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5.1 T HE CHANGE

5.1.3 The Benefits and Pitfalls

A recorrência do Nordeste nas pautas da mídia, sobretudo a televisão, segue o padrão das produções que são elaboradas a partir de noções que integrariam uma formulação de discursos, já pré construídas. O tema “Seca”, por exemplo, também abordado pelo “Profissão Repórter”, recai, inevitavelmente, sobre imagens já conhecidas e reconhecidas, como a do retirante, da terra rachada pela intensa aridez, acompanhadas pela imagem de um rosto rachado por rugas, resultado direto do castigo pelo sol.

Foi deste cenário que partiu este estudo, a fim de verificar como estes signos se apresentariam no processo de produção do texto, imagens e trilhas presentes nas edições do “Profissão Repórter”. A proposta foi identificar em cada edição uma possível fragmentação desses signos, suas manifestações subliminares que pudessem (re)inventar ou inverter as teorias já direcionadas a este espaço brasileiro.

Em Albuquerque JR (2009) encontramos apontamentos que favoreceram a percepção sobre os nordestinos, abordados no programa, que poderiam, por meio de suas próprias práticas, contribuir para reproduzir um dispositivo de poder, acionado por falas, expressões, silêncios, cenários, que os reservaria a algum lugar/símbolo de pedintes lamurientos, ou sentidos que os posicionaria na classificação de “pobres coitados”.

Foi necessária a identificação da presença ou ausência de mecanismos de poder, fornecidos pelos próprios entrevistados da equipe de jovens repórteres, que os colocaria – os nordestinos – na qualidade de 'vitimados' por isso ou por aquilo, os 'colonizados' conceitualmente, ou propagadores de culturas musicais supostamente inferiores.

A proposta, em todo o percurso deste estudo, foi sempre o de verificar a produção midiática de “Profissão Repórter” na sua colaboração – no jogo entre entrevistador e entrevistado – em formatar um complexo processo discursivo, gerador de polaridades como 9 DALEA, Roger; ROBERTSON, Susan. Interview with Boaventura de Sousa Santos. Globalisation, Societies and Education, n. 2, v. 2, p. 147-160, 2 jul. 2004.

“classe dominante” ou “região dominante” e “classe ou região dominada” e, por sua vez, dependente. Essa foi a dúvida permanente e consistiu em verificar se a descrição tradicional foi descartada, reinventada ou invertida em “Profissão Repórter”, o qual pode também ser o meio por onde as conclusões do autor se manifestam, ao afirmar que “[...] o Nordeste quase sempre não é o Nordeste tal como ele é, mas é o Nordeste tal como foi nordestinizado” (ALBUQUERQUE JR, 2009, p. 311).

Para tais considerações, o autor recorreu a um acervo documental abrangente, que foi desde autores ficcionais, músicos – e como tais obras da ficção reforçariam os estigmas – tais como João Cabral de Melo Neto, Glauber Rocha, Jorge Amado, Luiz Gonzaga, Graciliano Ramos, até autores e historiadores como Câmara Cascudo e o sociólogo Gilberto Freyre, na intenção de apontar, nessa diversidade de autores e produções, as representações no e sobre o espaço brasileiro.

Para Albuquerque JR (2009), há a formação de um espaço que pode ser definido como um “espaço-outro” em relação aos outros eixos do país, seja o sul-sudeste ou o centro-oeste. Uma diferença não só geográfica, mas que corroboraria com o dizer de Santos (2010), ao falar de espaços abissais, no que se relaciona a reflexões epistemológicas.

É como se, para o autor, fosse se consolidando entre o Nordeste e esses 'outros' espaços do país, num constante e profundo afastamento das regiões nordeste e sul, por meio dos olhares e obras, que produziam e definiam interpretações e sentidos. Assim, para o autor, o Nordeste foi inventado. Desta forma, o próprio Sul – desta vez o geográfico e não o simbólico assumido por Santos (2010b) em “Epistemologias do Sul”10 - é quem, na busca por

elementos peculiares de distinção, contribuiu para a invenção do seu 'outro', o Nordeste. Para o pesquisador potiguar, a resposta já existia. “O que podemos encontrar de comum entre todos os discursos, vozes e imagens [...] é a estratégia da estereotipização” (ALBUQUERQUE JR, 2009, p.20)

Castro (1992), mesmo anteriormente, também reforçou as impressões de Albuquerque Jr. (2009), quando analisou discursos de políticos, representantes de Estados do nordeste no Congresso Nacional, entre os anos de 1946 e 1985. Segundo constatou a autora, houve a cristalização de um posicionamento da população nordestina como aquela que estaria sempre em posição de constante necessidade e de carências em comparação ao “outro-sul”. Impressões que geram a necessidade de reflexão, para além do corpus desta pesquisa, no que se relaciona a verificar o que, de fato, é o “Nordeste”.

10 Maria Paula Meneses, « Epistemologias do Sul », Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 80 | 2008, colocado online no dia 26 Julho 2012, acesso em: 05 Março 2015. URL : http://rccs.revues.org/689

A imagética já estabelecida sobre o Nordeste ou sobre os “nordestes” do Brasil,

produziu, como já citado anteriormente, a necessidade de uma estudo ainda mais cuidadoso em direção ao corpus desta pesquisa. Posicionamento que se fez e que se apontará sempre como necessário.

Em Albuquerque Júnior (2009), o Nordeste vem sendo pensado e estruturado a partir de delimitações mais simbólicas do que propriamente físicas ou naturais. Um processo o qual define como achatamento, uniformização, provocado mais por uma uma perspectiva política, capaz de promover um imaginário social que delimita o próprio espaço/objeto, que o faz parecer uma unidade e não algo fragmentado.

Esta uniformização/organização se daria em um contexto sócio-histórico em que figura, no Brasil, os debates pela chamada identidade nacional, mais precisamente, a partir dos anos 20, com avanços nos anos 30, nos quais se verificam os processos do que se definiu como identidade regional. Diferenças regionais necessárias para melhor amparar, ou para lutar contra, o projeto nacional, caracterizado por lutas políticas no contexto da incipiente urbanização e industrialização, que partem dos polos da oligarquia cafeeira e da decadente oligarquia açucareira e a consequente burguesia industrial. Fatores que colocaram em foco os cronistas, políticos e artistas num movimento aparente conciliador de pensar o Brasil.

No entanto, as ações se articulavam para delimitar limites, demarcar forças e os devidos papéis políticos e econômicos de um país que iniciava a tentativa de deixar para trás a antiga e combatida estrutura rural. É nesse contexto que surgem os maniqueísmos e dicotomias regionais, tais como rural versus urbano ou arcaico versus modernidade.

A demarcação absoluta ou mais estabelecida, contudo, não ocorreu em um curto intervalo de tempo. Sua instituição foi resultado de articulações discursivas operadas nos campos da política, do pensamento social, das literaturas e das crônicas. São discursos que surgiram e foram se consolidando por meio de uma multiplicidade além do verbal. São trilhas musicais, páginas de romances, que permitem a construção de um imaginário coletivo que é operado e (re)operado ao longo das décadas e que resultaram, segundo o autor, na “Invenção do Nordeste”. Resultado que tem suas bases nas relações de produção e político-sociais.

Conjunto de elementos que fixaram, para o Nordeste, um sentido de pobreza e sofrimento, porém e, por outro lado, caracterizado pela epígrafe do escritor Euclides da Cunha, quando dizia que o “sertanejo é antes de tudo um forte”, na obra “Os Sertões”, publicada em 1902, que foi uma espécie de prefixo de todo o pensamento que se formaria no decorrer dos anos. Uma qualidade que parecia sugerir uma compensação a toda marca que se estigmatizou ao nordestino. Estigma ora mantido por tradições e posicionamentos quase

pueris, conservadores; ora ganhando corpo por meio da denúncia ou “denunciação” política contra as causas da miséria e de “esquecimento” social pelas oligarquias.

As “realidades” sobre o Nordeste brasileiro gravitam em torno desse conjunto de forças e discursos, interditos, imagens e trilhas, que demonstram uma descrição dos problemas da região nordeste ligados a dramas como o trabalho e a prostituição infantil, as carências sanitárias e a falta d'água em comunidades carentes. Realidade de complexos sociais, políticos e econômicos, bem como midiáticos que se precisa, para além desta pesquisa, considerar; e, para fins deste estudo de caso, também se faz necessário a consideração histórica de todo este cenário, a fim de atender à problematização, já exposta, e identificar a repetição ou (re)invenção dessas descrições em “Profissão Repórter”.