A partir da interpretação aristotélica, da sua visão a respeito das tradições, MacIntyre busca interpretar a vida humana como um todo, como uma unidade que se revela no telos. Ao indicar um fim para a vida humana, MacIntyre enfrenta um problema ao tentar definir a vida humana como um critério que ultrapassa a mera visão dicotômica e enviesada diante da pluralidade de opções frente a uma escolha moral. Mas, a opção feita será por analisar a vida em perspectiva narrativa, como um momento fundamental para a busca do bem comum na vida do sujeito contemporâneo, mediante os exercícios das práticas. Para que isso possa acontecer, será preciso decidir qual o parâmetro que servirá de base para as melhores escolhas para alcançar a excelência dos bens internos. A partir dessa definição pode-se identificar o conceito fundamental da narrativa de vida do sujeito.
Essa concepção fornece o telos para o agir individual e coletivo no interior das comunidades, ordenando as diferentes práticas, proporcionando o eixo para a narrativa histórica própria de cada um de nós e que dá unidade a nossas vidas. E essa perspectiva da unidade da vida humana tomada no seu todo significa estabelecer um papel para as virtudes como aquelas disposições de caráter necessárias para essa busca do bem humano tornar-se realizável no enfrentamento das dificuldades, contradições, problemas, seduções e desvios que se apresentam na vida histórica de homens e mulheres. (CARVALHO, 2011, p. 196).
Os bens de cada atividade humana, compreendidos a partir de uma história geral, refletem a história pessoal de cada sujeito. Para MacIntyre (2001a) as nossas práticas fazem com que tenhamos que assumir posturas diferentes em cada situação, levando-nos ao exercício de diferentes papéis, nos vários campos, como o social, profissional, pessoal e familiar. Segundo MacIntyre, o eu deve ser pensado enquanto uma história narrativa, considerando todos os aspectos que compõem essa história, como os seus personagens, os cenários sociais e, principalmente, o próprio autor-personagem dessa história. Quando há uma narrativa de vida, todas as ações se tornam inteligíveis porque puderam encontrar, em algum momento do passado, o sentido para que fossem exercidas. Em outras palavras, toda ação realizada por mim no presente tem uma proposta que só pode ser compreendida quando a associo a uma intenção maior.
Ser o sujeito de uma narrativa que vai do nascimento até a morte é, comentei anteriormente, ser responsável pelos atos e experiências que compõem uma vida narrável. Isto é, estar aberto para ser chamado a fornecer certo tipo de explicação do que fez ou o que lhe aconteceu, ou o que testemunhou em algum momento da vida de alguém anterior ao momento da pergunta. (MACINTYRE, 2001a, p. 365-366).
Assim, para que uma ação seja inteligível, segundo o referido autor, é necessário que, além de fazer parte de uma narrativa de vida, também possamos identificá-la a partir de um contexto histórico-social. Dessa forma, para que uma ação possa ser considerada inteligível é necessário, localizar seu referido lugar no cenário social, sobretudo, numa narrativa. A coerência desses atos decorre da capacidade de conectá-los nesse cenário e as intenções de longo prazo que podem ir sendo identificadas quando se remonta a uma narrativa. Com isso, pode-se conferir inteligibilidade às ideias de ação e de narrativa. Para que as ações humanas se constituam numa unidade de vida é preciso que sejam inteligíveis, mas isso somente ocorre se esta ação estiver associada a algum momento da história. Por isso, a história terá um papel tão fundamental quanto o das próprias ações, já que uma implica no sentido da outra.
O desafio que confere inteligibilidade a uma ação, nos permite identificar os fatos que a compõem numa determinada sequência como acontece em uma narrativa. A unidade de uma
virtude na vida de determinado sujeito, só é inteligível como característica de uma vida unitária, uma vida que se possa conceber e ser avaliada na íntegra.
O que está em jogo nesse conceito macintyriano de virtude é um conceito do eu pensado de um modo narrativo, isto é, um eu que não se reduz a episódios fragmentados e isolados na ordem temporal, cuja unidade é a unidade de uma narrativa que liga nascimento e morte. (CARVALHO, 1999, p. 117).
As narrativas de vida podem ser compreendidas como uma história pessoal, contada e interpretada pelo seu próprio autor. Posso ser responsável pela minha história construída, porque está conectada e, atrelada a outras histórias pessoais, que foram desenvolvidas por outros autores. Assim as narrativas existem, acontecem, mediante a conexão de vida e sentido que damos a elas. Sãos essas histórias e narrativas, que permitem com que possamos identificar os diferentes papéis sociais e os padrões de comportamento e de práticas que foram erigidas até o atual momento histórico. Assim, nesse contexto específico, onde as histórias pessoais são imbricadas, poderemos reconhecer os diversos contornos culturais, em que nossas práticas e ações são aprovadas e/ou reprovadas, enfim, onde elas acontecem.
O referido contexto cultural, sempre em constante mudança, nos permite reconhecer as tradições, as práticas e a cultura na qual estamos inseridos. Para MacIntyre, uma educação se faz por meio de histórias e narrativas transmitidas de geração em geração, sucessivamente.
Não há como oferecer entendimento de sociedade nenhuma, inclusive da nossa, a não ser por intermédio do estoque de histórias que constituem seus primeiros recursos dramáticos. A mitologia, em seu sentido original, está no âmago de tudo. Vico estava certo e Joyce também. E também, é claro, a tradição moral das sociedades heroicas para seus herdeiros medievais, segundo os quais contar histórias tem papel fundamental na nossa educação para as virtudes. (MACINTYRE, 2001a, p. 364).
Quando a história da humanidade passa ser narrada de geração em geração, são reafirmados valores e padrões que foram reformulados ou se identificam numa tradição que abarca esse sujeito, sua narrativa e suas ações. Assim, segundo MacIntyre (2001a), grande parte dessas atitudes não reflete os valores que o sujeito adquiriu durante toda sua vida pela tradição na qual foi acolhido. O sujeito assume responsabilidades, quando está inserido numa história de narrativas de vidas, mas também passa a habitar o personagem de uma história que vem sendo formulada desde o seu nascimento até sua morte. Como faz parte de uma história, de uma narrativa, suas atitudes também serão fundamentadas e justificadas de acordo com o grau de responsabilidade do mesmo.
Para MacIntyre “[...] a identidade pessoal é exatamente aquela identidade pressuposta pela unidade do personagem que a unidade da narrativa requer. Sem tal unidade, não haveria protagonistas sobre os quais se pudesse contar histórias”. (MACINTYRE, 2001a, p. 366).
Assim, pode-se argumentar que a identidade pessoal de um sujeito é constituída não somente na narrativa na qual ele é autor e personagem de sua própria história, mas também quando ele se percebe responsável de suas ações e as devidas consequências para a vida das outras pessoas com as quais ele se relaciona. Sem essa responsabilidade, o sujeito não seria capaz de conferir inteligibilidade às suas ações, e, não seria capaz de forjar sua própria identidade pessoal.
A narrativa e a identidade pessoal são constituídas por uma unidade de vida fundamentada, na prática e na teoria, numa narrativa que busca encontrar a melhor maneira de se viver bem. Esse tipo de busca é que proporciona o caráter de unidade à vida moral. Mas se a unidade de vida é uma unidade de busca, parte-se inicialmente de uma concepção a priori de bem último. Segundo MacIntyre (2001a), toda busca se faz a partir de um caráter teleológico.
Não existe presente que não seja instruído pela imagem de algum futuro, e uma imagem do futuro que sempre se apresenta na forma de um telos – ou de uma série de fins ou metas em cuja direção estamos sempre nos movendo ou deixando de nos mover. (MACINTYRE, 2001a, p. 362).
Assim, quando se está buscando alguma concepção de bem, tal sujeito, para além de ir em busca de um bem maior, está realizando uma classificação de outros bens e estabelecendo um julgamento do conteúdo das virtudes em vista de cada um desses bens. A necessidade de paradigmas se faz necessária porque é preciso partir de uma visão particular para elaborar os conceitos universais, e não o contrário. Por isso, as leis universais são formuladas, levando-se em conta as particularidades de cada sujeito e suas referidas comunidades.
A razão de uma busca, de um bem maior, entendida como um empreendimento na direção de uma melhor forma de se viver permite que reconheçamos o tipo de vida, de bens e virtudes que poderemos adotar para atingir as mesmas. Pode-se reconhecer, nessas buscas, visando o encontro de uma concepção de vida boa para o ser humano, a segunda função das virtudes em relação à vida humana:
As virtudes, portanto, devem ser compreendidas como as disposições que, além de nos sustentar e capacitar para alcançar os bens internos às práticas, também nos sustentam no tipo de busca pelo bem, capacitando-nos a superar os males, os riscos, as tentações e as tensões com que nos deparamos, e que nos fornecerão um autoconhecimento cada vez maior. (MACINTYRE, 2001a, p. 369).
Assim, conclui-se que um sujeito que tenha por meta alcançar uma vida boa deverá levar uma vida virtuosa. As virtudes estão situadas na instigante busca em relação à vida boa para o ser humano, e não somente em relação às práticas de uma referida comunidade.
Por outro lado, para MacIntyre (2001a), se admitirmos que a vida de um sujeito é representada pelos papéis sociais que estão relacionados a uma comunidade, ao grupo de trabalho, de amigos e da família da qual ele faça parte, então sua busca não é algo tão somente individual, mas está relacionada a esses cenários sociais. Assim, sua busca deverá ser empenhada em vista de outras pessoas e do papel social que possui em cada uma dessas esferas. A esfera social e a identidade do sujeito não podem ser pensadas fora de todas as obrigações e da história, seja esta de vida pessoal, familiar e comunitária. Se minha própria constituição deve-se à minha história, então, minha busca deverá contemplar todos os pressupostos anteriores ao meu nascimento, que influenciaram na construção de minha identidade moral e, até mesmo, na busca pelo maior e melhor bem para mim e para a comunidade na qual me situo. De acordo com este argumento, para MacIntyre (2001a) é muito importante perceber que, enquanto sendo sujeitos da nossa própria história, descobrimos que não somos seres apenas individuais, mas que herdamos um passado e estamos construindo um presente, pura e simplesmente, significa: o rumo da nossa vida está relacionado para além do si mesmo, como autor e personagem, em profunda conexão à história e vida de outras pessoas. Para MacIntyre (2001a), decidir por uma concepção de vida particular como um nível para alcançar a educação pelas virtudes significa deixar-se orientar por suas próprias ações. Dessa forma, compreender como a sua vida tem sido conduzida poderia ser o primeiro exercício de consciência diante de suas escolhas e maneira própria de agir. “A busca é sempre uma educação quanto ao caráter do que se procura e de autoconhecimento”. (MACINTYRE, 2001a, p. 368).
Quando um sujeito se questiona para qual bem está direcionando sua vida e suas escolhas, poderá também fazê-lo em vista ao bem desejado por sua comunidade. Nessa busca pelo melhor bem que se adequa para o ser humano se apresenta mais um estágio da concepção de virtude segundo MacIntyre (2001a), que se encerra no terceiro nível, denominado tradição. Se nossas práticas fazem parte da história, constituímos nossa identidade a partir do nosso passado. Por isso devemos entender que tanto uma prática, quanto nossa própria identidade, estão situadas em uma tradição que contempla a história de todas as demais práticas e as diferentes narrativas de vida.