5.1 T HE CHANGE
5.1.4 Competitive Advantage
Esta pesquisa assume como necessário e fundamental, para uma mais ampla compreensão sobre o corpus estudado, uma apropriação sobre os conceitos do sociólogo alemão Niklas Luhmann (2000), que traz as matrizes teóricas acerca da denominada “autorreferencialidade”. Esta etapa pré conclusiva tem, portanto, a preocupação em abordar essas matrizes, cuja noção já pertence aos estudos em Comunicação e que, em caráter mais resumido, pode ser compreendida como uma forma de demonstrar como se fez para produzir o que se está dizendo (KLEIN, 2012).
Uma fase da pesquisa que se apoia nos estudos de Klein (2012) sobre o sociólogo, os quais nortearam as matrizes “luhmannianas” deste trabalho, a fim de identificar como o 'sistema' midiático estabelece o ambiente Nordeste a partir de seus próprios referenciais: um processo mais dinâmico e interacional, do que, propriamente, estático, preso a um modelo esquemático de comunicação.
No entanto, o propósito neste momento pré conclusivo não é o de estabelecer um aprofundamento na teoria de Luhmann sobre a autorreferencialidade. Conceito que sempre pode sugerir, de fato, um adequado e mais amplo estudo. A meta é utilizar-se, especificamente, das matrizes que permitirão perceber como o “Profissão Repórter” se torna esse sistema autorreferencial em direção ao ambiente Nordeste e se torna-se, assim, de fato. Nos pareceu mais apropriado manter os próprios termos aplicados pelo autor, no que se relaciona à autorreferencialidade. Em Luhmann, tal conceito se apoia em duas bases: o ambiente e o sistema, sendo este último quem define como o primeiro deve ser enxergado e visto.
Conforme Fausto Neto (2007), no direcionamento das teorias do sociólogo alemão, as mídias “através de leis e regras próprias, estruturam práticas e rotinas segundo leituras (observações) que visam regular observações que, sendo construídas em outros sistemas, que vem ser organizados segundo as “leis” deste sistema observador (as mídias), como condição de sua inteligibilidade (FAUSTO NETO, 2007, p. 95)”. Neste posicionamento, essas duas variáveis – ambiente e sistema – são as responsáveis pela definição de autorreferência de Luhmann, a qual representaria, especificamente, a forma como, após um processo de operacionalização interna, o ambiente é, ao mesmo tempo, internalizado e distinguido pelo Sistema. Uma distinção, por sua vez, feita com base em regras próprias.
Os conceitos de autorreferencialidade de Luhmann contribui para verificar as leis e regras do “Profissão Repórter” e suas e referências particulares, bem como o favorecimento dos sentidos em torno do ambiente, objeto deste estudo, já que o sistema midiático conecta operações “referindo-se de novo e de novo a seu próprio estado de informação para ser capaz de discernir novidades, surpresas e, mais ainda, valores de informação” (LUHMANN, 2000, p. 14).
Considerando a teoria de Luhmann, Klein (2012) observa que a informação seria selecionada, de acordo com critérios e necessidades internas, a partir de uma “memória partilhada”11 (BECHMAN; STEHR, 2001), mas a autorreferencialidade não se trataria, por
exemplo, de um fechamento, mas se daria numa membrana que permite a permeabilidade do sistema com o exterior, através da qual, cada subsistema observa-se, não só a si mesmo, mas aos outros subsistemas e, daí por diante, se desencadearia uma sequência, um efeito dominó de operações seletivas.
No programa, a autorreferencialidade está presente e reproduzida nas citações de programas anteriores, retomada de reportagens, nas referências entre episódios, bem como nas indicações quanto ao conteúdo publicado na internet. Em Luhmann, a noção de autorreferencialidade surge tomando por base os conceitos desenvolvidos na Biologia, inicialmente por Maturana (1997), o qual definiu o termo “autopoiese”, que nos seres vivos, representa a circularidade molecular.
Por ser, em Maturana, um fenômeno definitivo, foi gerador de críticas, quando da apropriação do termo nas conceituações Luhmannianas, já que, para os autores da biologia, se passada a noção para outros tipos de sistemas, as circularidades sociais, por exemplo, a autopoiese passaria a ser vista como algo mais incidental.
11 Livre tradução: KLEIN, Eloísa Joseane da Cunha. Circuitos comunicacionais ativados pela autorreferência didática
As reflexões feitas por Maturana são intrigantes e reveladoras sobre seu entendimento sobre a vida como processo dinâmico e autônomo aos seres. O autor critica a apropriação da noção de autopoiese (construída para a explicação da vida nos seres vivos) para os sistemas sociais: nos seres vivos, a circularidade molecular, ou autopoiese, é definitória, enquanto que, se passada a noção para outros tipos de sistema, a autopoiese poderia ser vista como circunstancial, incidental. Maturana define a autopoiese dos organismos vivos como sendo de primeira ordem, considerando-se que a autopoiese se refere à dinâmica de seus componentes. Mas como totalidades, os organismos desenvolveriam atividades orgânicas sistêmicas. Maturana reflete que os sistemas sociais não são autopoiéticos de primeira ordem e que, se pensados em termos de autopoiese, deveriam ser pensados como sistemas de outra classe (KLEIN, 2012, p.53).
No entanto, é possível identificar que os aspectos do conceito apropriado por Luhmann podem ser adequados para se pensar a autorreferencialidade no jornalismo. O sociólogo busca explicar que a autorreferência na comunicação, ao contrário do que analisa a biologia, na crítica tecida a Luhmann, dependeria, sim, de fatores externos. A operacionalização, os processos internos da autorreferência no jornalismo ocorre em torno de um tensionamento, que registra a entrada de uma interrupção externa e que produz reverberações em outros processos, os internos, tensionando o ambiente.
Ela ocorre quando um ser ou um sistema que participa de um ambiente e estabelece complexas relações, em processos de autorreferenciação e distinção e, assim, operaria outros processos, que resultam nas interrupções do ambiente, estabelecendo, por sua vez, o que se define como informação.
Este processo, em “Profissão Repórter”, é demonstrado em maior escala pelos atos de fala (cujas pesquisas pioneiras foram desenvolvidas por Austin (1965). Atos esses que também atuam na referenciação ao falante e demarcam as impressões do sentido, como, por exemplo, ocorre na formação da frase, sempre formulada por Caco Barcellos, quando diz “agora, no Profissão Repórter” ou na frase: “a força da enxurrada varreu tudo o que tinha pela frente” – Profissão Repórter sobre enchentes no Nordeste).
A autorreferencialidade, em “Profissão Repórter”, é expressada nesses e noutros atos de fala, bem como por meio das conversas e interações, iniciadas aparentemente improvisadas, as quais geram elementos propulsores de uma autorreferencia, que pertence a um sistema, o qual, em suas normas próprias, define um ciclo de pensamento sobre o ambiente denominado 'Nordeste'.
Uma “irritação”, termo cunhado por Luhmann, provocada pelo trinômio 'emoção, expressões não verbais (dos repórteres e entrevistados) e o próprio ponto de vista do repórter'.
Trinômio que se resulta em informação, geradora de novos sentidos ou reprodutora de antigas caricaturas, por meio de acordos subjetivos autorreferenciais.