• No results found

3 Materials and methods

3.2 Compositional analysis

O que Toda Somos

Fomos Aldeia Cromos

O que Tem Somas

Somos Seu Sombras

Entre Tom Entre

Ser Seu Ombros

& Mito Ermos

Nada: Totem Até

Homos Seu Não

Travo Sermos

Atávico Erótico Errático

Questões relacionadas ao próprio homem e sua existência no mundo percorrem a poesia das palavras nos três conjuntos de versos. Nesta poética da relação das partes, três perguntas essenciais são levantadas: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?

Coluna da esquerda

O cubo-poema assinado por Joesér Alvarez apresenta a ideia de passado e presente “o que fomos, o que somos”, e a constatação de que “entre ser e nada: homos” nos leva a um universo em que este passado e este presente apresentam as mesmas características: o homem, em cada tempo que vive, está situado justamente entre uma realidade consciente (ser) e uma total incapacidade de se ver conscientemente no mundo (nada). Ou seja, o tempo passado e o presente vêm sendo palcos de uma vivência às vezes lúcida, às vezes ilúcida, “ser & nada”, por parte dos homens.

As palavras dispostas trazem a predominância das vogais o e e. Estes fonemas entram em diálogo com o som gerado ao se passar o ícone do mouse pelas palavras, gerando um som parecido com vozes que emitem vogais misturadas, lembrando muito as duas citadas, mas em meio a sons confusos. O leitor fica ambientado num universo poético em que sons e palavras remetem ao mistério dos homens e da existência (“ser ou não ser”, diria Hamlet). O leitor tem acesso a este transe sonoro quando interage com a palavra, fazendo-a girar ao mesmo tempo em que os sons entram em campo iniciando outros processos de leitura cada vez mais sensoriais. Este movimento giratório dinamiza o que a palavra sugere ao ser reforçada pelo tom sonoro.

Jorge Luiz Antonio nos mostra algumas características desta mediação da linguagem tecnológica com a linguagem poética. Diz ele que se apresentam um uso lúdico da linguagem tecnológica, interfaces e interatividade, o uso de programas computacionais e de softwares na comunicação poética, além das características do hipertexto e hipermídia. Assim, neste ciberespaço, ocorre uma ressignificação dos códigos da tecnologia (ANTONIO, 2008).

Se lermos linearmente de cima para baixo, teremos estas considerações poético- filosóficas sobre a existência do homem no passar dos tempos e no presente, mas se as palavras forem conectadas aleatoriamente, outras significações poderão ser exploradas, sem necessariamente perder de vista estas expostas. Independente do caminho escolhido pelo leitor, os dizeres do verbal manterão diálogo correlacional com o restante dos signos.

Coluna da direita

No cubo-poema da direita, Carlos Moreira apresenta versos que mantêm esta discursividade voltada para o ser, ou seja, para o que somos ou o que pensamos que somos.

Se fizermos a leitura linear de cima para baixo, veremos que ele nos diz que “somos cromos, sombras, somas”. A ideia de passado e presente agora se coloca como algo da natureza evolutiva, inclusive chamando a atenção para a evolução dos vários

homos até o que somos hoje (Homos sapiens).

Isso se dá quando realizamos em nossa leitura o jogo verbal entre as duas primeiras palavras, somos e cromos. Lendo-as inversamente, teremos cromossomos, sugerindo a ideia da informação genética como indicadora de um dos elementos no processo evolutivo.

Parece claro o jogo verbal realizado pelas palavras, sugerindo que estes elementos da formação genética dos homens são característicos deste estar no mundo, conscientemente ou não. Independente da lucidez deste homos, e do tempo que passa implacável, as substâncias naturais do homem se mantêm nesta evolução do tempo.

Quando diz “entre ombros ermos até não sermos”, a ideia de tempo e presença do homem vai ser colocada juntamente com o fato dele cada vez mais parecer isolado neste mundo.

Isso se dá justamente por não conseguir ser conscientemente algo ou mesmo ter noção real deste seu estar no mundo, tornando-se, assim, isolado, sem consciência, “ermo”. Neste isolamento, a tendência é não ser.

Mais uma vez, é bom lembrar que a leitura das palavras pode ser feita de forma não-linear e gerar outras combinações significativas através da escolha do leitor-autor proporcionada pela interatividade do poema.

Coluna do meio

O cubo-poema assinado por Binho é composto em torno da afirmação de que todo grupo social – toda “aldeia” – tem seu modelo ou uma orientação a ser seguida - “seu tom, seu mito, totem”. As palavras “travo atávico erótico errático” reforçam o caráter cíclico da volta, do retorno, do jogo de ser e estar no mundo, poética em que o que foi do passado novamente reaparece no presente. Parece que o Homos sensualiza uma existência que se perde e se encontra (“erótico errático”).

As afirmações cada vez mais vão fazendo sentido. Quando lemos que “o que somos o que fomos entre ser e nada: homos”, na coluna da esquerda, temos uma equação que constata que o homem é um joguete do tempo, que tenta ser e não sabe quem é ao mesmo tempo: “entre ser e nada”.

Sua situação de desencontro ou desencaixe diante de uma existência tanto erma quanto múltipla (“somas”) tem solução apenas devido ao preenchimento deste espaço ilúcido do ser ou não ser, que é a orientação simbólica do mito corporificada pelo totem.

Este funciona como um símbolo que representa um tom característico de algo que remete a várias naturezas contemplativas como sedução (“erótico”) ou escapismo (“errático”).

Ou seja, é uma “realidade” que existe apenas na cabeça dos homens. O tempo e os homos; a quantidade e repetição de cada um deles; a sensação e consciência dos homens ao passar destes tempos; a natureza sendo constante em seu trajeto; as histórias dos homens se repetindo, sendo e nada sendo, num jogo sedutor e escorregadio; enfim, são questões que fazem da existência humana uma eterna indagação de si mesma.

Enfim, são três conjuntos de versos que ambientam o leitor num jogo entre ser e não ser; o que se foi e o que se é; a realidade e o mito; o desejo e a fuga; as somas; as sombras; e o espaço da aldeia global dos “homos”.