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3 C: ((+))

4 M: sim ((+)) já

5 C: vocês brincavam d’esconde-esconde? 6 M: ((+)) ((olhar rápido para Laudiel)) 7 C: e de: pique-PEga

8 M: ((sobrancelha franzida, olhos arregalados)) ((S))

9 C: ou pega-pega?

10 A1: ah já brinquei ((palma da mão movimentando para trás)) que vai correndo e ((segura o braço da colega à direita))

11 M: [[((segura o braço da mesma colega à esquerda)) ah AH SIM ((movimento com braço simulando uma corrida))

A aluna Laudiel não demonstrou interesse pelo assunto, mas afirma conhecer as brincadeiras. Mercedes tentou inseri-la na discussão por meio do olhar, mas não conseguiu. Laudiel afirma que o horário do curso dá muito sono nela e não prestou atenção nesse tópico.

Mercedes consegue demonstrar alinhamento com a professora e fornece pistas a todo momento. Ela menciona que existe a brincadeira esconde-esconde na Colômbia e não consegue compreender o que seria pique-pega (reações não-verbais de estranhamento, na linha 8), mas entende o sinônimo (pega-pega), além de simular a brincadeira na linha 11, como se estivesse complementando a explicação feita por outra interagente, na linha 10, por meio da comunicação não-verbal.

4.4 – A enunciação e a interpretação de pistas prosódicas

A prosódia é aspecto bastante importante no estudo das pistas contextualizadoras, ela descreve as variações vocais que estão juntas à fala com objetivo interacional específico. Quando dizemos estou achando isto ótimo com maior ênfase na palavra ótimo, isso poderia ser inferido como algo sarcástico, o que na verdade poderia significar estou detestando isto.

As pistas prosódicas se subdividem em duas categorias: pistas extralinguísticas, relacionadas aos aspectos tonais enunciados e pistas paralinguísticas, vinculadas às modificações que ocorrem na cadeia da fala.

Em algumas culturas, ao contrário da brasileira, arrotar é pista que denota apreciação do alimento degustado. Por isso, existem vocalizações não-linguísticas, como é o caso do espirro, tosse, entre outros, que possuem tarefa comunicativa específica e, às vezes, divergente entre diferentes culturas.

Trager (1958: 7) foi um dos pioneiros a descrever os componentes que estão ligados à fala, que são: intensidade, velocidade, frequência, controle labial (agudo ou transição suave), controle da articulação (forçada ou relaxada), controle do ritmo (suave ou espasmódica) e da ressonância (ressonante ou fino).

Gumperz (1982a: 100) descreve a prosódia a partir dos seguintes fatores:

entonação, por exemplo, níveis de altura em cada sílaba, mudanças na sonoridade, ênfase, um traço perceptível geralmente contendo variações na altura, sonoridade e duração, outras variações na duração da vogal, frases incluindo enunciados interrompidos por pausas, acelerações e desacelerações e, sobretudo, na mudança do registro de fala.

4.5 – A enunciação e a interpretação de pistas extralinguísticas

A fala persuasiva é geralmente rápida, segundo Woodall e Burgoon (1983: 138), pelo fato de o interagente manter-se tão ocupado processando a mensagem que não consegue elaborar contra-argumentos. Além de mais rápida, ela se torna mais fluente, com ritmo mais intenso, volume maior e diminuição na quantidade de pausas.

Há pistas de mudança de turno que necessitam aparecer para que o interlocutor assuma o papel de locutor. Ele não pode assumir a fala por muito tempo, não deve ser prolixo a ponto de monopolizar o discurso. Deve, então, o locutor, oferecer pistas que sugiram essa mudança, como a elevação tonal no final do comentário, ou o uso de marcadores que pedem opinião, como o né?! ou o que você acha?. Cabe ressaltar que o sermão constitui tipo de discurso cuja regra é o monopólio do turno. Desta forma, ser prolixo ou não, além de ser algo cultural, dependerá também do gênero discursivo em questão.

Elementos prosódicos são utilizados em uma situação ilustrada por Gumperz (1982a: 101-4) com relação à diferença entre um programa de TV e um comercial. É nítida a mudança para o comercial quando há as seguintes mudanças prosódicas: voz aparentando um congestionamento nasal, entonação descendente (geralmente sugerindo que o telespectador responda a pergunta), entonação ascendente (podendo sugerir uma pergunta que objetiva pedir confirmação), lentificação do ritmo e do volume, duração das vogais e a ênfase em dada palavra ou sílaba.

No excerto que se segue, a professora enfatiza a palavra sete (linha 1), sugerindo ser tempo extenso para relacionamentos amorosos.

A1E12 – A respeito de relacionamentos entre namorados, a professora narra um acontecimento entre dois amigos dela, a partir do relato de Mercedes sobre seu relacionamento de sete anos.

1 C: /.../ aí (.) dois amigos meus namoraram SETE anos 2 A1: puxa

3 C: fiCAram ((cabeça para direita, olhos semicerrados)) naQUEla enrolação ((rodando as mãos, projetando-as para frente)) naQUEla enrolação

4 M: ((R))

5 C: aquelas coisas não sei o quê não sei o quê (acc.) sete anos (..) TERminaram (.) DOIS MEses depois

6 M: ((+)) ((S))

7 L: ((mexendo com as mãos, olhando para elas e para a professora))

8 C: a menina tava namorando outro cara (acc.) (.) NOIVA (.) com mais dois meses ela casou

9 M: ((+)) ((S))

10 C: não casa não casa não casa não casa de repente terminou arrumou ou tro rapidinho e ela casou

11 A2: e o- e o homem?

12 C: ficou chuPANdo GRAMpo 13 A0: ((S))

14 M: [[ ((olhos semicerrados)) ((R)) 15 L: [[ ((dedo no rosto, olhar vago)) ((S)) 16 C: ficou chuPANdo DEdo

17 A0: ((S))

As participantes conseguem perceber que a professora julga ser estável a relação de sete anos para acontecer uma separação, e enuncia isso com a alteração do tom da voz na linha 1. As alterações que ocorrem na linha 3 não são percebidas como significativas pelas colaboradoras. No entanto, percebo que elas ocorrem para dar dinamicidade à narrativa, junto à comunicação não-verbal.

O uso do não sei o quê (linha 5) é percebido pelas interagentes como as coisas feitas durante o período de sete anos. A linha 10 também apresenta uma repetição semelhante, mas não foi compreendida por nenhuma das duas como a ausência de ação (não casar) durante muito tempo.

De acordo com Gumperz (1982a: 104), “as pistas prosódicas são baseadas sistematicamente em modelos convencionalizados a partir do uso da prosódia”. Além de reforçar que uma pista prosódica isoladamente não significa nada, ela depende de determinado contexto discursivo, em dado momento específico e do conhecimento do interpretante. No excerto abaixo, a professora simula a voz de uma mãe aconselhando o filho para que não chegue muito tarde e tenha cuidado com o sereno.

A1E8 – Na continuação da leitura do texto, um aluno da Costa do Marfim pergunta o que é relento. 1 A1: professora (.) o que é relento?

2 C: reLENto? é: (.) por exemplo quando você: quando você deixa ((gesto sinalizando que segura uma bacia))

3 M: Ãh ((+)) ((olhos semicerrados e desvio da boca para os lados)) 4 L: ((mão no rosto))