Para MacIntyre o conceito de tradição está relacionado ao último estágio de sua concepção acerca das virtudes. A importância da tradição se deve pelo fato de que as práticas sociais e as unidades de vida serem exercidas e contadas no interior de uma tradição. Da mesma forma, a noção de felicidade e de bem comum, só serão compreendidas no interior de uma tradição. Para MacIntyre, o ato de educar alguém para as virtudes já implica um vínculo com uma tradição, visto que todo o processo educativo acontece a partir de uma tradição.
Sou filho ou filha de alguém, primo ou tio de alguém, sou um cidadão desta ou daquela cidade, membro desta ou daquela associação ou profissão; pertenço a tal clã, tal tribo, tal nação. Por conseguinte, o que é bom para mim tem que ser o bem para quem vivencia estes papéis. (MACINTYRE, 2001a, p. 370).
Por isso mesmo, a tradição deve ultrapassar as fronteiras das histórias do passado, não somente almejando o futuro, mas também oferecendo maneiras diferentes para a compreensão do presente no qual o sujeito está inserido, praticando suas ações. Dessa forma, compreender a tradição é uma ferramenta muito importante para se chegar à compreensão de concepção de virtude em MacIntyre.
As virtudes vão ter o papel de fazer com que essa busca individual pela realização do bem último do ser humano não se corrompa, garantindo a sustentação da tradição da qual partimos, bem como fazer com que essa busca não perca sua dimensão histórica. Pois, o que é esse bem último, esse telos que fornece o horizonte de ação das tradições morais, é o objeto central de debate interno e externo da tradição, um debate histórico constitutivo de toda tradição moral viva, no confronto com a diversidade das tradições rivais que se oferecem na sua existência histórica. (CARVALHO, 2011, p. 196).
MacIntyre, nas obras Depois da virtude, Justiça de Quem? Qual racionalidade? e Três
Versiones Rivales de la Ética, deu um grande destaque às tradições como sendo condição
primordial para uma filosofia moral, e um itinerário para uma educação para as virtudes na sociedade contemporânea. Uma tradição pode ser compreendida como a história das práticas, valores e padrões que foram estendidos por um longo período passando por gerações, reformuladas muitas vezes, transformadas ou esquecidas ao longo das sucessivas gerações.
Uma tradição é uma argumentação, desenvolvida ao longo do tempo, na qual certos acordos fundamentais são definidos e redefinidos em termos de dois tipos de conflito: conflitos com os críticos e inimigos externos à tradição que rejeitam todos ou pelo menos partes essenciais dos acordos fundamentais, e os debates internos, interpretativos, através dos quais o significado e a razão dos acordos fundamentais são expressos e através de cujo progresso uma tradição é constituída. (MACINTYRE, 2010, p. 23).
O que define uma tradição é, na verdade, os bens que a constituem:
Uma tradição viva é, então, uma argumentação que se estende na história e é socialmente incorporada, e é uma argumentação, em parte, exatamente sobre os bens que constituem tal tradição. Dentro da tradição, a procura dos bens atravessa gerações. Portanto, a procura individual do próprio bem é, em geral e caracteristicamente, realizada dentro de um contexto definido pelas tradições das quais a vida do indivíduo faz parte, e isso é verdadeiro com relação aos bens internos, às práticas e também aos bens de uma única vida. (MACINTYRE, 2001a, p. 373-374).
Se a tradição pode ser compreendida dessa forma, como saberíamos se um grupo de pessoas ou uma maioria teria bens que não correspondem a essa tradição? Enfim, o que leva essas tradições a se transformarem e perdurarem ou a se desintegrarem? A resposta para essas perguntas depende da análise das virtudes praticadas numa comunidade; depende do exercício condizente dessas virtudes com os valores difundidos no interior de uma tradição.
As virtudes encontram sentido e finalidade não só no sustento dos relacionamentos necessários para que se alcance a variedade de bens internos às práticas, e não só no sustento de uma forma de uma vida individual em que cada indivíduo pode procurar seu próprio bem como o bem de sua vida inteira, mas também no sustento das tradições que proporcionam tanto às práticas quanto às vidas o seu necessário contexto histórico. (MACINTYRE, 2001a, p. 374).
Com isso, entendemos que as práticas e as virtudes se relacionam com a tradição, pois, segundo MacIntyre, não se trata de fechar-se obstinadamente a quaisquer mudanças ou ao novo que surge em cada época, mas de conservar uma visão que possa considerar as possibilidades futuras frente a um presente que se está sendo vivido, graças à boa vivência da tradição no passado.
A história de uma prática na nossa época está em geral e caracteristicamente, inserida na história mais longa e ampla da tradição, e por meio da qual a prática se torna inteligível e chega assim, à forma atual que nos foi transmitida; a história da vida de cada um de nós está inserida, geral e caracteristicamente, e se torna inteligível, nos termos das tradições das histórias mais amplas e mais longas de inúmeras tradições. (MACINTYRE, 2001a, p. 374).
Portanto, é numa tradição que entramos em contato com a nossa história, a história da nossa família e das pessoas que vivem ao nosso redor, mas também a história das práticas e ações que são exercidas por nós. Assim, entrar em contato com uma tradição é buscar um telos que só se torna inteligível quando estamos inseridos em algum tipo de tradição. O conceito de tradição, apresentado por MacIntyre, reflete uma compreensão de saber prático que tem como fim a capacidade de guiar a própria vida à luz de um objetivo aprendido no interior da família,
da escola, ou da comunidade. Essa compreensão de bem deve ser transmitida ao sujeito desde a infância, para que possa identificar o telos de sua comunidade, que acontece concomitantemente com a educação e seu reflexo no paradigma da história da tradição de sua comunidade. Dessa forma, a tradição compreende muito mais do que as práticas e histórias de cada um dos membros. As tradições se destacam porque não se limitaram, apenas, aos debates, ou aos questionamentos de seus paradigmas, mas sobretudo, porque foram capazes de olhar para além delas, ou seja, puderam formular discussões com outras tradições, de forma a serem capazes de refutar suas próprias crenças diante de outras perspectivas.
A sobrevivência de uma tradição está interligada com a manutenção das crenças e com as práticas compartilhadas e, servem para identificar objetivos comuns, realizando e reconhecendo os progressos para alcançar esses fins. A natureza comunitária da busca do bem, por sua vez, implica uma história que se estende para além da vida do indivíduo, independentemente da aceitação ou não, dessa história. Uma tradição é sempre dinâmica, nunca estática, nem mesmo claramente definida. Conclui-se, que uma tradição histórica e social, constitui a informação necessária para o desenvolvimento das práticas, dos bens internos e externos, da história de nossa vida e para a compreensão das ações humanas.
Uma tradição de pesquisa é muito mais do que um movimento coerente de pensamento. Ela é um movimento, ao longo do qual, seus adeptos tornam-se conscientes dele e de sua direção e, de modo autoconsciente, tentam participar de seus debates e dar prosseguimento às suas pesquisas. As relações entre os indivíduos e uma tradição são muito diversificadas, indo de uma adesão não-problemática, passando por tentativas de corrigir ou redirecionar a tradição, à oposição ampla às suas alegações fundamentais até então. (MACINTYRE, 2010, p. 351).
Segundo a concepção de MacIntyre (1999), as três tradições que tiveram, ao longo da história, um papel importante na pesquisa moral, foram: a tradição aristotélica, a tradição medieval ou agostiniana, e o iluminismo, conforme já tratamos.