observação da aula prática de Química (ANEXO C), em especial, os educandos tiveram a oportunidade de realizar experiências, tendo em vista a abordagem do conteúdo de reações químicas. O professor dividiu a turma em 3 grupos. Cada um deles ficou responsável por realizar uma experiência de acordo com as reações propostas no quadro (reação de decomposição da água oxigenada, de simples troca – ferro e ácido clorídrico, por exemplo).

A configuração da sala de aula para as atividades se alternava entre círculo, fileiras individuais e fileiras em duplas ou trios, variando de acordo com o professor, disciplina e atividade proposta.

A sala de aula da turma observada (ANEXO D) se situava na ala das turmas de Ensino Fundamental do Ensino Regular para crianças, do turno matinal. Essa sala de aula já

havia sido destinada a esses educandos adultos desde o seu ingresso, nas séries iniciais do Ensino Fundamental da EJA, dada a sua disponibilidade. Provavelmente, por esse motivo, se constatou uma configuração infantilizada da sala de aula para atender a essa turma específica de adultos: cartazes e produções expostas nas paredes da sala de aula feita pelas e para as crianças do turno inverso. Esse fato ensejou reflexões sobre o papel que a EJA ocupa no espaço escolar, sobretudo, os adultos em processo de escolarização no Ensino Básico. Certamente que a particularidade desse grupo em frequentar o turno vespertino de aula, diferentemente das demais turmas de EJA da mesma escola, fez com que a instituição tivesse que alocar o grupo para um espaço ocioso naquele momento. No entanto, o ambiente físico é um elemento importante que influencia as vivências e as experiências educativas desses sujeitos, em seu modo de se colocar com mais autonomia e segurança no espaço escolar, como adultos.

O turno vespertino era frequentado, predominantemente, por crianças e jovens, que tinham aulas nesse período ou participavam de atividades extracurriculares, como por exemplo, aulas de música.

Das janelas laterais da sala enxergava-se a horta escolar cultivada pela turma desde o ingresso na EJA (ANEXO E). Com canteiros bem definidos e com belos pés de alface, couve, rúcula e temperos, representava um orgulho ao grupo que a cultivava e uma “janela” a ser vista e admirada por aqueles que visitavam a turma, numa espécie de “boas-vindas”. A horta cultivada pelos educandos pareceu ser um espaço de criação, de apropriação de um lugar ainda a ser desvelado. Nesse caso, a escola. Ainda, demonstrou ser o olhar sensível e extracorpóreo da relação estabelecida entre esses educandos e o meio, parecendo ser uma forma encontrada por eles para dar vida e sentido à vivência educativa anunciada. Uma

“paisagem” que deixa de ser deles e passa a ser compartilhada com o outro, ensejando uma

paisagem coletiva (ALVARES, 2012).

A maior parte das aulas observadas indicou uma metodologia dialógica entre professor e educando, fomentando a participação e o envolvimento do grupo por meio do resgate de suas experiências de vida cotidianas. Muitos dos questionamentos realizados em sala de aula pelo professor suscitaram o debate, não somente entre professor e turma, mas entre os próprios educandos, tornando-se bastante rico. Relações pedagógicas horizontais e de muito respeito e carinho transpareceram nos momentos observados.

Como em qualquer outro ambiente, não apenas o da sala de aula, alguns educandos se sobressaíram mais do que outros na participação em sala de aula. Uma constatação foi a de

que a participação feminina e a dos jovens foi bastante tímida, talvez por sua minoria em sala de aula.

O relacionamento observado entre os alunos foi de ajuda mútua, intercalados por um clima de descontração.

A atividade do Projeto da Horta Escolar e o da Alimentação Funcional dividiu o grupo por interesses temáticos. Em uma tarde ensolarada, os educandos, juntamente com dois professores coordenadores do projeto da Horta Escolar, preparavam o solo para a plantação de cenoura e beterraba (ANEXO F). Outros colhiam alfaces e temperos, entre um chimarrão e outro, num clima bastante amigável.

Já na aula de Alimentação Funcional, um texto sobre a história da ave Gralha Azul e as inter-relações com o pinheiro e sua extinção no Sul do Brasil propiciaram, ao final da aula, um momento de socialização, por meio da degustação de uma porção de pinhão cozido trazido pelo professor, num final de tarde chuvosa e fria (ANEXO G).

De todas as aulas observadas, a de Matemática pareceu ser a que mais demandou esforço e atenção por parte do grupo. As aulas foram realizadas no Laboratório de Informática, envolvendo resoluções de problemas voltados ao orçamento financeiro familiar com o uso de planilhas do Excel: o equilíbrio de gastos mensais. Em duplas, a turma resolvia os problemas propostos e ajudavam-se, num esforço conjunto de superação de dificuldades.

A maior parte das aulas observadas teve o auxílio de recursos audiovisuais, como forma de facilitar e enriquecer o processo de aprendizagem, especialmente para esse público adulto maduro, que apresenta demandas específicas.

No entanto, algumas disciplinas, como por exemplo, Física, Química e Espanhol provocaram fisionomias de surpresa entre alguns dos educandos, marcados por momentos de silêncio e olhares longínquos. Estariam rememorando suas experiências escolares fundamentadas em propostas focadas em conteúdos? E/ou estariam ocorrendo dificuldades para estabelecer associações com a vida cotidiana, ou ainda, obstáculos para compreender fórmulas mirabolantes (no caso da Química e da Física)? Ou mesmo uma tentativa de tecer os conhecimentos prévios com os conhecimentos institucionalizados? Apesar das fórmulas, os professores se esforçavam para dar exemplos de situações do cotidiano que pudessem facilitar a compreensão dos conteúdos. Quanto ao Espanhol, os educandos trabalhavam com o livro e com a cópia de exercícios propostos no quadro. Muitas foram as dúvidas expostas por alguns deles, pois o restante da turma permanecia quieto, copiando a tarefa do quadro, demonstrando estranhamento com a Língua.

8.2 Projeto Político Pedagógico para a EJA: reverberações na prática